Capítulo Dois
Victor Jones:
Entramos no colégio, e o burburinho dos estudantes preenchia o ar. Max foi para o campo de futebol, e eu segui para minha primeira aula. Com sorte, hoje seria um dia tranquilo, sem incidentes, apenas uma rotina normal. Algo que eu realmente precisava.
Em segundos, fui cercado assim que meus amigos me viram. Todos estavam ali, toda a turma que eu não via desde o início das férias de verão, além de outros colegas que me cumprimentaram rapidamente antes de entrarem no edifício.
Carla tinha crescido pelo menos uns três centímetros e estava mais bonita. Ela me cumprimentou, mas quando Brian se aproximou friamente, ela recuou, estreitando os olhos como os de um gato. Brian não tinha crescido nada e usava seu habitual gorro com touca laranja. Ele estendeu os braços para me abraçar.
Algo piscou em minha mente, uma sensação completamente fora de mim, e empurrei o Brian, que me olhou confuso.
— O que foi isso, Victor? — Brian perguntou, franzindo a testa. — O que aconteceu? Você e a Carla vão ficar evitando meus abraços?
— Sério, você não percebeu que está com o perfume tão forte que é insuportável ficar perto de você? — Carla disse. — Amigo, te amo, mas não use tanto perfume. Lembre-se de que os seus são muito fortes.
— Não é tão forte assim. Acho que estão exagerando — Brian disse, afofando a touca e sorrindo, os olhos castanhos cintilando de empolgação. Tive que me afastar.
— Eu... não sei. Desculpa, Brian — respondi, me sentindo imediatamente mal.
Carla observava a cena de longe, com uma expressão indecifrável. O constrangimento tomou conta de mim, e o que parecia ser um começo promissor de dia já estava arruinado.
— Bom, devo dizer que seu cabelo está dois tons mais claros por causa do sol... Mas cadê o bronzeado? Pensei que você tivesse ficado na Riviera Francesa — Brian continuou, tentando aliviar o clima.
— Você sabe que nunca me bronzeio — falei, erguendo as mãos para minha própria inspeção. — Só fui visitar alguns parentes, nada demais.
— Pelo menos deveria ter pegado um pouquinho de sol — Brian disse. — Qual é o sentido de viajar e não pegar um bronze ou tirar fotos para mostrar aos amigos?
— Realmente, ele nem renovou o guarda-roupa — Carla disse, analisando meu visual. — E ainda nem arrumou um namorado de verão.
— Verdade — Brian concordou. — Até eu arrumei namorados durante o verão.
— Tudo bem, acabou o show. Vamos — falei, irritado com esse assunto de vida amorosa. Sempre achei isso uma besteira.
Sem mais nada a dizer, partimos para o prédio da escola, andando apressadamente. Foi então que esbarrei em um rapaz.
— Desculpa — Ele me olhou irritado e seguiu na direção oposta quase correndo. — Que grosso.
— Quem? Seja quem for, você esbarrou nele — Carla disse, enquanto olhava seu horário de aulas ao mesmo tempo que o sinal tocava. — Qual é a sua primeira aula? A minha é inglês.
— Inglês — falei.
Brian olhou para nós, depois para o seu horário.
— Inglês — ele confirmou.
Juntos, seguimos para a sala de aula. Mesmo com o começo tumultuado, tentei me concentrar na rotina escolar. Afinal, hoje era o primeiro dia de aula, e eu estava determinado a fazer o melhor possível. A inquietação do sonho ainda estava presente, mas decidi ignorá-la e focar no presente.
Viramos o corredor e vi uma garota parada na porta da sala onde seria a aula de inglês. Ela estava com algo afiado na mão, mas ninguém parecia notar a situação. Quando ia me aproximar ou avisar alguém, Carla me puxou para entrar na sala de aula, desabando na primeira carteira que encontramos. Novamente, olhei para a porta, e ninguém notou a garota ao lado dela. Abaixei a cabeça e respirei profundamente para me acalmar.
Olhei para cima e não havia ninguém lá. Deve ter sido só minha imaginação, fruto de passar a noite quase inteira assistindo a filmes de aventura e fantasia.
Dei um suspiro aliviado e olhei em volta da sala. O lugar cheirava a livros e desinfetante. As enormes janelas envidraçadas davam para o gramado sul da propriedade da escola e, além disso, podia-se ver as colinas verdes e onduladas. Algumas árvores estavam amarelas e alaranjadas.
