Capítulo 1 - C A O S

— Tem certeza, Jhonny? — Eu o olho com receio. Estamos parados em frente a sessão de laticínios quando meu irmão mais velho me encara com um olhar incisivo de quem não gosta da minha hesitação.

— Você sabe que não temos escolha, Aurora. — Ele diz, me passando a lata de leite em pó. Eu a seguro com as mãos trêmulas e olho para os lados, com medo de que alguém possa desconfiar do que estamos prestes a fazer.

Uma senhora passeia com seu carrinho olhando os preços das marcas de leites sem lactose enquanto um funcionário do estoque realiza a reposição de alguns alimentos.

Me volto para Jhonny novamente com os olhos assustados enquanto seguro a lata com força. Eu não vou conseguir fazer isso, não mesmo!

— Jhonny, por favor... Deve ter outro jeito.

— Nosso pai e o Caio precisam de nós. Acabou a comida, não temos nem grana! Não podemos deixá-los passando fome.

Lembrar da situação de minha família me fez sentir vontade de chorar. Meu irmão e eu não conseguimos emprego em lugar nenhum e meu pai teve um derrame e está acamado. Nossa comida acabou e não temos dinheiro para nada. A situação é tão desesperadora que eu tive que dar razão ao Jhonny. Realmente não tem outro jeito.

— Eu sei.

— O mercado não vai sentir falta de uma caixa de leite. Faça isso pelo nosso irmão menor e pelo nosso pai, Aurora. Por favor... — Jhonny coloca as duas mãos sobre meus ombros e me olha fixamente. Ele está decidido de que temos que fazer aquilo e por mais que odeie tanto quanto eu recorrer a isso, meu irmão já aceitou que não há outra alternativa.

— Tudo bem. — Respiro fundo e solto o ar lentamente para me acalmar. Caminho junto com Jhonny pelas sessões do supermercado para parecermos pessoas comuns fazendo compras. Guardo uma das latas de leite dentro da minha bolsa de pano, que está com a alça atravessada pelo lado esquerdo do meu corpo e faço o mesmo com alguns outros poucos alimentos que Jhonny e eu nos atrevemos a pegar.

Ele me segue andando lentamente, os ombros tão tensos quanto os meus até a saída do estabelecimento. Meu coração está acelerado e minhas mãos suam tanto que eu sinto as luvas que uso ensoparem. Ajeito o gorro na cabeça e levo um susto ao ver estacionado do outro lado da rua uma viatura da polícia.

Jhonny parece notar a viatura ao mesmo tempo que eu e quando estamos próximos de sair do supermercado, ouço o segurança me chamar.

— Ei, mocinha! — Paro por um instante e me volto para ele. O segurança é alto demais e me olha com desconfiança enquanto caminha até mim.

— Corre. — diz Jhonny baixinho e eu o obedeço prontamente.

Nós dois corremos para fora do supermercado de uma vez a tempo de ouvir o segurança gritar para o policial que está do outro da rua para ir atrás de nós. Jhonny me segura pelo casaco que uso e juntos continuamos correndo. Era uma manhã cinzenta aquela, onde as pessoas andam apressadas pela calçada.

Esbarro em um homem que caminha olhando para o celular e vejo que a viatura nos persegue. Dobramos a esquina da rua do supermercado e continuamos correndo em direção ao beco e as vielas que existem naquela parte do Rio de Janeiro. Nós tínhamos que despistar aquela viatura, e a única forma de fazer isso era tentando confundi-los.

Jhonny me puxa para uma das vielas e corremos até o final da rua. Tinha uma escada enferrujada na lateral de uma construção abandonada que eu fiz questão de subir sem ligar para o fato de que podia me machucar e contrair tétano. A única coisa que me movia era a vontade de cuidar de minha família. Se fôssemos pegos, meu pai e Caio ficariam desamparados e isso é uma coisa que não estou disposta a deixar acontecer.

Meu irmão vem atrás de mim com toda a sua agilidade. Eu passo uma de minhas pernas para dentro de uma janela aberta e empoeirada e depois a outra. Jhonny faz o mesmo que eu. A construção inacabada está praticamente caindo aos pedaços, e me preocupa o fato de que podemos cair a qualquer momento de uma altura considerável, caso o chão despenque.

