Capítulo XIII

Naquele entardecer de domingo, Isabella deitou-se a sombra de uma árvore frondosa enquanto observava o céu por entre os feixes das folhas mostrando-se despido em embaraço.

Abel velava a alguns metros de distâncias, em prontidão para avisar-lhe caso alguém se aproximasse.

Haviam se passado duas semanas desde que a jovem de olhos azuis se converteu na noiva do Imperador Vermelho. Ela já começava a se habituar ao seu novo estilo de vida; estudar, ler, dançar, tomar chá com Kevona aos fins de tarde, estudar de novo, ler um pouco mais, desabar entre seus edredons e recomeçar.

O futuro parecia prostrar-se diante de si, com olhos baixos e maliciosos, medindo-a enquanto um sorriso desdenhoso crescia em sua face.

Ainda assim, Isabella tinha de admitir que apesar das dificuldades que suas escolhas aplacavam, ainda valiam a pena em face do seu oásis de todas as manhãs. Sim, conquanto que Sua Alteza pudesse ver Alexandre, suas energias seriam renovadas instantaneamente. Não havia nada que a deleitava mais do que ouvir aquela voz de veludo acariciando suas orelhas feito as tentações de um demônio todos os alvoreceres.

- Eu sou tão barata – murmurou para si mesma sentindo o coração acelerar.

De repente, o barulho de sapatos passeando pela grama banhada em orvalho atingiu as orelhas da garota, ela sentou-se assustada e chamou em uma voz baixa:

- Abel.

- Sim, Vossa Alteza?

- Tem alguém vindo nessa direção? Eu acho que ouvi alguma coisa.

- Não há ninguém. Deve ter sido impressão sua.

- Você precisa me avisar se alguém se aproximar – pediu torcendo levemente o nariz. – Eu nunca me importei com essas coisas antes, mas Kevona disse que não era bom para minha imagem ou coisa do gênero... que chatice.

- Confie em mim, Vossa Alteza. Se alguém aparecer por aqui eu lhe avisarei.

Um suspiro eclodiu dos pulmões de Isabella.

"Estou começando a ficar paranoica" pensou com seus botões.

Ela deixou o corpo afundar na grama ao interim que seus dedos se entrelaçavam com a relva. Seus pés descalços sentiam-se finalmente libertos ao mesmo tempo que uma brisa suave de verão passava por suas solas de seda. Um vestido rosa e ameno grudava docemente em seu corpo, abraçando a tez de Isabella e contornando sua silhueta esguia. O cabelo feito de raios de sol espalhava-se e abria-se em uma flor sublime adornado por um verde fulgurante. Os feixes de luz que escorregavam pelas fissuras dos ramalhos banhavam-na feito um anjo descendente do céu.

Aquilo era estar viva.

Então, os pálpebras da jovem abriram-se languidamente, seus pestanas chamejantes moveram-se num bater de asas de borboleta; um movimento tão natural tal como respirar. As pupilas de Isabella dilataram e depois contrariam focando na imagem à sua presença – duas bolinhas de gude vermelhas encaravam-na sob um teto de folhagem espessa.

"O quê...?" se perguntou atordoada.

Um grito surdo quase escapou da garganta de Isabella quando viu o Imperador Vermelho ligeiramente inclinado para frente, fitando-a com uma expressão indecifrável. Tal abstrusidade era uma benção e uma maldição – uma benção para ele, uma maldição para os outros.

- O que está fazendo aqui? – sondou a jovem com olhos arregalados.

- Eu estava dando uma caminhada – replicou Alexandre franzindo vagamente os sobrolhos. – Não posso?

Isabella crispou seus lábios trêmulos – que tipo de pergunta era aquela? É claro que ele podia. O palácio era dele afinal.

Questões giravam na cabeça da jovem como em um carrossel; ela sentou-se atordoada tentando articular uma frase coerente:

- Abel! – chamou com a face em chamas. – Você disse que me avisaria se alguém se aproximasse.

Depois de alguns segundos de silêncio uma resposta foi desencadeada – bem, eu imaginei que se fosse Sua Majestade, não teria problemas. Eu me enganei?

