2. capítulo trinta
ㅤㅤㅤAs palavras de Adam ecoavam nos seus ouvidos, corroendo seu cérebro. Ela piscou atordoada, olhando para as mãos trêmulas, livres, e não reconheceu como suas. Aquilo não estava certo. Sentiu Ecila se mover dentro de si, pouco a pouco tentando recuperar o controle.
ㅤㅤㅤAlice foi dominada pela vontade de correr até seus pulmões se desfazerem, mas as pernas estavam pesadas demais; o chão era areia movediça e ela estava afundando mais rápido do que conseguia pensar. Encarou o homem novamente. Uma parte dela esperava que ele falasse exatamente o que fazer, e a outra ofegava - os olhos correndo por todas as direções em busca de uma saída.
ㅤㅤㅤAdam não disse nada por um tempo, apenas se afastou e passou a observá-la em silêncio. Sua expressão era de quem se delicia com um jantar luxuoso, ansioso pelo prato principal, porém sua postura continuava firme - sem saber o que exatamente ela serviria. Ele te deu uma escolha, a outra sussurrou, porque sabe que você não é capaz.
ㅤㅤㅤ― Vamos lá, Alice ― Adam não parecia impaciente, mas pressioná-la daquela forma era excitante; o olhar confuso, a expressão perdida. O que você vai fazer? ― Me mostre do que é capaz.
ㅤㅤㅤEntão, sem desgrudar os olhos dela, ele segurou sua mão, virando a palma para cima e Alice sentiu o peso ser depositado ali. Os dedos se moveram sozinhos, fechando-se ao redor do cabo da faca oferecida. A lâmina grande brilhava na luz tênue do lugar e o reflexo da escuridão trazia um presságio ruim. Era um desafio.
ㅤㅤㅤVocê sabe o que fazer.
ㅤㅤㅤ― Você sabe o que fazer.
ㅤㅤㅤAs vozes se entrelaçavam em uma harmonia perturbadora, impossibilitando distinguir onde uma terminava e a outra começava. Acabe logo com isso, sussurravam e, como um veneno se espalhando lentamente por seu corpo, as palavras penetravam cada vez mais fundo. As Pessoas de Sombra ao redor estavam inquietas e a pulsação em seus ouvidos deixava o resto do mundo surdo.
ㅤㅤㅤAlice abaixou o olhar para a faca em sua mão, mas não conseguia mais enxergar o metal. Em seu lugar, estava um reflexo pálido e distorcido de um demônio de olhos negros encarando-a de volta. Esse é o abismo, a outra disse e Alice pode ver os lábios se mexendo sem emitir som algum. Aquele reflexo não era dela. Não podia ser.
ㅤㅤㅤSeu primeiro impulso foi lançar a faca para longe, mas os dedos não obedeceram; mantendo-se firmes ao redor do cabo. Ela escutava as risadas de Amy nas suas costas. Alice levantou as mãos até os ouvidos, tapando-os como se aquilo fosse o suficiente para abafá-las, mas pareciam vir de dentro dela. Filha da puta.
ㅤㅤㅤDeixando uma espécie de rosnado escapar, virou a cabeça rapidamente na direção de Amy e a viu com lágrimas molhando o rosto. Mas algo nos olhos dela a denunciava... Era como se, de alguma forma, refletissem os de Adam. Sua boca continuava mexendo por trás da fita e as risadas continuavam a ressoar.
ㅤㅤㅤ― A decisão é sua ― Adam falou como se entendesse o que aquele gesto significava.
ㅤㅤㅤAs pupilas estavam tão dilatadas que seu olhar estava escuro quando se fixou novamente em Adam. A culpa é sua, uma parte ainda sã conseguiu processar aquele pensamento quando o encarou. A culpa de tudo o que aconteceu nos últimos meses era única e exclusivamente de Adam. Tudo o que ele tocava se transformava em merda e era por isso que ela estava atolada até o pescoço.
ㅤㅤㅤVocê não é capaz.
