Capítulo Vinte e Dois
Victor Jones:
O mundo ao meu redor tremia violentamente, e Mestre Borges reagiu prontamente, afastando-se de mim. Uma rachadura profunda surgiu na parede oposta, espalhando poeira e destroços pelo ar.
— Estamos sob ataque! — ele exclamou, seus olhos brilhando com determinação. Em um gesto rápido, conjurou um portal reluzente que nos envolveu instantaneamente.
Fomos transportados de volta à superfície, que estava em um estado muito pior do que eu poderia imaginar. O caos reinava, com edifícios em ruínas e chamas dançando no horizonte, enquanto o som de gritos e explosões ecoava ao nosso redor. Meu coração disparou, e a sensação de desespero aumentou, mas ao olhar para Mestre Borges, vi em seus olhos uma centelha de esperança, uma promessa de que juntos enfrentaríamos qualquer ameaça que surgisse.
Os alunos menos experientes entraram em pânico, correndo para o interior do castelo, enquanto os mais versados na magia se lançavam na defesa contra o ataque que se desencadeava. Foi então que observei a tempestade se formando sobre o castelo, transformando-se em um pequeno furacão. Nuvens em forma de funil se aproximavam, parecendo tentáculos de uma gigantesca água-viva monstruosa.
O vento arrastava cadernos, casacos, bonés e mochilas pelo ar. Nesse caos, uma pequena besta divina surgiu no chão e se lançou na defesa contra os tentáculos que se estendiam em sua direção.
Anna brandia sua faca com destemor, Merlin empregava seus poderes para enfrentar as criaturas, enquanto Duncan conjurava bestas para o combate. Eu estava prestes a me juntar a eles para proteger os outros quando Mestre Borges segurou meu pulso com delicadeza.
— Mestre — implorei. — Deixe-me ajudar!
— Victor, fique atrás de mim — ordenou com firmeza. — Essa criatura deve estar atrás de você. Sabíamos que uma dessas entidades do caos viria, mas lembre-se de que você ainda não conseguiu utilizar seus poderes em combate de forma eficaz.
— Mas já fiz isso uma vez, me defendendo! — argumentei, a urgência e a frustração evidentes na minha voz.
Mestre Borges olhou fundo nos meus olhos, sua expressão carregada de preocupação e determinação.
— E é por isso que você precisa ficar seguro agora. Sua vida e seu potencial são valiosos demais para serem desperdiçados em uma luta que você não está pronto para enfrentar. Confie em mim, Victor. Nós iremos protegê-lo.
Respirei fundo, o medo e a adrenalina lutando dentro de mim. Eu queria desesperadamente ajudar meus amigos, mas as palavras de Mestre Borges pesavam sobre meus ombros. Eu sabia que ele estava certo, mesmo que meu coração clamasse por ação.
Um relâmpago surgiu do céu, arremessando um aluno pelos ares. Meteora e os outros mestres faziam de tudo para proteger os estudantes. Uma risada zombeteira ecoou diante de nós, provocando calafrios. Mestre Borges empunhou seu cajado feito de galho de árvore, ainda adornado com brotos e folhas, e sua mão esquerda brilhou intensamente.
Uma figura feminina materializou-se no ar, cabelos cacheados voando ao redor de seu rosto enquanto sua risada gerava eletricidade no ar. Mestre Borges apertou o cajado com firmeza, seus nós dos dedos ficando brancos.
— Ah, pare com isso, Borges. Deixe o garoto me atacar! Afinal, você está ficando velho para isso. Foi por esse motivo que o trouxeram a este lugar estúpido? — zombou a tempestuosa mulher, sua voz repleta de veneno. — Lembre-se por que sua querida filha morreu. Você está perdendo a capacidade de usar magia e de lutar, papai.
Mestre Borges emitiu um som raivoso, seu cajado brilhando com um azul gélido.
— Acabou, demônio. Você já era — afirmou com determinação, seus olhos fixos na inimiga.