— Essa porra vai cair com o nosso peso! — digo, andando com cuidado pelo chão que faz um barulho que parece que vai ceder a qualquer momento.

— Só continua andando, nós vamos sair no beco de trás. Isso vai despistar os tiras. — Ele responde alterado enquanto me puxa consigo. Ele abre a janela do outro lado da construção e eu espirro com a poeira. A janela range com o barulho e Jhonny sai da frente para que eu possa ir primeiro. Me sento no parapeito da janela e me jogo contra a escada lateral sem pensar nas consequências ou na queda que eu sofreria caso eu errasse o pulo. Me agarro a escada com toda a força que há em mim e desço com rapidez. Jhonny desce logo em seguida. Ouço a sirene do carro de polícia e pulo para o chão ainda faltando alguns degraus.

Jhonny me segue e corremos para o fim do beco. Porém, a viatura que nos perseguia para bem em nossa frente, fechando nosso caminho. Nós tentamos nos frear para dar meia volta, mas o policial sai do carro e aponta a arma para nós.

— Parados!

Eu e meu irmão paramos com as mãos para o ar. Estou ofegante e minhas pernas tremem pelo esforço e noto que meu cotovelo está ralado. Jhonny e eu nos encaramos com a derrota estampada na face enquanto o policial nos algema e nos coloca dentro da viatura.

— Moço, por favor. Nosso pai está doente com nosso irmão pequeno em casa. Nos deixe ir. — Jhonny me cutuca quando eu tento apelar para o policial que está dirigindo o carro, que me ignora completamente.

A viatura para em frente a uma delegacia e somos arrastados para dentro como os delinquentes que nos tornamos naquela manhã. Vejo que o local está um caos quando observo um monte de gente parada ali e muitos policiais andando de um lado para o outro.

— Vocês vão ficar aqui por enquanto. — O policial Souza diz, nos trancando em uma sala cinza com três cadeiras e uma janela minúscula na parede central. Ele nos revista e apreende nossos documentos e os itens que tentamos roubar do supermercado.

— Por favor, são pra nossa família. — Eu peço, segurando o braço do policial, que se solta de mim com uma carranca.

— Vocês roubaram isso, essas coisas não pertencem a vocês! Fiquem aqui que o gerente do supermercado está a caminho.

O policial nos tranca ali dentro e eu coloco a cabeça entre minhas mãos, sentindo-me aflita. Meu pai precisa tomar seu remédio e meu irmão já está há muito tempo sozinho.

— Nós estamos ferrados!

— Seu otimismo me inspira. — Jhonny diz, destilando seu sarcasmo.

Levanto a cabeça e olho para Jhonny com vontade de lhe dar um soco.

— Acha mesmo que vamos conseguir sair daqui? Vão nos prender!

— Tecnicamente, nós já estamos presos. — Ele abre um sorriso cheio de sarcasmo para mim.

Me levanto e caminho até a janela, que percebo que não alcanço sem ficar na ponta dos pés. Olho o movimento na rua e noto que um nevoeiro estranho cobre toda a rua, e que uma sombra preta e muito grande se aproxima.

— Que porra é essa? — Jhonny indaga, atrás de mim. Ele não precisa ficar na ponta dos pés para olhar a rua.

Vejo uma multidão correndo e gritando e dou um passo assustado para trás ao ver um corvo colidir feio com a janela. Jhonny também se assusta. Me aproximo de forma temerosa da janela e vejo diversos corvos indo para cima das pessoas e bicando-as. Uma mulher se debate e começa a gritar quando mais de 10 corvos se juntam para bica-la. Ela cai no chão e chega a ser pisoteada por algumas pessoas e meu estômago embrulha quando um dos corvos enfia o bico em seu olho.

Jhonny me puxa, afastando-me da janela.

— O que era aquilo? — indago, me sentindo completamente em pânico.

— Um bando de corvos revoltados, creio eu.

— Nós temos que sair daqui! — exclamo e no mesmo momento Jhonny está parado em frente a porta.

— Essa merda tá trancada! — Ele urra ao tentar girar a maçaneta.

Ouço gritos que parecem vir de dentro da delegacia e barulho de tiros. Eu e Jhonny nos abaixamos, mesmo estando protegidos ali dentro.