Traidor. Como aquele guarda podia ser tão injusto? Fazer tal pergunta quando Sua Majestade estava em pé ao seu lado contemplando-a vidrado. Isabella fungou em ressentimento e cerrou os dentes.

Alexandre agachou-se no intento de fazer com que seus olhos ficassem na mesma altura dos da jovem, quase obrigando-a a virar-se para sua direção com uma força libidinosa e magnética. Uma expressão divertida surgiu na face daquele homem; a garota de íris índigo tinha o rosto em ardor, lábios trépidos e olhos insignes. Mesmo não conseguindo entender o porquê do embaraço de Isabella, ele ainda achava aquela situação estranhamente fascinante.

- Ele estava enganado, Isabella? – inquiriu dando um sorriso alheio.

A garota de cabelos dourados olhou para baixo, chiando – não...

O Imperador soltou um riso nasal e abancou-se ao lado de Isabella.

Ela encolheu-se abraçando seus tímidos joelhos e vislumbrou Alexandre de esguelha.

- Você não tem trabalho a fazer? – sondou apoiando o queixo nas pernas.

- Infelizmente para você, não. Estou completamente livre até o fim do dia.

A jovem de olhos azuis pestanejou perplexa: - Infelizmente? Por que infelizmente?

- Porque aparentemente você não conseguirá se livrar de mim hoje. Uma lástima para você, pois não?

Isabella bufou com irritação – E quem disse-lhe que estou tentando me livrar de você?

- Do jeito que você me recebeu quando cheguei aqui, pensei que minha presença fosse indesejada – sibilou maliciosamente. Seus olhos brilhavam com atrocidade.

Era óbvio como descer uma descida, um pleonasmo tão descarado, que Sua Majestade estava apenas a motejar com Isabella. Sem embargo, Sua Alteza não poderia suportar, nem por um milésimo de segundo, a ideia de que talvez ele realmente pensasse aquilo. Oh não! Seria excessivamente trágico. Ela precisava resolver o mal-entendido.

Isabella segurou na manga de Alexandre compelindo-o a olhar em sua direção. As sobrancelhas loiras da jovem estavam franzidas em um perfeito arco e seus olhos eram duros feito diamantes:

- Isso não é verdade! – exclamou impetuosamente. – Eu não tento me livrar de você, na verdade, é muito pelo contrário. Eu estou sempre tentando arrumar maneiras e arquitetando planos para passar mais tempo com você, Alexandre.

O homem mirou-a sem proclamar um único vocábulo. Abel que estava a uma certa distância corou e afastou-se por uma nesga. A aura ao redor tornou-se estranhamente purpúrea, descendo levemente e grudando como suor na pele. Só então, Isabella compreendeu o peso que suas palavras impulsivas carregavam e sentiu vontade de cavar um buraco e se enterrar nele.

- Bom, eu... – a jovem de olhos anil tentou futilmente estruturar uma desculpa, entretanto sua voz desvaneceu fenecida no meio do caminho, agonizando no chão duro e frio.

Qual era o sentido de inventar histórias àquela altura?

- Eu sei – replicou Alexandre de supetão. Duas palavras vindas dele eram mais que suficientes para limpar o ar pútrido e torná-lo brilhante mais uma vez.

Embora aquele homem não tenha dito mais nada, não é como se ele precisasse de qualquer forma. Mesmo com uma expressão tão dura, com um semblante tão fortemente posto atrás das grades, qualquer que fosse a oração ainda seria desnecessária perante seus olhos tão rubros, tão sangrentos, tão ominosos e tão quentes. Pareciam explodir enquanto desnudavam as defesas das pessoas e as oprimiam.

Ambos se encaravam por algum tempo. Se o clima parecia quente antes, agora começava a ferver.

Sua Majestade contemplou Isabella e perguntou a si mesmo o que fazia os olhos da garota brilharem com tamanha adoração quando virados para a sua direção. Ele nunca recebeu esse tipo de olhar antes. Era inusual, singularmente cativante.

