2. capítulo trinta e oito
ㅤㅤㅤO cheiro foi a primeira coisa que ela percebeu ao entrar - não era o cheiro costumeiro e amargo da nicotina de anos grudada nas paredes, mas sim o aroma suave de uma refeição. Estreitando os olhos, ela fechou a porta e foi até a cozinha.
ㅤㅤㅤAdam estava lá, de avental e com as mangas da camisa dobradas, mexendo uma panela grande sobre o fogo baixo, o que justificava o som de algo borbulhando durante a ligação. A música clássica que tocava ao fundo tornava aquela cena mais irreal. Ele parecia tão calmo, tão... inofensivo.
ㅤㅤㅤAlice se aproximou, apoiando a mão na parede e encostando a bochecha. Seus ombros estavam tensos, e os olhos assistiam os movimentos do homem com atenção. Era exatamente como naquela noite.
ㅤㅤㅤEla chegou e o encontrou cozinhando, gestos calculados e uma atenção afiada como a faca em cima do balcão. Era desconfortável. O que ele estava planejando? Horas depois, Amy estava morta e os resquícios daquela refeição ficaram espalhados pelo chão do galpão.
ㅤㅤㅤ― Não vai se sentar? ― A voz de Adam a puxou de volta para a realidade, e ela piscou algumas vezes.
ㅤㅤㅤEle estava de costas, mas havia um sorriso perceptível em suas palavras. Adam sabia o que estava fazendo, como sempre. Ao invés de respondê-lo, Alice cruzou os braços sobre o peito e se encostou na parede. O silêncio fez com que ele virasse a cabeça minimamente em sua direção, mas a feição relaxou ao vê-la e Adam abriu um sorriso antes de voltar sua atenção para o que fazia. Ele desligou o fogo e começou a despejar o conteúdo da panela em uma travessa.
ㅤㅤㅤ― Você não precisa tornar tudo um desafio, querida ― disse, servindo-se de um pouco de vinho tinto e se virou para ela. ― Fiz um risoto de cogumelos com trufas negras.
ㅤㅤㅤAlice ficou em silêncio, absorvendo as palavras dele. Risoto de cogumelos com trufas negras. Aquilo definitivamente não era algo que despertaria seu apetite. Ainda assim, o cheiro que pairava no ar continuava atraindo a atenção de seu estômago.
ㅤㅤㅤ― Não estou com fome ― Alice disse, dando de ombros e continuou, seca: ― Quero saber o que você está fazendo aqui.
ㅤㅤㅤ― Ah, Alice, não seja assim ― Adam colocou os pratos sobre a mesa e pegou a travessa quente com ajuda de um pano, servindo-os. ― Já passamos dessa fase, não é?
ㅤㅤㅤAdam falava em um tom casual, quase carinhoso, fazendo parecer que a ligação e as mensagens não fossem reais. Ela travou o maxilar, sentindo o estômago revirar enquanto ele puxava uma cadeira, gesticulando para que ela se sentasse. Havia algo nos olhos dele que era mais do que um aviso, era uma promessa de algo ruim.
ㅤㅤㅤContra sua vontade, Alice caminhou até a mesa em passos pesados e se sentou, mordendo o interior da bochecha. Adam sorriu satisfeito, um brilho frio tocando seus olhos enquanto ele erguia a taça de vidro em um gesto ensaiado.
ㅤㅤㅤ― À uma grande noite ― disse com a voz suave, deslizando como seda negra pelo ar.
ㅤㅤㅤSem dizer uma única palavra, ela pegou a taça diante dela e a aproximou, mantendo-a na mesa entre suas mãos. Não tinha intenção de beber, mas também não queria irritá-lo. Adam passou por ela, indo em direção a porta que Alice ouviu ser trancada e voltou, sentando-se na mesa e, sem cerimônia, começou a comer.
ㅤㅤㅤOs movimentos calmos, a casualidade de uma refeição, tudo isso era agoniante de se assistir. Os dedos dela apertavam a haste da taça com mais força que o necessário. Ela conseguia ouvir os sussurros aumentando ao seu redor, e vultos corriam por sua visão periférica. Foco, Alice repetia para si mesma, sabendo que não poderia tirar os olhos dele.
ㅤㅤㅤO silêncio entre eles era pesado, ou talvez fosse só para ela. Adam não demonstrava preocupações, afinal, ele estava no controle. A música clássica ainda tocava, sem combinar com o ambiente. Finalmente, Alice cedeu. Pegou um garfo e experimentou uma pequena porção do prato.
ㅤㅤㅤ― Está bom, não é? ― Adam perguntou, observando-a engolir.
ㅤㅤㅤEstava delicioso, mas Alice não respondeu.
ㅤㅤㅤ― Está nervosa?
ㅤㅤㅤAlice ergueu as sobrancelhas, um pouco ofendida pela pergunta. Sim, ela estava nervosa. Mas tentava não demonstrar isso. Tentou manter um tom indiferente ao respondê-lo.
ㅤㅤㅤ― Não.
ㅤㅤㅤEla tornou sua atenção para o prato apenas para evitar responder alguma outra pergunta. Eles comeram em silêncio. Alice não conseguia abaixar a guarda, os olhos constantemente correndo em direção à ele, mas Adam permanecia indiferente.
ㅤㅤㅤQuando finalmente terminou, ele limpou a boca com um guardanapo, se encostou na cadeira, girando levemente a taça de vinho em sua mão. Adam a observava com aquela intensidade sufocante, esperando-a terminar a refeição.
ㅤㅤㅤ― Então, Alice, o que você disse para a polícia?
ㅤㅤㅤA pergunta veio antes mesmo que ela terminasse de mastigar a última porção. Tossiu algumas vezes, pousando o talher na mesa.
