Prólogo

4 de julho de 2000

Luís Carlos caminhava de forma ansiosa pelas ruas do Rio de Janeiro. Com um sorriso de orelha a orelha, ele segurava um buquê de girassóis e carregava uma caixinha com um anel de diamantes no bolso da calça.

Seu terno de linho já estava ensopado de suor. Mesmo estando no inverno, o tempo tinha escolhido justamente aquele dia para fazer um calor infernal, mesmo que na previsão do tempo anunciada pelo Jornal Nacional dissesse que iria chover o dia todo.

Por onde passava, as pessoas - especialmente as mulheres e alguns homens - o olhavam com cobiça. Luís sempre fora um homem muito bonito e sabia disso. As mulheres praticamente se jogavam em seu colo, mas ele só tinha olhos para a Rafaela, sua esposa.

Ele saíra mais cedo do trabalho para lhe fazer uma surpresa, e a ansiedade de encontrá-la era maior do que qualquer coisa. Ele a queria a todo o momento, e mal podia esperar para ver o sorriso em seu rosto ao ver os presentes que tinha comprado.

Dinheiro nunca foi um problema para Luís, pois desde pequeno fora criado para herdar a multinacional de seu pai, e além de gerir o negócio paterno, ele tinha aberto paralelamente sua própria empresa. Luís era um dos jovens mais cobiçados do momento, mas ele já tinha dona. Seus pais lhe criticavam por ir morar junto com Rafaela tão novo, mas ele não ligava. Estava louco de amor por ela e faria qualquer coisa que Rafaela pedisse somente para fazê-la feliz.

Luís Carlos chegou até a beira da calçada e acenou em direção ao automóvel amarelo com a placa acima do teto escrita em letras verdes e vibrantes: TÁXI.

Nas ruas movimentadas e calorentas as vezes podia ser difícil encontrar um táxi livre de passageiros, mas não hoje. Tudo daria certo hoje e Luís Carlos tinha plena convicção disso quando entrou no banco traseiro do Sedã e cumprimentou o taxista com um grande sorriso. O maior que conseguiu. Era um dia especial. Um dia de sorrisos largos.

— Flores? Aprontou alguma, compadre? — O taxista olhava os girassóis com admiração crescente enquanto Luís Carlos se acomodava no banco. O cheiro de naftalina adentrou por suas narinas, mas o sorriso se manteve no rosto.

— Não, não, amigo. Só encontrei a mulher merecedora de todo esse mundo.

— Vocês jovens, quando estão apaixonados, ninguém segura, não é? — Viu um sorriso desdenhoso surgir na face dele pelo reflexo do para-brisas. — Só cuidado para não quebrar a cara, hein? — O sorriso se fechou no rosto do jovem pela primeira vez no dia e ele respondeu a última coisa que diria durante a viagem. Ele já tinha certeza que esse taxista não receberia um tostão de gorjeta.

— Não vou.

O empresário desceu do táxi sentindo-se incomodado com os comentários do taxista. Rafaela nunca o decepcionaria. Desde o primeiro momento que a viu, soube que ela era a mulher perfeita.

Luís entrou no condomínio fechado já com as chaves da casa em mãos. Saudou o porteiro com um sorriso simpático no rosto e caminhou na direção da última casa do condomínio, uma das mais bonitas, caras e isoladas de todo o bairro.

A cada passo que se aproximava, mais seu coração acelerava. Ele só queria dar amor a mulher que tinha escolhido para passar o resto de sua vida. Os comentários do taxista já não habitavam mais a sua mente. Naquele momento, ele só tinha cabeça para Rafaela.

Ele enfiou a chave na fechadura e se surpreendeu ao ver que a porta estava destrancada, mas não se importou o suficiente com aquilo porque Rafaela sempre se esquecia de trancar a porta. Luís tirou o paletó e o jogou de qualquer jeito no sofá, caminhando de forma ansiosa até o quarto dos dois. Provavelmente a encontraria dormindo ou tomando banho na jacuzzi, mas não foi assim que a encontrou. Ao abrir a porta do quarto, a primeira coisa que viu foi a sua mulher rebolando em cima de um homem. Ela gemia e gritava coisas obscenas. Ele deixou cair o buquê no chão, seus olhos começaram a arder. Luís não conseguia acreditar no que seus olhos estavam vendo.