O homem de olhos vermelhos estendeu lentamente sua mão com o intento de tocar a face dela. Ele se perguntava o que aconteceria se seus dedos atingissem sua pele – qual seria a sensação de ter suas dermes se tocando? Quão quente seria? Sua tez se dissolveria em creme quando ele a tangesse? Se desmancharia em pétalas de crisântemos? Ou então suas mãos cobertas de sangue a manchariam, tornando sua pele cinza e putrefata?

O Imperador sentia-se intrigado, ele não conseguia entender o que começava a borbulhar dentro de si, nem seus obscuros ímpetos de segurá-la. Em facto, segurar já era um termo bem generoso, seus desejos eram bem mais perversos do que este, mais carnais. Entretanto, Alexandre temia estender sua mão, temia que mesmo o mais débil toque de seus dedos vis e cruentos pudessem manchá-la, profanar sua imagem deífica.

"Que sentimento esquisito" pensou consigo mesmo.

Quando os olhos do homem de cabelos negros voltaram-se novamente para Isabella, ele se deparou com uma jovem de pálpebras cerradas e oscilantes – aguardando-o.

"Você está me tentando demais" refletiu suspirando pesadamente.

Sua palma finalmente achegou-se a bochecha da jovem de olhos azuis, ela estava queimando ao interim que se aconchegava feito um gatuno manhoso. As pálpebras da garota abriram-se delicadamente, mas não completamente, enquanto olhava para Alexandre com seus globos embaçados e faces em fervor. A respiração de Isabella saiu como vapor, parecia estar enfrentando uma febre com seu coração pronto para sair do peito.

Então, a jovem pôs sua mão trêmula e ligeiramente calosa nas costas da mão do Imperador, entrelaçando seus dedos com os dele e impedindo-o de deixar seu rosto. Ela não queria que ele se afastasse dela nem por um segundo.

Mesmo não acreditando em deuses, o Alexandre agradeceu ao céus por Isabella não ter se despedaçado ao seu toque. O infortúnio era que agora aquilo não era suficiente, seus desejos correram ensandecidos ao mesmo instante que o homem de olhos encarnados se imaginava estudando cada ínfimo detalhe dos traços da garota de íris índigo, passando seu dedão pelas sua pálpebras salmões, por sua mandíbula trépida, por sua boca vermelha. Se ele a agarrasse ali mesmo, abraçando-a sem deixar espaço para fuga, ela se assustaria? Se ele então, num ímpeto desvairado, pressionasse seus lábios contra os dela ao ponto de que ambos não pudessem mais respirar, ela se irritaria? Sua Majestade não estava inclinado a arriscar.

- V-Vossa Majestade – chamou uma voz amedrontada, quebrando o torpor em que Isabella e Alexandre se encontravam naquele momento.

Ambos olharam para a direção do som. O homem de olhos vermelhos com feições sombrias e a jovem loira completamente enrubescida. Os dois avistaram Abel parado com o rosto em chamas, dando seu máximo para permanecer profissional.

- O quê? – inquiriu o Imperador soando como um Deus sanguinário e furioso, pronto para transformar a vida de seus inimigos em um inferno excruciante.

O guarda empalideceu, sentindo seu corpo encolher quando o monumento que era Alexandre se ergueu e andou em sua direção com passos largos e ágeis.

O gêmeo engoliu em seco, buscando forças para comunicar-se. – O-o Primeiro Ministro queria falar com você.

- O que é tão importante que ele tem que me incomodar no meu horário de descanso?

O rapaz abriu a boca para explicar, mas sua voz não saia por algum motivo. A intenção assassina do Imperador era aterrorizante demais.

O ar transformou-se em uma coisa espessa e negra, mexendo-se e deformando a coisas a sua volta como se estivesse vivo. Começou a penetrar os poros de Abel, compelindo o suor frio a escorrer por sua testa. Sem saber o que fazer, ele subiu seus olhos encontrando os de Alexandre – péssimo movimento -, os olhos de Sua Majestade brilhavam com selvageria, pronto para pular na jugular de sua presa e degolá-la apenas por diversão. O gêmeo vivenciou o que era ser esmagado pela ira do Imperador Vermelho.

