1. capítulo vinte
ㅤㅤㅤ― Quer dizer que meu pupilo finalmente conseguiu o que ele tanto desejava?
ㅤㅤㅤAo chegar no colégio naquela manhã, estacionou no local de sempre ficando surpresa ao encontrar a vaga ao seu lado ainda vazia - ele sempre chegava primeiro. Alice estava sentada juntamente com Amy na mureta de entrada do colégio e fumava um cigarro, cada inalada doía em seu interior e ela acabou se distraindo enquanto se concentrava para não fazer caretas. As garotas se entreolharam antes de encararem o garoto de cachos dourados que chegou por suas costas como um animal pronto para dar o bote e foi logo se servindo de seu maço, franziu as sobrancelhas perguntando o que havia acontecido com os "bom dia"?
ㅤㅤㅤ― O que você quer dizer com isso? ― Alice indagou.
ㅤㅤㅤEle exibiu um sorriso debochado e olhou para a irmã que se aproximava deles.
ㅤㅤㅤ― Bom dia, Alice. Como você está? ― Verona cantarolou naquele tom sonhador, suas pálpebras estavam pintadas com sombra rosa neon e os olhos verdes grandes a encaravam quase sem piscar. ― Não acredito no que aconteceu.
ㅤㅤㅤ― Cada dia melhor, Vero. ― Respondeu com um sorrisinho observando a loira se sentar ao lado de Amy e tornou a encarar Brian. ― Do que você estava falando?
ㅤㅤㅤ― Não se faça de boba. ― Ele riu. ― Ontem não conseguimos falar com você porque vocês não se desgrudavam... Ele finalmente conseguiu chegar naquilo que você tem no meio das pernas, não é?
ㅤㅤㅤO rosto de Alice permaneceu impassível.
ㅤㅤㅤ― Como eu pude deixar isso acontecer com você? ― Ele indagou retoricamente. ― Não me entenda mal, estou apenas tentando te alertar com o que você está lidando.
ㅤㅤㅤ― E o que seria?
ㅤㅤㅤ― Ora, não tem uma única garota nessa escola que ele já não traçou.
ㅤㅤㅤSentiu seu interior tremer.
ㅤㅤㅤ― Ele não me traçou. ― Verona disse olhando para os sapatos estilo boneca. ― E nem Amy, não é?
ㅤㅤㅤ― Não, mas acho que a Bonnie sim... Ou foi o Axl?
ㅤㅤㅤ― Aquela que se matou? ― Brian indagou.
ㅤㅤㅤAmy assentiu.
ㅤㅤㅤ― Eu não ligaria se ele quisesse me traçar. ― Verona acrescentou olhando para o seu e dando uma risadinha ao cochichar para Amy olhar para certa nuvem.
ㅤㅤㅤ― Somos seus amigos, Alice. ― Brian disse, algo em seu tom de voz provocou um mal-estar que ela confundiu com algum efeito do medicamento. ― Lucas logo se cansa dos brinquedinhos que ele arruma.
ㅤㅤㅤ― Acho que ele realmente gosta da Alice. ― Amy comentou em uma tentativa de melhorar o clima.
ㅤㅤㅤOs olhos verdes de Brian analisavam seu rosto em busca de qualquer expressão mínima de que ele havia a atingido de alguma forma, Alice o sustentou até o garoto desviar com uma risada sem parecer desconcertado; diante deles, o Porsche entrou no estacionamento reluzente andando entre os outros carros, roncando como um felino, a garota se levantou com dificuldade quando ele estacionou como de costume ao lado de seu carro. Kipps continuou encarando o carro, talvez tenha sido inconscientemente, mas seu corpo assumiu uma postura mais séria ao perceber que Lucas Smith havia chegado, parecia que no momento em que se encontrassem iriam duelar como lobos selvagens em uma tentativa de decidir quem seria o macho alfa.
ㅤㅤㅤPara a surpresa de todos, a porta do passageiro se abriu e, atrás de Alice, os outros se entreolharam significativamente quando os longos cabelos loiros apareceram balançando ao vento. Natasha Miller se encostou na traseira do carro esperando o garoto sair do veículo e, assim que teve a chance, envolveu os bíceps dele com os braços que mais pareciam cobras escondidas pelo casaco rosa, ele sorria e ela gargalhava - talvez a piada interna dos dois se chamasse Alice Taylor.
ㅤㅤㅤ― Alice... ― Amy murmurou em choque.
ㅤㅤㅤ― E aí, Alice. ― Brian levantou e colocou um braço sobre seus ombros. ― Quer dar uns amassos na frente dele?
