1. capítulo vinte e dois
ㅤㅤㅤLucas desceu banhado, sua barriga roncava.
ㅤㅤㅤDedicou grande parte da tarde após o colégio à pintura, estudou durante duas horas e passou algum tempo masturbando-se para se distrair. Sentia-se frustrado, insatisfeito com o resultado da pintura, mas sem ânimo para refazê-la - até porque algumas de suas tintas estavam no fim, de forma que precisou improvisar em algumas cores deixando seu sombreamento irrealista. O quadro já estava seco e devidamente emoldurado, retratava um vaso de vidro com belos lírios brancos na bancada da cozinha; sua mãe os recebeu da família de um paciente recém cirurgiado que acabara de conseguir sua alta médica.
ㅤㅤㅤLucas a presentearia com a pintura quando as flores morressem.
ㅤㅤㅤQuando entrou na sala de jantar, sua mãe estava sentada na cabeceira da mesa (lugar que só conseguiu ocupar meses após a ida do marido), Zac estava sentado de um lado e ao seu lado Grace o esperando pacientemente para comer.
ㅤㅤㅤ― Finalmente! ― Isaac exclamou quando Lucas sentou na cadeira à sua frente. ― Estou brocado.
ㅤㅤㅤ― Ah, querido. ― Emily esticou a mão e puxou levemente o rosto de Lucas para ter uma visão melhor do lábio roxo que carregava um corte. ― Você está limpando direito? É por isso que não gosto quando você bebe, sempre se mete em confusão.
ㅤㅤㅤ― Já falei que foi um acidente, mãe. ― Lucas afastou a cabeça, um pouco irritado. ― O cara se empolgou comemorando e eu não prestei atenção.
ㅤㅤㅤObviamente, não contou a verdade quando entrou pela porta da frente, beirando as cinco e meia da tarde de um domingo com olheiras e o lábio inferior com sangue coagulado. Teve que passar quase uma hora inteira ouvindo sermões de sua mãe que culpava a bebida por tudo: "Eu não sou o Axl", disse por fim e a expressão que dominou o rosto da mulher fez com que ele se desculpasse mais uma vez. Duvidava muito que conseguiria dormir naquela noite por mais cansado que estivesse, ainda sentia o gosto de Alice em sua boca e o ecstasy de tê-la ainda corria por seu corpo.
ㅤㅤㅤ― Você viu isso? ― Sua mãe estendeu o jornal para ele e Lucas não deu atenção no primeiro momento, estava faminto e o cheiro da comida o hipnotizava. ― Que barbaridade com essas jovens.
ㅤㅤㅤLucas deu uma olhada no jornal, a matéria principal dizia que um novo corpo havia sido encontrado e aquilo atraiu sua atenção de uma forma mórbida, ainda era estranho pensar que coisas como aquela aconteciam na mesma cidade em que vivia uma vida tão normal. Outra garota bonita, na faixa de dezoito à vinte e cinto anos, brutalmente assassinada.
ㅤㅤㅤ― Essa cidade está cada dia mais violenta. ― Emily disse aflita. ― Tenho medo de vocês dois saindo para beber altas horas da noite por aí.
ㅤㅤㅤ― Nós somos o perigo, mãe. ― Zac disse fazendo um rugido que supostamente deveria soar sexy.
ㅤㅤㅤComo de costume, Lucas complementaria com outra piada e eles ririam despreocupados porque aquela não era a realidade em que eles viviam, mas seus pensamentos vagavam e ele ficou calado, dobrou o jornal e o colocou na cadeira vazia ao seu lado. Eles fizeram um agradecimento rápido antes de se servirem, Grace contou como foi seu dia na escola e Isaac se interessou fazendo perguntas e contando histórias de quando era criança.
ㅤㅤㅤ― Você tá preocupado com a gata, não é? ― o loiro indagou ao perceber que Lucas estava em silêncio.
ㅤㅤㅤEle balançou a cabeça positivamente e encheu a boca de carne para evitar responder, apenas assentir ou negar quando necessário.
ㅤㅤㅤ― Alice? ― Emily perguntou, como sempre, com aquele tom de curiosidade maternal. Lucas assentiu e viu um brilho passando pelos olhos esverdeados da mãe. ― E Natasha? Vocês se davam tão bem.
ㅤㅤㅤ― Não demos muito certo juntos. ― Lucas disse. ― A senhora esqueceu que...
ㅤㅤㅤ― Seu irmão. ― Emily comentou com um suspiro pesado. ― Ah, como queria que aquele garoto tivesse a mesma cabeça que a sua.
ㅤㅤㅤ― Tecnicamente, ele tem.
ㅤㅤㅤGrace deu uma risada.
