A dobra das sombras

Créditos:

Co-Autor: @yelena-
Avaliação por: DarkBlueKisss
Betagem por: lalisaglowps
Designer por: LoloMochiS2

Jung Hoseok servira ao rei boa parte de sua vida. Ele era um grisha, e como todos os outros, fôra tirado muito cedo de sua família, levado ao castelo e treinado para servir à coroa. Porém, ele não controlava o fogo, a água ou o ar como os outros etherealkis, a classe de grishas capazes de conjurar elementos: Hoseok era um conjurador das sombras, capaz de controlar as trevas.
  Etherealkis como ele eram raros e poderosos. Por conta disso, desde cedo o rei o queria ao seu lado. Assim, quando o Jung tinha idade suficiente, foi nomeado general do segundo exército. A diferença era que o primeiro exército do reino era formado por pessoas não-grishas, humanos normais. Já o segundo, o de Hoseok, era unicamente de grishas. Era o Jung quem guiava esse exército. Mas não era como se tivesse tido escolha, afinal. Ele e os outros grishas tinham por obrigação servir ao rei, o país não usava essa palavra, mas eles eram forçados a servir à coroa. Eram testados quando crianças em uma certa idade: se o sangue fosse grisha, eram levados ao castelo para começar treinamentos pesados, e a partir desse ponto não tinham escolha senão obedecer à realeza. E era por isso que Jung Hoseok servira ao rei boa parte de sua vida. Agora, ele caminhava pelos corredores do palácio com a cabeça erguida de um homem poderoso, mas, na verdade, ele não passava de um servo tão minúsculo como aqueles que preparavam o banho de espuma da rainha todas as noites.

Ele caminhava a esmo, tinha terminado suas obrigações e não sabia se iria se recolher aos seus aposentos ou passar nos campos de treinamento para observar a nova geração de grishas ser treinada. Mas ele não precisaria fazer essa escolha. Logo, uma etherealki de longos cabelos louros veio correndo na direção de seu general. Seu kefta — uma espécie de sobretudo usada para identificar os Grishas — azul com bordados vermelhos mostrava a todos que ela era uma infernal, capaz de conjurar o fogo. Hoseok ficou abismado.

— Jinyo! Sabe que o rei proíbe que corramos pelo palácio, o que acha que está fazendo? — ele disse quando a mulher já estava em sua frente, apoiando-se nos joelhos com a respiração ofegante. Seu tom de voz era de repreensão, mas no fundo carregava preocupação e cuidado.

— Senhor! — ela falou entrecortado, ainda tentava recuperar o fôlego.

— Estou ouvindo. — ele avisou.

— E-eles — até o momento, Jihyo estava com a cabeça entre os joelhos, mas então encarou o general. Seus olhos estavam desesperados e Hoseok notou aquele sentimento igualmente presente em sua voz, ele sentiu medo. — –Descobriram. Descobriram sobre o acampamento! O rei mandou o primeiro exército até lá e logo vão vir atrás do senhor! — Um arrepio subiu pela coluna do conjurador das sombras. Aquilo não poderia estar acontecendo.

Hoseok servia ao rei e era obediente, mas isso não significava que ele concordava com o que estava sendo feito em seu país.
Todas aquelas crianças roubadas de seus lares e obrigadas a se tornarem soldados, aquilo era errado. Hoseok podia ser o general do segundo exército, um dos cargos mais altos na hierarquia da realeza, mas nem mesmo ele pudera escolher se queria se tornar isso. A vida dele fora furtada, tirada de si. A dele e a de tantas outras pessoas que compartilhavam do mesmo sangue. Jung Hoseok podia ser obediente, mas ele não era leal. Não demorou para que ele começasse a se opor ao governo. Assim como quando utilizava seu poder, Hoseok começou a agir nas sombras. Ele iniciou uma pregação aos grishas sobre resistência e luta: ele queria libertar seus semelhantes e logo muitos ficaram ao seu  lado.
Escondido do rei, Jung criou um refúgio em uma floresta distante do palácio para onde levava alguns grishas que conseguia resgatar, principalmente crianças. Lá eles eram livres da servidão ao rei e tinham tempo para planejar sua rebelião. Hoseok ia lá às vezes, levava mantimentos e novas estratégias para a guerra que iam estourar. Sempre que ia, apagava seus rastros para ninguém o descobrir, sempre fora muito cauteloso com relação a isso. Achava que, se um dia fosse pego, estaria preparado: ele já gastara noites pensando em estratégias para usar se descobrissem sua traição. Mas ele nunca pensou que essas estratégias seriam tão difíceis de voltar à sua mente quando estava de cara com o problema.