ㅤㅤㅤSeu tom de voz passava a mensagem que ele não expressou em voz alta: eu avisei. Natasha avisou. Se ela tivesse prestado atenção, todos avisaram. Ah, mas que inferno! Por que sentia a boca seca e a palma das mãos suadas? Seu interior chacoalhava como se ela mesma não estivesse em dúvidas sobre continuar próximo a ele no dia anterior, mas aquela era uma decisão que ela deveria tomar como sempre fez, não era justo Lucas ter escolhido aquilo quando ele próprio fez questão. Será que era assim que ele jogava? Era a dificuldade que o atiçava e, ao ver que estava conseguindo algo, as coisas perdiam a graça e ele descartava os outros. Sentia vários olhos nela que não eram frutos de sua imaginação, dessa vez ela infelizmente tinha certeza, porque as pessoas ao redor viam aquilo e olhavam para ela discretamente enquanto cochichavam.
ㅤㅤㅤ― Ele não tava saindo com aquela psicopata?
ㅤㅤㅤ― Eles não tavam namorando, só se pegando.
ㅤㅤㅤ― É o Smith, o que vocês esperavam?
ㅤㅤㅤ― Não acredito que ele voltou com a Natasha.
ㅤㅤㅤAlice sentia que estava prestes a vomitar, arrumou a mochila no ombro e entrou no prédio, seu ouvido zumbia tanto que não escutou quando Amy chamou seu nome. Os rostos caricatos ao seu redor se alinharam gargalhando em sua visão e ela não podia simplesmente balançar os braços para os tirar dali, entrou na sala em meio ao monte de alunos e rumou para sua cadeira, a ruivinha entrou logo em seguida e se sentou ao seu lado.
ㅤㅤㅤ― Não é o que você está pensando. ― Amy disse com o rosto corado de quem veio correndo.
ㅤㅤㅤAlice não respondeu.
ㅤㅤㅤO professor entrou na sala, em seguida, Natasha apareceu na porta puxando Lucas pela mão; se Alice não estivesse tão cega naquele momento, teria percebido que ele não estava com uma cara feliz quando falou com ela em tom baixo antes de se afastar, porém ela estava fingindo estar distraída demais procurando algo em sua bolsa e não viu quando ele a olhou com um pedido de desculpa antes de se sentar algumas cadeiras à sua frente. Não dividiam horários em comum, o que estava fazendo ali? O celular vibrou em seu bolso e ela o jogou no fundo da mochila.
ㅤㅤㅤPor que aquilo estava a atingindo daquela forma? Ela deveria estar agradecendo por finalmente ter a paz que desejava ter desde o dia que o conheceu, não teria que lidar com ele novamente e o cumprimentaria apenas como um colega de classe qualquer e não como um rapaz que, sem saber, silenciava sua vida. Era isso o que Alice queria, porque sentia sua garganta fechando? Lembrou da forma que ele a aninhou alguns dias atrás e de como seu cachorro gostava do garoto. Sentia a caneta em sua mão derretendo e transformando as palavras em rabiscos sem sentido, os rostos em seus ombros a consolavam sem nada falar - leve-o para o galpão, mate-a assim que tiver a chance. O dia passou em um borrão e a única coisa que ela se lembra com clareza foi de fumar maconha no banco de trás do carro de Brian durante o almoço e quando Lucas segurou sua mão no corredor durante a troca de horários.
ㅤㅤㅤEstou ocupada, disse antes de entrar na sala.
ㅤㅤㅤ― Você não deveria estar em repouso, Frances? ― Joe indagou assim que a viu atrás do balcão.
ㅤㅤㅤ― Preciso de dinheiro, Jo. ― Ela disse jogando o pano por cima do ombro. ― Pelos próximos dois anos estarei pagando o raio-x que fiz.
ㅤㅤㅤ― Klaus perguntou por você. ― Joe se serviu de uma caneca de chopp e sentou no balcão, ao lado de seus clientes mais fiéis.
ㅤㅤㅤ― Eu não decoro nomes, Joe, todos me amam. ― Ela fez a pequena menção de se apoiar na madeira e sentiu arrependimento instantâneo. ― Quem diabos é Klaus?
ㅤㅤㅤ― Você estava conversando com ele no domingo. ― Deu um gole e Alice sentiu o maxilar enrijecer ao se lembrar dele. ― Mostre mais interesse nos clientes, Frances, principalmente os generosos.
ㅤㅤㅤComo ela poderia ter esquecido?
ㅤㅤㅤ― E o que você falou?
ㅤㅤㅤ― Que você sofreu um acidente e estava de repouso.
