Capítulo 2

        O novo herdeiro de nosso ex-governador, Emanuel Bastos, é um personagem muito interessante. Ainda que seja de conhecimento geral que ele não se dava bem com o pai, nem mesmo esta autora conhece o motivo da desavença.


Sussurros da Sociedade

Mais tarde nessa semana, Dora estava parada na extremidade do salão de Dona Damiana, distante do elegante grupo de convidados. Sentia-se bastante satisfeita com sua posição. Em dias normais teria apreciado as festividades. Gostava de uma boa festa como qualquer outra jovem porém mais cedo nessa noite Antônio lhe informara que Nicanor Bernardes perguntara por ela mais uma vez. De novo. Nicanor era muito persistente. Afinal, já o rejeitara tantas vezes. Da outra extremidade do salão de baile, podia vê-lo olhando para todos os lados e se escondeu ainda mais nas sombras. Ela não fazia ideia de como lidar com o homem. Ele não era muito inteligente, mas também não era indelicado, e embora de alguma forma ela tivesse que pôr um fim à sua obsessão, achava muito mais fácil fazer o papel de covarde e simplesmente evitá-lo. Estava pensando em escapar para o toalete feminino quando uma voz conhecida a fez parar.

Era seu irmão mais velho, perguntando por que ela se escondia ali. Dora é que estava surpresa pelo irmão ter aparecido em um baile. Só ia para a cidade para... Bem, não sabia o que ele fazia por lá.

– Mamãe - ele respondeu. - Ela fez uma lista de pretendentes. - Antes que Dora pudesse rir. - Uma para mim, e outra para ti.

Os dois ficaram por alguns minutos rindo das possíveis pretendentes de Antônio, que incluíam Felipa, a irmã mais tonta da família Ferreira de Alencar. A mãe parecia ter enlouquecido com aquela ideia estapafúrdia de casar de uma vez os irmãos mais velhos.

Pouco depois, Antônio fez uma expressão de ter visto a própria morte chegando. Dora seguiu seu olhar para ver Dona Damiana marchando lentamente na direção deles. Ela se apoiava numa bengala. Dora engoliu em seco e endireitou os ombros. O humor ferino da senhora era lendário na sociedade. 

A jovem fez sinal para o irmão ficar quieto e ofereceu um sorriso hesitante à velha dama. Dona Damiana ergueu as sobrancelhas e, quando chegou perto o suficiente, bateu tão forte a bengala que a moça até se assustou. Queria apenas contar que Narciso a estava procurando. Por sorte pareceu se dar conta de que Dora não tinha interesse algum pelo homem e não disse nada.

...

Enquanto percorria a casa de Dona Damiana, Simão percebeu que estava de ótimo humor. Pensou, dando uma risada, que isso era de fato extraordinário, considerando-se que estava prestes a participar de um baile da alta sociedade e, com isso, se sujeitar a todos os horrores que Antônio Pontes lhe havia descrito aquela tarde. Mas seu consolo era saber que depois dessa noite não precisaria mais se incomodar com eventos desse tipo. Como dissera ao amigo , estava comparecendo àquele baile em particular como demonstração de lealdade a velha senhora, que, apesar de seus modos desagradáveis, sempre fora muito gentil com ele em sua infância. 

Começava a se dar conta de que sua boa disposição se devia ao simples fato deque estava gostando de ter voltado à cidade natal. Não que não tivesse apreciado sua viagem pelo país. Mas quando ficou sabendo que seu pai, doente havia vários anos, finalmente morrera, decidiu que já era tempo de retornar.

Isso era de fato irônico. Simão não teria trocado seu período de exploração  por nada. Seis anos dão a uma pessoa muito tempo para pensar, muito tempo para aprender o que significa ser um homem. E, no entanto, o único motivo pelo qual deixara o estado, aos 22 anos, fora o fato de seu pai haver, de repente, decidido que enfim estava disposto a aceitar o filho. Porém o rapaz não estava disposto a aceitar o pai, de forma que simplesmente fez as malas e deixou sua casa, preferindo o exílio às hipócritas demonstrações de afeto do velho . 

Tudo começou quando terminou os estudos na Universidade de Porto Alegre. A princípio, o pai não quisera pagar por sua educação afirmando que se recusava a permitir que o filho idiota fizesse a família passar vergonha na capital. Mas Simão tinha uma mente ávida e um coração teimoso. Então conseguiu convencer o diretor da universidade de que houve um mal-entendido, que eles deviam ter perdido os documentos de sua matrícula. Imitou todos os gestos e o modo de falar do pai, olhando para o homem com superioridade. E o tempo todo tremeu de medo, apavorado com a possibilidade de a qualquer instante as palavras começarem a ficar enroladas e se amontoarem em sua mente até que gaguejasse.

Mas isso não aconteceu o matriculou rapidamente e sem questionamentos. Levou vários meses para que o pai tomasse conhecimento do novo status e da mudança de residência do filho. A essa altura, Simão estava bem ambientado e seria muito prejudicial para a imagem do governador tirar o garoto de lá sem motivo. 