ㅤㅤㅤEla sentia os vermes rastejando por baixo de sua pele, inconscientemente fazendo com que ela esfregasse os braços. Ele pensa que você é fraca. As unhas da outra se fincaram em seu couro cabeludo e ela sentiu a pele abrindo de dentro para fora. Mostre que ele está certo, Ecila zombou com uma risada tão alta que ela teve certeza que Adam ouviu.
ㅤㅤㅤ― Saiam da minha cabeça ― Alice gritou esmurrando várias vezes a própria têmpora. ― Porra!
ㅤㅤㅤOs olhos azuis estavam tomados por uma mistura de ódio e desespero. Seu corpo todo tremia com a hesitação, mas ela tinha apenas uma certeza em mente: queria acabar com ele. Adam era o verdadeiro monstro. Adam era quem deveria pagar por tudo aquilo. Adam deveria morrer.
ㅤㅤㅤRangendo os dentes, Alice estendeu a faca diante dele e deu um passo em sua direção, a respiração irregular ecoava em seus ouvidos junto aos batimentos do seu coração. Os dedos apertaram a faca com mais força e, por um momento, tudo ficou em silêncio. Adam sorriu cinicamente, provocando-a, como se soubesse o que estava por vir. E ele não se moveu ou recuou com a aproximação dela.
ㅤㅤㅤAlice desejava acabar com aquilo.
ㅤㅤㅤVocê está em perigo, Adam.
ㅤㅤㅤAcabar com ele.
ㅤㅤㅤVocê não tem coragem, Alice.
ㅤㅤㅤE, antes que pudesse compreender, Alice se viu parada diante de Amélia. Piscou confusa, olhando por cima do ombro para ter uma breve visão de Adam escondido nas sombras. Segundos atrás, ela estava diante dele sentindo a fúria consumir seus órgãos; no instante seguinte, Amy.
ㅤㅤㅤEla disse que nós estávamos loucas.
ㅤㅤㅤAmy sabia demais.
ㅤㅤㅤEssa puta é parte do jogo.
ㅤㅤㅤO homem tatuado estava atrás de Amy, segurando a garota pelos pulsos e os erguendo no ar, acima de sua cabeça. Ela se contorcia em uma última tentativa desesperada de se soltar. A risada que preenchia o galpão segundos antes parecia ter morrido no instante em que ela se aproximou com a faca em mãos. Os olhos de lápis-lazuli percorreram todos os detalhes do rosto vermelho e úmido.
ㅤㅤㅤCom a mão livre, Alice puxou a fita que cobria a boca dela de maneira brusca, alheia a qualquer dor que poderia causar. Uma gota vermelha brotou nos lábios ressecados de Amy, e um sorriso de escárnio pareceu surgir ali. Alice franziu as sobrancelhas, enquanto via aquela expressão zombeteira se desfazer tão rápido quanto surgiu, dando lugar ao desespero.
ㅤㅤㅤ― Alice, Alice! Por favor... ― As palavras saíram trêmulas, acompanhando as lágrimas que caíam, mas o choro se transformou em risada e ela continuou em um tom sarcástico. ― Me desculpa! Me desculpa, por favor...
ㅤㅤㅤ― Você me fodeu.
ㅤㅤㅤUma risada ecoava entre seus soluços, fazendo com que a raiva queimasse dentro de Alice. Amy balançou a cabeça e arfou ao ter seus braços puxados, o sorriso permanecia enquanto a voz implorava por perdão.
ㅤㅤㅤ― Alice, por favor, me escuta ― gritou, fazendo gotículas de saliva voarem contra seu rosto. ― Eu sinto muito, ok? Você conhece ele melhor que eu, eu devia ter acreditado.
ㅤㅤㅤ― Deveria ― Alice sussurrou, mais para si mesma.
ㅤㅤㅤ― Mas você tem que entender ― Seu tom mudou novamente e o sorriso retornou aos lábios, que ela mordeu, antes de continuar em um tom baixo: ― Quer dizer, olhe só para ele... Um pouco difícil resistir, não é?
