1. capítulo vinte e um
https://youtu.be/sT8gdwcHN8o
ㅤㅤㅤO barulho dos saltos de Suzana Flowers ecoavam apressados pelas ruas desertas causando um desconforto ainda maior para a mulher, o nervosismo andava lado a lado com a mulher todos os dias após o trabalho enquanto caminhava solitária até sua casa. Como de costume, murmurava uma oração em espanhol que aprendeu com sua abuelita durante todo o trajeto para a manter protegida e parava apenas para pegar fôlego antes de começar novamente.
ㅤㅤㅤAs coisas pioraram nos últimos meses quando o número de assassinatos aumentou consideravelmente em pouco tempo, mulheres como ela que um dia saíram de suas casas sem saber que aquele seria o dia que encontrariam a morte - o chamavam de O Estripador e não haviam uma única pista em seu caminho, por isso ele continuava vagando entre os humanos como um qualquer. Balançou a cabeça negativamente, sentindo um arrepio percorrer sua nuca e se estender em seus braços; sempre ouviu falar que pensamentos negativos atraem coisas negativas, por mais que tentasse, não conseguia controlá-los.
ㅤㅤㅤUma sensação estranha a acompanhava ou seria alguém? Olhou por cima do ombro rapidamente para ter a certeza de que continuava sozinha. Paranoia, pensou com um suspiro pesado abraçando a bolsa contra o corpo. Gostaria que colocassem uma linha de ônibus ali, porém era um bairro tão perigoso que os motoristas não toparam se arriscar por ali nem mesmo de passagem, bom, ela os entendia... Se tivesse outra opção, já teria partido.
ㅤㅤㅤSuzana começou a trabalhar cedo e, entre uma pausa e outra, ela se dedicava aos estudos com a esperança de poder oferecer um futuro melhor para seus pais. Morava com sua mãe em uma casa pequena envelhecida pelo tempo e com remendos acumulados, seu pai havia falecido alguns meses antes por conta de uma overdose: no momento em que abriu a porta do quarto, já não havia o que ser feito, porém ela tentou. O homem morreu com os olhos arregalados, sufocado no próprio vômito e com a seringa de heroína ainda pendurada em seu braço enquanto ela tentava fazer RCP. Demorou semanas até que o gosto da bile amarela saísse de sua boca. Joe foi muito gentil ao aceitá-la, comovendo-se com a história da garota a contratou mesmo que o quadro de funcionários já estivesse cheio, era algo temporário enquanto o currículo dela vagava por aí prestes a ser aceito em algum lugar que pagava muito melhor do que um quarentão barbudo dono de um barzinho de esquina.
ㅤㅤㅤDois gatos passaram correndo por ela tirando-a de seus pensamentos, o ruído que emitiram entre si fizeram com que ela xingasse em meio a sua oração e logo se desculpasse por isso, recompondo-se e continuando sua caminhada. Passos começaram a ecoar junto aos dela fazendo seu corpo ficar tenso pela proximidade que soavam, logo ouviu uma voz grave cantando uma canção.
ㅤㅤㅤ― I'll tear your soul apart, gather your wits and hold on fast, your mind must learn to roam. ― Quase instantaneamente reconheceu como The Acid Queen, sua música preferida da banda The Who.
ㅤㅤㅤO medo surgia inconscientemente sempre que encontrava com alguém pelo caminho, a ansiedade crescia em seu peito junto e quando viu um homem alto com cabelos um pouco grandes demais sair do beco que dava acesso à rua de baixo, sentiu vontade de ir na outra direção até que ele se virou para ela e a encarou, com um sorriso nos lábios. Suzana soltou um suspiro aliviado e as palavras, mesmo que não ditas, foram escutadas, o longo e extremamente aliviado: "Você!"
ㅤㅤㅤ― O que faz por aqui? ― Indagou andando em direção a ela e a cumprimentando com um aperto de mão. ― É perigoso.
ㅤㅤㅤ― Estou indo para casa, senhor. ― Respondeu.
ㅤㅤㅤ― Não, não precisa me chamar de senhor aqui fora, querida. ― Ele deu aquele sorrisinho que a deixava sem fôlego. ― Você não está em expediente.
ㅤㅤㅤSuzana deu um sorrisinho e sentiu seu rosto esquentar, das poucas vezes que teve oportunidade de ter qualquer interação com ele, ela entendia o porquê de Frances agir de uma forma tão esquisita. O timbre grave de sua voz e a forma que ele pontuava as palavras era envolvente, os gestos e postura passava uma confiança que o diferenciava dos demais, ele era elegante e educado. Além de ser muito bonito, é claro.
