Capítulo XII

Já se passaram alguns anos desde que Condessa Rowa Dicalyo decidira se aposentar, entretanto, ela ainda recebia diversas cartas com pedidos pelo seus serviços. Há muitos anos atrás ela fora uma professora de muito renome. Todos os seus estudantes tornaram-se pessoas bem-sucedidas em Licrya e até mesmo em outros reinos. Os nobres chegariam a fazer filas em sua porta para que esta passasse seus ensinamentos.

Agora a senhora era uma simples velhinha que aproveitava o sol da manhã e se escondia das brisas de fim de tarde, uma que jamais se esquecia de regar suas amores-perfeitos, embora sequer lembrasse de onde deixou seus óculos. Daquelas que jamais dormiriam sem meias nos pés.

Apesar disso, cartas que a solicitavam ainda chegavam em seu correio abundantemente e pessoas viriam de tempos em tempos bater a sua porta com súplicas incessantes. Infelizmente, os esforços dessas pessoas não eram nada mais do que vãos. Depois de sua aposentadoria Rowa jamais aceitou qualquer estudante sob sua saia. Bem, isso até uma segunda de manhã.

Naquele dia, a senhora acordou com o nascer do sol como de praxe, lavou-se, teve seu café e regou suas plantas.

Logo os passos vagarosos e curtos da Condessa dirigiram-se para a sua sala de leitura. Ela deixou seu corpo afundar em uma poltrona vermelha, ergueu as mãos trêmulas em direção a sua mesinha, agarrando seu óculos de leitura e o colocando diligentemente. O corpo envelhecido de Rowa estalou ao interim que inclinava-se para pegar as cartas que os empregados deixaram em sua mesa. Os olhos dela passaram pelas correspondências sem muito floreio, pausando quando avistou o selo do castelo imperial.

"O que o palácio poderia querer comigo?" perguntou a si mesma quebrando o selo e abrindo a epístola.

A surpresa quase devorou sua mente, seus olhos piscaram ao mesmo tempo que a Condessa passava seus dedos pela assinatura de Sua Majestade. Não o castelo, mas o próprio Imperador solicitava sua presença.

- Que inesperado, então aquela criança decidiu se casar – murmurou para si mesma suspirando pesadamente. – Parece que terei de abrir uma exceção para minha aposentadoria.

Com isto em mente, a velha Rowa começou a arrumar suas bagagens. Toda a sua propriedade entrou em um estado de urgência, seus empregados iam de um lado para outro ajeitando as coisas - não havia tempo para ociosidade. - Logo, o boato de que a Condessa voltaria a ativa, e ainda por cima estaria passando suas lições para a tão famigerado futura imperatriz, se espalhou por entre os círculos dos nobres como fogo no cerrado.

Não demorou para que a interesse da mais alta sociedade chegasse ao seu pináculo. Alguns poucos pares de perna sequer conseguiram conter sua curiosidade e moveram-se para a mansão de Rowa com os lábios comichando em fervor.

Um jovem casal chegou a porta com as braços dados, uma sombrinha cheia de babados pairava sobre suas cabeças. Eles foram recebidos por um mordomo estrangeiro e guiados para um jardim esmero, onde a velha professora descansava com suas luvas de renda. A senhora tomava tranquilamente seu chá em uma mesa alva e aproveitava os raios de sol ao ínterim que aguardava a chegada dos seus convidados.

O casal tirou seus chapéus e assentaram-se a mesa com sorrisos frágeis brotando em suas bocas. A condessa deu-lhes um olhar vago, como quem esperava algum tipo desenvolvimento minimamente interessante.

- Condessa Dicalyo, faz um bom tempo que não temos uma boa conversa – cumprimentou a mulher erguendo suas sobrancelhas.

- Sim, Marquesa Calliop, a senhora se tornou ainda mais forte e encantadora desde a última vez que lhe vi – então os olhos de Rowa seguiram em direção ao homem ao lado dela. – E você Marquês, continua com esse veemente ar de um rapaz, parece que nem o tempo pode tirar-lhe a juventude intrínseca.

- Você me bajula, Condessa Rowa – replicou o homem com um sorriso em seu rosto.

- É verdade, eu o bajulo – concordou bebericando mais um pouco de seu chá.

O casal riu.

A conversa continuou vagarosamente como se segue lentamente um rio sem bifurcação, ou um roteiro bem construído. Foi somente quando o sol começava a se pôr que o casal finalmente revelou o que realmente gostaria de perguntar durante toda aquela tarde.

