Capítulo 2 - D E S O R D E M

— Será que dá pra você deixar essa porra fechada? — Jhonny, olha rapidamente para Caio que está sentado no banco de trás do carro. Sua mão está em cima do botão automático que faz o vidro da janela abrir. Ele obedece na mesma hora. Noto que seu rosto está muito pálido.

— Não fala assim com ele, Jhonny! — Empurro meu irmão, irritada com a sua arrogância. Caio está com os olhos vermelhos, um indício de que está lutando contra o choro.

— Não venha reclamar se um desses bichos entrar pela janela! — Ele esbraveja a plenos pulmões enquanto pega um caminho diferente para tentar fugir do trânsito caótico.

Depois de sairmos de nossa casa, foi emitida uma nota oficial pelo governo pedindo para que evacuássemos a cidade enquanto a situação não fosse resolvida. Após a aparição dos corvos e do bicho marrom, nenhum outro ataque foi presenciado. Eu não sei se isso é bom ou não, só sei que o desaparecimento repentino das criaturas pelo menos nos deu tempo de sair de casa tranquilamente. Só espero conseguir chegar ao abrigo antes que essas coisas apareçam de novo.

— O Caio vai deixar a janela fechada. — Viro meu corpo na direção do banco em que Caio está sentado e abro um sorriso — Não é, maninho?

— Vou sim.

— Bom garoto. — Ele abre um sorriso mínimo, e isso me faz respirar mais aliviada. Porém, não deixo de notar que seu rosto está branco como papel, e que ele sua muito.

— PUTA MERDA! — Um carro que seguia atrás de nós bate em nossa traseira e perde o controle. Com o impacto, o cinto me protege de ser arremessada para fora do veículo.

— Caio, você está bem?

Meu irmão mais novo se solta do cinto e se encolhe no chão, chorando. Vejo que a causa da batida foi a chegada de uma criatura que eu nunca tinha visto em toda a minha vida. Ele era alto, de pernas cumpridas e careca. Seu rosto estava todo desfigurado e em carne viva assim como o resto de seu corpo. Seus dentes afiados exibiam seu desejo de atacar.

— ACELERA ISSO, ACELERA AGORA! — Grito para Jhonny, que espantado, pisa no acelerador. — Caio, senta e coloca o cinto, porra!

Meu irmão me obedece desengonçadamente. Ele se senta cambaleando pela velocidade que Jhonny dirige e coloca o cinto de segurança. Viro meu corpo para trás e vejo a criatura enfiar o braço pelo vidro da frente até alcançar o pescoço do homem que dirige o carro. Ele grita algumas palavras que não consigo ouvir e vejo as pessoas dentro do carro saindo correndo do veículo. A criatura puxa o cara pelo pescoço, que se debate, tentando se livrar do monstro. Ele come a cabeça do homem e eu grito, tomada pelo choque. A criatura continua devorando o homem até que não sobre mais nada. Depois, ele vai atrás do resto das pessoas que correm para o lado contrário ao que estamos indo.

Me viro para a frente e coloco as mãos sobre a cabeça.

— O que foi aquilo? — Jhonny pergunta, há mais de 100 quilômetros por hora.

Outra criatura corre do quintal de uma casa até a direção em que nos encontramos. O monstro soca a lataria do carro, amassando-a e fazendo o carro balançar de um lado para o outro. Nós gritamos com o susto, e Jhonny pisa ainda mais fundo no acelerador. Por sorte, o bicho não corria tanto, mas ele ainda estava muito próximo a nós.

— É muito perigoso para o Caio ficar aí atrás. Maninho, vou te pedir para se soltar do cinto e se ajoelhar aqui no nosso lado, por favor.

Meu irmão obedece sem pestanejar. Assim que ele se agacha, eu me agarro nele para que ele não se machuque muito caso aconteça algo com o carro.

— Ele tá chegando perto outra vez! O motor desse carro não é muito potente.

Jhonny manobra o carro de um jeito habilidoso e difícil. A rua em que estamos se encontra com alguns carros parados de qualquer jeito no meio da rua, o que dá uma certa vantagem para a criatura que nos persegue. O bicho segura o que restou da traseira do carro e arremessa o veículo como se fosse uma bola de futebol. Seguro Caio pelos braços, mas o impacto do carro caindo me faz largar um de seus braços, e ele cai no chão do carro. O veículo cai de cabeça para baixo, e eu sinto que fiz alguns machucados durante a queda.

O monstro vem correndo avidamente em nossa direção e eu me solto do cinto de segurança. Jhonny, que parece meio zonzo, fica parado com a cabeça tombada para o lado. Caio estava machucado, mas parecia estar bem. Ele chorava muito.

— JHONNY, POR FAVOR, PRECISAMOS SAIR DAQUI! — Sacudo Jhonny da forma que consigo, uma vez que estou de cabeça para baixo. Ele tenta se soltar do cinto, mas percebo que seus movimentos ainda estão lentos demais. Tento solta-lo do cinto, mas minha posição não me favorece.

— CAIO, SAI DO CARRO! — grito para meu irmãozinho atrás de mim. Ele fica parado nos encarando.

— Aurora, me deixe aqui e saia com o Caio.

— Eu não vou te deixar aqui, entendeu?

— Isso não é um pedido, eu quero que saia! — Jhonny exclama, exasperado.

A criatura se aproxima mais de nós. É questão de tempo até que ela nos alcance.

— E eu já disse que não vou te deixar aqui, caralho! — esbravejo. Com o impulso do desespero, eu me apoio no banco e consigo soltar o cinto que prende meu irmão mais velho. Com dificuldade, nós três saímos do carro quando a criatura já está bem em cima de nós. O monstro soca a lataria do carro enquanto Jhonny pega Caio no colo e corremos.

