Capítulo 3 - S A N G U E

— Me acompanhe, querido. — Uma moça negra e alta segura Caio pelo braço bom — Vou cuidar do seu braço. Me chamo Simone.

— Obrigada. — Eu sorrio para a moça. Caio segue com ela pelo corredor. Seu rosto ainda sua um pouco e além da palidez, ele também treme como se estivesse com calafrios.

Lurdinha nos colocou num dos últimos quartos do corredor. Como as outras janelas, a nossa também estava selada. É extremamente proibido abrir as janelas ou tirar suas proteções, pois os bichos podem entrar ao ver a movimentação na casa e nos atacar.

Jhonny não deu mais uma palavra depois do incidente com Calixto. Ele parecia insatisfeito de estar ali, mas se não fosse por Isaac e este abrigo, nós já estaríamos mortos. Fiquei pensando com certa preocupação como o Calixto se referiu ao Caio. Ele dissera que meu irmão tinha sido contaminado e que contaminaria a todos nós. Ainda não consigo entender o que ele quis dizer com isso.

Me sento na ponta da cama e tiro o gorro da cabeça. Meus cachos estão embolados uns nos outros, mas não me importo com a minha aparência.

— Acha que aquele velho vai nos deixar em paz? — Jhonny pergunta, mas algo me diz que aquela pergunta é retórica.

— Essa é a minha última preocupação no momento.

— Eu vou atrás do Caio, não vou deixa-lo sozinho aqui. — Ele se levanta e sai do quarto rapidamente. Isaac aparece na porta segurando um kit de primeiros socorros na mão.

— Posso entrar?

— Claro.

— Você se machucou durante o ataque das criaturas. — Isaac diz, depositando a maleta em cima da cama.

— Eu já tinha me esquecido dos machucados.

Ele abre a maleta e retira uma gaze e um pedaço de algodão. Borrifa um remédio ali e passa a gaze de forma suave pela minha testa.

— O que o Calixto quis dizer com meu irmão estar contaminado?

Isaac solta um suspiro profundo antes de me responder.

— Bom, isso tem a ver com a profecia.

— Que profecia?

— Um homem postou um vídeo no Youtube dois meses antes disso tudo acontecer. No vídeo ele fala sobre uma profecia louca. Os poucos views que ele teve na época são de pessoas que não o levaram a sério. Lhe chamaram de louco, mas tudo o que o homem disse, tem acontecido.

Só em pensar que existe um vídeo circulando por aí sobre os ataques que aconteceram eu já me sentia estranha. Era como se pudéssemos ter nos preparado antes que tudo isso acontecesse.

— E o que ele disse?

Ele retira o celular do bolso e me entrega o aparelho com o vídeo já pausado. Eu dou play e assisto com atenção.

No vídeo um homem velho e barbudo aparece na tela falando sobre uma profecia que lhe foi revelada em um sonho. Nesse sonho ele diz que três criaturas descerão a terra com fome de carne humana. Cada grupo de criaturas descerá de 2 em 2 horas durante o primeiro e segundo dia. Quando a última criatura dos segundo dia aparecer, o tempo de aparecimento entre cada uma irá diminuir até o momento em que elas não vão mais sumir. Ele também disse que com as criaturas, virá a contaminação. Se formos mordidos por uma das criaturas, vagaremos pela terra como mortos vivos.

Enquanto assisto o vídeo, Isaac faz um curativo em minha testa.

— Vocês acreditaram mesmo nessa porcaria? — pergunto enquanto lhe entrego o celular, uma vez que o vídeo já acabou.

— Vai me dizer que não acha verídico? Até agora as criaturas estão aparecendo nesse mesmo intervalo de tempo. — Eu não respondo nada, certa de que realmente o que ele diz tem se tornado verdade — Amanhã bem cedo sairemos para o supermercado. Precisamos estocar comida antes que essas criaturas comecem a não desaparecer.

Fico refletindo nas palavras do velho, e algo em tudo o que ele disse perde o sentido quando me lembro de uma informação que me chamara a atenção.

— Se tudo o que ele disse se confirmar, quer dizer que meu irmão mais novo pode... bom... se tornar um... morto vivo? — Isaac coloca um bandaid em minha testa e me encara de modo pensativo. Acho que ele notou o medo em minha voz, pois ao invés de dizer alguma coisa como Calixto diria, o que ele disse foi:

— Não vamos pensar no pior. — Ele termina de fazer os curativos em mim e pega o material utilizado junto com a maleta que trouxera consigo. — Está com fome? A Lurdinha preparou uns sanduíches para nós.

Desde que eu e Jhonny fomos presos que a palavra fome não constava em meu vocabulário. Tanta coisa aconteceu ao mesmo tempo que comer parecia uma necessidade irrelevante. Porém, agora que as coisas se acalmaram um pouco, eu conseguia ouvir minha barriga roncar.

Acompanho Isaac até a cozinha. Caio está sentado na bancada junto com Jhonny e mais alguns sobreviventes. Eles falam sobre as profecias do velho barbudo.

Quando me junto a eles, Caio já está quase terminando um sanduíche assim como Jhonny. Me sirvo também e agradeço a Simone por ter cuidado do meu irmão. Ela abre um sorriso e segura seu bebê pequeno no colo.

— O Caio é um bom menino. Tenho certeza de que ele vai se curar. — Ela faz um carinho na cabeça dele. Na sala, ouço Calixto dar uma risada debochada. Jhonny se levanta em fúria e eu lhe seguro pelo braço. — Não liguem para o que esse careca diz. Ele perdeu o filho e a esposa durante o ataque e desde então está amargo. Ele abriu a porta durante o ataque dos bichos marrons e quase matou a todos nós.

— Esse imbecil está precisando levar umas porradas para aprender.