- Diga-me Condessa Dicalyo, é verdade que a senhora decidiu revogar temporariamente sua aposentadoria para ensinar a noiva do Imperador? – indagou a Marquesa com olhos cheios de um desejo de fofoca.

A senhora balançou a cabeça. - Sim, é verdade. Eu aceitei dar aulas a Sua Alteza.

- Mas que pena... imagino como é essa jovem. Eu ouvi muitos boatos a respeito dela, a maioria não é bom.

- Marquesa, devo dizer que também ouvi todos os tipos de parvoíces a respeito de Sua Alteza, contudo não é segredo para ninguém que não se deve confiar neles como fonte de informação.

O homem gargalhou como para aliviar o recente clima formado. – Bem, é verdade que não dá para acreditar em tudo que se ouve, ainda assim existem algumas histórias até que interessantes, Condessa Rowa.

- De fato, querido – concordou a Marquesa.

Então, como quem tinha um estalo em sua mente, o homem começou a discursar sobre seus boatos favoritos: - tem um que ficou bem popular entre a parte não nobre de Licrya, eles vem dizendo que o Imperador Vermelho se apaixonou à primeira vista sem realmente se importar com o status, depois de um tempo ele não pode se conter e pediu a mão dela em casamento.

- Besteira, eu duvido que Sua Majestade seja capaz de sentir algo que não seja raiva, sede de sangue e tédio – retrucou a mulher para seu marido. – Eu acredito mais no boato de que a moça é tão má quanto Sua Majestade, uma verdadeira megera em pele de beldade que enfeitiçou aquele homem com alguma magia estranha.

- O que acha, Senhora? – inquiriu o homem mostrando seus dentes alvos.

- Eu não acho nada e não me importo. A única coisa que tenho certeza é que amanhã eu irei me dirigir ao palácio e farei meu trabalho como se deve.

O casal se entreolhou e deu um riso frouxo.

Inesperadamente, a conversa não acabou ali apesar da dura resposta da Condessa, ao invés disso ela continuou até o mais tardar da noite, quando os marqueses enfim se retiraram. O casal, apesar de inoportunos, não eram más pessoas, então Rowa não se importou quando eles permanecerem mesmo após transpassarem seu horário de dormir.

Na manhã seguinte, as coisas ocorreram de forma mais suave que o esperado, e o momento da partida da senhora enfim chegou. A anciã subiu em sua carruagem e dirigiu-se ao palácio enquanto observava as imagens da janela se transformarem em um borrão colorido.

Logo, o cenário ao redor transformou-se numa multidão de ínfimos e gigantescos empreendimentos, tapeçarias coloridas nas janelas e um enxame de pessoas para cima e para baixo – a capital do Império, o coração de Licrya. Entretanto, assim como a cidade veio ela se foi, o panorama tornou-se um enorme campo com um céu anil que queimava e se despedaçava em fumaça branca, fazendo se estender do chão um pulquérrimo gigante azul de torres e abobadas.

O castelo, enfim, estava a vista.

Não demorou para que a Condessa estivesse nos portões principais do palácio sendo recebida e guiada por um dos guardas pessoais do Imperador, Caim (se é que aquele homem precisava de guardas).

- Faz um bom bocado que não te vejo criança – cumprimentou com uma voz cansada ao interim que os empregados tiravam seus pertences da carruagem e levavam aos seus aposentos.

- Quase dois anos – acrescentou. – Você fez uma boa viajem?

- Não, eu não dormi bem noite passado e minhas costas estavam me matando durante todo caminho.

- Eu só perguntei por cortesia, Condessa.

Rowa bufou. – Você continua com essa sua língua afiada. Então, como vai seu irmão? Aquela peste continua impertinente?

- Meu irmão vai bem, entretanto eu não sei a quem você se refere quando diz 'aquela peste' – replicou com uma expressão de pedra. – Certamente que não poderia estar falando de Abel.

- E você continua com esse seu complexo pelo seu irmão – resmungou a senhora.

Geralmente, demorava-se cerca de trinta a quarenta minutos da ala norte do palácio até sua ala sul, no entanto, com o ritmo do caminhar da velhaca, esse tempo quase dobrou. Não obstante, Caim permaneceu com uma expressão calma e acompanhou a Condessa desinteressadamente.

