2. capítulo treze
22 de fevereiro - 10:99 am
ㅤㅤㅤQuerido diário, acho que estou ficando louca.
ㅤㅤㅤÉ uma boa forma de começar quando não encontro outra palavra para definir o que anda acontecendo, estou escrevendo com a esperança de que você me dê as respostas que eu procuro. ― E quais seriam, Alice? ― O que está acontecendo comigo, diário?
ㅤㅤㅤIsso é resultado das noites mal dormidas ao longo dos anos ou herança genética da minha querida mamãe e eu finalmente estou perdendo a cabeça por completo? ― Do que você está falando, Alice? ― Lembro de Clarisse muitos anos atrás falando sobre como eles falavam com ela e como iriam atrás de mim, apesar de tudo, ela estava certa sobre isso.
ㅤㅤㅤEu os vejo, eu os escuto e agora eu os leio, você consegue acreditar nisso?! Não sei como, mas tenho a certeza de que ela está tentando me castigar pelo passado através deles. Precisei jogar meus post-its fora para que ela não conseguisse mais se comunicar. Puta doida.
ㅤㅤㅤTem mais alguma coisa que você queira me contar, Alice? Você parece um pouco nervosa. ― Sim, diário, mas isso é um assunto mais delicado. ― Mais delicado do que uma mãe louca tentando contato com você pós-morte? ― Não quero falar sobre isso.
ㅤㅤㅤNão fale, organize.
ㅤㅤㅤNão é Clarisse.
ㅤㅤㅤEstou a culpando porque não quero assumir que isso parece ser mais real do que deveria, no fundo, colocar a culpa nela parece ser mais confortável do que assumir que algo está definitivamente errado. O sentimento que me acompanha não é o mesmo que ela causava, mas eu quero acreditar que é.
ㅤㅤㅤOs olhos negros que me assistem enquanto durmo parecem ser mais reais do que tudo o que escrevi antes disso. Ele está nos meus pesadelos mais frequentes, diário. ― Quem, Alice? ― Ele.
ㅤㅤㅤAlgo está errado desde a primeira vez que o vi.
ㅤㅤㅤNos seus olhos, eu vejo uma versão muito ruim de mim sendo refletida e os anseios pelo galpão voltam novamente. Não sei o que exatamente isso significa, primeiro achava que eles trabalhavam juntos, mas agora... O que ele quis dizer com "podemos resolver isso"? O que ele sabe que eu não sei?
ㅤㅤㅤO que me espera na terceira chance?
ㅤㅤㅤSinto que ― Você realmente está ficando louca, Alice. ― Diário, de todas as pessoas do mundo, você é a primeira que deveria ficar ao meu lado...
(pausa)
ㅤㅤㅤLucas me ligou para saber porque não fui para a aula hoje, disse que não estava me sentindo bem quando acordei. O que não deixa de ser verdade. Estou cansada, vejo rostos desconhecidos com mais frequência que o normal e sinto a outra espreitando cada vez mais.
ㅤㅤㅤDevo ter dormido no máximo uma hora e Clarisse estava lá, depois não consegui mais pregar os olhos. O mais estranho foi que Lucas foi a primeira coisa que procurei ao acordar, foi uma sensação muito esquisita perceber isso.
ㅤㅤㅤPreciso dormir.
ㅤㅤㅤOlhou ao redor e percebeu que estava de volta ao galpão sem lembrar como e quando tinha chegado ali, a noite do lado de fora era escura e o barulho da chuva era alto. O diário não estava em sua mão, embora seus dedos ainda estivessem na posição que segurava a caneta, em seu lugar estava um pequeno post-it laranja fluorescente que foi dobrado diversas vezes antes de ser colocado no bolso da calça.
ㅤㅤㅤIsso é real.
ㅤㅤㅤLembrava-se muito bem que todos foram jogados fora, porém aquele possuía um recado muito específico. Colado no interior de seu diário, demonstrava que ele tinha total acesso aos seus pensamentos, suas lembranças e seus segredos.
ㅤㅤㅤSentia um formigamento estranho em seu crânio, resultante do verme inquieto que percorria sua cabeça em uma tentativa de encontrar a saída que ela própria procurava desesperadamente.
ㅤㅤㅤAlice Taylor estava com medo.
ㅤㅤㅤNo dia anterior, após faltar ao colégio, conseguiu dormir algumas horas no período da tarde antes de seu expediente. Um sono inquieto onde as Pessoas de Sombra a acompanhavam até o galpão em uma noite muito parecida com aquela, mas elas não estavam sozinhas.
ㅤㅤㅤ― O que veio fazer aqui? ― Indagou assim que o viu sentado no balcão do bar, esperando pacientemente para ser atendido por ela pela segunda noite seguida. ― Daqui a pouco, vai acabar como eles.
