Capítulo 5

— Fique longe de mim! Fique longe de nós! — exclamou, ainda debruçada sobre o corpo de Marcelo. Luís foi tomado pelo ciúme.

— Um dia você vai entender que seus amigos nunca te amaram como eu te amo.

— Você nunca amou ninguém! Me deixa em paz!

— Você terá tempo para entender.

— Entender o que? — Helena estava cansada demais, farta de tudo o que estava acontecendo. Parecia que estava dentro de um enorme pesadelo.

— Quando você for uma fantasma como eu, nós iremos ficar juntos para todo o sempre. Teremos a eternidade para nos amarmos.

— O que?

— Fique tranquila, tentarei ser bem cuidadoso para não doer muito. — Luís se aproximou, com os olhos doentios e vidrados, satisfeitos por ver que Helena se manteve no mesmo lugar. Uma lágrima desceu dos olhos dela, e a moça os fechou, pensando na morte dos seus melhores amigos. Ela os amava, ela sempre os amaria.

— Nós também te amamos. — Helena abriu os olhos assustada ao ver as mãos geladas de Karina envolverem as suas. Luís soltou um grito de raiva, dava para notar que ele estava tão confuso quanto sua amada.

Não fora só a Karina que apareceu, Thayane estava do outro lado de Helena, acompanhada de Antônio e Marcelo. O corpo do amigo ainda jazia no chão. Todos eles eram fantasmas agora.

— Viemos mandar esse doente para o inferno! — exclamou Thayane, dando um beijo na bochecha da amiga e se levantando com um olhar ferino. Helena abraçou Antonio e Marcelo e se pôs de pé.

— Você não pode com todos nós. — gabou-se Antonio. A expressão no rosto de Luís se tornou ainda mais enraivecida. Ele odiava os amigos de Helena com todas as suas forças. Pensou que se acabasse com suas vidas miseráveis que eles os deixariam em paz, mas não foi assim que aconteceu.

Os cinco partiram para cima de Luís. Helena, que até então estivera sem forças, correu para ajudar seus amigos a derrotar o cara que ela um dia achou amar.

Luís tentou lutar contra eles desferindo golpes cegos e aleatórios com a faca, mas não conseguiu acerta-los. Ele queria chegar até Helena, mas os quatro a protegiam de suas investidas.

— Me deixem em paz! — gritou Luís. — Vão embora!

— Não mesmo! — respondeu Karina, chutando a virilha de Luís, que caiu no chão.

Antonio e Marcelo se posicionaram cada um de um lado do corpo de Luís, onde pressionaram os ombros do fantasma contra o chão. Thayane chutou entre as pernas de Luís, que soltou um silvo de dor.

— Isso é por ter acabado com as nossas vidas, babaca! — vociferou ela, com os olhos repletos de ódio.

— Nós vamos te mandar para o inferno. — Marcelo avisou, enquanto Thayane e Karina seguravam as pernas de Luís.

Helena assistia a tudo sem saber bem o que fazer.

Quanto mais eles pressionavam Luís para o chão, mais uma cratera ia se abrindo. Helena se afastou um pouco quando a cratera se abriu mais. Luís começou a gritar.

— HELENA, POR FAVOR! NÃO ME DEIXA!

— Está funcionando. — comemorou Thayane, ao ver o fogo que saía da cratera.

— O que está acontecendo?

— Assim que esse maldito for para o inferno, nós conseguiremos ir para o outro lado. Encontraremos a paz. — explicou Karina, com um sorriso iluminado.

— NÃO! VOCÊS NÃO PODEM FAZER ISSO COMIGO!

Os quatro continuaram empurrando até que o chão engoliu Luís. Helena se aproximou a tempo de ver o fogo se espalhando pelo corpo de seu algoz. A cratera se fechou.

Seus amigos começaram a ficar transparentes.

— Não me deixem, por favor. — pediu Helena, chorosa.

— Não podemos. — Antonio estava pesaroso.

