Capítulo Trinta
Victor Jones:
Quando voltei ao castelo, esperei ansiosamente para ser chamado e discutir o que havia acontecido. Fiquei ao lado da porta mágica que levava ao auditório, onde todos os mestres estavam reunidos. Percebi que Merlin e os outros foram proibidos de ficar ao meu lado, o que me deixou em silêncio, como se aguardasse uma sentença que poderia mudar tudo.
A tensão no corredor parecia durar uma eternidade, até que finalmente o mestre Damian apareceu e acenou para que eu entrasse no recinto.
Ao cruzar o limiar, fiquei maravilhado com a beleza do auditório. As paredes internas estavam adornadas com cascatas de seda cor de bronze que captavam a luz das velas encantadas, fazendo o ambiente brilhar. Candelabros reluzentes pairavam no alto, lançando uma luz suave sobre os presentes. O chão era coberto por um longo tapete vermelho que se estendia até o trono real.
Ao longo das paredes, divisores brilhantes de seda separavam cavaleiros em armaduras vibrantes, protegendo figuras que não conseguia reconhecer à distância, além de nobres engajados em conversas ou relaxando em bancos. Alguns bebiam líquidos cintilantes, enquanto outros jogavam xadrez com intensidade. Uma melodia suave fluía no ar, criando uma atmosfera de majestade.
Muitos dos presentes ostentavam o brasão da família real, um ganso dourado com olhos de diamantes rosas. Aquele auditório não se parecia em nada com as fotos ou com a reunião anterior quando fui revelado como guardião. Era um lugar vivo, pulsante de poder e riqueza.
Além dos mestres, membros da assembleia também estavam presentes. Horeom estava ao lado de Meteora, e seus sorrisos discretos trouxeram algum conforto.
Então, uma figura se destacou no centro da sala, e meu coração acelerou. Todos se calaram, e todos os olhares se voltaram para a figura que havia acabado de entrar.
A pessoa apoiou o queixo em uma mão adornada com inúmeros anéis e usava uma coroa na testa. Era impossível não notar sua beleza. O rei de Florença governava a nação desde antes do meu nascimento, mas o homem à minha frente não parecia tão velho quanto sua posição sugeriria. Ele tinha um rosto bonito e severo, cabelos brancos e espessos, e olhos cinza-claros que brilhavam como quartzo.
Pude ver claramente que Rafael e Aurora herdaram a beleza de seus pais. Era surpreendente ver a genética em ação.
Uma mulher loira-acastanhada ficou de pé atrás da rainha, falando em um tom baixo demais para que eu pudesse ouvir.
Meu rosto esquentou ao imaginar qual seria minha aparência aos olhos da realeza deste mundo, já que minhas roupas pareciam simples em comparação.
— Então — começou o rei Orwen, e o silêncio na sala tornou-se absoluto. — Permitiram que ele saísse sem supervisão de qualquer tipo de guarda, apenas na companhia do filho do rei dos espíritos. Se não fosse pelo broche que meu filho deu, nunca teríamos conhecimento dessa situação. Eu pensei que, sob a supervisão da melhor treinadora de magos da nação, seria fácil manter um olho nele ou, melhor ainda, deixar um adolescente sob controle, especialmente sendo a pessoa mais poderosa do nosso mundo.
Horeom apertou a mão de Meteora discretamente, e pela primeira vez desde que a conheci, ela estava visivelmente nervosa.
Olhei na direção deles, e o rei fixou seu olhar diretamente em mim. Ele continuou falando, mantendo uma postura dura e rígida, mas seus olhos permaneciam concentrados e atentos. Ele direcionou sua atenção novamente aos mestres, e percebi que estava prendendo a respiração involuntariamente.
Agradeci internamente que Urlac não estava presente, evitando causar um tumulto desnecessário com seu olhar provocador.
— Ainda não sei o que é mais chocante: meu filho ter tido contato com o novo guardião antes da princesa herdeira, contrariando todas as diretrizes, ou o fato de que seres das trevas estão tentando assassiná-lo, sugerindo que podemos ter um informante entre nós. Ou, talvez, o mais preocupante seja que a escola dos magos foi atacada duas vezes nos últimos meses — o rei disse, batendo com força na mesa, fazendo-me pensar que ela iria se partir. — Mestra Meteora, faça seu relatório.
Meteora se ajeitou na cadeira, seu rosto assumindo uma expressão imperturbável.
— Eu estava em uma reunião com os magos, solicitando informações, quando o príncipe Rafael surgiu através de um portal, relatando o que estava acontecendo com Victor e pedindo ajuda — explicou Meteora, e houve uma hesitação perceptível em sua voz quando o rosto do rei se tornou ainda mais sombrio. — Faremos o possível para garantir a segurança dele nos próximos dias.
