Capítulo XV

Como o esperado, Jamie se casou; foi um casamento simples, ou pelo menos foi o que Isabella ouviu falar dos lábios frios de Marsha enquanto ela arrumava seu cabelo em uma certa manhã. Isabella não pode comparecer, mas enviou um par de brincos como presente.

Não demorou muito para que outra empregada entrasse no lugar de Jamie, Hasmoni Letti mais especificamente, uma garota de cabelos preto azulado e uma expressão sorumbática. Diferente das outras com quem Isabella fora companheira esta nunca poderia ser sua amiga, afinal ela era tecnicamente a chefe de Hasmoni; uma garota esperta de fato, mas muito rígida, não responderia se não lhe fosse perguntado e nunca demonstrava sua opinião própria ou sentimentos, se assemelhava a Caim em alguns aspectos embora sua expressão não fosse tão estoica.

De um jeito ou de outro a vida prosseguia seu fluxo natural, e Isabella se assemelhava cada dia mais ao que uma verdadeira alteza deveria ser, desde sua forma de andar, falar, agir até seus conhecimentos e formas de pensar. Ela entendia que aquilo que ela se tornava não era sua representação verdadeira, entretanto era como precisaria agir de agora em diante.

- Acho que já está na hora de você prestar uma visita aos soldados – sugeriu Kevona Macaff, a professora de etiqueta de Isabella, durante uma de suas aulas.

- Pensei que eu não tivesse permissão para sair da ala sul – contestou colocando a xícara adornada por flores rosas sobre o pires.

- É verdade – concordou com seu sorriso atrevido enquanto seus cabelos negros escorriam por seus ombros.

Kevona tinha uma marca registrada no mundo da alta sociedade, seu nome era acompanhado de elegância e reverencia, mas seus olhos e seu sorriso eram uma prova da personalidade irreverente que a seguia como uma sombra.

'Ganhar seu respeito, talvez, dobrá-la ou amaciá-la, jamais', era o que diziam sobre Macaff entre os círculos de fofoca. Ela vinha de uma família de ricos comerciantes, e apesar de não possuir título nobre, não havia quem ousasse subestimá-la.

- Então, o que quer dizer com isso? – indagou Isabella entrelaçando suas mãos.

- O motivo de você não poder sair da ala sul enquanto seu treinamento não for concluído é para evitar que os nobres a chamem de inadequada ou incapacitada e tirem-na do seu posto. Para exemplificar, se uma garota nobre comete um erro na alta sociedade, bem, é só isso, mas se uma garota como Vossa Alteza, que vem de um lugar completamente desconhecido, sem apoio e sem moral, comete um erro, isso é um absurdo, um banquete para hienas. A única razão que o Imperador possuí para te manter presa nesse lugar é te proteger disso.

- Ainda não entendi aonde quer chegar.

Kevona sorriu, servindo um pouco mais de chá, tanto para si quanto para Isabella. Esta foi uma das primeiras coisas que a jovem de olhos azuis aprendeu – ela jamais deveria servir a si própria, a não ser que estivesse completamente sozinha. Não só isso, como ela deveria ser a primeira a ser servida conforme a hierarquia determinava.

- O que eu quero dizer é que vosmecê não precisará se preocupar muito com seus modos ou conhecimentos quando for visitar o campo de treinamento. – Isabella arqueou as sobrancelhas, mostrando curiosidade. – A hierarquia de um exército é determinada ,não pelo status social, mas pelas capacidades de seus soldados. Significa que os soldados não se importam muito com suas origens ou que Vossa Alteza cometa erros aqui e ali. Só não os subestime, afinal eles ainda são um dos seis pilares que compõe o império de Licrya, ganhar o favor deles será imprescindível para que você possa se manter em sua posição.

Isabella já tinha conhecimento dos 'seis pilares de Licrya', como eram chamados os seis poderes que mantinham o império em equilíbrio, eles eram a torre dos magos, o conselho, o povo, o exército, os nobres e a família imperial, todos eles com sua própria quota de poderes, direitos e deveres. Ela também compreendia que o desfavorecimento deles acabaria colocando sua posição em risco. No momento, o que a segurava no lugar era o favor do Imperador e a indiferença do exército, da torre e do conselho. O povo mostrava certo receio sob a influência dos nobres que vinham demonstrando uma inabalável oposição.

- Eu entendi onde você quer chegar, senhorita Kevona – disse a jovem levando o copo de chá aos lábios onde um sorriso brincalhão pairava em sua face como um lotus sobre a água -, mas é muito infantil de sua parte acreditar que uma visita ou duas poderia ganhar o favor de um exército inteiro.

- Ainda assim, pode mostrar que Vossa Alteza não é indiferente – rebateu.

- Talvez – Isabella contemplou Macaff por alguns poucos instantes e então acrescentou –, ou talvez isso posso ter o efeito oposto. Talvez eles pensem 'o que essa garota está fazendo aqui,' e me desprezem.

- Mas não custa tentar, não é?

A jovem de cabelos loiros tamborilou os dedos na mesa pensativa. – Seguirei seu conselho, Kevona. Vamos ver o que sairá disso.