ㅤㅤㅤ― Vamos. ― Ele estendeu a mão para ela. ― Deixe-me te acompanhar.
ㅤㅤㅤ― Ah, não precisa.
ㅤㅤㅤ― Suzy. ― Balançou a cabeça negativamente. ― Eu não me perdoaria se algo acontecesse como você.
ㅤㅤㅤ― Muito obrigada, Klaus. ― Agradeceu segurando a mão grande e quente.
ㅤㅤㅤ― Tento cuidar das minhas meninas.
ㅤㅤㅤE eles caminharam lado a lado pela rua escura.
ㅤㅤㅤAlice acordou assustada com a sensação de não estar sozinha no pequeno quarto, o ar tinha um cheiro que ela não compreendeu no primeiro momento, mas assim que seu cérebro despertou um pouquinho mais um segundo depois ela se levantou em um pulo do colchão atrapalhando-se com a porta trancada antes de abri-lá e ter acesso ao corredor cheio de fumaça.
ㅤㅤㅤ― Merda, merda, merda. ― Exclamou correndo até a cozinha com o cachorro aos seus pés. ― Merdaaa!
ㅤㅤㅤDentro da panela, os ovos cozidos estavam totalmente carbonizados e a fumaça impregnava as paredes; rodou todas as bocas do fogão apenas para perceber que todas estavam devidamente desligadas. Mas que merda?, pensou ao forçar a memória em uma tentativa de se recordar daquilo, olhou ao redor procurando mais alguém além da Pessoa de Sombra que se escondia no corredor.
ㅤㅤㅤ― Obrigada, Alice. ― disse com ironia ao se referir a Outra em sua cabeça. ― O que seria de mim sem você, certo?
ㅤㅤㅤProvavelmente morta, a voz soou ríspida e podia visualizar claramente a outra sentada em seu sofá com uma expressão entediada no rosto enquanto lixava as unhas vermelhas, pouco haviam se falado depois daquele dia no galpão e ela sentia a necessidade crescendo em seu interior - já faziam semanas desde a última vez e Alice não conseguia mais se recordar da sensação percorrendo seu corpo, o desespero do outro e a vontade de voltar para casa antes que aquilo acabasse, ela estava satisfeita com aquilo, mas a outra refletida no espelho não estava; sua aparência estava mais cansada do que ela se lembrava, parecia doente e faminta.
ㅤㅤㅤ― Isso é meu futuro? ― Indagou com a ponta dos dedos tocando sua face. ― Ou vamos morrer antes?
ㅤㅤㅤA campainha tocou e Bart latiu.
ㅤㅤㅤOlhou pelo olho mágico antes de afastar a toalha que cobria a brecha da porta para evitar que alguém indesejado visse a sombra de seus pés se aproximando.
ㅤㅤㅤ― O que aconteceu aqui? ― Lucas indagou ao sentir o cheiro de queimado no ar, carregava uma caixa de papelão.
ㅤㅤㅤ― Tentei cozinhar. ― Respondeu com sinceridade e se afastou para que ele pudesse entrar, tomando cuidado para não tropeçar no animal. ― O que está fazendo aqui?
ㅤㅤㅤ― Estava com saudades. ― Falou tão casualmente que parecia uma piada. ― E Isaac estava tentando me levar pra beber, disse que tinha um compromisso com você.
ㅤㅤㅤ― São nove horas da manhã.
ㅤㅤㅤ― Ele está virado desde ontem. ― Ele abriu a caixa, revelando donuts e os colocou na mesa de centro. ― Você ainda não conhece a peça.
ㅤㅤㅤCom o doce confeitado em mãos, Lucas sentou no sofá e Bart o acompanhou entrando por entre seus braços até conseguir se deitar em seu colo atento a qualquer farelo que poderia cair em seu campo de visão. Alice ficou um tempo encostada no balcão antes de se sentar ao seu lado e deu uma risada involuntária quando ele abocanhou o último pedaço de uma vez e anunciou de boca cheia que não estava mais comendo, fazendo com que Bart mordesse o ar em busca de restos.