A primeira pessoa a quem Rowa teve que prestar cumprimentos foi, obviamente, Sua Majestade.

Ela entrou em seu escritório com pernas cansadas e faces suadas, e vergou-se ao homem de olhos encarnados que já aguardava sua chegada.

- Fez uma boa viajem, Condessa Dicalyo? – inquiriu cruzando os braços.

- Sim, obrigado, Vossa Majestade.

O Imperador vermelho encarou-a com seus olhos de cor rubra, brilhantes mesmo em plena luz do dia. Assassinos sanguinários, selvagens serenos. Aquela falta de humanidade, uma mentalidade que ultrapassava o senso comum. Um homem implacável e imprevisível, sempre fazendo o que lhe apetecesse sem que ninguém nunca pudesse impedi-lo. Mesmo uma mulher como Rowa, que tinha idade suficiente para ser avô do rapaz a sua frente, não podia evitar ter um arrepio na espinha diante de Alexandre.

- Imagino que você compreenda o que veio fazer no palácio – disse com uma voz fria feito gelo.

- Sim.

- Então não há nada que você precise fazer aqui, Caim lhe guiará até Isabella.

A senhora curvou-se com sobrolhos cinzas franzidos. - Existe algo que eu precise ter conhecimento antes de eu começar com as minhas lições?

- Apenas que... não será tolerado qualquer tipo de impertinência. Entretanto, isso era algo que você já sabia. – Somente quando Rowa já girava a maçaneta da porta é que o Imperador acrescentou. – Deixá-la-ei em suas mãos.

- Entendido.

Assim como Sua Majestade disse, a Condessa foi norteada até uma sala ampla e bem iluminada, com todos os livros e materiais de que precisava postos em prateleiras baixas. Ela sentou-se à mesa junto com uma enorme bolsa que carregava e tirou de lá alguns papéis, separando-os e ajeitando-os.

- Eu irei buscar Sua Alteza, aguarde um instante – informou Caim.

O tempo passou como uma ave de rapina e logo alguém adentrou o cômodo com passos leves e delicados; uma jovem deslumbrante de pele cremosa e olhos etéreos celestes. Uma luz sacra parecia abraçá-la enquanto seus lábios róseos tremeluziam timidamente e seus pestanas loiras piscavam. Uma crina dourado rutilante descia feito ondas do mar até o final de suas costas frágeis. Aquela figura delgada e curvilínea caminhou lentamente em direção a senhora que engolia em seco, esforçando-se até seu limite para não ser enfeitiçada por um par de bochechas coradas e pálpebras de begônias.

Rowa lutou para levantar-se e cumprimentou a Alteza como se devia, sentindo sua cabeça girar atordoada.

- Sinta-se à vontade – disse Isabella rapidamente. – Eu irei me sentar também.

A condessa pigarreou. – É um grande prazer Vossa Alteza, eu me chamo Rowa Dicalyo, a partir de hoje serei sua professora. Espero que possamos nos dar bem.

- Eu desejo o mesmo.

Os estudos de Isabella começaram sem demora, não havia tempo a perder. A anciã distribuiu alguns maços de folha para jovem e explicou para que serviam:

- São algumas questões de diferentes disciplinas, eu quero que você responda aquelas que você conhece para que eu possa ter uma ideia do que você sabe.

A garota de olhos anil assentiu e começou a contravir vertiginosamente. As questões relacionadas a economia, matemática e a língua licryana eram as mais fáceis (por algum motivo a língua licryana era idêntica a portuguesa), principalmente economia, afinal, mesmo que não tenha concluído o curso, Isabella estudou a disciplina na faculdade por quase dois anos. Coisas relacionadas a política e sociologia eram um pouco mais difíceis, porém algumas das perguntas podiam ser respondidas com um pouco de lógica. A verdadeira dificuldade provinha de história e geografia. Os aspectos geológicos da Terra daquele universo eram um bocado diferentes das da Terra que ela conhecia, obviamente que ainda havia diversas questões que a garota podia responder somente recordando-se dos conhecimentos de geografia aprendidos na escola, conquanto isso não era nem de perto suficiente. Já no caso da história, não existia nada o que ser feito, a vergonha pairava sobre sua cabeça leiga ao interim que Isabella entregava as atividades dessa matéria praticamente em branco à Rowa.