ㅤㅤㅤ― Eu não disse nada que te interesse ― respondeu, embora tentasse manter a voz firme, havia um tremor em suas palavras.
ㅤㅤㅤAdam inclinou a cabeça, os olhos se estreitando. Sua expressão era séria, ameaçadora. Ele não queria jogar, estava claro em seus olhos. Estava sendo direto demais. O homem pousou a taça sobre a mesa com cuidado e apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando as mãos sobre o queixo.
ㅤㅤㅤ― Tem certeza? ― indagou. ― Porque tenho certeza que a polícia ficaria muito interessada no que você tem para contar, não é mesmo? Ou talvez eles prefiram o que eu tenho.
ㅤㅤㅤAlice engoliu seco.
ㅤㅤㅤ― Do que você está falando, Adam?
ㅤㅤㅤ― Estou falando das provas que podem te colocar na cadeia pelo assassinato da Greene ― respondeu em um tom gélido. ― Mensagens, fotos, uma faca com suas digitais e o sangue dela...
ㅤㅤㅤAlice sentiu os músculos travarem e a comida ameaçou voltar. Eu não disse nada. Seus pensamentos se perdiam em meio aos sussurros e risadas ao seu redor.
ㅤㅤㅤ― Achou mesmo que eu iria permitir você sair por aí sem nenhum tipo de segurança para mim?
ㅤㅤㅤ― Você é doente ― ela sussurrou, sentindo-se cada vez mais encurralada.
ㅤㅤㅤ― Errado ― Adam rebateu, seu tom frio como gelo. ― Sou apenas um homem prático. Você me entrega para a polícia, e eu entrego todas as provas que eles precisam.
ㅤㅤㅤ― Eu não disse nada para eles.
ㅤㅤㅤ― Ótimo ― Ele exclamou, juntando as mãos diante de si. Apesar do tom descontraído, a desconfiança continuava ali. ― Espero que continue assim, porque, se você se desviar nem que seja um milímetro do que eu espero de você...
ㅤㅤㅤ― Você vai me botar atrás das grades. ― Alice completou com ironia. ― O grande herói Adam Johnson.
ㅤㅤㅤEle passou a língua sobre os lábios.
ㅤㅤㅤ― Bom, eles até vão saber o que você fez, mas não importa. ― Adam continuou ― Vou cortar sua garganta, e eles só vão encontrar seu corpo quando eu quiser.
ㅤㅤㅤUm arrepio percorreu sua nuca. Com a mão trêmula, Alice levou a taça aos lábios novamente, tentando ignorar o olhar fixo de Adam. O líquido invadiu sua boca, engolido em um único gole, deixando um rastro quente se espalhar por seu corpo. Ela limpou a garganta, os olhos ainda desviados dos dele, e se serviu mais uma vez.
ㅤㅤㅤ― Sabe ― Adam começou, recolhendo os pratos e se levantando. ― Beber assim não é bom para o bebê.
ㅤㅤㅤAlice congelou, o corpo formigando.
ㅤㅤㅤ― O quê?
ㅤㅤㅤAdam colocou a louça na pia e se virou novamente para ela, observando-a com um olhar calculado. Ela podia sentir seus olhos queimando-a. O coração disparou, e sua respiração se tornou pesada, como se o oxigênio se recusasse a entrar em seus pulmões. Como ele sabe? Sua mente correu em círculos, buscando uma resposta. Paul contou?
ㅤㅤㅤEle sorriu de maneira quase imperceptível, parecia conseguir enxergar por trás dos olhos dela e desvendar seus pensamentos.
ㅤㅤㅤ― Não tem o porquê da surpresa. Não é algo que você conseguiria esconder por muito tempo, afinal.
ㅤㅤㅤ― Como... ― Alice tentou perguntar, mas a voz falhou.
ㅤㅤㅤ― Está tudo bem ― ele disse suavemente, consolando-a. ― Não estou bravo com você. Descuidos acontecem.
ㅤㅤㅤAdam deu um passo à frente, o sorriso se alargando com mais confiança e ele acariciou a bochecha dela.
ㅤㅤㅤ― Eu sei que isso deve ser complicado, mas... Eu posso ajudar. ― Ele inclinou a cabeça ligeiramente, apoiando os dedos no queixo dela, de modo que a obrigasse a olhá-lo. ― Podemos dar um jeito nisso. Posso ajudar a tirar esse fardo de você.
ㅤㅤㅤAlice sentiu um nó apertando sua garganta, o medo se misturando com a tentação. Ele estava oferecendo uma saída. A saída que ela procurava. Uma maneira de acabar com tudo isso, pensou. Talvez ele esteja certo... Era tentador, não poderia negar.
ㅤㅤㅤNão...
ㅤㅤㅤA forma que Adam falava soava como cuidado, mas então ela se lembrou com quem realmente estava falando. Ele não queria ajudá-la. Adam estava tentando controlar mais uma parte de sua vida, de seu corpo, fazendo parecer que era sua mão que ela precisava segurar. A única saída.
ㅤㅤㅤAlice respirou fundo, virando a cabeça para o lado e evitando encará-lo. A raiva queimava dentro dela, empurrando a tentação para longe. Não é uma ajuda, ela pensou, é apenas uma forma de se manter no controle.
ㅤㅤㅤ― Estou te dando uma oportunidade de se livrar de algo que você não precisa carregar. ― Ele se aproximou. ― Algo que só vai te destruir.
ㅤㅤㅤ― Eu não preciso da sua ajuda, Adam ― murmurou, se levantando.
O capítulo ficou em torno de umas 4 mil palavras, então vou fazer uma pequena divisão aqui! (me incomoda mas vamos lá)
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