ㅤㅤㅤLucas estudava a vista janela a fora, bastante concentrado, apoiando o queixo com a mão. Alice pegou um donut confeitado com granulado colorido e ficou estudando suas expressões faciais: o modo que os olhos castanhos se comprimiam e depois voltavam ao normal como se tentasse enxergar algo muito distante, porém não conseguia, as sobrancelhas franzidas. Por quase dois minutos, permaneceu daquele modo, teria se esquecido que estava acompanhado? Um brilho de pura compreensão passou por seus olhos e ele sorriu.
ㅤㅤㅤ― Pode me emprestar um papel e lápis?
ㅤㅤㅤAlice balançou a cabeça positivamente, pegando em sua mochila um lápis pequeno e entregou seu diário antes de entregar a ele que agradeceu, ela se sentou no chão apoiando a cabeça em seu joelho e ficou zapeando pela televisão enquanto fazia carinho entre as orelhas do cachorro. Às vezes o olhava por tempo suficiente para vê-lo com olhos atentos no papel, colocando a língua para fora, apertando-a com os lábios, concentrado demais para perceber; outras vezes ele se olhavam e ela dava um sorrisinho mínimo, podia ver o leve rubor cobrir as orelhas do garoto. Será que com o seu diário em mãos ele conseguia sentir o que estava escondido ali? Demorou aproximadamente quarenta minutos até ele limpar a garganta e se desculpar por ter se distraído tanto ("Você pede desculpas demais", Alice comentou) antes de entregar o diário a ela.
ㅤㅤㅤAté aquele momento, acreditava que estava desenhando algo em sua janela e se perguntava se de onde estava conseguia ver o vizinho do prédio da frente e descobrir sua obsessão por filmes adultos, deu uma risada ao imaginá-lo desenhando tal coisa. Com o diário em mãos, sentiu seu queixo cair involuntariamente ao ver que, novamente, ela estava ali representada por suas mãos: desenhada pelo ponto de vista do rapaz, por seu perfil era possível ver o nariz afilado e os olhos grandes, atentos ao que passava na televisão - seus arredores não possuía detalhes e era apenas ela e uma coisa peluda em seu colo.
ㅤㅤㅤ― Não tá muito bom. ― Lucas disse em um suspiro frustrado, falava mais com ele mesmo do que para ela. ― Não sou mais tão acostumado a desenhar no papel, prefiro a tela e... Não me sinto tão confortável fazendo isso fora do meu quarto.
ㅤㅤㅤAlice deixou uma risada escapar esperava que ele não interpretasse como zombaria ou alguma coisa do tipo, só tentava demonstrar que estava impressionada com o trabalho que ele havia feito.
ㅤㅤㅤ― Acho que está ótimo. ― Disse em incentivo, olhando em seus olhos. ― Minha opinião conta já que sou eu que está no papel.
ㅤㅤㅤLucas sentiu aquele calorzinho confortável dançar em seu peito. Vamos para o galpão, a outra-Alice cantarolou em sua cabeça, está na hora de você conhecer minha toca do coelho. Cale a boca, Alice exclamou mentalmente obrigando-se a desviar o olhar.
ㅤㅤㅤ― Obrigado. ― Ele sorriu modesto. ― Mas ficará melhor quando eu passar para a tela, se você não se importar de me dar o papel.
ㅤㅤㅤEla soltou um murmúrio baixo.
ㅤㅤㅤ― Por falar em tela, o que você fez com aquele quadro?
ㅤㅤㅤ― Ah... É... ― Lucas engoliu seco, suas orelhas igual tomates; era incrível como, ao falar de pintura, aquela pessoa desinibida que Alice conheceu nos primeiros dias sumiu dando lugar a um rapaz tímido.― Pensei em te dar de presente, mas então Zac falou: "Por quê? Ela tem espelhos em casa."
ㅤㅤㅤ― E onde está agora?
ㅤㅤㅤSilêncio.
ㅤㅤㅤ― Na parede do meu quarto. ― E ao perceber o quão estranho aquilo poderia parecer completou: ― Minha mãe disse que foi um dos melhores quadros que pintei.
ㅤㅤㅤOs olhos castanhos vagavam pelo rosto da garota que sorria para ele, observava as pequenas sardas que se espalhavam principalmente na ponte de seu nariz, os olhos azuis tão escuros que pareciam as profundezas de um mar que ele ansiava explorar e como seus dentes inferiores eram um pouco tortos - trazendo um charme para seu sorriso. Um formigamento preencheu seu corpo estendendo-se por seus membros como vermes andando embaixo de sua pele, a necessidade crescia em seu interior, ela não conseguia lembrar a última vez que alguém sustentou seu olhar por tanto tempo e sentia-se presa nos olhos que a estudavam. Algum inseto batia as asas contra seu crânio em uma tentativa de se libertar. Alice queria tê-lo naquele momento, esticou seu corpo e o beijou.