A mulher tempestuosa sorriu de maneira cruel, relâmpagos dançando ao seu redor.
— Acha que pode proteger os outros alunos, este lugar e o guardião de uma vez, velhinho? — provocou, sua voz gotejando desprezo. — Boa sorte.
O ar ao nosso redor parecia vibrar com a tensão, e eu podia sentir a raiva e a tristeza de Mestre Borges. Apesar das palavras cruéis da mulher, ele permaneceu firme, sua presença uma âncora no caos que nos cercava. Eu sabia que, por mais assustadora que fosse a ameaça, Mestre Borges não recuaria. E eu, por mais inexperiente que fosse, não poderia deixá-lo enfrentar isso sozinho.
Olhei para o céu, onde uma grande quantidade de luz se acumulava, e depois caiu em nossa direção. Mestre Borges girou seu cajado, liberando uma enorme quantidade de magia que explodiu no céu em um espetáculo de cores brilhantes. Fechei os olhos com força, ouvindo o som das asas das criaturas se aproximando como tambores retumbantes. O vento se tornou agitado, soprando contra minhas bochechas conforme elas se aproximavam, um som de asas batendo no ar que se tornava cada vez mais alto.
— Preparem-se para o ataque! — um comando ecoou, sobrepondo-se aos ruídos das asas e dos seres tempestuosos.
Meus olhos se ajustaram à paisagem diante de mim, e então as criaturas aladas surgiram. Tinham corpos de morcego com cabeças que lembravam uma estranha mistura de enguias. Eram centenas delas, planando e mergulhando pelo ar ao redor das pessoas. Eram mais aterrorizantes do que qualquer monstro que eu já imaginara.
Cada criatura emitia um grito estridente, seus olhos brilhando com uma malícia predatória. O caos se instalou rapidamente, com alunos e mestres lutando desesperadamente para se defender. A energia mágica no ar era palpável, uma mistura de feitiços defensivos e ataques ferozes.
Mestre Borges estava no centro da batalha, seu cajado brilhando enquanto ele conjurava barreiras e disparava rajadas de energia contra as criaturas. Sua determinação era evidente, mas também havia um cansaço em seus movimentos, uma indicação de que o combate estava cobrando seu preço.
Eu sabia que precisava fazer algo. A visão das criaturas atacando meus amigos e mestres me encheu de uma coragem inesperada. Respirei fundo, canalizando a magia dentro de mim, sentindo-a fluir como um rio poderoso. Ergui minhas mãos e invoquei uma barreira de proteção ao nosso redor, tentando imitar as técnicas que havia aprendido com Mestre Borges.
O campo de batalha estava em um turbilhão, mas com a ajuda de todos, eu sabia que tínhamos uma chance. As criaturas eram numerosas e ferozes, mas a força de nossa união e a determinação de proteger uns aos outros nos davam uma vantagem. E, com Mestre Borges liderando, sentia que, de alguma forma, poderíamos vencer essa batalha.
Enquanto a tempestade lutava contra Mestre Borges para me capturar, todos se esforçavam para se defender. Eu não iria deixar ninguém perder dessa vez.
Então, um súbito e penetrante fluxo de luz explodiu diante dos meus olhos, preenchendo minha mente e me cegando. De algum lugar acima, ouvi o grito terrível das criaturas. E então, na palma da minha mão, surgiu uma espada perigosa, uma arma de lâmina dupla e afiada, feita inteiramente de ouro branco: punho, lâmina e guarda-mão.
Meus dedos se encaixaram perfeitamente na empunhadura. Era uma espada incrível. Rápido como um relâmpago, desferi golpes certeiros, vendo as formas etéreas das criaturas se desintegrarem diante de mim. A espada parecia absorver a energia elétrica dos ataques e a devolver em dobro. Eu atacava com precisão, e os espíritos se desfaziam em pó dourado.
A tempestade virou-se em minha direção, e eu a encarei com determinação.
