Capítulo Trinta e Três
Victor Jones:
O dia seguinte foi marcado por um treinamento exaustivo. Quando finalmente me sentei à mesa do refeitório à noite, estava completamente exaurido. Meu prato estava abarrotado de comida, e um grupo de espíritos, com um brilho mágico que lembrava cristais doces, trazia biscoitos encantados para mim.
Mordi um dos biscoitos, e o sabor maravilhoso trouxe um alívio bem-vindo. Rafael apareceu ao meu lado, erguendo um pedaço de pão no ar, que Matt prontamente pegou e começou a saborear.
As garotas se serviram de um pudim roxo que tingiu seus lábios e línguas com tons de índigo escuro. Merlin, com sua curiosidade típica, perguntou:
— Por que você pegou essa coisa estranha? — Ele cutucou o pudim com sua colher.
Anna defendeu o prato roxo:
— Não é estranho, é delicioso.
Aurora revirou os olhos enquanto exibia manchas escuras nos lábios. Apesar disso, ela mantinha sua serenidade habitual, e até mesmo seu espírito, Appa, o espírito do fogo, comia flocos de neve que ela criava.
Rebecca, interessada nos biscoitos, pediu:
— Victor, posso pegar um biscoito?
Eu assenti, e imediatamente outro biscoito apareceu na minha bandeja. Duncan notou o fenômeno e comentou:
— Acho que eles nunca fizeram isso por ninguém na história. — Ele experimentou um dos biscoitos e soltou um som de aprovação. — Eles são incríveis!
Rafael, agora com um biscoito na mão, perguntou:
— Como estão indo as aulas de defesa e ataque de vocês?
Merlin respondeu com um toque de frustração:
— Passamos horas estudando todos os tipos de magia e tentando dominá-los. Eles nos pressionam muito para obtermos os melhores resultados.
Duncan acrescentou:
— Após o que aconteceu na noite passada, as coisas vão ficar ainda mais intensas. Os aprendizes vão enfrentar elementais em combate, e nossas aulas de invocação têm sido incríveis até agora.
Rebecca, tentando aliviar a tensão, indagou:
— E como está sendo o aprendizado sob a tutela da Mestre Meteora?
Anna respondeu gentilmente:
— Imagino que ele esteja aprendendo os feitiços mais básicos. Lembro-me de como foi aprender os feitiços com o vento.
Aurora complementou:
— Mas esse é um desafio para ele. Rafael não possui magia no corpo.
Rafael, no entanto, estava entusiasmado ao compartilhar:
— A Mestre Meteora me ensinou a usar glifos para conjurar bolas de fogo e a usar o metal presente na terra para flutuar. Consegui ficar a doze centímetros do chão!
Suas palavras me surpreenderam, considerando que o rei era um mago do elemento água e a rainha possuía poderes do elemento relâmpago. Segundo a lógica, seus filhos deveriam herdar um desses atributos, mas às vezes nasciam sem nenhuma magia, uma situação complicada para uma família real de magos.
De repente, meu pensamento foi interrompido por um resmungo distante. Notei que os olhares estavam voltados para nossa direção, com alguém apontando. Com um gesto dos dedos, as pessoas foram lançadas para longe da mesa, causando uma confusão generalizada. As vozes gritavam em pânico, e todos correram para fora do refeitório.
— Pessoal — chamei, e os espíritos resmungaram em sua língua antiga. Segundos depois, finalmente se acalmaram e voltaram com os biscoitos que haviam fabricado.
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Após comer, mergulhei nas minhas aulas. À tarde, com algum tempo livre, dirigi-me à minha árvore de meditação.
— Senhor guardião? — uma voz delicada me chamou.
Abri os olhos com suavidade e deparei-me com a figura de Meteora. Um olhar preocupado estava estampado em seu rosto ao me avaliar.
— Meditar e entrar no mundo espiritual para encontrar um momento de paz parece ser uma boa solução para você — disse Meteora com gentileza. — Imagino que seus dias tenham sido agitados.
