Capítulo Cinquenta

Victor Jones:

Adentramos na floresta, ramos e folhas chicoteando meu rosto enquanto tentávamos seguir a misteriosa figura de Wililas o melhor que podíamos. Atrás de nós, os galhos se agarravam, acompanhados de grunhidos e maldições furiosas dos goblins, uma sinfonia caótica que ecoava em nossos ouvidos. Minha respiração vinha em arquejos ásperos, meus pulmões ardiam, mas eu forçava minhas pernas a continuar se movendo, ciente de que qualquer tropeço significaria o fim.

— Por aqui! — Gritou Wililas, lançando-se como uma flecha em direção a um campo de amoras. — Se conseguirmos chegar ao rio, estaremos a salvo! Os goblins não sabem nadar!

Segui-o através dos arbustos, preparando-me para os espinhos que rasgariam minha pele e roupas. Para minha surpresa, os ramos se afastaram com facilidade, e eu escapei com apenas pequenos arranhões.

Quando deixei o campo de amoras, um estrondo alto ressoou atrás de mim, seguido de gritos e maldições furiosas. Parecia que os goblins estavam encontrando dificuldades para atravessar, e eu agradeci qualquer força que estivesse a nosso favor enquanto continuávamos. Entre o rugido em meus ouvidos e minha respiração ofegante, percebi o som da água corrente.

Cambaleei para fora das árvores, e o solo abruptamente se transformou em um barranco rochoso. Diante de mim se estendia um grande rio, com cerca de 100 metros de largura, sem pontes ou barcos à vista. O outro lado estava escondido por uma névoa espessa que se estendia até onde meus olhos podiam alcançar.

Wililas parou na beira do rio, quase invisível na névoa, chicoteando seu rabo impacientemente.

— Apresse-se! — Ordenou, enquanto eu lutava para subir o barranco com minhas pernas exaustas. — O território da prisão do rei está do outro lado. Você terá que nadar. Rápido!

Eu hesitei, imaginando criaturas monstruosas espreitando nas profundezas escuras do rio. Imagens de peixes gigantes e monstros marinhos passaram por minha mente, e meu coração acelerou.

Então, uma lança goblin passou zunindo rente ao meu braço, saltando pelas rochas com um chocalho agudo. A ponta de osso branco brilhava sinistramente sob o sol escasso. Abri caminho pela costa e joguei-me na água, sentindo o frio gélido me envolver instantaneamente. Lutei contra a correnteza que ameaçava me arrastar rio abaixo, empregando meus poderes para subjugar as águas tumultuadas. Ao meu lado, Merlin, Anna e Duncan se lançaram também, unindo suas forças para nos impulsionar na direção oposta.

Uma segunda lança passou por cima da minha cabeça, indicando que os goblins estavam determinados a nos alcançar. Olhei para trás e vi os pequenos monstros rastejando ao longo da costa rochosa, arremessando lanças em nossa direção. A raiva borbulhou dentro de mim, alimentando uma determinação feroz.

Um estrondo repentino reverberou, e os goblins foram lançados pelos ares, suas formas diminutas se contorcendo antes de serem engolidas pelas águas turbulentas. Fiquei surpreso com o poder repentino que meus dons manifestavam neste lugar, como se a própria dimensão respondesse aos meus desejos.

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Continuamos avançando pela correnteza, nossa habilidade de controlar as águas crescendo a cada instante. A luta estava se tornando mais difícil; Merlin estava visivelmente exausto, seu rosto torcido em agonia. Lanças goblin continuavam a chover perto de nós, mas a pontaria dos monstros era tão medíocre quanto sua inteligência.

À medida que nos aproximávamos da densa muralha de névoa que ocultava o outro lado do rio, uma lança atingiu o ombro de Merlin, fazendo-o ofegar e afundar. Com um movimento rápido, agarrei sua cintura e o puxei de volta à superfície. Seu rosto emergiu da água, os olhos arregalados de surpresa e dor. Coloquei uma mão no ombro ferido, meu coração acelerando, enquanto, com um olhar determinado na direção da margem onde os goblins ainda nos perseguiam, utilizei minha habilidade para controlar as águas. Num instante, os monstros foram arrastados para baixo, desaparecendo de vista.

Duncan, que estava ao meu lado, retirou um fragmento da lança de osso do ombro de Merlin, revelando vestígios de veneno.

— Ele foi envenenado — informou Duncan, a preocupação estampada em seu rosto.

Coloquei minha mão sobre os ombros trêmulos de Merlin, canalizando todas as minhas forças para seu corpo. O veneno estava atacando rapidamente, e eu lutava com toda a intensidade que conseguia reunir. Um brilho esverdeado emanava de minhas mãos, e Merlin estremeceu em espasmos dolorosos antes de seus olhos se abrirem abruptamente, retornando à vida. Em um gesto urgente, nossos lábios se encontraram em um beijo desesperado, uma mistura de alívio e paixão que me inundava. Meu coração batia descontrolado, ameaçando explodir com o terror iminente de perdê-lo naquela dimensão hostil. Finalmente, me afastei, meu rosto a poucos centímetros do seu, olhos fixos nos dele, repletos de medo e alegria.