ㅤㅤㅤAs línguas se encontraram dançando em uma sincronia perfeita como se tivessem ensaiado para aquele momento, as respirações se misturavam rapidamente se tornando ofegantes e quase desesperadas um pelo o outro.
ㅤㅤㅤ― É melhor irmos para o quarto. ― Ele murmurou com uma risada referindo-se ao cachorro que os assistia. Sua voz estava alguns tons mais graves o que fez os pelinhos da nuca dela se arrepiarem.
ㅤㅤㅤE foi nessa breve distração que seus ouvidos captaram a voz da repórter no jornal e logo se pôs de pé: ― O corpo, identificado como Suzana Flowers, de 23 anos, foi encontrado por civis em um terreno baldio após ter sido esfaqueada várias vezes e quase decapitada.
ㅤㅤㅤSuzana?
ㅤㅤㅤ― Vamos. ― Lucas sussurrou em seu ouvido, agarrando-se a sua cintura.
Alice não se mexeu, encarava a televisão atônita demais para formular qualquer frase. Suzy, murmurou e tudo em sua cabeça se encaixou, eles fizeram isso com você por minha culpa. A garota olhou para Lucas com os olhos arregalados e tornou a olhar para a tela onde a foto da de sua colega de trabalho era exibida, sentiu a mão dele afrouxar o aperto e cair ao lado do corpo quando a imagem dela se juntou a um mural com a foto de outras vítimas. Todas elas morreram por minha culpa, Alice concluiu sentindo sua respiração falhar ao ter ciência de que se ela tivesse se entregado no primeiro momento aquilo não teria acontecido.
ㅤㅤㅤEu as matei.
ㅤㅤㅤVocê está delirando, a outra alertou.
ㅤㅤㅤ― Ela não trabalhava com você?
ㅤㅤㅤEntão isso é real, pensou abrindo a boca sem conseguir encontrar as palavras para respondê-lo e tornou a fechá-la, apenas balançando a cabeça positivamente.
ㅤㅤㅤ― Jesus. ― Lucas exclamou abalado e passou o braço ao redor de seus ombros. ― Eu sinto muito, Al.
ㅤㅤㅤ― Sim. ― Disse respondendo a primeira pergunta.
ㅤㅤㅤFoi uma experiência estranha falar com Joe no telefone algumas horas depois, o homem tinha a voz carregada pelo álcool quando anunciou que não iriam abrir as portas naquela noite porque todos estavam chocados demais para seguirem suas vidas: Ela não merecia isso, Fran. Alice quis se desculpar. Depois de desligar, o clima no apartamento ficou pesado - o silêncio era quebrado apenas pela televisão na sala e as respirações asmáticas das Pessoas de Sombras que os cercavam na cama, vez ou outra Alice se pegava olhando para Lucas em uma tentativa de descobrir se ele também conseguia vê-las e, assim como ela, fingia que não.
ㅤㅤㅤ― Era pra ter sido eu.
ㅤㅤㅤ― Não diz besteira, Alice. ― Ele a aninhou, colando seus corpos. Não era sua intenção verbalizar aquele pensamento, pois ele nunca entenderia. ― Sinto muito por sua amiga, mas não deveria ter sido você.
ㅤㅤㅤ― Vamos sair hoje. ― Alice falou depois de um tempo, sentia que se adormecesse ali acordaria no galpão. ― Preciso me distrair.
ㅤㅤㅤ― Tem certeza? ― Indagou receoso com algo.
ㅤㅤㅤ― Por favor.
ㅤㅤㅤPor fim, a breve saída que planejaram se tornou em quase três horas de estrada até Portland para assistir um dos jogos de início da temporada da NBA, o qual Lucas conseguiu os ingressos de última hora com um conhecido chamado Jeremy; no primeiro momento, não ficou muito confortável com a ideia de ficar em meio a quase vinte mil pessoas amontoadas que gritavam, jogando cerveja e salgadinhos para o alto toda vez que o Portland Trail Blazers faziam uma pontuação, mas logo no primeiro segundo concluiu que era exatamente aquilo que precisava para conseguir ignorar as vozes em sua cabeça.
https://youtu.be/i5kLW7Uh6fk
ㅤㅤㅤ― Isso foi demais! ― Exclamou em meio a uma gargalhada quando saíram da arena Rose Garden.
