Capítulo 4 - Ela amará ele (part.5)
O dia seguinte é agitado, muita correria no trabalho, um descuido meu que resulta numa leve e justa chamada do meu chefe, mas nada que abale o ótimo prestígio e a confiança que ele tem em mim. Uma coisa, no entanto, me chama a atenção e começa a me incomodar seriamente: os olhares de Vítor em minha direção, indecifráveis. Não eram iguais aos que ele antes enviava, como se quisesse deixar claro que tinha outras intenções comigo além das profissionais. Agora é algo mais sério. No entanto, não são suficientes severos para que eu pergunte o que está acontecendo. Caso eu assim fizesse, ele responderia que não havia nada e eu sairia como a louca da história. Tento relevar, esquecer os olhares, talvez seja impressão minha.
No trânsito até chegar de volta à minha casa, no fim da terça-feira, recebo uma mensagem de celular da Bianca, pelo jeito a briga havia sido superada mesmo:
"Olá, tudo bom"? Vamos nos encontrar para celebrar o clima de paz? ☺
Respondo logo em seguida, em segundo, sugerindo um chope na quinta.
"Chope quinta, então, marcado! E me diga, como estão as coisas com o Marcelo? Nem soube... Afinal, rolou alguma coisa a mais?"
"Rolou...".
"Sério? Que rapidez hein, logo você que sempre valoriza tanto...".
"Pois é... Mas não foi TÃO rápido assim, vai...".
"Para os seus padrões foi tão rápido quanto o Bolt! Nunca mais quero ouvir você me criticar por causa do meu caso com o Thiago hehehe"
"Sempre vou te criticar por causa desse aí... O jeito que ele te tratou, trata, enfim... nem sei se acredito mesmo que você parou de ficar com ele, parecia um vício, uma droga que te chamava e você não resistia.
"Hahahaha Pois é... Mas não falemos dele, é passado do passado. Como foi com o Marcelo? Me conte!"
"Não me arrependo nem um pouco. Foi maravilhoso. Ele tem uma pegada, rolou uma química maravilhosa...".
"Estou bege, amiga! Que ótimo, fico feliz. Meu namoro, se posso chamar aquilo de namoro, com o Murilo serviu de alguma coisa boa então..."
"Pois é... Obrigada! Hehe Ah, se você mudar de ideia e quiser conversar sobre esse outrozinho aí, estou aqui."
"Obrigada, mas a porrada de sábado valeu para eu não ter nenhuma dúvida, este está morto e enterrado."
Eu já achava que a conversa tinha acabado após alguns minutos sem mensagens, mas Bianca resolve prosseguir:
"Então, pelo jeito que a coisa anda, teremos namoro em breve?"
"Acho que não... Ele não deu sinal de vida depois da noite maravilhosa... Disse que ia me chamar para o cinema, mas nem desculpa inventou... Sumiu... Enfim...".
"Nossa, que bad! Retiro o que disse então. Os amiguinhos são farinha do mesmo saco.
"Ah, sei lá, Bianca, sou uma mulher solteira, livre, foi uma noite maravilhosa, sabe?"
"Quem diria, as posições se invertendo...".
"Vamos com calma, tá... hehehe Meu problema nunca foi com o sexo em si. Cada mulher é dona do seu corpo. Mas, pessoalmente, prefiro que role quando há uma intimidade. É mais prazeroso para mim. E ele conseguiu exatamente isso, me envolvi com ele, a atmosfera toda criada me cativou."
"Entendo. Faz sentido. E aquele lance de namorado do futuro? Ele pôs fim à brincadeira?"
"Que nada"! Os dois continuam firmes, coexistindo. Meu namorado do futuro até me levou de carro à casa da minha avó.
"Não acredito! Surreal!
"Na verdade, o que mais me magoará, se ele sumir mesmo, é o fato de que não precisava me dizer as coisas que disse, tanto como Marcelo do Presente: "que estava acontecendo algo diferente entre nós", e, principalmente, como Marcelo do Futuro: ele disse que me amava!".
"Se ele fez tudo isso premeditado mesmo, por maldade, ele é um monstro. Mas aguardemos, dê tempo ao tempo."
Atravesso o portão do meu prédio quando ordeno o envio da última mensagem para Bianca. A narrativa sobre a noite com o Marcelo me faz reabrir o caso não solucionado daquele criminoso, famoso estelionatário da paixão: engana mulheres, promete uma fábula romântica, o amor que ultrapassa as barreiras do tempo e do espaço, apenas para que elas, ingênuas e pueris, assinem a procuração que lhe permite fazer o que quiser com seus corpos e corações. Então, com a carne em seu poder, Marcelo, o sedutor de ficção científica, as devora por completo, faminto. Ao fim, a polícia já acionada, encontra numa lata de lixo apenas os restos, agora já podres, de suas vítimas. Nesse momento Marcelo já está a quilômetros-luz de distância, viajando no tempo, corrompendo mulheres de todas as épocas, somente para satisfazer seu prazer e seu superego, de amante e criminoso perfeito.
Divirto-me,agora no chuveiro, imaginando Marcelo viajando pelo tempo, seduzindo índias, asnativas do Brasil pré-descobrimento, as condessas que testemunharam a revoluçãofrancesa, ou enfermeiras que cuidaram dos feridos na segunda guerra mundial emalgum país da Europa, avós de hoje, brotinhos da revolução sexual dos anos 60 e70. Talvez eu consiga achar graça nisso tudo por não estar sofrendo de paixão.Não que o sumiço não esteja me incomodando e magoando. Obviamente, me sinto usadapor ele, mas, ao menos, Marcelo teve a decência de desaparecer antes que eu meafundasse no sentimento, evitando assim o afogamento em lágrimas que um foraassim pode causar. O relacionamento foi curto, mas foi bom e é isso. O que maisme magoa é a falta de sinceridade, as palavras fortes desnecessárias, aexpectativa criada. Tenho que extrair o lado positivo das coisas. Se ele sóqueria segundas intenções, ótimo pra ele que conseguiu obter sucesso em seuobjetivo e vida que segue. Quem sabe, toda aquela história de homem do futuro,que haveria algo que nos afastaria era somente uma mensagem, uma dica para meavisar que sumiria, o alerta a fim de que já me preparasse para o que pretendiafazer. Eu, burra, não entendi nas entrelinhas. Sem dúvidas, suas metáforas sãomelhores que as minhas.
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