— Acho que você está muito feliz por me salvar — disse Merlin, um sorriso amplo iluminando seu rosto.

— Desde quando vocês estão assim? — questionou Duncan, a surpresa evidente em sua voz.

— Você beijou meu irmão! — exclamou Anna. — E pelo jeito de vocês, isso não é a primeira vez! Quando foi a primeira, Merlin? E por que manteve segredo de mim?

Merlin balançou a mão displicentemente.

— Isso não é importante agora — respondeu ele, sua voz carregada de uma calma forçada enquanto tentávamos nos recuperar da luta.

— Não importa o momento, Anna — comecei, tentando reorientar a conversa e aliviar a tensão. — Se você tivesse se envolvido, talvez entendesse por que foi preciso manter isso em segredo. O mais importante agora é que estamos aqui, juntos e sobrevivendo.

Anna parecia frustrada, seus olhos alternando entre mim e Merlin.

— É difícil não se preocupar quando descobrimos algo assim de repente, Victor. Mas... você está certo. Vamos lidar com isso depois.

Duncan, ainda observando o ferimento de Merlin, falou:

— Precisamos nos apressar. Mesmo com os goblins fora de vista por agora, não podemos nos dar ao luxo de relaxar. O veneno pode estar diminuindo, mas a exaustão está afetando todos nós.

Merlin fez um esforço para se erguer, sua expressão ainda pálida, mas determinada.

— Duncan está certo. Precisamos atravessar o rio e encontrar um local seguro. Não sabemos o que mais nos espera aqui.

Enquanto isso, Wililas permaneceu sentado ao nosso lado, observando a cena com atenção.

— Então, você é o guardião — ele declarou calmamente. — Deveria ter desconfiado no momento em que o vi lançar feitiços tão poderosos. Pessoas comuns normalmente têm apenas duas afinidades mágicas. Acho que fiz uma excelente escolha ao fazer um acordo com você. Você me levará consigo quando sairmos deste lugar, como prometido.

Antes que eu pudesse responder, Duncan e Merlin assumiram a frente da conversa.

— Há algo que queremos saber — afirmou Duncan. — Por que exatamente você foi enviado para este lugar?

— Bem, acho que, se formos colaborar na invasão da prisão, precisamos ser completamente sinceros um com o outro — respondeu Wililas, enrolando sua cauda ao redor do corpo. — Fui injustamente acusado de roubar joias pertencentes à irmã do rei das fadas. Tudo porque ousei me apaixonar pelo filho dela, um nobre feérico. Ela não aceitou esse relacionamento e me incriminou. Ninguém se atreveu a me defender nas cortes feéricas, e acabei aqui.

Mordi o lábio, refletindo sobre a política manipuladora e a natureza orgulhosa das fadas. Rebecca, pelo que sei, é bem diferente do estereótipo usual das cortes feéricas.

— Sou mais uma vítima da injustiça que permeia a ordem mágica — lamentou Wililas, virando-se. — Sigamos em frente; chegaremos ao nosso destino pelo caminho oposto.

Seguimos Wililas, afastando-nos do rio. Embora estivéssemos molhados, exaustos e doloridos, ainda tínhamos um pouco de energia. Pouco depois, meus olhos começaram a pesar, como se tivesse fixado o olhar em algo por tempo demais sem piscar. A terra deste lado do rio apresentava uma versão enfraquecida e distante da misteriosa floresta cinzenta que deixamos para trás. À medida que as cores desapareciam e se desvaneciam, tudo ainda pulsava com uma intensa energia mágica.

As folhas das árvores reluziam afiadas como lâminas sob o fraco sol, e as pétalas brilhavam como pedras preciosas quando tocadas pela luz. Era indiscutivelmente belo, mas havia um incômodo persistente, como se estivéssemos testemunhando uma realidade superficial, um revestimento de magia que obscurecia a verdade subjacente.

Eles haviam criado uma ilusão perfeita de uma floresta real, tão convincente que qualquer um poderia acreditar que estava do lado de fora desta dimensão. Mas isso também servia como uma tática para enganar aqueles que se aventuravam neste lugar de aparências enganosas.

Enquanto continuávamos nossa marcha, ainda mantendo um olhar vigilante, a exaustão gradualmente pesava sobre mim.

Então, um som de bater de asas penetrou em meus ouvidos. Virei-me instintivamente, mas antes que qualquer um de nós pudesse reagir, um gigantesco pássaro atacou, suas garras cravando-se em meu ombro e arrancando-me do chão.

Num piscar de olhos, o pássaro levantou voo, arrastando-me pelo ar, enquanto os gritos desesperados de meus companheiros ecoavam atrás de mim.

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Gostaram?

Até a próxima 😘

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