Capítulo Vinte e Seis
Victor Jones:
Urlac não era tão complicado como eu pensava no início, durante meus treinamentos sobre o mundo espiritual. Fiquei surpreso ao perceber o quanto ele queria me contar sobre tudo que conhecia. Segurando minha mão com entusiasmo, ele me conduziu a uma enorme mansão.
— Essa é a minha cidade — Urlac disse, me fazendo olhar confuso para ele. — Meu pai a construiu para mim.
A mansão era projetada como uma cidade em miniatura. Um grande muro quadrado cercava o terreno, dividindo os austeros campos de treinamento dos vibrantes bairros. Cada seção tinha sua própria portaria imponente, todas maiores que a sala de reuniões do castelo ou da minha antiga escola. As enormes portas de ferro do portão residencial estavam abertas, revelando a elaborada topiaria no interior. Um rebanho de criaturas, uma mistura de cães e cabras, pastava serenamente, cortando a grama de forma uniforme.
Elementos que surgiam e se modificavam sozinhos foram cuidadosamente integrados no design do complexo. Dragões dourados esculpidos perseguiam orcas-polares pelas bordas das paredes, sempre em movimento. O estilo do telhado seguia princípios de numerologia que eu não consegui decifrar. Corantes e tintas foram importados de todo o mundo, garantindo que todas as cores estivessem disponíveis.
A visão era deslumbrante. A casa se transformava conforme a vontade de Urlac, que estava atrás de mim e inspirou com desdém.
— Não sei o que estavam pensando quando queriam que fosse um lugar comum — Urlac falou.
— Incrível! — Exclamei, admirando a mansão. — Nunca vi nada parecido. É como um mundo em miniatura.
Urlac sorriu, satisfeito com minha reação.
— Meu pai sempre teve um gosto extravagante. Ele queria que eu tivesse o melhor. Bem-vindo à minha cidade particular, onde o mundo espiritual se torna tangível. — Urlac disse, me fazendo refletir sobre a personalidade do rei dos espíritos.
Exploramos a cidade dentro da mansão, maravilhados com os detalhes cuidadosos e os elementos mágicos que a tornavam única. Era um lugar mágico e intrigante, e eu estava ansioso para descobrir mais sobre o mundo espiritual sob a orientação de Urlac.
Enquanto caminhávamos, Urlac começou a me contar sobre os diferentes aspectos do mundo espiritual. Ele apontava para os edifícios e áreas específicas, explicando sua importância e propósito.
— Aquela torre é onde estudamos magia ancestral — ele apontou para uma alta torre de vidro com runas brilhantes entalhadas em suas paredes. — E aquele lago é o centro de meditação, onde os espíritos se reúnem para compartilhar conhecimento.
Os moradores da mansão eram variados seres espirituais, cada um com uma aparência única. Alguns tinham asas brilhantes, outros eram transparentes como fumaça, e outros pareciam criaturas mágicas de contos de fadas.
— Quem são essas pessoas? — Perguntei, intrigado com a diversidade dos habitantes.
Urlac sorriu.
— São seres espirituais de diferentes reinos e dimensões que se reuniram aqui para trocar conhecimento e experiências. É um lugar de aprendizado e crescimento espiritual. — Urlac falou. — E para me ensinar um pouco.
A cidade dentro da mansão era extraordinária, onde a magia e o conhecimento espiritual eram valorizados acima de tudo. Eu mal podia esperar para começar meus próprios estudos e descobertas neste lugar fascinante.
Uma pequena Manticora surgiu e voou sobre minha cabeça. Eu me abaixei quando ela passou por Urlac e mordeu sua cabeça.
— Ora sua... — Urlac começou, xingando em outra língua que eu não entendi.
— Você se diverte bastante aqui — Falei, rindo. — Deve ser legal ter tantos desses espíritos ao seu redor e ser o príncipe deles.
— Nem sempre é divertido. Alguns têm medo de mim e do que posso fazer — Urlac falou, sentando-se na grama. — Mas fazem o possível para me ajudar. Lembro quando desapareceram quando Camila parou de me chamar.
— Não posso pedir desculpas pelo que ela fez com você. Ainda é estranho que eu tenha sido ela e agora sou apenas eu — Falei, olhando para minhas mãos. — Sou apenas Victor.