Ela pediu que eu descesse dos galhos, e eu não tinha ideia do motivo de sua visita, já que não a via desde a reunião com o rei Orwen, que ocorreu há vários dias. Horeom tinha me informado que ela estava bem, na medida do possível, mas eu não sabia se devia acreditar completamente nele. Além disso, soube que o sumo sacerdote estava treinando alguns magos na domesticação de elementais, pégasos e outras criaturas do mundo mágico.
— Shh, sei que está com muitos pensamentos — disse ela, com uma voz amigável, antes de me pedir para segui-la. Foi então que notei uma espécie de tatuagem em sua mão, lembrando uma corrente que se estendia dos dedos até o pulso.
— O que são essas marcas? — perguntei, curioso.
As tatuagens se moveram e começaram a subir pelo braço de Meteora, que mordeu o lábio com dor.
— Marcas de punição — explicou Meteora, enquanto as correntes se moviam, emitindo um brilho sombrio. — Elas foram aplicadas para me manter próxima das dependências do castelo. — Fez uma pausa e continuou. — O rei reduziu ainda mais minha liberdade. Antes, eu podia ir até a metade dos degraus que levam ao estacionamento, mas depois dos recentes eventos, meu alcance foi reduzido a poucos metros do castelo.
— Meteora, eu não queria que isso acontecesse — falei, com o peito apertado de preocupação. — Me desculpe.
— Não precisa se desculpar. Nada do que está acontecendo comigo é culpa sua — disse ela com um sussurro amigável, embora eu pudesse sentir a tristeza em suas palavras.
Mesmo que Meteora dissesse isso, meu coração doía por ela. Por que ela deveria ser punida pelos erros dos outros? E então ouvi dizer que hoje era um dia especial.
Ela me convidou para um passeio, algo que raramente acontecia. Isso se devia ao fato de eu ser jovem e ter evitado sair frequentemente nos últimos dias devido aos acontecimentos recentes. Já fazia um tempo desde que eu não saía sem a companhia de Erick, então imaginei que Meteora veio para me fazer companhia e ser um pouco amigável.
Enquanto caminhávamos, Meteora começou a compartilhar histórias sobre como ela criou esse lugar e por que acreditava que era a melhor opção para as pessoas se protegerem e crescerem sem problemas.
Foi quando chegamos perto de uma antiga árvore que parecia estar à beira da morte, mas ninguém ousava removê-la do solo. No tronco, estavam gravados dois nomes: Maryse e Demétrio, cercados por um coração.
— Por que não retiraram essa árvore? — perguntei, curioso.
— São duas pessoas que me foram muito queridas e que plantaram esta árvore. Não consigo me despedir desta última lembrança — disse Meteora, olhando para as folhas mortas espalhadas pelo chão.
Ela entoou um pequeno mantra, e todas as folhas caídas levantaram-se, expondo suas nervuras. Reuni-as e, com um toque de magia, escrevi uma mensagem. As folhas brilharam e voltaram a aderir aos galhos da árvore.
— Fui eu e Horeom quem treinou e criou Maryse e Demétrio Shinewood. Maryse plantou esta árvore — Meteora explicou, colocando a mão sobre o tronco agora cinza. — Venho aqui sempre para que ela não morra sem deixar vestígios de vida. — Suspirou. — Talvez você ache tolo eu me sacrificar tanto pelos outros.
— Eu não penso assim — respondi, me aproximando da árvore e colocando a mão no tronco, sentindo a magia que fluía como uma linha fraca. Murmurei o mantra e, coluna por coluna, vi a árvore se transformar diante dos meus olhos, ouvidos e membros. Era melhor fazer isso em dupla, mas até mesmo neste mundo, ajuda era bem-vinda.
Afastei-me, observando a árvore vibrar com vida. Meteora olhava com olhos brilhantes.
— Agradeço, guardião — disse ela. — Isso pode simbolizar esperança para o futuro deste mundo.
— Você não me trouxe aqui apenas para ver essa árvore encantada — percebi, e Meteora retirou um envelope do bolso de sua calça. Reconheci o selo da família real de Florença.