— E como planejam fazer isso? — o rei questionou, e todos permaneceram em silêncio. — Mestra Meteora, esperava mais de você. Afinal, permitiu ser castigada pelos filhos de traidores. Irá confiná-lo em seu quarto até que seja considerado seguro sair e ser aclamado como herói? Seria algo desse tipo que se passa em minha mente?
Horeom levantou a mão.
— Não estou certo de que essa seja a melhor solução. Victor é jovem e estava com saudades de sua família e amigos — disse Horeom calmamente, com uma expressão serena. — Jovens tendem a tomar decisões impulsivas quando suas emoções estão à flor da pele. Ele passou meses afastado de tudo que lhe era familiar e agora quer trancá-lo como se fosse uma fera até que você decida que ele deve ser solto.
Um murmúrio percorreu a multidão. Cada indivíduo na sala assentiu, e eu me vi fazendo o mesmo. Sentia falta de tudo o que tinha antes de chegar a este mundo. Todos recobraram a atenção e aguardaram a continuação.
— Sumo Sacerdote Horeom — disse o rei. — Ele saiu sem aviso prévio. Agora, me diga, em sua opinião, ele não merece ser punido por sua fuga?
— Não quis dizer isso, vossa majestade — respondeu Horeom. — Ele merece ser punido, mas com parcimônia.
O rei arqueou uma sobrancelha e se voltou para os outros mestres.
— Quem mais acredita que esta não é uma questão significativa? — A voz do rei era fria, quase desinteressada, e os mestres começaram a discutir em murmúrios. Então, lentamente, o mestre Borges deu um passo à frente. Senti compaixão por ele, pois nunca o tinha visto tão desgastado, com uma expressão cansada.
— Como todos sabemos, ele é apenas uma criança. Ele precisava saber se sua família estava a salvo. Essa questão não ficará sem consequências para ele, mas podemos ver que ele precisava de notícias e não deveria ter sido deixado no escuro nos últimos dias desde o primeiro ataque — falou Mestre Borges. — Todos cometemos erros na juventude, mas é assim que aprendemos. Ele precisa entender os riscos que vêm com o cargo de guardião e saberá lidar com isso em nome de sua família.
— Então, você está culpando os outros mestres e a si mesmo por isso? — O rei indagou, e todos os olhares se voltaram para mim. Minhas palavras escaparam antes que eu pudesse me controlar.
— Parece que você está procurando uma razão para me expulsar do castelo — falei. — Está querendo usar isso para me tirar deste lugar e me levar como uma espécie de troféu.
Um silêncio sepulcral tomou conta do auditório. Ninguém esperava que essas palavras saíssem da minha boca. Vi os rostos perplexos ao meu redor, e o rei ficou visivelmente enfurecido. Seus olhos, antes atentos, agora brilhavam com uma intensidade ameaçadora.
— Como ousa? — A voz do rei ecoou pelo salão, carregada de fúria. — Você, um guardião, se atreve a questionar minhas intenções?
A tensão na sala aumentou, e pude sentir o peso do olhar de todos sobre mim. Horeom tentou intervir, mas o rei levantou a mão, silenciando-o.
— Você não entende a responsabilidade que carrega — continuou o rei, sua voz agora baixa, mas ainda repleta de raiva. — Não se trata apenas de você. Trata-se do reino, da segurança de todos. Se não pode entender isso, talvez realmente não tenha lugar aqui.
As palavras do rei eram como facas, cortando profundamente. Eu sabia que precisava responder com cuidado.
— Vossa majestade — comecei, tentando manter a calma na minha voz —, eu compreendo a gravidade da situação. Mas também acredito que devemos encontrar um equilíbrio entre dever e compreensão. Sou novo nesse mundo, mas estou disposto a aprender e a proteger todos, desde que me seja dada a oportunidade de provar meu valor.
O rei me olhou fixamente por um longo momento, sua expressão ainda rígida, mas havia uma centelha de reflexão em seus olhos.
— Muito bem — disse ele finalmente, sua voz mais controlada. — Vamos ver se suas ações podem corresponder às suas palavras. Por ora, você permanecerá sob supervisão rigorosa. Qualquer deslize será tratado com a severidade necessária.
Com isso, o rei fez um gesto para encerrar a reunião. Enquanto os presentes começavam a se dispersar, senti um misto de alívio e apreensão. A batalha estava longe de terminar, mas pelo menos, por agora, eu ainda tinha uma chance de provar meu valor.
— Victor, pode se retirar — disse Meteora, levantando-se de seu assento.