Urlac riu.
— Você é bem divertido, diferente dela, que era super séria e quase destruiu um navio por causa do seu temperamento — Urlac disse, olhando para o céu que mudava de cor rapidamente, do laranja ao rosa, depois para tons neutros.
Uma voz suave sussurrou em meu ouvido, chamando-me de volta.
— Preciso voltar, acho que meu tempo acabou — Falei, observando a mini-Manticora se acomodar no colo de Urlac. — Mas prometo que quero saber de tudo.
— Até a próxima — Urlac disse, acenando.
Senti o mundo físico me puxar de volta para a realidade.
******************************
Horeom estava me esperando, sentado calmamente com um livro nas mãos, e levantou o olhar quando viu que eu finalmente voltei.
— Como foi dessa vez? — ele perguntou, fechando o livro. — Fiquei um pouco mais de tempo.
— Foi divertido, especialmente com ele me mostrando seu lugar especial — Falei animado. Nesse momento, a porta se abriu e Merlin entrou apressado.
— Ele já... você voltou! — Merlin disse, entrando na sala às pressas.
— Viu? Disse que não precisava vir todas as vezes para saber se está tudo bem com o Victor — Horeom falou divertido, cruzando os braços. — Merlin, você aparece a cada segundo para checar. Posso dizer que sei o que estou fazendo.
— Só estou preocupado que algo aconteça — Merlin respondeu, visivelmente nervoso.
— Não, você está fugindo dos seus treinamentos e ainda quer ficar longe da Aurora — Respondi, rindo.
— Meteora não vai gostar disso. — Horeom falou.
Merlin esboçou um sorriso leve, como se tivesse sido pego em flagrante.
— Você tem razão, Horeom. Admito, estou fugindo um pouco dos treinamentos. Mas a Aurora tem sido uma distração complicada, sempre criticando tudo que eu faço. — Merlin falou, um pouco abatido.
Horeom balançou a cabeça com uma expressão de desaprovação simulada.
— Você é um caso perdido, Merlin. Mas, falando sério, precisamos manter nossas habilidades afiadas, especialmente com a ameaça que se aproxima. — Horeom disse, com um tom mais sério.
Merlin assentiu, parecendo mais consciente da situação.
— Eu sei, Horeom, eu sei. Mas não consigo evitar de me preocupar com o Victor. Se algo der errado... — Merlin falou, seus olhos brilhando de preocupação ao olhar para mim.
— Victor é forte, sabe se proteger e está controlando bem seus poderes — Horeom falou, dando-me um aceno enquanto olhava para o relógio. — Mas acho que ele pode descansar com você por alguns minutos.
Merlin não esperou minha reação e pegou minha mão, puxando-me para fora da sala. Só ouvi a risada de Horeom ecoando atrás de nós.
****************************
Merlin me conduziu por um caminho estreito, passando por uma passagem secreta, ainda segurando minha mão firmemente. Emergi em um quarto iluminado por uma luz encantada, onde alguns livros estavam empilhados no centro, duas cadeiras estavam dispostas próximas à janela, e o brilho suave do sol invadia o ambiente. Havia também uma pequena fonte d'água que emanava uma calma serena.
Ele me olhou com carinho, segurando minha mão.
— Sabia que iria gostar deste lugar. Sempre trouxe os livros que Meteora me deu enquanto crescia para cá e fiz deste lugar meu canto pessoal — Merlin falou, seus olhos ainda brilhando com uma mistura de preocupação e ternura. — Nem mesmo meus irmãos sabem da existência deste lugar.
Assenti com um sorriso reconfortante.
— Estou ótimo, Merlin. E agradeço por me trazer ao seu lugar de conforto — Disse. — Então você vai me deixar vir aqui sempre que eu precisar?
Ele soltou uma risada suave, visivelmente aliviado.
— Sempre, Victor. Prometi que estaria ao seu lado, não importa o que aconteça, e você pode vir ao meu lugar de paz a qualquer momento — Ele disse, sentando-se, e eu fiquei ao lado dele. — Só não conte para os meus irmãos.
— Este lugar está seguro comigo — Falei, divertido.
Senti meu celular vibrar e vi que era uma mensagem da minha mãe, lembrando-me de cuidar da minha saúde e não fazer nenhuma besteira. Merlin olhou para mim e depois desviou o olhar rapidamente.