Ele cavalgava em seu cavalo preto, o kefta da mesma cor voando com o vento, percorrendo o mais rápido que podia os quilômetros necessários para chegar até o acampamento. Rezava aos santos para que chegasse antes do primeiro exército. Ele tentava pensar logicamente, montar um plano para salvar a todos, mas sua mente insistia em pensar somente em uma pessoa. Hoseok logo adentrou a floresta em que escondera os grishas, seu cavalo quase não se aguentava mais em pé. Mais alguns metros até ele avistar uma cabana improvisada de madeira. Quando chegou na frente da mesma, ele desmontou de seu cavalo e correu em direção à porta abrindo-a abruptamente. Dentro do lugar, há uma mulher, uma grisha curandeira, seu rosto está confuso enquanto encara o general e sua barriga é grande, do tamanho perfeito para carregar um possível futuro conjurador das sombras.

— O que está fazen- — ela tenta perguntar, mas Hoseok a interrompe.

— Temos que sair daqui! — Sua voz carrega urgência. — O mais rápido possível, precisamos reunir os outros e ir embora! — ele fala agarrando-a pelo pulso e a levando em direção à porta.

— Pode me dizer primeiro o que está acontecendo? — ela questiona, sem tentar se soltar do aperto do grisha.

— O primeiro exército está vindo para cá. Eu não sei como, mas o rei me descobriu, sabe o que estou fazendo — ele conta desesperado, já está em frente à entrada da cabana, mas vira seu corpo e encara a mulher que se mostra, agora, igualmente em desespero. — Temos que- — Sua fala é interrompida quando ele escuta, do lado de fora, o que parece o som de dezenas de cavalos. São eles, ele pensa, temeroso demais para verbalizar aquilo.

— Hoseok — a mulher sussurra, como se o volume da sua voz fosse impedir o primeiro exército de saber que estão ali dentro.

— Fique aqui, não saia — ele manda, afrouxando o aperto no pulso dela e arrastando o polegar ali, em um último carinho. — Vou dar um jeito neles e aí reunimos os outros para fugirmos. — Ela concorda com a cabeça. Ele a encara, sem coragem de a soltar, mas então ela mesma se afasta dele e se abaixa em um canto da cabana. Hoseok vira o olhar para a porta e respira fundo antes de sair.

— Jung, que surpresa ver você por aqui… — o general humano do primeiro exército fala. Atrás dele há uma horda de soldados segurando de arco e flechas à espadas. Hoseok encara cada um deles. São muitos, mas ele é capaz de matar todos.

— Fico me perguntando como descobriram este lugar — Hoseok fala, ganhando tempo para pensar em como derrotar cada um daqueles soldados.

— Ah, general, você não é ingênuo. As pessoas falam depois de uma boa sessão de tortura — ele diz com um sorriso nojento em seu rosto. O general do primeiro exército faz um gesto olhando para seus homens e alguns deles erguem os arcos.

— Não acredito que vai querer lidar com as coisas desse jeito, podemos conversar.

— Conversar é a última coisa que eu quero fazer com um traidor. E feiticeiros como você já deveriam ter sido extintos há muito tempo. — Ele deu outro sinal e as flechas estavam prontas para atingirem Hoseok. Ele se viu sem opção, então ergueu as mãos, cruzando-as em sua frente. E quando as separou, uma rajada de sombras se alastrou até cortar alguns soldados ao meio. Os que não sucumbiram soltaram as flechas, mas elas nem sequer chegaram perto do grisha, que as desviou com outra rajada de trevas, fazendo algumas delas atingirem os soldados.

