Capítulo 1

A biblioteca era silenciosa e quase sempre vazia. Era uma universidade, mas os alunos não eram tão prodigiosos assim. Uma alma ou outra além dos funcionários circulava por ali. Luís Carlos gostava. Era calmo e ele podia pensar bastante. Pensar lhe trazia ódio, mas depois de um tempo até o ódio serve para abrasar a dor de ter o peito aberto e descobrir que o amor não era real, mas aquele dia foi diferente.

Luís rondava pelas prateleiras de literatura brasileira e vez ou outra analisava alguns volumes. Machado de Assis era bom, Jorge Amado, Luiz Fernando Veríssimo e uma infinidade de outros autores consagrados. Ele olhava, mas não lia. Não tinha mais vontade de fazer nada disso, não tinha mais vontade de fazer nada. Bom, isso até aquele dia, quando ele a viu entrar.

Sentiu o aperto no seu coração, o mesmo aperto que parecia ter sentido apenas em outra vida e ele agarrou a sua camisa ensanguentada e segurou seu peito. Algo retumbava ali. Podia ser sua imaginação, se é que ele podia imaginar algo, mas parecia tão real, tão corpóreo esse sentimento que depois de muito tempo ele se sentiu surpreso. Algo novo acontecia.

Ela — ele não sabia seu nome, nunca tinha a visto por ali em todo esse tempo—, o encantou. Um encanto a primeira vista que não acontece com todos e muito menos a todo momento. Era um encanto só dele e especial.

Os cabelos negros dela despontavam abaixo dos ombros e os olhos castanhos buscavam alguma coisa em uma das estantes de livro. Luís se aproximou sorrateiramente e viu o letreiro acima da prateleira: POESIA. Ela lia poesia. Ela se abaixou procurando algo na parte mais baixa da estante e ele viu os lábios rosados dela se abrirem, uma pequena fenda de curiosidade tão encantadora. Luís se pegou sorrindo. Não acontecia há muito tempo.

Quem era ela? Donzela capaz de trazer a tona todas essas coisas a ele?


Helena tinha tido um dia de merda. O pior de toda a sua vida. Ela não podia acreditar que a sua redação, que tinha sido escrita com tanto carinho, não merecia um dez.

— Deixa de ser chata, Helena! — Karina esbravejou, puxando da mão dela a redação com um 80 da professora. — Você tirou a nota mais alta da sala.

— Você sabe muito bem que a professora Sandra é rígida com essas coisas. — Antonio fez um carinho em sua bochecha enquanto tentava tranquilizar a amiga.

Helena suspirou, encarando seus amigos com um cansaço aparente no rosto. Ela se dedicava tanto aos seus estudos que aquilo a estava lhe consumindo.

— Eu sei, mas é que se eu não tiver notas impecáveis, o professor Feitosa não vai querer que eu faça o estágio com ele. Preciso que ele me aceite, e para isso, é necessário ter notas melhores do que um oito.

Helena estava tentando um estágio com o professor Feitosa desde o início do ano. Mas, como era esperado, ele lhe dissera que iria avaliar suas notas antes de decidir se seria merecedora ou não de trabalhar com ele. Feitosa era uma das presenças mais ilustres da Universidade. Bonito, mais velho e inteligente, ele era cobiçado por muitas garotas. Dizem as más línguas que ele fica com muitas alunas, mas Helena nunca soube se o boato era verdadeiro.

— Por que você não dá pra ele então? Aposto que ele nem vai ligar pra sua nota. — sugeriu Thayane, encarando a amiga maliciosamente. Suas bochechas roliças deixavam seu rosto redondinho e ainda mais bonito.

Helena a encarou como se não acreditasse no que tinha saído da boca de sua amiga, principalmente porque sabia que Thayane falava sério.

— Ficou maluca?

— Não falei nada demais. Todo o mundo sabe que o Feitosa adora pegar as alunas. — Deu de ombros, fazendo o resto do grupo cair na gargalhada.

Helena foi a única que não achou graça.

— Bom, eu prefiro conseguir as coisas pela minha própria inteligência.