Pisquei e notei algo do lado de fora tremulando por um momento diante da janela. Contei mentalmente para não gritar assim que jurei ter visto um olho gigante voando pelo céu e olhando pela janela na direção da nossa turma. Contive a vontade de gritar ou ter um surto mental. Pensei em pegar meu celular e mandar uma mensagem para minha mãe, mas imaginei que ela diria para tomar um remédio da minha mochila e que talvez melhorasse. Parei de pensar nisso quando o professor lançou um olhar que parecia esperar minha cena paranoica ou de loucura.
Respirei fundo novamente, tentando afastar as imagens estranhas da minha mente. Talvez fosse apenas o nervosismo do primeiro dia de aula ou a falta de sono. Decidi me concentrar na aula, tentando ignorar qualquer sensação estranha ou visão bizarra.
O professor começou a falar sobre o plano de estudos para o semestre, e a familiaridade da rotina escolar ajudou a acalmar meus nervos. Ao meu redor, os colegas pareciam animados, comentando sobre as férias e trocando histórias. Eu me forcei a prestar atenção, anotando o que o professor dizia, tentando me distrair das preocupações que pareciam persistir.
O restante da manhã passou sem incidentes. Aos poucos, comecei a me sentir mais relaxado, permitindo-me acreditar que tudo estava bem. Afinal, era apenas o primeiro dia de aula. Nada de extraordinário deveria acontecer. Mas uma parte de mim ainda estava alerta, esperando o próximo sinal de que algo não estava normal.
Quando estávamos indo para a quarta matéria, minha mente estava perdida em outro lugar. Eu não conseguia me concentrar no que o professor estava dizendo, muito menos em alguém me perguntando algo. Assim que olhei para a porta, tudo tremeu. Dessa vez, vi a garota misteriosa e o rapaz com quem esbarrei passando apressadamente pelo corredor do lado de fora.
— Demônios! — A garota gritou tão alto que pensei que alguém tinha ouvido, mas nada aconteceu. Apenas eu estava olhando enquanto eles passavam.
Pulei do lugar, e toda a turma olhou para mim, incluindo o professor de ciências.
— Senhor Jones... — Ele começou com um olhar que já estava acostumado desde a quarta série.
— Preciso ir ao banheiro — falei, e corri para fora da sala. Mordi o lábio inferior com força e comecei a correr atrás daqueles dois.
O corredor estava vazio, exceto por alguns alunos que me olharam curiosamente enquanto eu passava. A garota e o rapaz viraram a esquina, e eu corri atrás deles, minha respiração pesada e meu coração batendo rápido. Quando virei a esquina, eles já estavam descendo as escadas.
— Esperem! — Gritei, mas eles não diminuíram o ritmo.
Desci as escadas de dois em dois degraus, tentando não perder o equilíbrio. Quando cheguei ao térreo, eles estavam saindo pela porta dos fundos da escola. Acelerei o passo e, finalmente, consegui alcançar a porta. Abri-a com força e saí para o pátio dos fundos.
— Ei! — Gritei, olhando ao redor. A garota e o rapaz estavam parados alguns metros à frente.
— Você não deveria estar aqui — disse a garota, sua voz carregada de urgência. — Isso é perigoso.
— Quem são vocês? O que está acontecendo? — Perguntei, sentindo o suor escorrer pela minha testa.
— Não temos tempo para explicar — disse o rapaz, olhando ao redor nervosamente. — Eles estão vindo
— O que está vindo? — Perguntei e senti Minha coluna ficanbdo gelada de suor e a cabeça começava a doer.
.Então ouvi um som estranho, como um zumbido agudo, vindo de algum lugar atrás de mim. Virei-me rapidamente e vi algo que me fez congelar de medo: figuras sombrias, com olhos brilhantes, avançando lentamente em nossa direção.
— Corra! — Gritou a garota, puxando-me pelo braço.
Corremos pelo pátio, atravessando o gramado em direção à floresta que ficava nos limites da escola. Meu coração batia tão forte que eu podia ouvi-lo nos meus ouvidos, e minha mente estava um turbilhão de perguntas sem resposta. Quem eram aquelas figuras? Por que estavam atrás de nós? E quem eram esses dois misteriosos adolescentes que pareciam saber exatamente o que estava acontecendo?
Atravessamos a linha das árvores, e a garota finalmente parou, ofegante. O rapaz olhou para trás, verificando se estávamos seguros.
— Acho que os perdemos por enquanto — disse ele, respirando com dificuldade.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo? — Perguntei, sentindo o pânico começar a tomar conta de mim.