- Eu também não sei dos detalhes – começou a dizer com as mãos levantadas assim que recuperou o dom da fala –, mas parece que tem algum monstro atacando a província de Lincey.

- O general Goliak permanece em Ossah? – sondou franzindo o cenho.

- É o que parece.

- E os seis generais de divisão?

- Ninguém está disponível e pelo que eu ouvi, não faria muita diferença se estivessem...

O Imperador estalou a língua. Então seus olhos voltaram-se para Isabella que o encarava com um misto de tristeza e preocupação.

- Eu preciso ir.

Logo Alexandre desapareceu por entre as árvores e arbustos verdejantes, deixando a garota de olhos azuis para atrás com um ar soturno.

- Vossa Alteza... – Abel estava prestes a dizer alguma coisa, todavia a jovem não estava mais de bom humor para escutar.

- Vamos entrar.

***

A noite caiu, junto com uma chuva pesada e uma ventania espessa; os trovões batiam no escuro produzindo um estrondo fenomenal, brilhando linda e mortalmente como o Imperador de Licrya. O verão era uma época tão ensandecida, não havia uma nuvem sequer naquela tarde e agora a tempestade recusava-se a cessar.

Isabella andava de um lado para outro em seu quarto trajada de sua camisola negra, embebida em aflição, inquieta. Seus ouvidos tentavam evitar o estrépito das gotas de chuva batendo no chão e na barreira protetora do palácio. Evitando qualquer som que não fosse os passos do Imperador.

"Por que ele ainda não chegou?" inquiriu a si mesma entrando em desespero.

Seu olhos voltaram-se em direção ao seus relógio elegante. Vinte uma e onze. Onze. Que número horroroso, um número primo. Isabella sempre odiou números primos

A jovem sentou-se em uma de suas poltronas brancas, pegou o livro de história que Rowa havia recomendado e folheou-o desinteressadamente. Não demorou cinco minutos para ela deixá-lo de lado e voltar a vagar pelo aposento, esgueirando-se até a janela fria e encarando o céu repleto de fumaça escura.

"Quer saber? Eu vou dormir!" pensou com seus botões. "Quando eu acordar ele já vai estar aqui".

Então, Isabella apagou a luz de seus abajures e se deitou em sua cama, embrulhada por um lençol fino.

A mente da jovem começou a vagar, arrastada pelas marés de um oceano tempestuoso, boiando numa pequena tábua parcialmente comida pelos cupins. Então, uma imagem apareceu em sua mente, clara como um prisma. Alexandre estava deitado em uma poça de seu próprio sangue e lama, a água batia em seu corpo frio e cinza. Um cadáver.

Isabella pulou apavorada, suas roupas e cabelo grudavam em seu corpo por conta do suor. Ela abraçou-se enquanto tremia com olhos arregalados e respiração entrecortada. O relógio vagamente iluminado pelos trovões marcava vinte uma horas e trinta e um minutos. Trinta e um, outro maldito número primo.

- Isso não está dando certo – sussurrou para si mesma.

Caso Sua Alteza fechasse seus olhos, sua imaginação correria selvagem.

De repente o som de passos atingiu os ouvidos de Isabella, ela correu apressadamente em direção a porta ao ínterim que sua mente e coração diziam "é ele!". A jovem abriu a entrada como se a arrombasse, encarando a figura solitária que caminhava pelo corredor.

- Ah! Que a graça esteja com a Vossa Alteza – curvou-se o guarda que fazia seu turno noturno. – Vosmecê precisa de alguma coisa?

- Não – respondeu com a voz embargada. – Desculpa atrapalhar seu trabalho.

A garota de cabelos dourados voltou para dentro com seus ombros baixos e cabeça pesada.

O que estava acontecendo com ela? Antigamente a jovem jamais perderia suas noites preocupando-se com Alexandre, agora ela estava quase arrancando o seus cabelos com pensamentos terríveis.

Demorou alguns pesadelos, algumas ilusões e algumas caminhadas desvairadas para que Isabella voltasse a ouvir o som de passos pelo corredor. Como da primeira vez, Sua Alteza correu para fora sem se importar com mais nada, tropeçando em um de seus pufes pelo caminho. Um sopro divino espalhou-se pela ala sul quando a garota avistou Alexandre adentrando em seus quarto.