— Eles querem que você compareça a uma festa após o término do semestre. Será o aniversário de casamento do rei e da rainha — Meteora explicou, entregando-me o envelope. — Não posso mais recusar eventos em seu nome, então vá. Aurora e Rafael irão com você. Merlin também será uma ótima companhia. Os outros irão em meu nome e do mestre Borges.
— Como ele está? — perguntei, referindo-me ao mestre Borges.
— Ele tem estado pensativo nos últimos tempos, mas irá se recuperar e voltará a ser quem ele foi no passado — Meteora respondeu, virando-se para começarmos o caminho de volta. — Também gostaria de parabenizá-lo por seu desenvolvimento espiritual. Mas uma dica, talvez seja bom fazer um acordo com algum espírito o quanto antes e ter um guia espiritual.
Ponderei sobre isso e me lembrei de Urlac, que queria fazer um contrato conosco. Quando Meteora me deixou sozinho, meditei, esperando a aparição do príncipe dos espíritos.
Ao atravessar as barreiras para o mundo espiritual, me vi em uma floresta e me assustei com as mudanças em minhas roupas. No entanto, Urlac não estava por perto, então comecei a procurá-lo.
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O clima no mundo espiritual flutuava incessantemente, alternando entre rajadas de vento gelado e neve molhada que se agarrava às minhas vestes, enquanto eu arrastava meu corpo cansado através desse ambiente etéreo. Meu pescoço se arrepiava sob o manto de palha rudimentar que eu havia jogado sobre os ombros. Cada passo me conduzia por um terreno irregular e imprevisível, mas finalmente deparei-me com algo notável.
Um pilar de madeira, alto e vertical, erguia-se solitário no centro de um pátio circular. Não havia ornamentos ou entalhes, apenas a textura lisa e enigmática da madeira, fixada firmemente no solo espiritual. Minha curiosidade me levou a circundá-lo, buscando algum sinal ou inscrição que pudesse revelar seu propósito.
Nesse momento, uma voz alta e inquietante rompeu o silêncio do lugar. Virei-me abruptamente para encarar a figura sinistra que se materializou atrás de mim. Era Urlac, com seu rosto desagradável e penetrante.
— Olá, Victor! O que você está fazendo em um lugar como este? — ele vociferou, sua voz ecoando nas estranhas dimensões espirituais.
Minha respiração estava suspensa enquanto eu buscava uma resposta coerente.
— Nem eu sei essa resposta — murmurei, sentindo a urgência de encontrar palavras. — Mas estava te procurando para conversar.
Urlac avançou em minha direção, sua expressão indecifrável. Ele se aproximou do pilar enigmático e, com um gesto, indicou-o com um aceno de cabeça.
— Essa é uma das conexões com o mundo físico e espiritual — Urlac explicou, sua voz reverberando com um toque de mistério. — Um local ideal para selar um contrato. Não esperava que estivéssemos chegando a esse ponto.
Minha mente estava em turbilhão, mas eu sabia o que queria. Firmei meu olhar em Urlac e expressei minha vontade com determinação.
— Se isso acontecer, quero que sejamos tratados como iguais — declarei, as palavras brotando de minha boca com firmeza. — Nada mais, nada menos do que uma sólida amizade e parceria.
Urlac me encarou, seus olhos perscrutadores sondando minha alma. Um sorriso enigmático surgiu em seus lábios enquanto ele estendeu a mão na minha direção.
— Estarei às suas ordens — ele concordou, fazendo uma reverência solene. — Quando precisar de mim, basta pronunciar meu nome.
Assenti, agradecido, e nossas mãos se encontraram em um aperto de mão firme. No instante seguinte, uma pulseira dourada surgiu em nossos pulsos, simbolizando o vínculo recém-formado.
O frio e a neve pareciam dissipar-se ao redor de nós, substituídos por uma sensação de calor e poder. Eu sabia que essa parceria mudaria tudo, e estava preparado para enfrentar o que viesse pela frente, agora com Urlac ao meu lado.
— Tenho algo para te mostrar — Urlac disse e pegou minha mão.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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