ㅤㅤㅤ― Acho que você está um pouco bêbada, Al. ― Ele riu ao tirar uma pipoca dos cabelos dela.
ㅤㅤㅤ― Pois já eu acho que podemos beber um pouco mais, o que acha?
ㅤㅤㅤ― Eu seria um péssimo namorado se recusasse isso.
ㅤㅤㅤA expressão de Alice mudou brevemente por alguns segundos, o suficiente para Lucas se perguntar o que havia feito de errado até se lembrar que ela o olhou daquela mesma forma no Joe 's Bar quando ele se referiu a ela como namorada.
ㅤㅤㅤComo ambos estavam alcoolizados, concordaram que seria mais seguro passar a noite em algum motel na saída da cidade, encontraram uma conveniência aberta durante a madrugada e, enquanto Alice escolhia a bebida, Lucas ficou no telefone com sua mãe por cerca de dez minutos recebendo broncas por ter saído do estado sem dar notícias - o que causou risadinhas pela parte dela.
ㅤㅤㅤ― Você está me estragando. ― Lucas disse virando mais uma dose, suas orelhas estavam vermelhas por conta do álcool e sua língua enrolava.
ㅤㅤㅤO som das risadas preenchiam o pequeno quarto de motel criando uma atmosfera aconchegante, o ambiente simples possuía uma cama de casal, um frigobar onde guardaram refrigerantes, chocolates e outra garrafa de vodka, estavam iluminados pela luz amarelada de um abajur velho fazendo com que suas sombras se estendesse pela parede oposta. Sentados no chão, frente a frente, rodavam a garrafa como se estivessem em uma roda de amigos e brincavam de verdade ou desafio.
ㅤㅤㅤ― Eu estou te estragando? ― Alice sorriu enchendo o pequeno copo com a vodka e sentindo o calor descer por sua garganta. ― Você é amigo do Isaac.
ㅤㅤㅤ― Fui encontrar você porque estava fugindo dele e aqui estou eu bêbado em outro estado. ― Soluçou. ― É sua vez.
ㅤㅤㅤAlice apoiou a garrafa no chão e a observou girar com a bochecha apoiada no joelho, o barulho do vidro contra o chão frio era como um murmúrio ecoando no fundo de sua mente e ela não conseguia pensar em nada além do momento que estava vivendo, esperou pacientemente o arrastar do vidro cessar antes de levantar o rosto para ele apenas para encontrá-lo a olhando.
ㅤㅤㅤ― Verdade ou desafio?
ㅤㅤㅤNaquele momento embriagado, sentiu uma necessidade súbita que a fez vê-lo como algo além de um garoto; talvez tenha sido a forma que ele sorriu ou o jeito íntimo que os olhos castanhos conversavam com os dela ou, quem sabe, tenha sido apenas o álcool enevoando sua mente, mas seu coração palpitou descompassado trazendo uma outra perspectiva dos sentimentos que carregava sobre ele.
ㅤㅤㅤCada pensamento que teve e cada memória que partilhavam em comum passaram a deixar um sabor diferente na ponta de sua língua, um sabor do qual Alice não conseguia reconhecer.
ㅤㅤㅤEsse é o gosto dele?
ㅤㅤㅤSem conseguir expressar o que se prendeu em sua garganta, cobriu a pouca distância entre eles e selou suas bocas com uma ferocidade desconhecida.
ㅤㅤㅤEu quero você, eu preciso de você, você me entende?
ㅤㅤㅤO gosto metálico inundou suas papilas e ela viu os lábios sangrentos de um Lucas com os olhos escuros e famintos assim como os dela. O liquido escarlate manchava suas faces a medida que os beijos se intensificavam e, mesmo assim, não era o suficiente para satisfazê-la; Alice precisava demais.
ㅤㅤㅤQueria senti-lo por completo, por fora e por dentro, saborear os órgãos vermelhos crus.
ㅤㅤㅤA textura das tripas escorregando gentilmente entre seus dedos trazia o prazer que ansiava junto ao sangue quente banhando os corpos à medida que saciavam a fome partilhada.
ㅤㅤㅤEu preciso,
eu preciso devorar você.
https://youtu.be/4WykMxuJKuk
lembrando que esse é o penúltimo capítulo, hein!
não esqueçam de favoritar os capítulos que leram e, caso queiram, deixar comentários. gosto de receber o feedback de vocês, significa muito pra mim <3
att, vdek
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top