Apesar do embaraço de Sua Alteza, a Condessa não disse ou mostrou qualquer tipo de expressão que indicasse desprezo ou desapontamento. Aquilo nunca foi um teste para começar, a senhora Dicalyo apenas queria entender a extensão dos conhecimentos da jovem para ter uma base do que ensinaria a seguir.

O tempo foi lépido, e a aula passou em um piscar de olhos. No fim, a senhora fitou Isabella fixamente a disse de maneira vaga, como quem fala para um conhecido de muitos anos:

- Vossa Alteza, suas habilidades com matemática, economia e gramática são excelentes, não acho que tem muito mais que eu posso ensiná-la nessas matérias. Já em questões políticas e sociais você se saiu bem, todavia ainda há espaço para melhora. Em geografia você foi medíocre e em história, bem... o que importa é que eu estou aqui para ensiná-la.

Isabella assentiu, piscando levemente os olhos.

- Antes de você ir, eu gostaria de fazer-lhe uma pergunta – e acrescentou lembrando-se das palavras do Imperador Vermelho -, claro, se não for impertinente.

- Vá em frente.

- Com todos os seus conhecimentos, principalmente econômicos, por que você estava trabalhando aqui no palácio como uma empregada? – Os olhos de Rowa brilharam com uma curiosidade inegável.

A jovem sorriu, um riso melancólico irrompeu dentro de si manifestando-se por meio de suas janelas índigo. A garota de cabelos dourados tinha duas respostas, uma crível e irreal, e uma inacreditável e fatídica. A mentira seria sempre a melhor opção.

- Eu sou meio que autodidata.

- Autodidata?

- Sim. Meus pais eram mercadores viajantes quando vivos, ambos desejavam que eu pudesse herdar seu negócio então me ensinaram tudo o que sabiam. Infelizmente, os dois morreram em um acidente de carruagem, houve um desabamento de terra numa região montanhosa enquanto eles faziam uma viajem para sul, não houve salvação. No fim, eu fui incapaz de prosseguir com este ramo e acabei decidindo vir trabalhar como uma empregada do palácio.

Evidentemente, aquilo era uma inverdade. Quando Isabella começara a trabalhar no castelo, as pessoas viviam perguntando-lhe quem era, de onde veio e o que fazia ali, no início ela apenas diria que não se sentia muito confortável para falar do assunto e as pessoas a deixariam em paz, entretanto, depois de uma nesga de tempo, não houve jeito, ela teve de inventar uma história. Aquela fora a que parecia mais fácil de acreditar.

Rowa piscou atordoada. - Mas... mesmo que você tenha aprendido sozinha, existem diversos ofícios por aí que não exigem diploma, ao invés disso eles providenciam provas que testam suas capacidades. Por exemplo, o próprio Conselho Imperial organiza concursos anuais. Eu suponho que se você estudasse pelo menos um pouquinho de história você facilmente conseguiria um posto no Conselho Médio. Isso é senso comum...

- Eu não sabia – murmurou Isabella se transformando em um pimentão de vergonha.

A Condessa sorriu polidamente, percebendo que o clima se tornou repentinamente cinzento e decidiu encerrar a aula rapidamente.

A jovem de olhos anil levantou-se e saiu do aposento perplexa, seus pensamentos corriam selvagens pelos bosques de sua mente.

Caim a aguardava do lado de fora para escoltá-la até a sala de jantar.

Ao interim que os dois caminhavam pelos corredores, Isabella tamborilou os dedos em seu saiote negro, ruminando. Rowa a fez relembrar de seus primeiros dias como uma empregada, naquele tempo a garota estava tão confusa que nem ao menos conseguiu planear corretamente o que poderia ou deveria fazer. Agora sua mente estava mais clara e seus conhecimentos tornaram-se mais amplos, assim a jovem de olhos anil podia analisar tudo com uma maior diligência.

Não importava o quanto recordava daquilo, suas circunstâncias eram bizarras; por conta de um mal-entendido Isabella começou a trabalhar no palácio, um mal-entendido que nunca foi resolvido – a segurança dentro do castelo do maior Império do mundo era tão frágil assim? Como ninguém nunca descobriu que não era suposto ela estar ali? Ninguém nunca quis pesquisar suas origens?

- Isso é conveniente demais – murmurou para si mesma sentindo um frio na espinha.

A brisa gélida invadiu o passadiço, o vento fez as roupas e os fios de ouro de Sua Alteza bruxulearem. Ela soltou o ar de seus pulmões e pausou o passo, franziu levemente seus lábios e fechou os olhos. Seu corpo rígido libertou-se e voou junto com o sopro, deixando para trás uma carcaça vazia.