— Você está certa. Não é porque a Thayane pega professores que você tem que seguir o exemplo. — Marcelo, que até então estava calado, se meteu na conversa. Todo o mundo sabia que ele era apaixonado pela Helena, até mesmo a própria. Ela nunca correspondeu aos sentimentos do amigo simplesmente porque ela não se sentia atraída por ele. Não era por falta de beleza ou algo do tipo, era mais pela falta de química ou, como as pessoas dizem por aí, sex appeal. Ele não tinha sex appeal, mas era bonito. A maioria das garotas queria ficar com Marcelo e apesar de Helena saber que ele vai às chopadas da faculdade justamente para encher a cara e ficar com as garotas, Marcelo fingia que não fazia nada disso por medo do que Helena pensaria quando, na verdade, ela nem ligava.

— Gente, eu estou indo para a biblioteca. Encontro vocês mais tarde. — Helena puxou a redação da mão de Karina, guardando no fundo da mochila o papel. Ela só queria esquecer que aquela nota tinha existido.

Helena entrou na biblioteca de sua universidade e correu para a sessão de autores nacionais. Desde pequena, ela sempre gostou de escrever. Enquanto passava os olhos pelas prateleiras, um livro de poesia a interessou.

Ela o pegou, passando as mãos pela capa dura, levando-o consigo para uma mesa no canto da biblioteca, disposta a ler o máximo que conseguisse.


Luís a seguiu até a mesa onde ela se sentou jogando a mochila sobre a mesma. Ele ficou apenas olhando, admirando ela. Vendo os olhos castanhos passando de página em página e a pele dela ficando ruborizada. Não sabia se era a temática dos livros ou o clima quente, mas aquilo a deixava mais bela, mais esplêndida.

Impossível ou não, a cada segundo que se passava Luís Carlos sentia-se mais preso a ela e definitivamente mais apaixonado. Ela era tudo que ele nunca havia visto e agora sabia que ela era tudo que ele queria.

Assim ele ficou por um tempo, tempo que passou rápido demais. Um homem já de meia idade, mas com os cabelos cheios acima da cabeça, a barriga enxuta sob a camisa polo e a pele bronzeada de alguém que frequenta a praia se aproximou. Luís tinha uma vaga lembrança deste homem. Talvez fosse um professor. O homem chegou sorrateiro e arrastou a cadeira em frente a jovem pelo piso de linóleo e se sentou despreocupado se estava atrapalhando ou não.

— Helena, estou gostando de ver, hein! Está mesmo se dedicando aos estudos. — Os olhos, agora da dama que conhecia o nome, Helena, se levantaram sobressaltados quase assustados. Estava tão envolta na leitura que nem mesmo o chiado da cadeira foi capaz de tira-la do mundo de palavras.

— Professor Feitosa, o que faz por aqui? Achei que estariam todos indo para casa uma hora dessas. — Depois do susto ela o cumprimentou com um sorriso e um aceno de cabeça.

— Não são somente os alunos que precisam manter a mente ativa, minha cara, nós professores também precisamos estudar um pouco nossa área. — Ele deixou as mãos caírem sobre a mesa e Luís Carlos via que a cada segundo suas mãos traçavam um caminho em direção a Helena, a cada instante ganhando mais espaço. Ele deu alguns passos em direção aos dois para escutar a conversa melhor. Não precisava se esconder. Ninguém podia vê-lo. Ninguém.

— Eu imagino, professor. A vida de vocês também não é nada fácil. — A noite estava quente. Muito quente. As janelas estavam abertas, mas somente o ar abafado se irradiava pela sala. Então Helena que vestia um casaco de algum tecido leve sentiu que estava na hora de tira-lo. Por baixo vestia uma regata justa e decotada no busto. Ela era perfeita. Um espetáculo, mas Luís deixou de admira-la quando viu o olhar lascivo brotar no rosto do tal professorzinho. Maldito. Não se segurou e viu seus punhos se cerrarem quase como um impulso, as unhas adentrando a carne, se é que ele tinha carne ou apenas a imaginava.

— Sabe, Helena, já está ficando tarde e você sabe muito bem que estudar demais acaba tendo o efeito contrário. Eu conheço um barzinho aqui perto, não gostaria de ir tomar um chopp? Só nós dois? — Luís sentiu seu peito arder e mordeu os lábios tentando controlar o impulso que surgia ao ver o sorrisinho do desgraçado. Maldito.

