Capítulo 7
Ambos estavam abraçados e o vento tremulava seus cabelos, quimonos e hakamas. Havia uma melodia que só a junção do passado com o presente ecoava na natureza. Era uma música de atemporalidade, de beleza e de amor. Qualquer que fosse o amor.
- Sempre foi meu desejo mudar o mundo¹ - falou ele. - Uma vez eu acreditei que a justiça estivesse nas mãos do mais forte. Então me dispus a ser forte. Tudo perdi, mas houve quem me ensinasse o que era justiça de fato. E a vida está em ajudar as pessoas, fazer do mundo um lugar melhor.
Limpando as lágrimas do rosto, Rei respondeu:
- Por isso é o maior herói deste país.
Ele a apertou em seus braços.
- Não sou. Este título pertence a Shippō. Ele sim foi o maior de todos os youkais, mais poderoso até que meu pai.
- Ele esteve sempre com você, InuYasha?
- Até o lançamento das bombas. A primeira, endereçada a Edo, Shippō deteve com sua magia kitsune. Ele sim deu sua vida pelo povo. Quando as outras duas caíram só pude resgatar os poucos sobreviventes. Há 600 anos, o monge Miroku me ensinou uma magia de esquecimento, e assim as pessoas que ajudava não se lembravam de mim.
Rei se agarrou mais ainda a ele, tendo o rosto repousado em seus ombros. O que sentia por InuYasha era apenas devoção e respeito? Ela não poderia dizer.
- E ainda assim não foi o suficiente para que um país inteiro lhe esquecesse.
E assim InuYasha lembrou-se de todos. Miroku retirara-se a um templo budista em algum lugar da China, após a morte de Sango, sua esposa. As gêmeas tornaram-se sacerdotisas, seu filho serviu ao xogun. Kirara morreu durante uma invasão de piratas coreanos, enquanto defendia os pescadores. Totosai morrera antes de ensiná-lo a reparar a Tessaiga. Myuga morreu esmagado por um animal de circo. Apenas Shippō foi seu companheiro por séculos, quando a terra resolveu que era tempo de tomar de volta o que lhe havia dado, o sublime do amor, a verdadeira joia de sua alma: e ela se morreu silente em seus braços, velha e branca e quase cega, mas feliz, feliz por ter vivido toda uma vida a seu lado. Kagome deixou este mundo sorrindo, enquanto o jovem haniou se derramava em lágrimas.
Seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Rei, que falava em tom meigo:
- Não se culpe, InuYasha. E perdoe-me por ter duvidado de seus atos.
- Eu que peço desculpas e agradeço por terem salvado o mundo.
- Conte-me mais. É preciso que seus feitos sejam conhecidos pelas sacerdotisas de nosso povo. E como uma, sinto que ainda me esconde algo.
Ainda estavam abraçados. Rei tocava seus cabelos, curiosa, suas orelhas felpudas. Queria saber tudo a seu respeito.
- Ajudei o irmão Haohmaru². Aquele jovem teria se perdido em saquê se eu não o tivesse ensinado o Kougestsuzan².
- "Kougestsuzan"?
- Sim, é uma variação da Ferida do vento.
InuYasha disse essas palavras sorrindo, mas tão logo fechou a expressão. Percebendo sua súbita mudança, Rei perguntou:
- E o que mais, InuYasha? Conte-me a dor que carrega em seu coração.
- Pus um fim no Battousai³. Seu derramamento de sangue levou muitas vidas inocentes.
- Não foi sua culpa. Tenho certeza de que Kenshin Hiruma³ levou seus ensinamentos consigo.
- Até hoje não sei se agi certo segurar a mão de Shippō quando teve a chance de deitar por terra seu jovem aprendiz. Eu só pude conscientizá-lo no fim de tudo.
Rei sorriu e olhou em seus olhos amarelos.
- E no entanto fez mais por nós que nós mesmos, que só víamos no Battousai interesses políticos. Não vê a beleza que há no fundo disso tudo? Dois youkais ensinando os humanos a se defender.
E Rei o amparou nos braços. Tantos séculos de solidão o haviam embrutecido, mas ainda era doce abraçá-lo. Sentir o calor de seu corpo e o toque de sua pele eram reconfortantes.
- O que preciso fazer para guardar esta relíquia, InuYasha?
Absorto de suas lembranças, teve de volta sua obstinação de tantos séculos.
- Quero que a guarde muito bem, escondida de todos. Talvez até mesmo de você. Um jovem virá reclamá-la. Você deverá testá-lo se está apto a manusear a Tessaiga. Até lá você será a portadora.
Rei franziu o cenho. Não parecia fazer sentido.
- O que há de tão importante para que não seja o próprio InuYasha a testá-lo e a treiná-lo?
- Estou velho. Esses são meus últimos dias. Não mais que três vezes verei o sol se pôr.
- E como pode ter tanta certeza? - perguntou ela soltando-se de seus braços.
- Sonho com isso todos os dias... nos últimos cem anos.
1 – N.A. referência ao tema de abertura do anime InuYasha, I want to change the world:
2 – Protagonista do game Samurai Spirit, cujo golpe é um furacão feito de sua katana
3 – "O Retalhador", título de Kenshin Himura, dos mangá e anime Samurai X
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