***

Isabella sentou-se de frente à sua penteadeira enquanto Dutcha arrumava seus cabelos em um penteado parcialmente preso. Enquanto se contemplava no espelho percebia que sua aparência já não era mais a mesma de alguns meses atrás, agora suas faces eram mais rosadas, sua pele mais macia e seus olhos possuíam um fulgor de certa alegria, algo que ela pensou ter perdido quando chegou a esse mundo.

- Se possível, eu gostaria de vestir roupas propicias para longas caminhadas – pediu calidamente.

- Vai em algum lugar, Vossa Alteza?

- Vou fazer uma visita ao soldados no campo de treinamento.

Dutcha piscou os olhos confusa – pensei que Vossa Alteza não tivesse permissão para sair da ala sul.

- Não é uma visita oficial e eu já ganhei permissão de Sua Majestade.

Embora Alexandre tenha dito que Isabella deveria chamá-lo pelo nome ao invés de Sua Majestade, e que ela de fato tenha aderido essa nova prática com certa facilidade, não se demorou muito para que a condessa Rowa a repreendesse por isso:

- Vossa Alteza, você chama o Imperador pelo nome? – inquiriu enquanto arqueava os sobrolhos.

Isabella que estava de bruços sobre um livro levantou os olhos e fitou a professora sob suas pestanas douradas.

- Sim, algum problema?

Um suspirou escapou dos lábios murchos de Rowa ao mesmo tempo que comtemplava Isabella com receio.

- O que vou lhe dizer agora, espero que Vossa Alteza possa levar como um conselho e não uma repreensão – a senhora pôs seu dedo macilento em riste e disse baixinho para que ninguém além das duas pudesse ouvir, apesar de estarem completamente sozinhas na biblioteca – como você se refere a Sua Majestade no privado é escolha sua, no entanto você não pode fazer isso na presença dos outros, é um desafio a autoridade dele. O mesmo é válido para você, para a senhorita na verdade é ainda mais crucial que o Imperador se refira a vosmecê por seu título. Você já não tem poder ou casa nobre, imagina se o Imperador ficar lhe chamando de Isabella pelos cantos. As pessoas te verão como uma palhaça.

Isabella acabou por seguir o conselho de Rowa, passando a chamar Sua Majestade pelo nome somente quando os dois estivesses sozinhos e terminou obrigando-o a fazer o mesmo. Quem não gostou muito dessa nova regra foi Alexandre, que ficou mal-humorado por três dias.

"Estou fazendo isso por nós dois" dizia Isabella toda a vez que o Imperador a olhava com ressentimento.

Dutcha tirou um vestido marrom de mangas cumpridas e colarinho alto do guarda-roupa de Isabella e a ajudou vesti-lo. Era quente, mas não desconfortável. Além disso, a empregada robusta ajudou a garota de cabelos dourados a colocar suas botas pretas de cano alto.

Isabella se admirou no espelho por alguns poucos segundos e então virou-se para obter a opinião de Dutcha:

- Você está perfeita, Vossa Alteza – elogiou com seus olhos negros relumbrando como obsidianas.

***

O som das botas chocando-se contra o chão retumbava por todo o campo capinado, o soar dos guerreiros bufando era uma prova de seu trabalho árduo e insistência. Lyan observava os soldados nas extremidades do campo com os braços cruzados. Sua figura era imponente enquanto uma espada quase tão grande quanto seu próprio corpo prendia-se em suas costas como se fosse de isopor.

- Não se acovarde agora, Merthus – gritou para um dos soldados cuja respiração tornara-se irregular.

- Sim, senhora!

Ao longe, um pontinho negro começou a se aproximar em velocidade uniforme. Nem rápido, nem devagar. Lyan esperou calmamente até que este pontinho se transformasse em algo mais parecido com um ser humano e se projetasse ao seu lado com feições austeras.

- Eu te trago uma mensagem real, general – informou o emissário com lampejo de respeito e admiração em seus olhos.

- O que é?

- Sua Alteza Isabella prestara uma visita não oficial ao campo de treinamento.

Lyan olhou o mensageiro de esguelha. – Em quantos dias?

- Em meia hora, general.

Os olhos da guerreira se arregalaram ao entretempo em que ela se virava bruscamente para encarar o emissário:

- Isso é muito repentino, não dá tempo de nos prepararmos. Você tem certeza disso?

- General, essa não é uma visita oficial então não existe real necessidade de avisá-la que Sua Alteza prestará uma visita, está informação foi o uma mera cortesia de Sua Alteza – retorquiu seriamente.

De repente o clima tornou-se negro e os olhos da general tornaram-se tão frios quanto gelo.

- Você está tentando comprar uma briga comigo?

O mensageiro estremeceu e balançou a cabeça freneticamente informando que não era o caso.

- Eu só estou fazendo meu trabalho – murmurou com sua voz entrecortada.

Lyan estalou a língua enquanto se retirava rapidamente dali e deixava o emissário sozinho soltando uma lufada de ar fria como quem acabara de escapar de uma tempestade.