ㅤㅤㅤAlice piscou, atordoada, sentindo o estômago revirar. Seu olhar vacilou, encontrando-se brevemente com o homem que segurava Amy. Você ouviu isso?, mas a expressão dele não dava respostas.
ㅤㅤㅤ― Todas as vezes que ele me tocou... ― Amy continuou, sua voz soava rouca e trêmula, mas não por medo. Ela se mexeu, o corpo se contorcendo contra as mãos que a seguravam.
ㅤㅤㅤAlice sentiu o sangue queimar em suas veias e a pulsação abafar seus ouvidos.
ㅤㅤㅤ― E é isso o que você quer, não é? ― Amy soltou uma risada amarga enquanto as lágrimas continuavam a escorrer. ― Você está deixando ele te manipular... Da mesma forma que ele fez comigo.
ㅤㅤㅤ― Cala a boca. ― Alice disse entre dentes.
ㅤㅤㅤ― Mas eu... Eu fui inocente, uma vítima nas garras dele... ― Amy abriu um sorriso tão largo que suas bochechas se rasgaram, exibindo uma nova fileira de dentes. ― Já você, Alice... Você deixa porque isso te excita, não é? O controle que ele tem sobre você é patético.
ㅤㅤㅤ― Cala a boca! ― Alice gritou, sentindo o rosto esquentar.
ㅤㅤㅤ― Alice, por favor ― Sua voz embargada era cortada por soluços. ― Eu sinto muito! Acredita em mim, pelo amor de Deus.
ㅤㅤㅤAlice balançou a cabeça. Seus olhos vazios olhavam para algum ponto acima do ombro de Amy, como se não tivesse coragem de encará-la diretamente. Mordeu o lábio em um momento de hesitação, e a faca tremendo em sua mão.
ㅤㅤㅤ― Eu... ― Alice começou a dizer, mas fez uma pausa prolongada ― Eu te pedi a mesma coisa, você se lembra? ― Sua voz era calma e controlada, soando quase indignada. ― Tudo o que queria era que você acreditasse em mim, e o que você fez, Amys?
ㅤㅤㅤA garota chorava descontroladamente, balançando a cabeça em negação, mas sua risada ainda era ouvida. O capanga apertou ainda mais seus pulsos, forçando um grito de dor.
ㅤㅤㅤ― Não é real. ― Alice sussurrou de repente, uma risada seca e sem humor escapando de seus lábios. Ela apontou para Adam, escondido nas sombras, e lançou um olhar por cima do ombro para conferir se ele ainda estava ali. ― Olhe pra porra daquele psicopata ali no canto... Me diga que ele não é real.
ㅤㅤㅤEle é real.
ㅤㅤㅤAmy engasgou em meio aos soluços, os olhos arregalados tentando acompanhar o olhar distante de Alice, que cutucava o lábio inferior com a ponta da faca; perdida em seus pensamentos.
ㅤㅤㅤ― Eu não sabia! Devia ter acreditado em você! Agora eu sei a verdade! Por favor, não faz isso! Eu sou sua amiga.
ㅤㅤㅤAlice voltou a encará-la, suas pupilas tão dilatadas que os olhos pareciam completamente negros. Ela piscou, como se tivesse se lembrado da presença de Amy.
ㅤㅤㅤ― Acredita porque não tem outra alternativa ― Alice murmurou, sentindo o corpo tremer com a excitação que corria por suas veias. ― Mas agora é tarde demais.
ㅤㅤㅤ― Você não tem coragem, sua vaca. ― Amy berrou.
ㅤㅤㅤEntão, em um movimento rápido, a lâmina cortou o ar e encontrou a carne, fazendo uma onda elétrica de adrenalina percorrer seu corpo. O grito de Amy ainda ecoava distante em seus ouvidos, agudo e desesperado, como se fizessem parte de uma realidade diferente. Não percebeu quando ambas caíram no chão, seu corpo pressionando o de Amy enquanto continuava a golpeá-la com uma violência cega.