— Jhonny!

— Eu concordo com o seu irmão. — Simone diz, dando uma risada.

Uma garota loira que parece ter a minha idade entra na cozinha. Percebo que ela encara meu irmão descaradamente. Jhonny também percebe, pois a encara com um interesse que me faz ter náuseas. Reviro os olhos para o flerte daqueles dois e começo a prestar atenção somente no sanduíche que como e o no bebê lindo de Simone.

— Vou pegar uma fralda lá no quarto. Quer que eu o coloque no quarto de vocês? Acho que o pequeno está com sono. — Sigo o olhar de Simone e vejo que Caio está quase caindo da bancada de tanto sono.

— Claro, se não for te incomodar.

— Não é incômodo nenhum, eu levo.

— Obrigada.

Simone deixa seu bebê deitado numa caminha improvisada e pega Caio pela mão.

Jhonny e a garota começam a conversar e eu fico ali, observando a sala de estar. A maior parte dos sobreviventes se encontram naquele cômodo. Calixto cochila com a boca aberta no sofá, o jovem que tinha barrado a gente junto com ele se encontra em seu lado mexendo no telefone (descobri que ele se chama Renan) e Isaac está no canto da sala conversando com dois jovens de sua idade. Uma garota bem bonita e um rapaz muito alto, que se chamam Milene Rosa e Rodrigo Rebouças.

Observo Isaac com atenção e fico me perguntando porque ele chamou a mim e ao irmão para cá. Ele não nos conhecia, e nós estávamos saindo de uma delegacia quando ele nos abordou, motivo suficiente para que ele quisesse manter uma distância segura de nós.

Eu ainda tenho minhas dúvidas em relação a este abrigo e acho que Jhonny também não vai querer ficar aqui por muito tempo. Enquanto essa situação toda não se resolver, acho que teremos que ficar por aqui.

Isaac nota que está sendo observado e olha para mim. Nervosa, desvio o olhar e só agora percebo o quanto ele é um rapaz bonito. Me sinto constrangida por ter reparado, e mais ainda por ele ter me visto olhando para ele. Que inferno, ele deve achar que estou afim dele.

— AURORA, JHONNY! ALGUÉM AJUDA! — O grito de Simone me faz correr como nunca em direção ao meu quarto. Jhonny, Isaac e os outros também me seguem. Sou a primeira a chegar no quarto, e me assusto ao ver Simone no chão coberta de sangue e Caio ao seu lado, tossindo sangue sem parar.

— O que está acontecendo?

— Ele não para de tossir sangue.

Seguro meu irmão pela cintura e lhe faço carinho na nuca. Quanto mais ele tosse, mais sangue sai de sua boca. O desespero é tão grande que me paralisa e eu só fico ali, olhando para o sangue que se acumula no chão.

— É a contaminação! Já está acontecendo! Temos que matar essa criança agora antes que ela se transforme! — Calixto, que até então dormia, entra no quarto e aponta o dedo para Caio como se ele fosse um criminoso. Jhonny se coloca na frente e encara Calixto de perto.

— Você não vai encostar um dedo sequer no meu irmão, está me entendendo?

— Tome, dê isso para ele. — A menina loira que estava flertando com meu irmão estende um copo de água e um comprimido — É um calmante, talvez dormindo ele pare de tossir sangue.

— Obrigada. — Dou o remédio para o meu irmão e ele bebe a água. Caio ainda tosse por alguns minutos, mas mesmo assim o coloco na cama. Eu lhe cubro com um cobertor e fico ao seu lado lhe fazendo um carinho.

Isaac, Calixto e os outros olham para Caio com preocupação. É óbvio que todos o veem como uma ameaça agora. Talvez tentem matar meu irmão enquanto não estivermos presentes ou talvez tenhamos que sair daqui com ele nessas condições. De uma forma ou de outra, Jhonny e eu não deixaremos que nada aconteça com Caio. Mesmo que tenhamos que nos virar na rua, nós daremos um jeito. Nós sempre damos.

Depois de alguns minutos, Caio pega no sono. Me sinto tranquila quando isso acontece. Percebo que já é noite ao olhar o relógio no criado mudo. Ouço gritos do lado de fora, o que significa que há um forte indício de que as criaturas tenham voltado. De acordo com a profecia, deve ser a vez dos corvos.

Resolvo fazer um tour pela casa quando Simone se oferece para ficar com Caio. Eu lhe agradeço e estranho ao ver quase todos os cômodos com a luz apagada. Ouço gemidos e me aproximo do local de onde vem o som e me assusto ao ver Jhonny fodendo a garota loira em cima do tanque da lavanderia. Ela está grudada ao meu irmão, ambos estão suados e ofegantes. Ele dá estocadas cada vez mais agressivas, ao que ela responde arqueando o corpo para trás e gemendo. Me afasto dali traumatizada, certa de que a imagem de meu irmão transando no meio do que parece ser o fim do mundo nunca mais vai sair da minha cabeça.

— Aurora, você precisa vir comigo! — Isaac aparece me puxando pelo braço.

— O que aconteceu? — Ao invés de me responder, Isaac continua me conduzindo de volta ao quarto. Percebo que tem a ver com meu irmão mais novo.

Meu coração acelera quando vejo meu irmão tremendo como se estivesse tendo uma convulsão. Simone está ao seu lado, tentando segurar seu corpinho. Eu começo a chorar em desespero, sem saber bem o que fazer quando de repente o corpo do meu irmão para de tremer e fica com os olhos abertos e inexpressivos.

Me jogo em cima da cama e me agarro ao corpo do meu irmão. Simone mede seus batimentos cardíacos e me olha de um jeito desolado.

— Eu sinto muito, Aurora. Ele não resistiu.

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