Não era difícil para Hoseok derrotá-los, ele era poderoso e eles eram só humanos com brinquedos afiados. Em pouco tempo, metade dos homens tinha sido morta e o general do primeiro exército estava enfurecido. Jung estava aliviado, logo poderia fugir e salvar a todos. Mas suas esperanças morreram quando, a sua direita, dois soldados caminhavam com sua mulher em mãos. Suas mãos vacilaram e o mesmo sorriso de antes voltou para o rosto do general humano. Quando chegou ali, ele havia mandado alguns homens para a parte de trás da cabana, para que impedissem qualquer um que estivesse ali dentro de fugir pelos fundos. Percebeu agora o quão aquela ordem fora inteligente. Os dois carregaram a mulher até perto do general não-grisha.

— Olhe só o que temos aqui… — ele disse, encarando a mulher do seu lado, que se debatia tentando se soltar do aperto dos soldados. Hoseok estava estático. — Dois grishas com uma cajadada só — ele falou se referindo à mulher e sua barriga. — Isso é cria sua, Jung? Tantos afazeres como general e encontrou tempo para transar? — perguntou, encarando o outro general que ainda tinha as mãos erguidas. — Se eu fosse você me renderia, não vai querer ver eu abrindo a barriga dela na sua frente, não é? — Ele riu debochado e seus homens o acompanharam.

— NÃO, Hoseok! — ela gritou de desespero e Hoseok abaixou as mãos, não podia arriscar a vida dela.

O general mandou dois de seus homens até o conjurador, eles se aproximaram lentamente, estavam com medo. Hoseok os observava, mas não tirava o olhar do outro general. Seu rosto estava franzido de raiva e o dele estava com um sorriso relaxado. Os soldados finalmente se aproximaram e colocaram no Jung algemas que imobilizavam os movimentos das suas mãos, um grisha só conjurava seu poder se usasse-as. Hoseok deixou que fizessem isso com ele para salvar a vida dela. Não sabia o que iam fazer, mas era provável que o levassem preso, estava contando com isso, porque assim ele teria tempo de pensar no que fazer. Mandara Jihyo ao acampamento principal, se ela já tivesse chegado lá, os grishas daquele local já estariam fugindo. Hoseok só teria que armar um jeito de sair daquela enrascada. O general do primeiro exército riu, como se debochasse dos pensamentos do conjurador das sombras, este que mudou sua expressão para uma confusa.

— Você é tão ingênuo — ele começou a andar para mais perto da mulher que em nenhum momento parou de lutar para sair dali. — Criaturas nojentas como vocês — ele tirou a espada da bainha e apontou para Hoseok, para a mulher e a barriga dela — deveriam ser mortas assim que descobertas. — Ele anda de um lado para o outro. — Vocês, feiticeiros, compartilham um lugar conosco no palácio, têm até um exército formado só pela especiezinha de vocês — ele fala com a voz alterada e alta — e mesmo com tantas regalias ainda querem se rebelar contra o rei! — O general para de andar, volta a encarar Hoseok e solta um riso nasalado. — Alguém deveria pôr vocês no lugar que merecem. — Ele ergue a espada e em um segundo a arrasta com força no pescoço da mulher

— Não! — Hoseok grita, tentando correr até ela, mas é impedido pelos soldados que imobilizaram suas mãos.

A mulher é solta e cai de joelhos no chão, o vestido que usa se tornando vermelho vivo, a expressão em seu rosto é aterrorizante. Quando seu corpo cai deitado na terra, o general ergue a espada com as duas mãos e a crava na barriga da grisha. Dessa vez Hoseok não consegue gritar. Ele ruiu e o mundo ficou em câmera lenta para ele. Tudo acontece devagar e o grito que não deu ensurdece seus ouvidos. A mancha de sangue cobrindo a terra, os soldados atrás de si voltando para perto do general, o assassino de sua mulher sujo de sangue abrindo um sorriso e virando-se, pronto para dar novas ordens aos seus homens.