— Estamos perto do abrigo, talvez a gente consiga chegar lá antes que ele coma o nosso fígado. — Jhonny diz, e a piada fora de hora me deixa irritada.

Olho para trás rapidamente e vejo que o bicho deixa um rastro de saliva por onde passa. Ele está rosnando para nós e parece faminto. Um utilitário passa e atropela o bicho, que cai por cima do veículo e rola pelo asfalto. No banco do motorista, eu avisto o mesmo cara que nos chamou para o abrigo. Ele acelera até chegar a nós e abre a porta traseira.

— Entrem logo! — Ele grita e nós o obedecemos rapidamente. Como Jhonny, ele também acelera o carro sob os gritos do monstro que já se levanta para vir para cima de nós novamente e outros que aparecem para atacar. — Se segurem!

O rapaz faz uma manobra arriscada no meio da pista, joga o carro para a calçada e faz um caminho alternativo por uma viela estreita. Ele passa por cima de outro monstro, aquele era mais baixo do que os outros, e a criatura fica estirada no chão. O cara vira o utilitário a toda velocidade e passa direto pelo endereço que nos deu.

— Aonde você tá indo? — Jhonny pergunta, se segurando com dificuldade.

— Não podemos entrar enquanto a criatura estiver nos seguindo. Com a força que eles tem, podem invadir o abrigo em questão de minutos!

— O que vamos fazer então? — indaga meu irmão mais velho, o sarcasmo carregado na voz — Ficar rodando que nem Pião do Baú da Casa Própria até eles se cansarem?

— Os monstros vão sumir daqui há dois minutos. — Ele olha rapidamente para seu relógio de pulso.

— Como sabe disso? — Eu pergunto, curiosa. Caio, que está ao meu lado, parece ainda mais fraco.

— Em breve explicarei tudo.

Jhonny faz uma carranca. Como eu, ele também não tinha gostado da resposta. Eu entendo a importância de esperar tudo isso acabar para poder contar com calma tudo o que queremos saber, mas o fato de ele saber que os bichos vão sumir e quando vão sumir era extremamente importante para mim.

As criaturas somem quando estão perto de nos atacar. Jhonny guarda o utilitário na garagem da casa e nós entramos. O muro do abrigo é alto e protegido por um arame farpado. A casa é grande e bonita. Quando entro, percebo que as janelas estão seladas.

Um homem careca que aparenta ter uns 54 anos entra em nossa frente junto com um rapaz mais novo e nos encara. Meu irmão mais novo segura minha mão e Jhonny dá um passo a frente para peitar o homem.

— Vocês não são bem vindos aqui! Isaac devia ter nos consultado antes de fazer essa loucura! Olhem o braço dessa criança, deve estar contaminada!

— Não fale assim com a gente, deixe meu irmão em paz! — Eu digo, colocando Caio de forma protetora atrás de mim.

— Vocês não podem ficar aqui, não mesmo! — diz o homem ao seu lado. Ele parece ser um pouco mais velho que Jhonny. Ele aponta para Caio, que está abraçado a minha cintura — Principalmente essa criança!

— Deixem eles em paz! — Uma senhora de vestido florido se intromete. Uma mulher negra e alta a apoia.

— Olha como estão vestidos, devem ser mendigos ou ladrões. — O careca diz, apontando para nós. — Eu não vou me misturar com essa laia.

— Repete o que você disse, seu fodido!

Jhonny dá um passo a frente e empurra o careca, que o empurra de volta. O rapaz ao seu lado entra na frente e Jhonny também o empurra.

— Essa criança não vai ficar aqui! — O careca diz, me puxando pelo braço para poder pegar Caio.

— Ele vai sim! — Eu grito, tentando soltar meu braço — Me larga, seu estupido!

— PAREM! — O rapaz que nos ajudou aparece. Sua voz de trovão ecoa por todos os cômodos e o careca larga meu braço na hora. — Todos irão ficar aqui, quer vocês queiram ou não!

— Mas essa criança... — Tenta o careca mais uma vez, que é brutalmente interrompido.

— Não sabemos se ele está contaminado. Pode ser que essa informação seja mentira.

— Todas as informações que temos até agora foram confirmadas como verdade pelos nossos próprios olhos! Você está cometendo um grande erro deixando esses três ficarem aqui.

— Depois do que você fez, eu deveria te jogar lá fora para as criaturas! — O rapaz esbraveja, ao que eu dou um sorriso de agradecimento. — Você não está em posição de ordenar nada aqui dentro, Calixto.

— Não digam que eu não avisei! Ele está contaminado e vai contaminar a todos nós. A todos! — E ele sai murmurando e reclamando enquanto o rapaz o segue. Isaac se aproxima de mim e coloca uma mão em meu ombro.

— Você está bem?

— Sim, estou. Me chamo Aurora, a propósito. Esse ao meu lado é Jhonny e este é o Caio. — Aponto para meus irmãos, mas Jhonny permanece com uma carranca no rosto.

— Sou Isaac. E o resto da família de vocês?

Sinto uma pontada forte em meu peito ao me lembrar de papai. Ele tinha morrido de uma forma repentina e cruel e lembrar de como encontrei seu corpo ainda naquele mesmo dia me deixa muito mal.

— Não conseguiu.

— Eu sinto muito. — Isaac afaga meu ombro — A Lurdinha vai mostrar pra vocês as instalações e vai lhe explicar algumas coisas sobre o abrigo. Depois conversamos sobre o que está acontecendo com nosso mundo.

Enquanto Lurdinha, a senhora simpática de vestido florido nos acompanha em um tour pela casa, percebo os olhos de Calixto seguindo todos os nossos movimentos.

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