ㅤㅤㅤA versão que ele soube, é claro, não envolvia três garotas contra ela e nem metade da humilhação que sofreu no chão do refeitório: Eu tropecei no banho, trinquei a costela, não posso ir hoje! Alice mordeu o interior da bochecha e coçou o braço sem sentir coceira, então ele realmente tinha voltado atrás dela? Encarou o homem à sua frente, a barba já havia crescido bastante e ele cheirava a fumaça de charuto e suor, será que ele sabia o perigo que sua funcionária estrela estava correndo?
ㅤㅤㅤ― Não fique dando detalhes da minha vida para esses pervertidos, Joe.
ㅤㅤㅤ― Ele é um homem direito, o único problema é que rouba muito nas cartas. Você deveria dar uma chance, Fran.
ㅤㅤㅤ― Você não é a melhor pessoa do mundo para dar conselhos amorosos, chefe. ― Suzanna disse ao passar.
ㅤㅤㅤAlice concordou com a cabeça.
ㅤㅤㅤSentia seu estômago gelado com a pequena possibilidade de topar com aquele homem novamente, ao mesmo tempo, a outra em sua cabeça - embora assustada - tinha uma curiosidade absurda sobre aquela aura sombria: O que planejava? Como sabia seu nome verdadeiro? Por que seus olhos brilham como os de um animal? Algo estava fora do lugar e Joe dizia que ele era um homem direito porque não o via pelos mesmos olhos de Alice. Pela primeira vez em muito tempo, elas concordavam em algo; não importava o quão tentador fosse, ele era perigoso.
ㅤㅤㅤO começo da noite seguiu tranquilo ao som de músicas country, às vezes se esquecia que estava no meio da cidade de Seattle e tinha a impressão que se abrisse a porta, veria apenas uma longa estrada vazia diante dela. De hora em hora, Joe perguntava como ela estava se sentindo e ela dava risada ao contar aos colegas de trabalho como havia se machucado, tentando ao máximo disfarçar o mal estar que sentia em seu interior. Não podia baixar a guarda, olhava ao redor sempre que podia para impedi-lo de se materializar em sua frente em um piscar de olhos, as Pessoas de Sombra se misturavam com os humanos e sumiram ao ser encaradas diretamente com medo de serem vistas.
ㅤㅤㅤ― Frances, você está falando sozinha de novo? ― Jen a alertou e Alice encarou a mulher de sombra diante dela que desapareceu, disse que estava apenas praticando seu atendimento, isso estava acontecendo com uma frequência assustadora. A porta abriu e um arrepio em sua nuca fez o corpo ficar tenso ao ver o enorme homem tatuado entrando no bar e a encarando, será que aquele era o momento em que ela deveria fugir pela porta de trás? É perigoso demais, pensou ao perceber que ele estava sozinho ali, talvez Klaus estivesse na porta de trás a esperando para finalmente capturá-la.
ㅤㅤㅤO homem careca virou de costas fazendo-a caveira em sua nuca ficar de olho nela e cumprimentou Joe em sua mesa de apostas antes de se sentar, ela não os atenderia naquela noite. Foi para a cozinha onde cumprimentou o cozinheiro e roubou alguns petiscos de queijo, Suzana conversava em espanhol com o garoto e o mesmo tinha uma expressão agitada no rosto por não entender do que ela estava falando.
ㅤㅤㅤ― Fran? Suzy? ― Jenny colocou a cabeça pela porta, estava com as sobrancelhas franzidas. ― Tem um cara aqui fora procurando uma tal de Alice, vocês conhecem?
ㅤㅤㅤSentiu a bile queimando seu esôfago.
ㅤㅤㅤEles finalmente a encontraram.
ㅤㅤㅤTodas as vezes que fantasiou sobre a morte, nunca imaginava que ela começaria no pequeno pub - Oh, Deus, isso nem sequer passava pela sua cabeça. Sempre pensou em algo mais grandioso, mais dramático, mais... ela realmente queria morrer? Era uma pergunta difícil de ser respondida naquele momento. Sua boca estava seca e seu corpo gelado quando se levantou, tão imersa em seus pensamentos que nem sequer se lembrou de sentir dor, o que seria aquela dor em comparação ao que sentiria quando cruzasse a porta? Respirou fundo com o nariz fino empinado, tinha certeza de uma coisa: encararia os olhos negros e os reconheceria como um dos seus, não demonstraria medo para não lhe dar o prazer que ele buscava e, quando abrissem seu crânio para estudar seu interior, ela sorriria.
ㅤㅤㅤEsse é o triste e fatídico fim de Alice Taylor, obrigada a todos que nos acompanharam durante todos esses anos.
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ㅤㅤㅤ― Lucas?
ㅤㅤㅤ― Estou tentando falar com você o dia inteiro, por favor, pode me escutar agora?
ㅤㅤㅤ― Mas que porra é essa? ― Exclamou sentindo um peso sair de suas costas.