ㅤㅤㅤTudo o que via diante de si era vermelho. Vermelho da raiva, do ódio e do sangue que sujava suas mãos. Deveria ser Adam ali, arfando com os olhos arregalados em choque. Deveria ser Adam tentando falar, mas engasgando-se com o sangue em meio ao processo. O barulho molhado da lâmina preenchia seus ouvidos com o som grotesco. Cada golpe fazendo seu coração acelerar e o frenesi queimar dentro dela; era uma sensação familiar, mas muito diferente de tudo o que viveu.
ㅤㅤㅤNão soube dizer quanto tempo se passou.
ㅤㅤㅤAlice usou as últimas forças para cravar a faca no peito da garota, até que finalmente congelou - ainda segurando o cabo com as duas mãos. Estava por cima de Amy, com a respiração irregular e pesada, e o gosto metálico de sangue invadia sua boca. Os olhos se arregalaram, correndo pela cena diante dela, e instintivamente ela jogou a faca para longe.
ㅤㅤㅤNão, não, não.
ㅤㅤㅤEla tentou se levantar, mas as pernas trêmulas não sustentaram o próprio peso, fazendo-a cair. Não, não, não. A risada da outra ecoava em sua mente enquanto ela se arrastava pelo chão de costas, até seu corpo encontrar uma coluna. Alice não conseguia tirar os olhos do corpo sem vida de Amy e a realidade se estabeleceu de uma vez, fazendo seu estômago revirar e, finalmente, ela vomitou.
ㅤㅤㅤPuxou os joelhos contra o peito e levou as mãos sujas até os ouvidos tentando bloquear a voz, o ar se recusava a entrar em seu corpo e ela arquejava audivelmente. Isso não pode ser real, o pensamento retumbava em seu crânio causando uma dor terrível. Não é real. O vermelho ainda estava ali, mesmo com as pálpebras fechadas.
ㅤㅤㅤEm sua visão periférica, as sombras se moveram.
ㅤㅤㅤOuviu os passos se aproximando até que ele parasse diante dela, e ergueu os olhos para vê-lo se agachar até seus rostos ficarem da mesma altura. Alice tremia tanto que seu corpo emitia espasmos involuntários. Adam ergueu a mão, afastando os cabelos do rosto dela, e deu um breve sorriso ao vê-la se retraindo como se tivesse medo de seu toque.
ㅤㅤㅤ― O que eu fiz? ― ela murmurou, encarando-o assustada, em busca de respostas que não queria ouvir; por isso pressionou ainda mais as laterais da cabeça.
ㅤㅤㅤ― Eu sabia que você era especial, Alice Taylor. ― Adam disse com a voz baixa, apenas para ela. Ele deslizou o polegar pela bochecha dela, espalhando o sangue por sua pele.
ㅤㅤㅤAlice balançou a cabeça, negando as palavras dele e tentando afastá-lo sem sucesso.
ㅤㅤㅤ― Shhh, não fique assim, querida. ― Até o conforto que ele tentava proporcionar soava falso.
ㅤㅤㅤ― Você disse que não ia machucar ela ― Alice gaguejou enquanto as lágrimas, que deixavam sua visão turva, começavam a escorrer. O rosto de Adam estava distorcido, mas o sorriso permanecia.
ㅤㅤㅤ― Mas eu não a machuquei. ― Ele inclinou a cabeça, colocando uma mecha comprida atrás da orelha dela. ― Você fez isso, Alice. Não fui eu. Não foi o Paul. Não foi ninguém além de você.
ㅤㅤㅤNós fizemos isso.
ㅤㅤㅤ― Você sentiu, não sentiu? ― Adam continuou, sua voz carregada com entusiasmo. ― A raiva. O prazer. A adrenalina.
ㅤㅤㅤNão é real.
ㅤㅤㅤ― Não, não, não... ― Alice repetiu, balançando a cabeça de um lado para o outro enquanto tentava organizar seus pensamentos.
