Capítulo 4 - Ela amará Ele (part.3)


Duas e quinze da tarde: é hora de enfrentar a fera da minha mãe. Minha avó abre a porta do apartamento sem mostrar nenhuma retaliação ao meu atraso. A felicidade em me ver supera o deslize com o horário. Entro, parabenizo-a e lhe dou um beijo dentro de um abraço apertado, encontro logo atrás os olhos da minha mãe que me fuzilam.

— Desculpem-me pelo atraso, pessoal.

— Que nada, minha neta, eu entendo as coisas que acontecem com a gente nessa idade – e me dá uma piscadinha. Minha mãe sem falar nada, continua me encarando, bicuda.

— Amanda, nós acabamos já almoçando. Desculpa, sua mãe estava com fome, mas deixei a comida na mesa pra você. Acho que ainda está quentinha, mas se precisar é só me dar que coloco no micro-ondas.

O almoço é o estrogonofe de carne maravilhoso que ela faz, temperado com um pouco de conhaque. Sirvo-me e sento no sofá com o prato no colo, para tentar ficar mais próxima, interagir e melhorar minha situação. Entretanto, meu celular toca logo após a segunda garfada. Repouso o prato na mesinha à minha frente, pego o celular, olho o visor – é Bianca – coloco no modo silencioso e o devolvo à bolsa. Não é a melhor hora para atender um telefonema, mesmo sendo o que eu tanto esperava. Um alívio percorre meu corpo: Bianca se desculpará pelo o que fez na noite passada. Não vou guardar rancores, o que ela passou ontem foi péssimo, não justifica a atitude comigo, mas ao menos explica. Termino de comer, converso um pouco, faço alguns comentários sobre as baboseiras que passam no domingo a tarde na televisão e sorrateiramente vou até o quarto da minha avó, para retornar a ligação da Bianca. Ela atende seca no segundo toque:

— Oi – ela diz e um silêncio se faz.

— Me ligou? – pergunto para quebrar o ar gélido que percorre as linhas.

— Liguei. Eu queria te pedir desculpas... – um novo silêncio. Dessa vez não falo nada, ela precisa prosseguir, ser mais enfática - Fui grossa com você, descontei na pessoa que só queria me ajudar. Me desculpa mesmo – sua voz é arrastada, preguiçosa, doí ter que falar.

— Tudo bem, amiga – digo, perdoando-a de verdade – Mas o que aconteceu, afinal?

— Olha, Amanda, não quero falar sobre isso. Pode ser? Vamos dar como página virada, o Murilo, a festa, nosso desentendimento e nunca mais tocar nesse assunto?

— Tudo bem, Bianca. Se você quer assim, assunto morto e enterrado.

— Bom, era isso. Vou desligar aqui. Me desculpa mais uma vez, tá? – ela se despede num tom melancólico, sua voz continua devagar, carregada, pesada pela pancada que havia levado no dia anterior. Conhecendo minha amiga, ela se afundaria em águas negras, imersa ficaria por um bom tempo.

— Está tudo bem, minha amiga. Fico feliz que acertamos as coisas. Não conseguiria me ver brigada e afastada de você. Qualquer coisa pode ligar, tá?

Volto para a sala aliviada por ter feito as pazes com a Bianca, mas triste por sua dor. O que ela está sentido agora é pesado. Murilo foi extremamente maldoso. Minha mãe já não me encara com cara de reprovação e o resto da tarde do aniversário da minha avó transcorre tranquilamente. Volto para casa, no carro, com minha mãe, escuto suas reclamações – minha hora havia chegado – mas é melhor do que imaginava. Eu já sou, há muito, uma mulher adulta, e só moro na casa dela por questão de conveniência financeira: os valores dos imóveis e aluguéis dos bairros nobres da cidade estavam caríssimos, tenho condições de pagar algo meu, mas, no momento, priorizo fazer um pé de meia. Portanto, não cabem mais seus julgamentos sobre a minha postura. O tempo de bronca já havia passado. No final, após ouvir suas lamúrias e responder só com "ok", "desculpa", "aham", chega a hora da pergunta que ela havia guardado para o final:

— Me conta a verdade, você não estava na casa de amiga nenhuma, né?

— Ah, mãe, na boa, esse papinho não, por favor. Se você não quer acreditar, não acredita.

— Quem é o menino?

— Mãe, eu vou te deixar falando sozinha. Não estou a fim de ficar falando sobre minha vida íntima com você, tá bom?

— Você está se protegendo, minha filha?

Não respondo, obviamente.

— Hein, filha? Você está se protegendo?

Mantenho cara virada para janela, enquanto ela insiste perguntando. Desisto de ignorá-la e solto tudo de uma vez:

— Sim, mãe, ontem eu passei a madrugada inteira transando com um cara que estou ficando, o nome dele é Marcelo e sim, com camisinha. Foi maravilhoso, o pau dele é enorme, gozei horrores. Era isso que você queria ouvir? Meu deus do céu... Parece que não consegue entender nas entrelinhas, tenho cara de quinze de anos de idade? Nossa!

Quando termino de despejar as palavras, ela absorve o golpe. A minha reclamação sobre o seu exercício no papel de mãe lhe doí. E dói a mim também, instantaneamente, quando vejo que a afetei em seu âmago, quando percebo, logo após as palavras saírem da minha boca que exagerei, fui grossa, que podia ter sido mais paciente. Mães são sensíveis demais. Quando seus filhos, a quem dedicam a vida, as tratam com repulsa e impaciência machuca demais, vibra como uma injustiça, uma tremenda ingratidão. Mesmo me sentindo uma insolente, meu ego não me permite dizer perdão. Mesmo admitindo internamente minha grosseria, ela estava agindo de forma inconveniente e inoportuna e não quero sair perdedora da discussão. 

Seguimos mudas até o apartamento. Fecho a porta do meu quarto e ligo a televisão – nada de bom. Subo e desço pelos canais sem estacionar em nenhum. Pego o celular para procurar os filmes que estavam passando no cinema. Quando Marcelo ligar, eu já tenho uma boa sugestão na cabeça. Acho duas boas opções de filme, largo o celular e fico deitada na cama, sem fazer absolutamente nada. Rapidamente, sem que eu perceba, o preço pela noite mal (ou muito bem) dormida se faz cobrar e apago completamente.

Durmo das 18h00min às 20h30min. Acordo, não sei como, minha mente deve ter despertado apenas porque tinha programado o compromisso com o Marcelo, sou assim, responsável até dormindo – penso bem humorada ao pegar o celular para verificar alguma chamada perdida ou mensagem. Para minha surpresa, não há nada dele. Nem sequer um oi, uma desculpa mal esfarrapada. Apagou de sono também – penso tentando aliviar seu lado. Vou até a cozinha, tomo um copo d'água, retorno para o quarto e a assisto à tediosa TV. Estaciono num programa de humor apelativo, mas que extrai algumas boas risadas minhas – tenho um pouco disso, certo humor masculino. O relógio marca 21h30min e dou como morta a possibilidade da ida ao cinema. Resolvo dormir de vez, amanhã de repente, eu acordo com um recado dele. Penso se a ausência significa alguma quebra da profecia do Marcelo do Futuro, mas lembro que quando sai do táxi e falei que encontraria o Marcelo hoje à noite no cinema, ele se manteve mudo, até meio desconcertado. Talvez o do Futuro já soubesse do bolo que o do Presente iria me dar.

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