- Isabella...? – indagou assim que a viu saindo desesperadamente de seu quarto.

Ela suspirou em alívio e apoiou-se na porta assim que o viu completamente bem, sentindo seu corpo tornar-se leve o suficiente para desabar.

- O que aconteceu? – inquiriu olhando-a cuidadosamente. – Eu saio para lutar e é você que parece ter visto um monstro.

O Imperador estava ensopado e algumas partes de suas roupas estavam rasgadas, chamuscados, sujas e até mesmo embebidas de sangue.

- Eu só não estava conseguindo dormir. Estava tendo pesadelos.– Não era exatamente uma mentira. – Ouvi passos no corredor e fiquei assustada. Achei que você já tivesse voltado. – Agora isso era uma mentira descarada.

- Quer que eu peça para alguém trazer alguma coisa quente para você? – indagou com um semblante indecifrável.

- Não precisa – replicou de imediato, então o olhou de cima a baixo. – Mas o que aconteceu com você?

- Nada demais. – Alexandre estava alheio.

- Eu duvido que não tenha sido nada demais – murmurou enquanto colocava a mão no peito. – Me conte, o que estava acontecendo lá? Como era o monstro? Como foi a luta?

- Me deixe tomar um banho primeiro, depois nós conversamos.

Antes que Isabella pudesse dizer mais alguma coisa, Sua Majestade adentrou em seu quarto e fechou porta atrás de si. A jovem pestanejou por alguns segundos, sentindo-se incrédula com tal atitude indiferente, porém, no fim acabou dando de ombros e voltou à sua alcova.

A garota de olhos azuis sentou-se em um dos seus sofás e, enquanto aguardava o retorno de Sua Majestade, começou a ler 'Obscuro' – o livro era realmente interessante apesar de ser forte em alguns aspectos.

Após cerca de meia hora, Isabella conseguiu ouvir ínfimos ruídos do quarto de Alexandre. Ela levantou-se, o chão frio entrou em contato com seus pés descalços deixando-os imediatamente gelados. A garota caminhou nas pontas dos pés até a porta dos aposentos imperiais e bateu na entrada como quem não quer nada.

- Terminou de tomar banho? – questionou.

- Sim.

- Possa entrar?

- A porta está aberta.

Sua Alteza girou a maçaneta dourada entrando naquele enorme quarto de tonalidades vinho, vermelho e preto. Alexandre estava sentado na ponta de sua cama usando uma blusa negra de gola V, deixando parte de seu peito musculoso e cheio de cicatrizes a mostra. O cabelo negro ainda estava levemente molhado e posto para trás ao mesmo tempo que seus olhos de raposa miravam-na intensamente, brilhando em encarnado naquele espaço mal iluminado. Todo o cenário e situação pareciam seduzi-la deliberadamente. A jovem podia sentir a mão da tentação acariciar seu queixo com promessas e ilusões.

Isabella sentiu sua boca salivar, ela teve de segurar as estribeiras para não pular em cima dele naquele exato instante.

- Sente-se – pediu estendendo a mão.

Ela abancou-se em uma poltrona em frente ao Imperador, em um banquinho estofado baixo.

- Desde quando a entrada está aberta? – sondou, olhando todas as coisas em volta.

- Eu destranquei depois de uns dois dias que você chegou.

- E por que não me contou?

- O que você faria com essa informação?

O rosto de Isabella enrubesceu drasticamente. – Por favor, não responda minha pergunta com outra pergunta... – grunhiu.

- Esqueça disso. Diga-me o que você queria falar lá fora.

- Eu queria saber o que aconteceu em Lincey....

- Só isso? – Isabella assentiu. – OK, vamos lá.

Alexandre cruzou os braços e começou a contar a história de um jeito meio preguiçoso – eu voei para lá o mais rápido que pude, entretanto quando cheguei em Lincey as bestas já estavam próximas de quebrar completamente nossas defesas, era um monstro rei e seu exército. Eu agi de imediato, mas ele era tank demais – e um pouco tagarela demais para o meu gosto. – Eu fiquei horas tentando quebrar a armadura de escamas do monstro rei sem um progresso visível. Os soldados lidaram com as criaturas mais fracas. Não era um monstro necessariamente difícil, só irritante. Mas no fim, eu ainda assim o subjuguei.