***

Era outono, as árvores se projetavam do chão como um incêndio laranja e vermelho, brilhando descomedidamente ao passo que se desprendiam de suas folhas em um contraste distinto ainda que pujante com o céu cinzento.

Um vento gélido passou pelas fissuras das árvores, tripudiando em volta de Isabella que se encolheu e cerrou os dentes. Estava frio, tão frio quanto o inverno de São Paulo, talvez mais, não, provavelmente mais. Suas pernas bambas não pareciam querer obedecer a suas ordens e continuavam a sair da trilha sinuosa.

"Se acalme, quando eu terminar aqui, uma lareira bem quentinha estará me esperando" consolou-se enquanto lembrava do aconchego de seus aposentos.

Como de praxe, Isabella era acompanhada por Abel que a seguia sem se incomodar com álgido.

- Você é bem fraca contra o frio, não é, Vossa Alteza? – indagava toda vez que ela fremia ou espirrava. – E olha que nem chegou o inverno.

A caminhada da ala sul ao campo de treinamento demorava em torno de meia hora, Isabella fez esses mesmo percurso em cinquenta e dois minutos em vista das distrações que a acometeram no meio do caminho tais como ameixeiras, sálvias e gérberas, e cogumelos vermelhos com bolinhas brancas que se estendiam da base de algumas árvores.

"Isso é tão legal, queria poder tirar uma foto para mostrar para o Alexandre" ruminava de tempos em tempos.

O campo de treinamento não era mais do que um enorme espaço aberto desprovido de plantas com alguns poucos edifícios em volta onde os soldados, bem, treinavam. Isabella podia ver sobre os muros baixos guerreiros correndo, fazendo flexões, treinando com suas espadas e arcos, e lutando entre si com louvável fervor.

Ela se dirigiu à entrada do espaço deparando-se com um soldado que guardava os portões com uma expressão um bocado séria.

- Bom dia, eu vim fazer uma visita – informou esforçando-se para não parecer subserviente.

Seu tom servil era algo que Kevona e Rowa vinham repreendendo com iterada consistência.

"Vossa Alteza, você precisa estar ciente da própria posição" repetiam veementemente.

"Eu não consigo ter esse mesmo tom autoritária que Sua Majestade" retorquia fazendo beicinho.

"Então pelo menos não seja servil" insistiam.

O guarda encarou Isabella como quem queria atravessá-la. Era um homem alto e troncudo, tão grande que fez a jovem se sentir como uma criança. Por muito pouco sua atitude intimidadora não fez com que ela dissesse parece que vocês estão ocupados, eu volto outra hora.

Contra todos os seus temores o guarda apenas se curvou e cumprimentou-a – que a graça esteja com a Vossa Alteza – assim como se devia.

De repente uma risada alta irrompeu da garganta de Abel. – Diajan, não seja tão tenso ou você vai assustar a Sua Alteza – aconselhou dando tapinhas em seu ombro.

Diajan estreitou os olhos, ele não parecia uma pessoa que gostasse de brincar. – Eu vou chamar a general para vocês.

Um obrigado baixinho saiu dos lábios da garota enquanto o guarda se afastava para dentro de um dos edifícios no campo.

- Ei Diajan, não seja tão frio comigo ou vou ficar magoado – exclamou Abel apenas para ser ignorado.

Não se demorou muito e ele voltou trazendo consigo uma mulher de um pouco mais de um e oitenta no auge de seus vinte e tantos anos. Ao se aproximar, era possível ver mais claramente seus traços - seus zigomas saltados, seus olhos cinzentos e seu cabelo castanho claro meio arruivado preso firmemente em um rabo de cavalo.

- Que a graça esteja com a Vossa Alteza – cumprimentou e então deu um sorriso que cobriu quase metade de seu rosto. – Eu sou a general de divisão Lyan, é um prazer finalmente te conhecer.

Isabella conhecia Lyan, não pessoalmente, claro, mas através dos ensinamentos da Condessa Rowa: ela era um dos seis generais de divisão e acima dela estavam apenas o general de exército Goliak e o Imperador. Não só isso como Lyan era também a pessoa mais provável para assumir o posto de general de exército após a aposentadoria de Goliak.

- É um prazer finalmente ser capaz de conhecer você general. Eu ouvi falar de seus muitos feitos durante as guerras e batalhas.

Lyan sorriu e então esfregou as costas de seu pescoço embaraçada – não é nada que precise ser mencionado – disse meio sussurrando.

Durante o resto do dia a general mostrou todo o espaço do campo, este aqui são os alojamentos, aqui é onde guardamos as armas, nós temos pequenas lutas amistosas aqui neste ring... A presença de Isabella não causou nenhuma comoção inesperada. Era um pouco obvia a curiosidade dos soldados quando eles olhavam em sua direção e murmuravam, no entanto o fato deles não terem se distraído de seus deveres mostrava bem o quão bem disciplinados eram.

No final do dia, no caminho de volta para casa, Isabella se pegou refletindo se essa viajem tinha sido útil de alguma forma.

"Não acho que eu tenha feito nada de errado, também não acho que tenha deixado algum tipo de forte impressão... mas eu estou cansada".

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