Virei-me de costas para todos e, por fim, saí do auditório, sentindo o peso do momento e a responsabilidade que agora recaía sobre mim.
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Entrei no quarto, batendo a porta com força, e desabei na cama. Enquanto pegava o celular, a porta se abriu lentamente, revelando uma pequena figura que me olhava com olhos repletos de culpa.
— Guardião, me desculpe — disse Rafael, suas palavras carregadas de arrependimento.
— Não há nada pelo que se desculpar, Rafael. Você fez a coisa certa ao pedir ajuda. E, por favor, chame-me pelo nome. Somos amigos — respondi, tentando tranquilizá-lo.
Antes que Rafael pudesse responder, a porta se abriu novamente, e várias pessoas entraram no meu quarto. Anna, Duncan, Rebecca, Merlin e outros membros do grupo.
— Você não podia esperar por nós? — perguntou Anna, enquanto Duncan a encarava com desaprovação. — Ouvi vocês discutindo lá fora e achei melhor entrar.
— Eu fui com o Urlac, na verdade — corrigi.
— Isso não faz diferença, Victor — interveio Rebecca. — A travessia entre os mundos consome muita magia espiritual, e você já está lidando com monstros. É perigoso.
Merlin se interessou pela conversa.
— Como foi encontrar o rei Orwen e a rainha Selena? — perguntou curioso.
— O rei é excêntrico, e a rainha estava ocupada demais para falar comigo — respondi, lembrando-me da explosão que causei durante a audiência. — Após a discussão com o rei, saí do local o mais rápido possível.
Aurora foi a próxima a falar quando mencionei a mulher ao lado de sua mãe.
— A dama de companhia dela, Seniana. Elas são inseparáveis desde que ela veio ajudar minha mãe com alguns problemas pessoais — explicou Aurora.
Pensei na cena das duas mulheres conversando em voz baixa.
Merlin, por sua vez, revelou um detalhe interessante.
— Você gritou com o rei Orwen? — perguntou, e eu assenti, sentindo minhas bochechas corarem. — Acho que estou ainda mais apaixonado por você agora.
Embora seu comentário me fizesse sorrir, tentei não me deixar levar por emoções em meio a toda essa confusão.
Enquanto estávamos na sala, uma agitação surgiu na parte principal da suíte, e reconheci a voz de Urlac me chamando.
— Mais problemas? — resmungou Duncan enquanto se virava para a porta. — Ele melhor não mexer nas minhas coisas.
— Boa sorte para controlá-lo — comentei. — Eu só quero um pouco de silêncio agora.
Todos assentiram e saíram do quarto, deixando-me sozinho. Rapidamente me deitei na cama e comecei a esvaziar minha mente lentamente enquanto olhava para o celular. Desde o início do meu treinamento com os espíritos, dois fenômenos estranhos ocorreram.
Sussurrei para mim mesmo enquanto, em resposta à minha vontade, algo flutuava. Eram espíritos de luz, feitos de pequenas partículas brilhantes. Eles eram as únicas coisas que eu atraía para mim e pareciam ter um papel protetor em minha vida. Eu conseguia sentir vagamente a presença deles mesmo antes de vê-los. Com o tempo, meus olhos foram totalmente abertos, permitindo-me não apenas vê-los, mas também comunicar-me com eles.
Eu tinha renascido com esse poder espiritual raro, tornando-me um grande espírito capaz de ver os espíritos que existiam como parte natural do mundo. Se eu pudesse demonstrar habilidades excepcionais no manejo desses espíritos de luz, meu valor como guardião certamente aumentaria significativamente.
No entanto, isso levantava a questão: qual é o propósito disso? O que isso realmente traria para mim?
Sorri amargamente. Mesmo com tantas habilidades excepcionais, não tinha vontade de compartilhar esse poder com os outros.
Enquanto passava mais uma hora aprimorando minha conexão com os espíritos, lembrei-me de que meu controle sobre a magia espiritual já ultrapassava em muito o de meus antecessores. Segundo as informações que obtive, mesmo o guardião mais habilidoso em desenvolver habilidades espirituais conseguiu dominar apenas um terço do poder espiritual disponível.
Atualmente, sou capaz de controlar 60% dessa energia, e tenho esperanças de aumentar essa porcentagem. Despertar para elementos duais não apenas me deu o dobro da capacidade de controle, mas também mais tempo de prática em comparação com outros guardiões.
Essa é uma vantagem incrível.
Mas, no final das contas, qual é o propósito de tudo isso?
Peguei o celular e vi uma mensagem de Carla, provavelmente relacionada à alteração das memórias de todos que visitei. Desliguei a tela e tentei acalmar minha mente, pronto para um merecido descanso.
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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