ㅤㅤㅤ― Admita. ― Sua voz era imponente, orgulhosa, e o sorriso se alargou triunfante. ― Você finalmente cruzou a linha que te prendia. E não há mais volta agora, querida.
ㅤㅤㅤ― Saia da minha cabeça ― ela murmurou baixinho, fechando os olhos e pressionando os joelhos contra o peito. ― Por favor, vai embora.
ㅤㅤㅤOs dedos longos percorreram gentilmente seus cabelos, como se aquele gesto fosse o suficiente para apagar os últimos momentos. Ele apertou seu queixo com força, obrigando-a a levantar a cabeça.
ㅤㅤㅤ― Abra os olhos e olhe para mim ― Adam ordenou, demonstrando um pouco de irritação ao vê-la tentando escapar da realidade. ― Isso não é um sonho, Alice Taylor. Você não vai a lugar nenhum.
ㅤㅤㅤInstintivamente, ela fez o que foi pedido e o encarou com os olhos brilhantes. Alguns respingos de sangue em seu rosto eram limpos ao se misturarem com as lágrimas que escorriam, e caiam na frente de suas vestes sujas. A proximidade entre eles fazia uma sensação de sufocamento surgir, e Alice tinha dificuldades para respirar.
ㅤㅤㅤ― Eu quero ir para casa ― Alice pediu ― Por favor.
ㅤㅤㅤO homem inclinou a cabeça, os olhos se estreitando levemente ao analisar o rosto da garota. Naquele momento, seu semblante se assemelhava muito com um filhote assustado. Ele podia ouvir os passos pesados de Paul atrás de si, acompanhados pelo som áspero de algo sendo arrastado pelo chão sujo, em seguida, o barulho da lona sendo aberta no ar soou. Não havia necessidade daquele gesto, mas supôs que Paul estava tentando poupar Alice de encarar o que havia acontecido.
ㅤㅤㅤ― Por favor, Adam.
ㅤㅤㅤAlguma coisa mudou na postura do homem, e os olhos negros se tornaram mais suaves. Adam suspirou baixinho, o sorriso discreto se extinguindo por completo antes dele se erguer.
ㅤㅤㅤ― Não vou te impedir ― Ele disse em um tom suave. Puxou as chaves de seu bolso e as jogou no chão, ao lado dela. ― Seu carro está lá fora.
ㅤㅤㅤAlice hesitou, por um momento, parecia incapaz de se mover. Finalmente, estendeu a mão trêmula e os dedos apertaram o metal frio e ela tentou se levantar. Adam observou os movimentos travados e cambaleantes, o semblante inexpressivo, mas os olhos fixos.
ㅤㅤㅤ― Pode ir ― ele murmurou com a voz carregada por uma ameaça silenciosa, enquanto estendia a mão para que ela se apoiasse. ― Mas se lembre de uma coisa ― seus lábios se curvaram em um sorriso frio que não chegava aos seus olhos. ― Não importa onde esteja, eu sempre estarei por perto.
ㅤㅤㅤO olhar da garota alternou entre o rosto dele e a mão estendida. Uma parte dela, temia tocá-lo e vê-lo se dissolver diante de si; mostrando que ela era a única e verdadeira culpada. Mas o corpo exausto cedeu à necessidade e a mão quente se fechou sobre a sua. Com facilidade, Adam ajudou-a a ficar de pé.
ㅤㅤㅤ― Boa garota ― Adam sussurrou apertando sua mão levemente, antes que ela afastasse com rapidez. ― Agora vá.
ㅤㅤㅤAlice sentiu um penso se instalando em seu peito, acompanhado por um calafrio percorrendo sua coluna, um lembrete do vínculo que passou a compartilhar com ele. Piscou atordoada, a expressão antes assustada se moldou em um olhar vago que ignorava a lona no chão.