ㅤㅤㅤE ela gesticulou para os clientes fiéis que conversavam sobre o jogo da semana.
ㅤㅤㅤ― Não vim para beber. ― O professor respondeu sem recusar o copo que ela serviu. ― Sinto que nossa conversa ontem não terminou muito bem, peço desculpas. Foi grosseiro da minha parte.
ㅤㅤㅤ― Tanto faz. ― Respondeu passando a mão pelo pescoço para tentar se livrar do nó de ansiedade que se formava ao estar perto dele.
ㅤㅤㅤ― Por que não foi para a aula hoje?
ㅤㅤㅤ― E como sabe disso? ― Tentou não se demonstrar incomodada, ser mais Frances Harrison do que Alice Taylor, mas era difícil quando assistida pelos olhos de ébano. ― Não tenho horários com você hoje.
ㅤㅤㅤ― Eu sempre sei, Alice Taylor. ― Respondeu com a voz baixa e mansa, o que fez o tom grave se tornar em um ronronar ao pronunciar seu nome. Ela sentiu o pescoço ficar quente. ― Além do mais, como professor, me sinto na responsabilidade d-
ㅤㅤㅤ― Substituto. ― Ela o interrompeu, lembrando das palavras dele. ― Professor substituto, não é? Então corta esse papo.
ㅤㅤㅤCom semblante sério, não demonstrou nenhuma perturbação pela grosseria e manteve seus olhos fixos nos dela como se fosse o suficiente para descobrir o que escondia ali.
ㅤㅤㅤDeu um gole na bebida.
ㅤㅤㅤ― Me preocupo com você, Alice. ― Respondeu de uma forma tão calma que fez um calafrio percorrer a coluna.
ㅤㅤㅤ― Eu não preciso que você se preocupe. ― Retorquiu, embora seus sentidos gritassem sinais de alerta e suas mãos tremessem, a raiva crescente em seu interior dominava suas palavras. ― Aqui fora, você é apenas um cliente e eu não te conheço.
ㅤㅤㅤ― Tem certeza disso?
ㅤㅤㅤ― Absoluta certeza.
ㅤㅤㅤ― Você é realmente um caso peculiar, mon cher ― Ergueu a mão para acariciar seu rosto.
ㅤㅤㅤAlice precisou de um esforço maior para quebrar o contato visual, sentia a cabeça enevoada como se estivesse em uma espécie de transe ao encará-lo, antes que os dedos finos tocassem sua pele, se afastou do balcão ao perceber que Joe se aproximava em passos largos.
ㅤㅤㅤ― Klaus, Klaus. ― Joe bradou dando palmadinhas nas costas do homem. ― Está tudo bem por aqui? Deixa minhas meninas trabalharem.
ㅤㅤㅤ― Joe. ― Disse em cumprimento e se levantou. ― Perdão, me empolguei.
ㅤㅤㅤ― A Frances não é fácil, não é?
ㅤㅤㅤ― As melhores não são. ― Respondeu olhando de soslaio para ela, Alice revirou os olhos.
ㅤㅤㅤ― Vamos jogar uma rodada. ― Convidou.
ㅤㅤㅤ― Hoje estou só de passagem. ― Se levantou e deixou uma nota em cima do balcão. ― Preciso resolver algumas pendências.
ㅤㅤㅤCom as sobrancelhas unidas, Alice observou ele se distanciar até sumir quando a porta de foi fechada.
ㅤㅤㅤ― Pode voltar ao trabalho, Frances. ― Joe anunciou antes de retornar a sua jogatina.
ㅤㅤㅤO homem careca com tatuagens no rosto a encarava.
ㅤㅤㅤNaquela madrugada, chegou no apartamento se sentindo mais exausta que o normal, culpava a Pessoa de Sombra com mais de dois metros que começou a segui-la no momento em que saiu do bar e sugava sua energia vital.
ㅤㅤㅤAcendeu um cigarro e xingou-se ao ver que, no final do corredor gelado iluminado pela luz amarelada, o chão estava molhado graças à chuva de mais cedo e a janela fechada. Desconfiada, ela foi até lá e a abriu; olhou para a esquerda e para a direita, depois para alguns metros abaixo dela.
ㅤㅤㅤO lixeiro tinha passado naquele dia.
ㅤㅤㅤCom um suspiro pesado, pegou o diário em cima da mesa de centro antes de ir para o quarto trancando a porta e sentou-se na cama de pernas cruzadas.
ㅤㅤㅤSegurou a caneta e abriu o caderno, o pequeno post-it laranja caiu no seu colo:
Se realmente não me conhece, me diga como te conheço tão bem, Alice Taylor?
capítulo em looping
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top