Luís Carlos sentiu o coração retumbar dentro do peito e a respiração começar a falhar. Puxava o ar pelas narinas, mas era como se nada viesse.

— Isso! Isso! Mete bem fundo! — Rafaela com as costas suadas continuava freneticamente com seus movimentos. Nem mesmo tinham notado ele. Luís Carlos se agarrou a porta e se segurou para não cair. Seus olhos desceram até o buquê de flores estragado no chão enquanto ouvia os gemidos de sua recém esposa.

— R-Rafaela? — perguntou ele finalmente, ainda sem acreditar. Do outro lado, Rafaela ouviu a voz de seu esposo e se jogou de cima do amante, cobriu-se com os lençóis e gritou com a perplexidade no olhar.

—Luís! Amor, você chegou cedo. — Seus olhos estavam arregalados. — Não é o que você está pensando!

Não é o que ele estava pensando, não mesmo. Era o que ele estava vendo. Luís Carlos levantou a cabeça devagar e os olhos acompanharam até a cama onde até a noite passada era o ninho de amor deles. Foi quando ele viu quem era o comparsa de toda essa traição, seu melhor amigo, Victor Torres.

— Victor? — Os olhos de Luís Carlos se encheram de raiva e suas sobrancelhas se arquearam até o limite, seus dentes morderam o lábio inferior e ele sentiu toda a força voltando ao seu corpo.

— Calma, cara. Não é nada disso! — Luís Carlos se jogou em direção ao ex melhor amigo enquanto Rafaela desatava a gritar. Suas mãos se fecharam em torno do pescoço grudento e suado de Victor e apertaram com força.

— Luís! Pare com isso! Você vai mata-lo!

Mata-lo. Era tudo o que Luís queria naquele momento. Ele só conseguia enxergar o rosto do seu melhor amigo traidor, que manchara o ninho de amor que construíra com sua amada esposa, tão traidora quanto ele.

— L-uís... — sibilou seu ex melhor amigo, com a voz falhando.

O rosto de Victor já estava perdendo a coloração bronzeada de quem gosta de surfar durante as tardes e ganhando um tom roxo de quem não consegue puxar o ar até os pulmões.

Luís estava tomado pelo ódio. Ele se sentia tão idiota e enraivecido pela dupla traição que não se importava se mataria aquele infeliz. Naquele momento, Luís só queria que Rafaela e Victor se fodessem.

As mãos continuaram apertando cada vez mais o pescoço bronzeado de Victor, que tentava respirar.

Porém, Luís sentiu algo se quebrar em sua cabeça e caiu para o lado, a cabeça zonza pela pancada. Rafaela tinha lhe acertado com uma garrafa de whisky, que tinha se quebrado em sua cabeça.

O empresário viu Victor se levantar tossindo enquanto Rafaela, que tinha se coberto com a camisola que ele tinha comprado para ela, discutia com Victor.

Ele não conseguia entender o que diziam por conta da pancada, mas não importava. Luís iria se levantar para acabar com a raça dos dois.

Rafaela e Victor saíram do quarto. Luís aproveitou para se agarrar na cômoda para tentar se levantar, mas ele sentiu algo perfurar suas costas. Com um grito de dor, Luís caiu novamente no chão, sentindo o sangue manchar seu carpete caro.

A primeira coisa que viu foram os olhos de Victor. Seu melhor amigo.

Com a faca ensanguentada em mãos, Victor se lançou para cima de Luís para terminar o serviço.

Luís tentou se proteger, mas ele estava em desvantagem naquele momento. Victor deu uma facada em sua barriga, e depois outra, e mais outra. O sangue espirrava no rosto e nas roupas de seu ex melhor amigo. Rafaela observava a tudo com uma risada diabólica. Enquanto seu algoz terminava de tirar sua vida, Luís olhou para Rafaela. Sua Rafaela. Ela fora muito amada. Luís nunca entenderia porque ela fez o que fez.

O que Victor tem que eu não tenho?

Aquela altura, ele já sabia que nunca descobriria a resposta para aquela pergunta.

Com o sangue jorrando por vários lugares, Luís partiu. Os olhos abertos e cianóticos encaravam fixamente sua mulher.

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