ㅤㅤㅤ― Imagina se Alice resolvesse dar pro Axl também.
ㅤㅤㅤ― Isaac Harrington, onde estão seus modos à mesa? ― A mulher o repreendeu.
ㅤㅤㅤ― Desculpe. ― O garoto abaixou a cabeça.
ㅤㅤㅤLucas deu um sorrisinho sem humor.
ㅤㅤㅤO pouco de educação que Isaac ainda possuía era cultivado graças a Emily Smith que, basicamente, o criou como um filho - sempre o tratando bem e o repreendendo com mão firme quando necessário. Tinha reprovado completamente a ideia do garoto abandonar o colegial e até tentou conversar com o Sr. Harrington sobre o assunto, mas o velho apenas lhe respondeu com um duro e bêbado: "Não se meta onde não é chamada, vadia". Apesar disso, Lucas ainda pegava sua mãe conversando com Isaac para que ele mudasse de ideia sobre aquilo e se disponibilizando a ajudá-lo. Por vezes, tinha a sensação de que ela o usava para tapar o buraco que Axl deixou quando preferiu ir com o pai, seus comportamentos irresponsáveis eram muito parecidos e talvez a afetasse mais do que deixava transparecer para eles.
ㅤㅤㅤComo uma boa e tradicional família americana, jantaram e logo após foram para a sala assistir a reprise do jogo em Portland, obviamente Isaac ficou chateado por Lucas ter conseguido os ingressos com Jeremy e, ao invés de escolher levá-lo, preferiu levar Alice; embora tenha demonstrado em tom de brincadeira, Lucas o conhecia o suficiente.
ㅤㅤㅤ― Tudo bem. ― Isaac abraçou uma almofada. ― Eu entendo, ela tem coisas que eu não tenho... Como um belo par de peitos e uma vagina, eu entendo. Ah, James, como pode fazer isso comigo? Não te agrado mais?
ㅤㅤㅤ― Cala boca, cara. ― Lucas exclamou aumentando o volume da televisão para que sua mãe não os escutasse da cozinha. ― Não esquece que a mãe já achou que estávamos namorando por conta dessas tuas viadagens.
ㅤㅤㅤ― Mas eu te amo, James! ― Isaac berrou em plenos pulmões. ― Quando você vai assumir seu amor por mim?
ㅤㅤㅤLucas pegou uma bola de beisebol que estava abandonada no chão desde a vez que Bart os visitou e arremessou contra o amigo com toda força que conseguiu reunir, o loiro fez uma ótima pegada acompanhada de um a careta de dor.
ㅤㅤㅤ― Você não perdeu a magia do arremesso Smith. ― disse ao massagear a palma da mão.
ㅤㅤㅤ― Claro que não, fui eu que criei isso.
ㅤㅤㅤ― Sempre achei que tinha sido o Axl.
ㅤㅤㅤ― Ele roubou de mim. ― Resmungou. ― Por isso chamamos de arremesso Smith, o nome original era arremesso do magnífico James.
ㅤㅤㅤ― Ainda bem.
ㅤㅤㅤSilêncio.
ㅤㅤㅤ― Deveríamos nos reunir de novo, a galera toda, pra jogar... Como nos velhos tempos.
ㅤㅤㅤ― Como nos velhos tempos. ― Lucas repetiu pensativo.
ㅤㅤㅤA frase soava engraçada e ao mesmo tempo deprimente, pois sabia que no fundo nada voltaria a ser como nos velhos tempos por mais que tentassem, muita coisa havia mudado principalmente entre Axl e ele. Não eram mais os maravilhosos gêmeos Smith, eram apenas irmãos que não se falavam há mais de um ano. Soltou um suspiro pesado, voltando sua atenção para o jogo antes de se perder em pensamentos, tentando entender o que não gostou em seu quadro.
ㅤㅤㅤEstava acordada duas noites seguidas.
ㅤㅤㅤNão conseguiu fechar os olhos enquanto o observava descansar tranquilamente por algumas horas na cama do motel, o semblante sereno e despreocupado era tão diferente do seu próprio que a irritava. Respirou fundo, massageando a têmpora e com a mão livre, os dedos acompanharam com uma imensa delicadeza os desenhos do abdômen de Lucas. Com um suspiro pesado, vestiu a blusa que ele usava pegou um cigarro e foi para fora do quarto.