ㅤㅤㅤ― Viu, cara? ― Isaac disse ao seu lado, dando batidinhas no ombro do garoto. ― Eu falei que ela ia ficar feliz.
ㅤㅤㅤSem entender e com dificuldade para absorver aquilo, Alice olhou para a mesa onde Joe estava sentado apenas para encontrar o mesmo a encarando atento, as sobrancelhas grossas unidas não passavam uma boa mensagem: não posso ficar passando a mão na sua cabeça por coisas que acontecem na sua vida pessoal e ali estava o top 1 das coisas que aconteciam na sua vida pessoal.
ㅤㅤㅤ― O que você está fazendo aqui? ― Ela indagou.
ㅤㅤㅤ― Aqui você não pode me ignorar. ― Ele retorquiu.
ㅤㅤㅤ― Observe.
ㅤㅤㅤ― Vou querer uma cerveja.
ㅤㅤㅤMas que filho da p...
Pegou uma longneck e a bateu com tanta força no balcão que quem estava por perto virou a cabeça em sua direção. As orbes azuis queimavam as do garoto em uma troca de olhares reprovadores, não estava nem um pouco feliz de vê-lo ali e preferia mil vezes estar diante da morte em pessoa do que falar com o garoto.
ㅤㅤㅤ― Eu também quero uma. ― Zac disse e Lucas empurrou para ele a garrafa que estava diante de si. ― Valeu!
ㅤㅤㅤ― Não rolou nada entre a gente.
ㅤㅤㅤ― Não sei do que você está falando.
ㅤㅤㅤ― Eu sei o que você viu, mas não é nada do que você está pensando, Ali-
ㅤㅤㅤ― Não me chame assim aqui. ― Ela sibilou apertando a mão dele e rapidamente soltou. ― Eu não ligo pro que aconteceu, nós não temos nada, você pode fazer o que quiser.
ㅤㅤㅤ― Vocês não tem nada? ― Isaac exclamou indignado. ― Não vejo Lucas assim desde... Cara, eu nunca vi você assim.
ㅤㅤㅤ― Eu trouxe ele como apoio emocional e estou profundamente arrependido. ― Lucas comentou com um suspiro.
ㅤㅤㅤ― Ele estava com medo de falar com você. ― Zac afirmou dando um gole na cerveja. ― Me ligou chorando pedindo para consolar ele.
ㅤㅤㅤ― Você não está ficando na casa dele? ― Alice indagou.
ㅤㅤㅤ― É, mas eu tava na sala e ele no quarto.
ㅤㅤㅤEla balançou a cabeça.
ㅤㅤㅤ― Eu dei carona pra ela porque ela ligou pra minha mãe pedindo, ok? ― Lucas explicou. ― Natasha é minha amiga, apesar de tudo, e minha mãe ainda não está acostumada a eu... ― Ele limpou a garganta, suas orelhas ficaram vermelhas como os cabelos de Amélia. ― Ter uma namorada.
ㅤㅤㅤNamorada.
ㅤㅤㅤ― Mas eu já conversei com ela e isso não vai acontecer de novo.
ㅤㅤㅤ― Ele conversou mesmo. ― Disse Zac.
ㅤㅤㅤ― Podemos conversar a sós? ― Lucas perguntou.
ㅤㅤㅤAlice negou.
ㅤㅤㅤ― Estou trabalhando.
ㅤㅤㅤSilêncio.
ㅤㅤㅤ― Desculpa.
ㅤㅤㅤEla assentiu.
ㅤㅤㅤ― Saiam do meu balcão. ― Alice disse em um tom de brincadeira. ― Estão espantando os clientes.
ㅤㅤㅤ― Vocês estão de bem? ― Zac perguntou sem entender o que havia acabado de acontecer. ― Bom, isso é super-huper-duper-ótimo! Me vê outra cerveja na conta dele então.
ㅤㅤㅤ― Super-huper-duper. ― Lucas repetiu.
ㅤㅤㅤ― Huper-duper. ― Alice concluiu entregando a garrafa para ele.
ㅤㅤㅤUma hora e meia depois, Lucas se desculpava repetidamente com Joe que foi obrigado a carregar Zac, que estava já sem camisa e com a calça desabotoada, para fora do bar por perturbação generalizada; eles se divertiram, jogaram sinuca e apostaram com os demais apenas para perderem - Alice sentia-se mais relaxada já que não havia mais sinais do homem com tatuagem de caveira ou alguma Pessoa de Sombra.
ㅤㅤㅤ― Pode me acompanhar até o carro? ― Alice pediu para Joe daquela noite em diante.
não esqueçam de favoritar os capítulos que leram e, caso queiram, deixar comentários. gosto de receber o feedback de vocês, significa muito pra mim <3
att, vdek
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