A garota olhou para mim com seriedade, seus olhos brilhando com uma intensidade que eu nunca tinha visto antes.
— Sabe como é difícil encontrar um Necros, e ainda um que está na dimensão humana? — a garota disse, bufando.
— Um o quê? — perguntei.
— Necros. Ele é um demônio modificado que pode assumir uma forma e ataca quando sente pavor dos outros ou uma certa confusão — o rapaz disse, sorrindo para mim. — Eu sou Mertlim. Sobre ter esbarrado em mim, vou aceitar as desculpas por ter irritado minha irmãzinha aqui ao lado. A propósito, o nome dela é Anna.
— Mertlim, cala a boca — Anna disse, quase jogando a adaga em Mertlim. — Já foi difícil convencer o Duncan a deixar a gente se separar, e agora está falando com... essa coisa.
Isso me ofendeu.
— Eu tenho um nome — falei, irritado.
— Não preciso saber desse seu nome. Estamos em uma missão para impedir que mais dessas coisas venham para a sua dimensão — Anna disse.
— Vocês pegaram o Necros? — uma voz perguntou. Virei-me para ver um rapaz alto, que me olhava irritado, segurando nos ombros um animal estranho que se debatia ferozmente.
— Infelizmente, não — Anna respondeu.
— Duncan, vamos ver até onde ele foi — Mertlim disse, ao mesmo tempo em que o chão tremeu.
— Sério que só tinham essas coisas aqui? Eu lembro de ter perguntado: vocês verificaram o solo do lugar? — Duncan disse, e os três pularam no momento em que o chão explodiu, me fazendo cair. Outra adaga surgiu na mão de Anna.
O monstro era humanoide, aterrorizante, com uma boca no formato de uma pétala murcha. Os punhos de Duncan brilharam, e ele fez um movimento de varredura com o braço, criando anéis e cortando o ar. Uma enorme explosão de energia atingiu o monstro.
Anna atacou pela lateral com rapidez, o que me deixou tonto por alguns segundos. Mertlim pulou e girou o corpo, e dos seus punhos surgiu um brilho que causou pequenas explosões. A criatura foi atacada com um único golpe, mas ainda não desistiu de atacar. Duncan murmurou alguma coisa, e o monstro que se debatia em seus braços brilhou e rosnou para o monstro gigante.
Os ataques coordenados de Anna, Mertlim e Duncan continuaram, cada um com uma precisão assustadora. A criatura tentava revidar, mas era constantemente repelida pela combinação dos poderes dos três. O chão tremeu novamente, e uma onda de choque percorreu o ar, fazendo meu coração disparar.
— Temos que acabar com isso logo! — gritou Duncan, seus olhos brilhando com determinação.
— Vamos, pessoal! — Anna respondeu, lançando outra adaga que se cravou profundamente na pele do monstro.
Senti como se uma corrente elétrica viesse de todos os lugares. Um aperto tomou conta do meu coração e da minha cabeça. Quando notei, a criatura havia mudado de direção e avançava para cima de mim. Meu corpo ficou lento e pesado quando ela pulou em cima de mim. Levantei os braços para me proteger.
Algo caiu sobre meu corpo. Era areia. Abri os olhos e vi que a criatura havia explodido em areia negra, reduzindo-se a pó. Não deixou nada além do cheiro de enxofre, um grito estridente que foi sumindo e um calafrio de maldade no ar.
Eu ainda estava deitado no chão, tentando processar o que tinha acabado de acontecer. A adrenalina corria pelo meu corpo, e meu coração batia acelerado. Duncan, Anna e Mertlim se aproximaram, seus rostos sérios.
— Você está bem? — Anna perguntou, estendendo a mão para me ajudar a levantar.
— Acho que sim — respondi, pegando a mão dela e me levantando. — O que era aquilo?
— Um Necros adulto — explicou Duncan. — Deve ter alguem ferido por perto para isso acontecer.
Meu corpo estava mais leve, e notei que a areia havia queimado parte da grama. Quando ia dizer alguma coisa, vi uma pequena criatura que rosnou para os outros três, que saíram correndo atrás dela.
— Espera... — falei, mas fiquei sozinho. Olhei ao redor e saí correndo rápido daquele lugar. Quando estava indo atrás deles, ouvi o sinal indicando que já era hora do intervalo.
Minha mente estava um turbilhão de pensamentos enquanto corria pelos corredores da escola. O que estava acontecendo? Quem eram aqueles três e por que estavam me protegendo? E o que eram essas criaturas que surgiam do nada?
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Gostaram?
Até a próxima 😘
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