ㅤㅤㅤSem dizer mais nenhuma palavra, comprimiu os lábios e caminhou em direção à porta. Os passos eram lentos, pois os espasmos dificultavam sua movimentação, passando a impressão de que ela cairia a qualquer momento.
ㅤㅤㅤ― Você acha seguro deixar ela dirigir assim? ― uma voz desconhecida e grave indagou às suas costas.
ㅤㅤㅤ― Ela pode fazer o que quiser ― Adam respondeu, mantendo um tom despreocupado que contrastava com as palavras pesadas. ― Mas, por via das dúvidas, siga-a de perto. Tenho assuntos para resolver aqui.
ㅤㅤㅤO ar frio da madrugada a atingiu, úmido e carregado pelo cheiro da terra molhada. Só então Alice percebeu vagamente que a chuva havia começado a cair em gotas finas, que escorriam por seu rosto junto às lágrimas inconscientes. Os pés afundavam nas poças de água que se acumulavam e ela podia sentir as meias ficando úmidas, mas o corpo estava anestesiado demais para se incomodar.
ㅤㅤㅤAs mãos tremiam tanto que a chave dançava em cima da fechadura sem conseguir abri-la. Paul se aproximou em passos largos e tomou o chaveiro de sua mão, abrindo a porta para ela. Alice entrou no carro, com a respiração entrecortada e comprimiu os lábios, sentindo as lágrimas se acumularem novamente; ela o encarou, uma raiva silenciosa queimando em seus olhos e pegou a chave de volta.
ㅤㅤㅤ― Me deixa em paz. ― Ela sibilou e o homem enorme deu um passo para trás, permitindo que ela fechasse a porta com força.
ㅤㅤㅤAlice girou a chave na ignição e o carro começou a vibrar, o som da chuva se tornando mais forte à medida que ela se retirava do terreno, apertando o volante com força o suficiente para que os nós dos dedos ficassem brancos. Os faróis surgiram atrás dela depois de um tempo, mas ela se obrigou a ignorá-los. O maxilar enrijeceu ao perceber que mesmo em sua fuga, ela nunca mais estaria realmente sozinha.
ㅤㅤㅤO som monótono dos limpadores se arrastando contra o para-brisa de alguma forma parecia uma risada debochada, ritmados com as batidas de seu coração. O ar quente do aquecedor soprava em seu rosto, mas não parecia o suficiente para livrá-la do frio que se instalou.
ㅤㅤㅤNo banco do passageiro, uma Pessoa de Sombra permanecia quieta - movendo-se a partir do balançar do carro. Seu contorno era indistinto, como todas as outras, mas havia algo terrivelmente familiar em seu perfil. Alice evitou olhá-la diretamente, sabia que se fizesse aquilo, ela se desmancharia como fumaça, deixando apenas o vazio.
ㅤㅤㅤEu era sua amiga, ela disse com a voz baixinha de sempre, que não parecia vir de fora e arranhava uma parte do cérebro de Alice, fazendo-a engolir seco. Aquela não era eu.
ㅤㅤㅤ― Não comece ― sussurrou com a voz embargada, apertando o volante e sentindo o corpo tremer.
ㅤㅤㅤPor que você fez isso, Al?
ㅤㅤㅤ― Não me chame assim, porra.
ㅤㅤㅤAs luzes da rodovia cortavam a escuridão em flashes, e ela mantinha os olhos fixos na estrada. Após alguns minutos, os faróis que a perseguiram de perto desapareceram no retrovisor - não soube dizer se ele a perdeu de vista ou apenas decidiu ceder um momento de privacidade. Alice buscou o telefone no porta-luvas e enquanto acelerava, os dedos rapidamente digitaram uma mensagem.
Eu preciso de você.
antes tarde do que nunca!
perdão pelo atraso, essa semana foi muito corrida no trabalho, acabei não conseguindo tirar um tempo pra postar. e, pra ser bem sincera mesmo, eu perdi a noção dos dias e percebi agora pouco que é quinta.
o capítulo ficou bem grandinho, mas é isso ai
(back to the old me or whatever)
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