— Isso é impossível! — ela gritou, sua voz soando indignada. Olhava para baixo como se esperasse que seus companheiros retomassem suas formas, mas o vento espalhara o pó dourado. Seus outros monstros estavam mortos.
Impulsionei meu corpo em direção a ela, que se afastava desesperada. Fixei meu olhar em sua forma oscilante no ar, arremessando a espada em sua direção. Ela desapareceu antes mesmo de a lâmina tocá-la.
Voltei ao chão, a espada havia se dissipado no ar, e a sensação de explosão que havia percorrido meu corpo começou a se dissipar. Em seguida, não senti mais nada além de braços ao meu redor.
Os braços ao meu redor eram reconfortantes, e gradualmente minha visão retornou ao normal. Olhei ao redor e percebi que a tempestade havia se acalmado, e os alunos, embora abalados, estavam seguros. Mestre Borges se aproximou de mim com um sorriso orgulhoso.
— Você fez um trabalho incrível, Victor — elogiou ele. — Sua habilidade com a espada e sua coragem nos momentos de perigo são notáveis.
Assenti, ainda atordoado pela intensidade da batalha. A energia que fluíra através de mim quando empunhei a espada ainda estava presente, mas agora estava sob controle e começava a se desfazer lentamente.
Em meio ao caos e à exaustão, meus olhos se fecharam involuntariamente, e lentamente afundei em um estado de torpor, o peso dos eventos do dia finalmente me alcançando.
Senti o toque gentil de Mestre Borges me amparando enquanto minha consciência se desvanecia, uma sensação de segurança e realização me envolvendo. Eu sabia que, independentemente dos desafios futuros, não enfrentaria nada sozinho.
*****************
Fui arrastado para um sonho profundo, onde as fronteiras entre a realidade e a imaginação se tornaram difusas, misturando-se em um turbilhão de sensações e imagens.
No meu sonho, encontrei-me em um lugar estranho e etéreo. Tudo ao meu redor era envolto em uma névoa suave e irreal, como se estivesse flutuando em um mar de pensamentos e memórias. Na distância, formas indistintas se moviam, como sombras dançantes, criando um cenário de mistério e encanto.
À medida que eu caminhava por esse mundo onírico, comecei a ouvir vozes sussurrantes, murmúrios que pareciam vir de todos os lados. Eram vozes de outras pessoas, falando em línguas antigas e desconhecidas. Tentei alcançá-las, mas elas se afastavam, como ecos dos pensamentos perdidos no tempo, aumentando minha curiosidade e inquietação.
Então, uma figura se materializou à minha frente. Era uma mulher de beleza etérea, com cabelos longos que se misturavam com a névoa ao seu redor. Seus olhos eram profundos como poços de sabedoria, e ela sorriu para mim com uma gentileza que parecia transcender o tempo.
— Victor, guardião — disse ela em uma voz suave que ecoou em minha mente, envolvendo-me como um abraço reconfortante. — Você tem o poder de desvendar os mistérios ocultos, mas também carrega o peso das escolhas que deve fazer.
Um calafrio percorreu minha espinha enquanto a mulher se aproximava de mim. Ela estendeu a mão e tocou minha testa, e imagens e visões começaram a se desenrolar diante dos meus olhos. Vi flashes de eventos passados, presentes e futuros, todos entrelaçados em uma tapeçaria de destinos conectados.
— Quem é você? — perguntei, minha voz tremendo de emoção.
— Você é a chave para o equilíbrio, Victor — continuou ela, ignorando minha pergunta. — A magia e os segredos do mundo espiritual fluem por suas veias além da magia do mundo físico. Mas lembre-se, o poder sem sabedoria pode ser destrutivo. Suas escolhas moldarão o destino deste mundo.
Senti uma mistura de medo e responsabilidade enquanto suas palavras ecoavam dentro de mim. Antes que eu pudesse responder, a névoa começou a se fechar ao meu redor, obscurecendo a visão da mulher. Sua voz ecoou uma última vez em meus ouvidos, deixando uma marca indelével em minha alma.