ㅤㅤㅤO ar estava gelado e seu corpo tremia enquanto tragava a fumaça apoiando-se na grade de proteção, as pernas expostas estavam arrepiadas e ela se arrependia amargamente; sentia-se violada por sentimentos tão novos e tão carregados que a deixaram confusa demais quando tudo se acalmou, será que era assim que ele se sentia ou tudo aquilo não passava de um teatro do qual ela foi avisada inúmeras vezes? Ah, merda, pensou escondendo o rosto com as mãos e desejando sair dali o mais rápido possível e nunca mais ter nenhuma interação com o garoto, mas ao mesmo tempo se sentia incapaz de tal feito, sentia-se como um peixe burro após morder uma isca.
ㅤㅤㅤ― Está frio demais aí fora. ― A voz soou às suas costas e os braços envolveram sua cintura. ― Vamos entrar, você está gelada.
ㅤㅤㅤApós chegar ao apartamento, limpou a bagunça feita pelo morceguinho peludo e o alimentou antes de levá-lo para dar uma volta no quarteirão, infelizmente o passeio durou metade do tempo que planejou. Estava inquieta demais e fumava demais ao ter a sensação constante dos olhos de um predador em suas costas, por mais que tentasse enxergá-lo ela não conseguia até os rostos tornarem a aparecer diante dela e a alertarem de um perigo iminente. Não é real, garantiu para si mesma ao trancar a porta duas vezes para se sentir mais segura, deveria comprar algumas trancas extras por via das dúvidas.
ㅤㅤㅤNão conseguiu dormir novamente, dessa vez, por sentir falta dele ao seu lado.
ㅤㅤㅤAndava apressada pelas ruas com duas sacolas de compras básicas em suas mãos e um cigarro nos lábios, havia acabado de sair do mercadinho de Jonas e estava completamente sem palavras com a notícia que passava na pequena televisão: Após Suzana, encontraram outro corpo e as manchetes dos jornais berravam escritas sobre O Estripador, o que mais a perturbava era o fato de não ter percebido antes o que estava acontecendo embaixo de seu nariz.
ㅤㅤㅤEle deveria ir para o galpão, a outra disse em um tom de divertimento que causou um mal estar em Alice, era como se sua própria consciência estivesse escondendo fragmentos de sua memória, ainda se lembrava da sensação de não estar sozinha e de ser constantemente vigiada no local e sentia que aquilo tinha algo a ver com o que estava acontecendo. Você é tããão dramática, resmungou e os rostos caricatos ao seu redor concordaram com a voz, é claro que aqueles pequenos traidores escolheriam o outro lado. Discretamente balançou a cabeça lembrando-se que estava em público e ninguém precisava saber que estava tendo uma discussão particular, uma guerra interna entre ela e sua mente. As coisas não deveriam funcionar assim, eram a mesma pessoa e deveriam jogar no mesmo time, porém esse negócio de parceria quase nunca funcionava entre elas em um dia normal, apenas quando o sangue quente manchava suas mãos e elas se conectavam, tornando-se uma única coisa.
ㅤㅤㅤClichê, disse entediada.
ㅤㅤㅤ― Nós somos a porra de um clichê. ― disse fazendo um senhor de idade que passava por ela parar e a olhar. ― Ah, não estava falando com você.
ㅤㅤㅤSeu apartamento estava lotado com Pessoas de Sombra se espremendo em sua sala e quarto, em pé no corredor e sentadas no balcão da cozinha e, quando abriu a geladeira para pegar a garrafa de vodka já aberta, deu um pulo e soltou um xingamento baixo ao ver um lagarto laranja abrindo a boca para ela.
ㅤㅤㅤOlhou as pílulas verdes em suas mãos e as engoliu.
ㅤㅤㅤDeu um gole na bebida, o calor trouxe à tona o gosto dos lábios dele e ela fitou o vazio.
ㅤㅤㅤVocê sabe que não pode ficar com ele, não é?
ㅤㅤㅤ― Do que você está falando?
ㅤㅤㅤEle não faz parte dessa realidade.
ㅤㅤㅤ― Ele e eu vivemos na mesma realidade.
ㅤㅤㅤVocê tem certeza disso?
ㅤㅤㅤAlice sentiu o estômago embrulhar quando nenhuma das Sombras ao seu redor sumiu quando encaradas diretamente, ao invés disso, as encaravam de volta com as orbes vazias; aquelas Pessoas falavam, talvez com ela, talvez sozinhas, mas os murmúrios que começaram a preencher o apartamento se tornaram altos demais para a garota e sua própria cabeça pesou. Outro gole mais demorado que o primeiro para disfarçar a respiração pesada que sentia em sua nuca, esperava que eles não percebessem as mãos trêmulas, foi até a pia jogar uma água no rosto para tentar afastá-los.
ㅤㅤㅤEle não se encaixa aqui, Alice.
ㅤㅤㅤ― Me deixe em paz. ― disse pegando mais um punhado de comprimidos e os engolindo com mais álcool.