— Os bichos devem ter invadido a delegacia! — exclamei, temerosa com a possibilidade de um corvo me atacar. A cena da mulher e das outras pessoas atacadas ainda estava bem fresca em minha cabeça.

— É a nossa chance de fugir! — Meu irmão diz ao que eu o encaro em pânico.

— Não, é a nossa chance de morrer! Ficou louco? No momento em que sairmos, esses bichos virão pra cima de nós.

— Nós não podemos ficar aqui dentro pra sempre, Aurora.

Ficamos ali parados em frente a porta. O caos, gritos e os tiros ainda podiam ser ouvidos claramente. Dava agonia ouvir aquilo. Meu irmão estava certo, nós realmente não podíamos ficar ali. Mas eu também não queria sair se isso significava ser atacada por corvos enfurecidos.

A porta se abre e o policial Souza entra fechando a porta atrás de si. De seu rosto escorre um filete de sangue.

— O que está acontecendo? — pergunto a ele. O tira me encara como se tivesse visto um fantasma.

— Nós vamos sair e vocês farão tudo o que eu mandar. Estão entendendo?

Eu e Jhonny fizemos que sim com a cabeça.

— É seguro sair?

Ele não responde a minha pergunta.

— Vamos correr até a viatura para um local seguro.

O policial abre a porta com cuidado e faz sinal para que o sigamos. Eu me assusto ao ver as luzes piscando e as pessoas caídas por todos os lados da delegacia. Um corvo que estava comendo um cadáver grasna e vem para cima de nós. Souza dá um tiro no bicho, que cai aos nossos pés. O barulho atrai outros que vão em cima do policial. Jhonny me puxa de novo para a sala e nós caímos no chão. Ele fecha a porta com o pé antes que os corvos venham para cima de nós.

— Vamos dar um tempo para ver se as coisas se acalmam. — disse Jhonny, tirando um smartphone do bolso — Vamos sair pela janela.

— Da onde você arranjou isso? — Apontei para o celular que estava em sua mão.

— Tirei do policial defunto.

— Não fala assim. — Meu irmão me ignorou. — Aposto que tem senha.

— Esse cara era burro. Desbloqueei deslizando o dedo na tela. — Jhonny mexia no celular enquanto falava — Aqui dentro não tem sinal, que ótimo.

— Parece que as coisas se acalmaram.

Jhonny pegou uma cadeira e a jogou diversas vezes contra o vidro até ele quebrar. Temi que o barulho fosse atrair aqueles bichos, mas era como se nada tivesse acontecido. Meu irmão me levantou no colo e eu me apoiei na janela para descer. Jhonny também saltou.

— Meu Deus. — Ele disse, encarando os corpos que estavam estirados no chão. Os corvos haviam sumido.

— Vamos para o carro! — Apontei para um carro parado no meio da rua com a porta do motorista aberta. Havia sangue no estofado do veículo.

— Ei, vocês tem para onde ir? — perguntou um homem que parecia ter a idade de Jhonny. Ele parou o carro ao nosso lado. Jhonny e eu nos entreolhamos, desconfiados.

— Estamos indo atrás da nossa família. — respondi, fazendo com que meu irmão me cutucasse.

— Estou indo para um abrigo. Caso vocês precisem, esse é o endereço. — Ele estendeu uma folha de papel rasgada em nossa direção. Como Jhonny não ia pegar, eu peguei a folha da mão dele.

— Obrigada. — Ele abriu um pequeno sorriso para mim e arrancou com o carro.

Olhei para o endereço escrito de forma apressada naquela folha. O local ficava quase do outro lado da cidade.

— Sujeito estranho. Ninguém oferece ajuda assim de graça.

Encontramos a chave do carro ainda na ignição. Parece que o motorista largou o carro em desespero no meio da rua. Vimos outras pessoas passando fugidas de carro e outras a pé enquanto Jhonny dava a partida no veículo.

O celular do policial estava em minhas mãos agora, então aproveito para tentar acessar a internet. Nós precisamos saber se alguém já tem uma ideia do que estamos enfrentando, se isso acabou ou se vai continuar. Os corvos tinham sumido misteriosamente, deixando-me com uma sensação estranha de que aquilo não tinha acabado.

Na internet, encontrei diversos vídeos dos ataques dos corvos. Os noticiários falavam que ainda não se sabe ao certo a origem daqueles corvos, mas que especialistas e o governo estão se empenhando para descobrir.