"Depois que todo o caos terminou, eu e os meus soldados fomos capazes de contar as vítimas. Não houve muitas baixas, afinal, meu exército não é estúpido suficiente para enfrentar aquela coisa de frente, ainda assim, poderíamos ter ainda menos casualidades se o mostro rei não tivesse aparecido de repente e sem mostrar sua presença. Parece que essas bestas estão mudando um pouco suas estratégias ultimamente".

- E qual era a antiga estratégia? – interrogou juntando as mãos no colo.

- Em impérios menores, os monstros geralmente utilizariam manobras de cerco ou então atacariam seus pontos mais frágeis e recuariam, até que todo o espaço estivesse enfraquecido, nesse momento eles fariam um ataque frontal. Em Impérios grandes como o nosso, as bestas utilizariam exércitos imponentes e tentariam quebrar nossa defesa com números e estratégias. Mas ultimamente, não tem ocorrido ataques de grandes milícias, ao invés disso, os monstros reis tem investido contra nós quase que completamente sozinhos. Isso é estranho.

- Desde quando isso tem acontecido?

- Acho que desde o começo da primavera, uns três meses e meio atrás – respondeu ponderativo.

"Então, mais ou menos na época em que eu cheguei a esse mundo" pensou com seus botões.

- Era só isso que queria saber, Isabella?

A jovem de olhos índigo levou o indicador os lábios ao mesmo tempo que franzia os sobrolho. – Sim, era isso.

- Certo, agora é minha vez de perguntar – a garota ergueu a cabeça com curiosidade. Ela não tinha nada de muito interessante para contar –, que livro é este?

Sua Alteza acompanhou a direção dos olhos de Alexandre, percebendo que ainda carrega o Obscuro sob o braço.

- É um exemplar que eu peguei na biblioteca, um livro de contos, eu me esqueci de deixar no meu quarto – explicou e instantaneamente exibiu a capa. – O que me lembra, você já leu todos os obra da biblioteca?

- Claro que não. – Uma réplica sem hesitação.

Isabella riu.

- De qualquer forma, é um livro muito bom. Acho que meu conto favorito é 'A maldição da Venustidade'. Você quer ouvir? – questionou com olhos implorativos.

- Vá em frente...

A jovem de cabelos dourados comemorou enquanto erguia as mãos para o alto. Seus dedos ágeis logo começaram a tatear as páginas até encontrarem a fábula que buscava. Ela pigarreou levemente e começou sua leitura enquanto a chuva cessava aos poucos do lado de fora:

"Levou uma respiração... deve ter levado menos. Poucos segundos de vida foram mais do que o suficientes para destruir a existência daquela coisa maltrapilha e nojenta. Uma beldade de pés em carne e sangue. Sem solas."

"Vinha sim, vinha assim; com seus cabelos longos sendo arrastados pelo chão, sujos de terra e poeira, com seu corpo nu e repleto de cicatrizes e olhos mortos como os de peixe. Criatura mais pútrida. Criatura mais pulquérrima. Oh, Deusa do Limbo."

"Chega o momento que seus olhos – verdes, verdes, verdes – derramam lágrimas de sangue. Sangue de seus amores passados, de seu coração vaidoso, de sua vida sem sentido. Tu és uma anomalia sem igual, agora vai logo, deita-se e lamenta sua vida tão cheia de nada, despedaça-te e morra. Vomite todo sofrimento e debulha-se. Desde o começo fora venusta demais para esse mundo..."

Alexandre permaneceu vidrado na jovem de cabelos de ouro. Sua mente fora inundada com as palavras, fluindo como um rio. Sua voz vagava gentilmente pelo aposento. Mudava o ambiente, mudava o peso do ar, mudava tudo.

Mas sua prosa foi chegando ao fim, desvanecendo no ar em conjunto com a chuva, deixando para trás um silêncio trasbordante e um sufoco desmedido.

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