— Vai ficar tudo bem conosco. — garantiu Marcelo. Os quatro abraçaram a amiga, e quando menos percebeu, eles tinham desaparecido.

Helena começou a chorar, desmoronando no chão, enquanto uma sirene era ouvida ao longe. Ela viu dois policiais se aproximando e lhe algemando.

— Helena, você está presa pelo assassinato de Karina Bittencourt, Thayane Silva, Antonio Lirio... — Ele fez uma pausa ao olhar para o corpo atrás dela. — E de Marcelo Souza.


6 meses depois

Penitenciária de Serra das Almas, Rio de Janeiro.

Helena estava deitada em sua cela olhando para o teto acinzentado e cheio de rachaduras da prisão. Seus olhos estavam desprovidos de emoção ou vida.

O guarda que fazia a inspeção noturna a observava constantemente, pois ela não parecia ter alma dentro de si. Ela simplesmente não reagia a nada. Se alguma presa lhe provocava, Helena não revidava. Ele nunca tinha lhe visto falar ou esboçar qualquer reação. Parecia que tinha desistido de viver.

Ele achava que a mesma simplesmente se arrependera do que fizera aos amigos. Ou que havia sido possuída por algum demônio que acabou levando sua alma e dignidade. A falta do que fazer à noite em suas inspeções lhe faziam criar as mais diversas teorias sobre as presas, e Helena era a que mais lhe intrigava. Ela parecia extremamente perturbada, mesmo que transparecesse não ter nada mais dentro de si.

Ele se afastou de sua cela e balançou a cabeça. Estava ficando cada dia mais velho e caduco, foi o que ele pensou antes de se afastar.

Helena havia notado a movimentação do guarda. Ela havia decorado os horários em que as inspeções aconteciam, as trocas de turno e até mesmo os sons que algumas presas faziam durante a noite. Não tinha muito o que fazer dentro da prisão, então ela aprendeu a usar a sua imaginação para viajar para onde quisesse sem sair do lugar. Era a única coisa que a mantinha sã.

A moça tentava a todo o custo apagar da memória os eventos que a levaram até ali, mas todos os dias ela sonhava com Luís e com os corpos fantasmagóricos e desfigurados dos seus amigos. Os sonhos eram tão vívidos que as vezes era como se ela tivesse voltado no tempo. Se tivesse essa chance, teria escolhido ir para outra faculdade, para que Luís nunca chegasse a vê-la.

Luís... Até hoje ele fora dado como foragido pela polícia. Achavam que Helena tinha inventado toda a história do fantasma, e mesmo com os links das reportagens, a polícia estava certa de que Helena e Luís eram cúmplices de todos os assassinatos.

Helena estava prestes a dormir quando um barulho no canto de sua cela a incomodou. Era um barulho baixo o suficiente para que poucas pessoas ouvissem e alto o bastante para que a incomodasse. Ela se sentou na cama, com a planta dos pés descalços apoiados no chão frio e se pôs a olhar para a origem do barulho. O ruído havia parado, mas logo recomeçou, um pouco mais alto do que esperava. Era como se alguém desse soquinhos na parede.

Helena se levantou, aproximando-se da parede. Provavelmente a presa da cela ao lado estava com insônia e não queria deixar ninguém dormir. Porém, quando Helena se aproximou, não havia mais barulho. Ela suspirou, tirando alguns fios de cabelo do rosto enquanto se virava de volta para a cama. Paralisou no meio do caminho ao ver uma rosa vermelha repousada suavemente em cima do seu travesseiro.

O coração da moça disparou na hora. Aquela rosa nunca esteve ali antes. Ninguém tinha entrado em sua cela, e mesmo se alguém tivesse entrado, ela teria visto.

Com as mãos tremendo de medo, ela pegou a rosa e se virou, dando de cara com Luís.

A última coisa que Helena fez antes da faca ser enterrada em seu estômago foi gritar enquanto o sangue jorrava pela sua cela.

Os olhos fantasmagóricos de Luís a encararam como se lhe dessem o abraço da morte. 

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