— Olha Professor Feitosa, eu adoraria, eu já estava de saída mesmo, mas estou muito cansada, preciso mesmo ir dormir. Espero que entenda. — O sorriso de Feitosa se fechou de uma vez enquanto Helena vestia novamente o casaco e pegava sua mochila na mesa. Estava indo embora. Luís sentiu as mãos se afrouxarem e a respiração voltar ao normal lentamente. Estava tudo bem. Helena sabia como dispensar esses tipinhos.

— Tudo bem, então. Fica para uma outra hora. — Helena foi a primeira a se levantar e Feitosa se levantou depois. Os dois iam para mesma direção e Luís Carlos seguia os dois passivamente. Ele viu as mãos de Feitosa se abrindo e se fechando abaixo da cintura, um movimento repetitivo, quase um tique ou sinal de nervosismo. Talvez adrenalina, mas Luís ainda não tinha se cansado de ver Helena e continuou seguindo seus passos como uma sombra etérea. Já imaginando ou não o perigo que ela corria sob a visão do Professor Feitosa.

Helena seguiu para fora da biblioteca a passos apressados. A presença de Feitosa atrás de si começou a incomoda-la. Ela se dirigiu para fora da Universidade e entrou no campus, que estava escuro e deserto aquela hora. Feitosa puxou seu pulso com um pouco mais de força e a prensou contra uma das paredes laterais do prédio de humanas.

— O que você está fazendo? — Helena elevou o tom de voz, assustada. Ela tentou empurrar Feitosa, mas ele segurou seus pulsos com uma força muito grande.

— Você quer o estágio? Então vai ter que ser do meu jeitinho. Você é muito gostosa, garota. —Ele aproximou a boca do ouvido de Helena, que se contorceu toda ao ouvir aquilo.

— Por favor, me deixe ir...

— Só depois que eu provar essa sua boca macia. — Feitosa grudou sua boca na de Helena com ferocidade. Ele tentou enfiar a língua na boca dela, mas Helena pressionou os lábios com força enquanto tentava se soltar. Em meio a gritos abafados, ela pedia para que o professor a soltasse, mas ele continuava tentando enfiar sua língua nojenta na boca dela enquanto roçava seu pênis no corpo da moça.

Até que o corpo de Feitosa não estava mais sobre o dela.

Helena viu o professor ser arremessado ao chão por um rapaz que ela nunca tinha visto no campus.

— Você ficou surdo ou não ouviu que a moça pediu para solta-la? Achei que em pleno ano de dois mil e dezenove as pessoas entendessem o que significa a palavra não. — disse ele, chutando a barriga do professor Feitosa, que se curvou de dor no chão. Helena, encostada a parede, observava a cena estática.

Feitosa se levantou cambaleando com as mãos para cima, como se pedisse por rendição. O rapaz fez que ia para cima dele novamente, assustando Feitosa, que saiu correndo com as mãos no estômago.

Os olhos de Helena esquadrinharam o rosto de seu salvador e seu coração bateu mais forte. Além de corajoso, o rapaz em sua frente era lindo. Ela nunca o tinha visto ali no campus antes.

— O-obrigada por me ajudar. — Ela abriu um sorriso trêmulo, mas o sorriso morreu quando viu uma mancha vermelha em sua blusa. — Você está ferido?

O rapaz demorou meio segundo para notar a que ela se referia. Ele baixou o olhar para sua blusa manchada de sangue e fez uma careta de espanto.

— Não se preocupe, esse sangue não é meu. — Vendo a expressão de terror no rosto dela, ele tentou se explicar. — Essa mancha é de sangue artificial. Eu fiz uma pintura no braço de uma moça no Teatro, que ia ser infectada por um zumbi.

As feições de Helena logo se suavizaram.

— Menos mal.

— Quer que eu te acompanhe até em casa? Quer uma água ou algo assim? — Ele perguntou, solícito.

— Não precisa. Vou pedir um Uber, mas muito obrigada por me ajudar. Qual é o seu nome?

— Me chamo Luís Carlos.

— Espero te ver de novo, Luís. — Ela disse, lançando a Luís um olhar cheio de segundas intenções antes de seguir seu rumo, deixando um Luís paralisado e atônito ao descobrir que podia ter uma forma corpórea.

Era como se a vida estivesse lhe dando uma segunda chance, e ele aproveitaria cada segundo disso.

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