Não demora muito para chegarmos em nossa casa. Jhonny desliga o carro e eu me apresso a ver como estão as coisas. Seguro um taco de madeira que se encontra na varanda de casa e abro a porta. Um bicho estranho pregado no teto mostra os dentes para mim e grita, assustando-me. Suas patas curtas e pegajosas se movem rapidamente em minha direção e por puro instinto, arremesso o taco com toda a força no corpo da criatura, que é jogada para trás com o impacto. O bicho deixa um rastro de sangue vermelho escuro quando bate na parede e cai morto no chão.

— Que porra é essa? — Jhonny indaga, seus olhos estão arregalados.

— Eu não sei!

— Temos que ver o pai e Caio. — Meu irmão passa em minha frente e sai andando a esmo pela casa.

— Cuidado, pode ser que tenha outros po... — O bicho não me deixa terminar a frase. A criatura grita e corre de forma assustadoramente rápida na direção de Jhonny. Ele pula por cima do bicho, e eu acerto quatro pauladas no bicho até ele parar de se mover.

Corro até o quarto de papai e me assusto quando vejo três daquelas criaturas comendo a sua barriga. O rosto do bicho é parecido com uma foca, só que seu focinho é pontudo e seus dentes são finos e pontiagudos também. Seu pelo brilha um marrom estranho de aparência pegajosa e ele tem quatro patas bem ligeiras. Seu corpo é quadrado e achatado. Cubro a boca com as mãos ao ver aquele cenário horrível em minha frente. Papai estava com os olhos abertos e sem vida.

— Puta que pariu! — Jhonny exclama com os olhos cheios d'agua. Os bichos rosnam e vem para cima de nós. Eu fecho a porta antes que eles nos alcancem e começo a chorar.

— Temos que encontrar o Caio. — Eu digo enquanto procuro meu irmão. Jhonny vê um rastro de sangue no chão. Meu coração dispara de medo. O rastro de sangue termina do lado da pia da cozinha, onde encontro meu irmão mais novo encolhido no canto. Ele está tremendo e chorando baixinho e seu braço se encontra mordido.

Eu o seguro no colo e ando com cautela até o meu quarto, onde com uma das mãos abro a gaveta e pego uma blusa qualquer. Coloco Caio em cima da cama e rasgo a blusa para amarra-la no braço de meu irmão para estancar o sangramento. Jhonny vem com álcool 70 para a ferida e eu jogo o conteúdo do frasco no machucado, fazendo meu irmão chorar de dor.

— Você vai ficar bem, meu amor. — Eu afago sua cabeça e enrolo a blusa rasgada no seu braço para poder estancar o sangramento.

Pela minha visão periférica, vejo meu irmão mais velho encher duas mochilas com nossas roupas. Aproveito para pegar facas e outros utensílios além do taco que possamos usar como armas. Tento me concentrar no que fazer, mas os grunhidos dos bichos que tranquei no quarto de papai fazem minha cabeça doer.

— Temos que ir para um lugar seguro. — Jhonny diz enquanto separa coisas que julga importante para levar.

Lembro-me da folha que o rapaz me entregou.

— Vamos para o abrigo daquele cara.

Meu irmão mais velho me olha irritado.

— Ficou louca? Nós nem o conhecemos!

— Vamos pra onde então? Nós precisamos arriscar.

Jhonny e eu nos fitamos e do nada lágrimas começam a cair de nossos olhos. Ele se senta do lado de Caio, na beirada da cama e põe a mão na cabeça.

— O papai... Ele nem pôde se defender.

— Eu sei, eu sei. — Eu digo, abraçando-o apertado.

— O que são esses bichos? — Caio pergunta, coçando os olhos.

— Nós não sabemos ainda.

— Eu vou matar aqueles bichos. — Jhonny se levanta com fúria e pega o taco que deixei jogado de qualquer jeito no chão.

— Não, Jhonny! — Tento segurar a barra da camiseta de meu irmão, mas Jhonny é mais rápido do que eu. Ele corre até a porta do quarto de papai, e a abre com o taco de madeira em mãos. Nós nos assustamos ao ver que não tinha mais nada ali além do corpo de papai. Os bichos tinham sumido.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top