Hoseok sempre pensou na possibilidade de ser pego, tinha mil e um planos para quando isso acontecesse. Mas ele estava ali, a poucos metros do corpo morto de sua mulher, e não pudera fazer nada. Ele se sentia um inútil, sentia que sua luta era inútil, se não pôde defender nem a mulher que amava, porque achava que ia conseguir defender dezenas de grishas? Foi então que lembrou; era por isso que estava tentando ampliar seu poder. Ele jamais conseguiria, sozinho, derrotar o rei e seus homens, mas se fosse o mais poderoso entre todos teria uma chance de libertar seu povo, era por isso que estava estudando magia obscura. Hoseok ergueu lentamente o olhar e encarou o outro general, ele estava com a cabeça erguida de um homem poderoso, de costas para si dando ordens aos soldados. Aquele tipo de magia era proibida, ia além da pequena ciência que dominavam para conjurar seus poderes, Hoseok sabia. Todos os livros avisavam sobre o preço que se tinha de pagar ao usar aquela magia, Hoseok sabia. Nenhum grisha em séculos conseguira dominá-la e ele não passava de um iniciante, Hoseok sabia. Mas Hoseok também sabia que seu povo corria perigo, sabia que ali, ajoelhado no chão com mãos imobilizadas, não poderia fazer nada.

A magia dos grishas não consistia em criação, eles podiam conjurar o que já existia, não criar, como os hidros que conjuravam água a partir da umidade do ar. Mas aquela magia obscura que Hoseok passou noites em claro estudando era diferente, era uma magia da criação. Ele poderia criar sombras ao invés de conjurá-las, nem precisaria usar suas mãos. E ali, imobilizado de joelhos no chão, aquela magia proibida era mais que útil. Não sabia se seria capaz de controlar aquele poder todo, ou sequer se estava pronto, mas precisava tentar. Não podia deixar mais sangue grisha ser derramado. Hoseok se ergueu com dificuldade, novamente de cabeça baixa. O general do primeiro exército não esperava por isso, mas estava pronto para caso ele ainda tivesse forças para lutar.

— Volte a se sentar, general — o homem falou. — Assim, sua morte será menos dolorosa. — Hoseok ergueu a cabeça para encarar ele, seus olhos estavam expandidos e havia uma sombra aterrorizante em seu rosto. Por um momento, o assassino vacilou ao olhar para o Jung, mas mesmo assim fez o gesto para que seus homens atirassem as flechas no conjurador das sombras. O que ele poderia fazer, afinal? Suas mãos estavam presas.

Quando as flechas voaram em sua direção, Hoseok buscou aquele poder dentro de si, buscou todas aquelas noites que passara em claro estudando aquela magia, e conseguiu encontrá-la. As veias de seu rosto se destacaram em um preto acinzentado, ele sentiu dor, mas logo aquela dor deu lugar a um mar de sombras saindo de seu peito. Seu objetivo era derrotar o primeiro exército, e ele conseguiu. As flechas evaporaram e as trevas destruíram os soldados, mas Hoseok não conseguiu parar por aí, não conseguiu controlar, era um risco que sabia existir, mas não imaginou que causaria tanto estrago. As sombras continuaram saindo de si, percorreram quilômetros de extensão e largura. Algo não calculado por Hoseok foi que qualquer um pego por aquele mar sombrio estava se transformando em monstros. Desde os soldados até camponeses distantes. As trevas engoliram todos. Até mesmo, e isso Hoseok não imaginava que ia acontecer, os grishas que tanto lutou para proteger.

Quando acabou, minutos depois, quando as trevas já tinham engolido o suficiente, Hoseok caiu no chão e encarou sua obra. Era uma parede preta de sombras que dividia o país em dois e anos mais tarde ficaria conhecida como a dobra das sombras. Ele não sabia o que estava fazendo, mas gostou do que viu, gostou de perceber que podia ser poderoso. Percebeu que havia matado todos os grishas que levou até ali para proteger, era para sentir remorso, mas não conseguira salvar sua mulher e depois disso disse a si mesmo que alguns sacrifícios eram necessários para se obter vitória.

Alguns anos mais tarde, Hoseok ficaria conhecido como O Herege Negro, o grisha que traiu o rei e criou a dobra. O poder que usaria dali para frente o concederia séculos de imortalidade. Séculos onde forjaria mortes, criaria nomes falsos e serviria a diversos reis, tudo a fim de finalmente derrotar a coroa e trazer a soberania grisha. Séculos onde estudaria meios de controlar a dobra e, consequentemente, o reino. Hoseok descobriria mais tarde que para isso acontecer ele precisaria de mais e mais poder e, principalmente, de uma conjuradora do sol.

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