ㅤㅤㅤVocê é tão fraca.
ㅤㅤㅤOs olhos quentes deixavam a visão turva, as lágrimas caiam na frente de suas roupas e Alice passou a respirar com dificuldade à medida que o aperto em seu peito crescia, segurava sua cabeça como se a mesma fosse se soltar do pescoço a qualquer segundo. Caminhou cambaleante até o quarto, os calafrios percorriam seu corpo ao passar por dentro de seus inquilinos, Bart a acompanhava preocupado e se aninhou junto a ela quando deitou, lambendo seu rosto.
ㅤㅤㅤIsso é apenas o começo.
ㅤㅤㅤDeitada em posição fetal, ainda tinha a cabeça entre as mãos enquanto tentava regular a respiração. Cinco coisas que consigo ver: o ventilador de teto, um rosto flutuante, os números do relógio digital, uma calcinha fora do cesto de roupa suja e as Pessoas de Sombra saindo do seu quarto; quatro coisas que consigo tocar: o pelo macio do cachorro, o diário embaixo do travesseiro, a textura do colchão onde o lençol soltou e seus dentes; três coisas que posso ouvir: risos distorcidos, uma discussão no apartamento ao lado, o Bart latindo. O que aconteceu, garoto?, indagou ao ver o animal se levantar e os pelos ficarem arrepiados, ergueu o corpo alguns centímetros da cama, apoiada pelo cotovelo e viu ele saindo do quarto.
ㅤㅤㅤVocê também consegue vê-los?
ㅤㅤㅤOnde eu estava?
ㅤㅤㅤTrês coisas que pos-
ㅤㅤㅤO efeito dos calmantes veio em um baque.
ㅤㅤㅤTalvez seja Lucas, se encolheu com aquele pensamento porque não queria que ele a encontrasse naquela situação, mesmo que tentasse, estava impossibilitada de se mover, pois seu corpo pesava milhões de toneladas enquanto flutuava na cama. Ele não tem a chave, lembrou-se em um lapso de realização e garantiu a si mesma que não era nada demais, cachorros latem sem motivos. Sua visão estava terrivelmente turva, porém ela ainda conseguia ver as Pessoas de Sombra paradas diante de sua porta, piscou algumas vezes tentando se manter lúcidas por mais alguns tempo.
ㅤㅤㅤUma forma negra passou pelo corredor fazendo com que as demais se dissolvessem como fumaça.
ㅤㅤㅤEles estão aqui.
ㅤㅤㅤDepois voltou, curiosa.
ㅤㅤㅤSentia a fraqueza consumindo todo seu ser.
ㅤㅤㅤEssa é a morte?
ㅤㅤㅤFechou a porta a suas costas e aproximou-se em passos lentos como um animal selvagem observando atentamente sua presa antes do abate, os olhos de lápis-lazuli se reviraram em uma tentativa se manterem abertos para ver a forma se agachar ao seu lado e apoiar o braço no colchão. O rosto do fantasma realçava a imensidão negra em seus olhos.
ㅤㅤㅤÉ você?
ㅤㅤㅤA Pessoa de Sombra soltou o frasco de remédios em cima da cômoda e balançou a cabeça negativamente, desaprovando a atitude tomada. Os dedos tocaram os lábios entreabertos e a proximidade causou um choque entre eles fazendo todo seu corpo reagir enviando sinais de perigo para o cérebro, porém já era tarde demais. Alice tentou falar algo sem sucesso, o olhar predatório era como seus pesadelos brilhando de uma forma familiar demais; ele era um deles.
ㅤㅤㅤIsso não é real.
ㅤㅤㅤNão pode ser real.
ㅤㅤㅤPor fim, cedeu ao peso em suas pálpebras permitindo-se cair na escuridão fria; a última coisa que se recorda de ouvir antes de seu corpo desligar por completo foi dita de uma forma suave, como uma criança quando consegue o prêmio que tanto desejava no parque de diversões, mas o tom de sua voz era grave, sombrio.
ㅤㅤㅤEra uma ameaça.
ㅤㅤㅤ― Deixe-me ver seus segredos, Alice Taylor.
You poor thing
Sweet, mourning lamb
There's nothing you can do
It's already been done
What fear a man like you brings upon a woman like me (show me your face)
Please, don't look at me
I can see it in your eyes, he keeps looking at me
Tell me, what have you done?
https://youtu.be/-VmFiiDedU0
Chegamos ao fim do primeiro livro! Quais são suas expectativas para o próximo?
não esqueçam de favoritar os capítulos que leram e, caso queiram, deixar comentários. gosto de receber o feedback de vocês, significa muito pra mim <3
att, vdek
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