— Deve ser bom ter uma mãe que se preocupa com você — Merlin disse, seu olhar perdido.
Ao perceber sua expressão, senti a pesadez de seu coração. Seus olhos, normalmente vivos e brilhantes, estavam agora opacos e distantes, carregados de uma profunda tristeza. Suas palavras, cheias de um tom melancólico, revelavam que algo o perturbava profundamente.
Eu sabia que ele sentia uma mistura complexa de emoções naquele momento. Uma sensação de carência e talvez até inveja, ao ver a preocupação materna que eu tinha em minha vida, contrastando com a ausência desse amor e apoio em sua própria jornada. Era como se ele estivesse tocando em uma ferida emocional, e sua expressão revelava a profundidade desse sofrimento interior.
Ele havia perdido os pais muito cedo e, por causa disso, era renegado pela sociedade, mas ainda tinha o desejo de conhecer sua família.
Aproximei minha mão e fiz com que ele me olhasse.
— Eu estou aqui para você — Disse suavemente.
Então notei a pequena fonte d'água mudando de forma, suas águas criando um coração com uma imagem minha refletida. Merlin percebeu o que havia acabado de fazer, e a forma se desfez em segundos.
Ele ficou envergonhado, mas olhou para mim docemente.
Eu segurei a mão de Merlin com mais firmeza, sentindo a energia que passava entre nós. A pequena fonte d'água ainda estava em movimento, como se refletisse a tensão e a conexão crescente no ar.
— Merlin — comecei, minha voz suave e carregada de emoção. — Eu sei que às vezes parece que o mundo está contra nós, mas você não está sozinho. Eu estou aqui para você, sempre.
Ele levantou o olhar para mim, seus olhos brilhando com uma mistura de vulnerabilidade e esperança. Por um momento, ficamos em silêncio, apenas sentindo a presença um do outro, enquanto a luz encantada do quarto parecia envolver-nos em uma bolha de segurança.
— Victor... — Merlin começou, sua voz quase um sussurro. — Você não faz ideia de quanto isso significa para mim. Desde que te conheci, sinto que não preciso carregar todo o peso sozinho.
Aproximei-me mais dele, nossos rostos agora a apenas alguns centímetros de distância. Senti seu hálito quente contra a minha pele, e a intensidade de seus olhos fez meu coração acelerar.
— Eu também sinto o mesmo, Merlin — disse, meu coração batendo mais rápido. — Você é muito importante para mim.
O silêncio entre nós era palpável, carregado de sentimentos não ditos. Lentamente, comecei a inclinar-me em sua direção, e vi que Merlin fazia o mesmo. Fechei os olhos, esperando pelo que sabia que estava por vir.
Nossos lábios se encontraram em um beijo suave, mas cheio de significado. Foi um momento de pura conexão, onde todas as palavras e preocupações desapareceram. Senti a mão de Merlin segurar a minha ainda mais forte, como se ele estivesse se agarrando a essa sensação de segurança e conforto que compartilhávamos.
O beijo se aprofundou, e eu senti uma onda de emoções me envolver. A sensação era ao mesmo tempo nova e familiar, como se estivéssemos destinados a esse momento. Quando finalmente nos afastamos, olhei para ele e vi que seus olhos brilhavam com uma mistura de felicidade e surpresa.
— Uau... — Merlin disse, ainda ofegante. — Isso foi... incrível.
Sorri, sentindo meu rosto corar.
— Foi mesmo — concordei. — Acho que precisamos fazer isso mais vezes.
Ele riu, um som leve e alegre que fez meu coração se aquecer.
— Com certeza — Merlin disse, apertando minha mão. — Agora, mais do que nunca, sei que podemos enfrentar qualquer coisa juntos.
Sentamo-nos ali, lado a lado, saboreando a intimidade recém-descoberta e a promessa de um futuro compartilhado. A pequena fonte d'água voltou ao seu estado tranquilo, como se refletisse a paz que agora sentíamos. Sabíamos que o caminho à frente não seria fácil, mas com esse momento, estávamos prontos para enfrentar qualquer desafio juntos.
________________________________________________________________________________
Gostaram?
Até a próxima 😘
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top