Simão se perguntara várias vezes por que o pai não decidira se aproximar dele naquela época. Era claro que o menino não estava mais tropeçando em cada palavra. A fala do rapaz ainda falhava de vez em quando, mas a essa altura ele havia se tornado um perito em disfarçar suas dificuldades com uma tosse ou, se tivesse a sorte de estar no meio de uma refeição, um gole de água ou vinho no momento certo. Mas o pai nunca lhe escreveu sequer uma carta. Simão imaginava que o homem já estava tão acostumado a ignorá-lo que o fato de ele ter provado que não era uma vergonha para o nome dos Bastos não tinha nenhuma importância.

Depois da faculdade, Simão seguiu seu caminho indo trabalhar no gabinete de um deputado de partido rival do pai, apenas para incomodá-lo. Foi nessa época que suas andanças por Porto Alegre o fizeram ganhar a fama de conquistador e devasso.  Verdade seja dita: ele não era mais farrista que a maioria dos homens de sua idade, mas seu comportamento de certo modo reservado acabava alimentando esse personagem. Ele era conhecido como alguém "confiante", "lindo de morrer", "o exemplar perfeito da virilidade ". Os homens buscavam sua opinião sobre vários assuntos. As mulheres caíam a seus pés. 

Mas tudo quase foi por água abaixo quando se encontrou com o pai, agora governador do estado, em um evento. Ninguém conseguia abalar sua confiança mais do que o velho. Sentia a língua grossa, a boca estranha, e era como se seu gaguejar tivesse se espalhado da boca para o corpo, porque ele de repente não se sentia bem na própria pele. Simão foi para São Paulo no dia seguinte. Depois Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná... Sabia que seria impossível evitar o pai para sempre se permanecesse em Porto Alegre. E se recusava a desempenhar o papel de filho dele depois de ter sido desprezado por tantos anos. 

Agora, no entanto, estava contente por ter voltado. Havia algo tranquilizador em estar em casa, alguma coisa pacífica e serena na primavera gaúcha. E depois de seis anos de viagens solitárias, era muito bom reencontrar os amigos. Percorreu os corredores em silêncio, a caminho do salão de baile. Não quisera chamar atenção. Tinha receio de ser visto pelas matronas da cidade como futuro genro. Não tinha planos de se casar. Nunca. 

Como conhecia a casa, Simão entrou por uma porta lateral. Se tudo desse certo, poderia chegar discretamente , cumprimentar Dona Damiana e ir embora. Mas quando virou o corredor num canto, ouviu vozes e ficou paralisado. Reprimiu um gemido. Havia interrompido um encontro de amantes. Que droga. Como sair dali sem ser notado? 

Quando começou a recuar em silêncio, ouviu uma coisa que chamou sua atenção, uma negação. Será que alguma jovem tinha sido levada até o corredor deserto contra sua vontade? Simão não desejava ser o herói de ninguém, mas nem ele poderia ignorar um insulto dessa magnitude. Aguçou os ouvidos, tentando escutar melhor. A moça reclamava por causa de um tal Narciso tê-la seguido e ele confessava que a amava. 

– Narciso – disse a jovem mais uma vez, com a voz surpreendentemente gentil e paciente –, meu irmão já lhe disse que não devo me casar contigo. Espero que possamos continuar amigos. 

O homem não parecia satisfeito e ainda acusou a moça de nunca conseguir um marido se não fosse ele, algo realmente nada romântico. Simão continuou escutando enquanto Narciso se humilhava mais um pouco tentando convencê-la a se casar com ele. decidiu que estava tudo sobre controle e que estava na hora de seguir adiante, mas então escutou a moça pedir que o home parasse e ele mesmo parou. Parecia que teria que resgatar a moça, afinal. 

Voltou ao corredor, com a expressão mais digna possível. Tinha as palavras certas na ponta da língua, mas o destino parecia não querer que ele bancasse o herói aquela noite, porque antes que pudesse emitir qualquer som, a jovem puxou o braço que Narciso estava segurando e acertou um soco surpreendentemente forte bem no queixo do rapaz. O homem caiu, agitando os braços no ar, de forma cômica, enquanto suas pernas saíam do chão. A garota se ajoelhou, parecia culpada pela força do soco. Simão riu. Não conseguiu evitar. A garota olhou para cima, assustada. Ele ficou sem ar. Até então ela estivera oculta nas sombras, e tudo o que ele havia conseguido discernir da aparência dela tinham sido seus cabelos fartos e escuros. Mas agora, quando levantou a cabeça para encará-lo, ele constatou que tinha olhos grandes, também escuros, e a boca mais larga e exuberante que ele já vira. Seu rosto em formato de coração não era bonito segundo os padrões da sociedade, mas alguma coisa nele o deixou sem fôlego. As sobrancelhas, grossas mas delicadamente arqueadas, se juntavam.

 – Quem é você? – perguntou ela, não parecendo nem um pouco satisfeita ao vê-lo. 

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