— O caminho que você escolher é seu, mas as consequências serão compartilhadas por todos. A jornada está apenas começando, Victor, guardião. As sombras querem você e o seu poder agora, sabendo o que pode fazer nesse instante.
Ela começou a se desfazer lentamente, suas últimas palavras pairando no ar como um lembrete sombrio do que estava por vir. A névoa ao meu redor se tornou mais densa, e eu senti minha consciência sendo puxada de volta para o mundo real, mas as palavras da mulher e as visões que ela me mostrou permaneceram gravadas em minha mente, preparando-me para os desafios que estavam por vir.
*******************
Minha súbita retomada à consciência foi acompanhada por uma sensação de pânico. Ao abrir os olhos, percebi que estava de volta ao meu quarto, mas as nuvens escuras de tempestade que ainda pairavam em minha mente não me deixaram em paz.
Com esforço, ergui-me, sentindo cada parte do meu corpo latejar de dor. Meus olhos percorreram o quarto em busca de respostas.
— Finalmente, acordou — disse uma voz vinda das sombras. — Preparei um chá para ajudar na sua recuperação e acalmar a sua garganta.
Virei-me na direção da voz e deparei-me com Merlin sentado à beira da minha cama. Com um gesto de suas mãos, uma xícara de chá materializou-se e foi gentilmente oferecida a mim.
Aceitei o chá com gratidão, enquanto Merlin estudava o meu rosto com calma. O gosto amargo do limão invadiu minha boca.
— Todos os outros estão bem? — perguntei, preocupado.
— Todos estão em segurança, embora alguns tenham sofrido ferimentos nas mãos dos monstros e dos elementais — explicou Merlin. — Alguns têm cicatrizes, mas estão vivos.
Ele fez uma pausa, aguardando que eu terminasse o chá.
— O que aconteceu comigo? — indaguei, ansioso por respostas.
— Bem... — Merlin começou.
— Guardião espiritual — Meteora interrompeu, entrando na sala. — Essa é a habilidade mais poderosa à disposição de um guardião. Ela projeta todas as habilidades e conhecimentos dos guardiões anteriores para defendê-lo. Seu corpo ainda não está totalmente em sintonia com esses poderes ou os dons dos seus antecessores.
— Então, preciso de mais treinamento com meus poderes — concluí.
Meteora assentiu e trouxe uma cadeira para se sentar ao meu lado.
— Você desmaiou devido à sobrecarga de tantas magias de uma só vez. Estou contente por você ter se recuperado tão bem — ela disse. — Mas irei ajudá-lo com calma; podemos discutir isso mais tarde. Agora, apenas descanse.
Concordei lentamente e, mais uma vez, a porta se abriu. Uma jovem apareceu, seu sorriso caloroso iluminando o quarto. Seus cabelos brancos estavam presos em um rabo de cavalo lateral, e eles caíam sobre um de seus ombros.
Seus olhos irradiavam calor enquanto ela observava minha condição. Senti que havia algo familiar nela, até que finalmente percebi que ela se assemelhava muito a Rafael, a cópia da irmã mais velha.
— Princesa herdeira — Meteora fez uma reverência respeitosa. — É um prazer revê-la após tanto tempo.
— Princesa herdeira Aurora Boutier — disse Merlin, forçando um sorriso. — É uma honra ver o sol do futuro.
Quem teria imaginado que eu teria o privilégio de conhecer os dois filhos da família real de Florença?
O quarto, antes envolto em uma atmosfera de tensão e preocupação, agora estava repleto de uma aura de esperança e renovação. Sentia-me exausto, mas também revigorado pela presença de aliados tão poderosos e pela promessa de um futuro onde eu poderia crescer e dominar meus poderes. A jornada estava apenas começando, e eu estava determinado a enfrentar qualquer desafio que viesse pela frente, sabendo que não estava sozinho.
______________________________________
Gostaram?
Até a próxima 😘
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top