- Alguma coisa errada? – questionou Caim com uma expressão mórbida.

- Não – replicou -, não é nada.

Isabella voltou a acompanhar o guarda colocando a mão no esterno enquanto respirava profundamente.

***

As palestras que se seguiram não exigiram tanto esforço mental da garota de íris índigo quanto suas lições com a Condessa, o que era um alívio.

Sua segunda aula ocorreu posterior a sesta. A professora era uma mulher mais velha do que Sua Alteza contudo mais nova do que Rowa. Com cabelos enrolados e longos, e um batom de cereja, a mulher curvou-se de maneira sublime e apresentou-se feito uma ave elegante empoleirada em um galho de cidreira.

Cada ação daquela mulher assemelhava-se a passos de dança bem elaborados, no entanto seus olhos eram como um furacão cinzento.

- Eu sou Kevona Macaff, é um imenso prazer Vossa Alteza. – Se apresentou com uma voz evidente e sublime. – Eu serei sua professora de etiqueta.

Isabella sentiu-se absorta com cada movimento da mulher de lábios de cereja, desde seu forma de falar até seus ínfimos trejeitos. Perto dela, a jovem se sentia como um boneco de posto de gasolina.

Kevona foi paciente, ela estudou todos os movimentos da jovem de cabelos dourados então corrigiu-a educadamente, mostrando os pequenos deslizes da fala, do caminhar e da maneira de se portar. Os erros eram tão miúdos quanto um grão de arroz, no entanto eram numerosos como uma praga que dizimava plantações. As imperfeições e imprecisões se acumulavam tornando-se uma montanha de problemas.

- Etiqueta não é uma disciplina difícil, entretanto é laboriosa. Eu acredito que a prática e o tempo são as soluções para dominar completamente essa matéria – disse ao final da aula. – Além do mais, vosmecê já é deveras elegante mesmo sem precisar disso, tenho certeza de que mesmo que você não domine completamente as lições ninguém poderá falar nada contra Vossa Alteza.

- Certo, obrigado... – murmurou em dúvida se Kevona disse isso pois era paga ou se estava sendo sincera.

Isabella ajeitou-se rapidamente, pegando seu caderninho de anotações e colocando-o contra o peito. Sua próxima aula foi com um senhor entre seus cinquenta e sessenta anos, seus cabelos e bigode já eram prateados e brilhavam conforme as luzes de uma grande sala de espelhos batiam em sua tez. Tirando ele, havia ainda duas outras pessoas no salão, uma garota entre seus quinze e dezesseis anos com crina esverdeada e um homem com um violino, nariz triangular e blusa social.

Assim como Kevona, o homem se curvou de maneira donairosa e apresentou-se.

- Eu me chamo Hilal, eu serei seu professor de dança daqui em diante. Será um prazer trabalhar com a Vossa Alteza.

A garota de olhos azuis sorriu. Ela havia gostado daquele senhor com voz gutural e profunda, também de seus ademãos semelhantes aos dos mordomos ingleses do filmes. Isabella sentia que os dois se dariam bem.

Dentre todas as outras aulas, a de dança era certamente a mas cansativa, não obstante era a mais prazerosa. Sua Alteza deleitou-se enquanto movia-se e girava pelo cômodo, ainda que seu maneio fosse errôneo e que em muitas ocasiões acabasse por escorregar ou pisar no pé de seu instrutor.

- Sinto muito – diria timidamente nesses frequentes momentos.

- Não se preocupe – retrucaria Hilal rindo nasalmente.

A partir daquele ponto os dias de Isabella seriam sempre daquela forma; tomar café com sua Majestade, ter aulas com Rowa durante a manhã e aulas de dança e etiquete durante a tardes. Além disso, ainda haveria os momento em que a jovem se sentaria no jardim com algum livro da biblioteca e usufruiria das sombras das árvores enquanto Caim ou Abel guardavam-na de perto.

É evidente que tais dias não poderiam continuar seguindo aquele ritmo para sempre, chegaria a época que a garota de olhos anil teria que enfim sair de seu porto seguro, que teria de abrir as portas da ala sul e correr pelo caminho estreito, tortuoso e declive que havia escolhido para si mesma.

Mas é claro que este dia ainda estava distante.  

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