1. capítulo sete

https://youtu.be/bAgGwJicGNc

ㅤㅤㅤNaquele dia, acordou com a sensação de que era seu último dia de vida e, no fundo, esperava que estivesse certa pela primeira vez. Os músculos estavam doloridos por dormir tensa demais na mesma posição, a garganta seca arranhava como um gato cravando as unhas em seu esôfago querendo escapar daquele corpo, mas não tanto quanto ela; tossia para se livrar daquilo, com impressão de que se continuasse tentando acabaria vomitando a bebida misturada com uma bola de pelos em sua cama. Seu corpo tremia enquanto caminhava pelo corredor e ela sentia olhos em sua nuca enquanto vomitava na pia da cozinha, suava frio. Ok, você já passou por isso várias vezes, você consegue sobreviver a outra ressaca.

ㅤㅤㅤFazia alguns dias desde o incidente no clube noturno e ela bebeu em todos eles tentando fazer sua realidade voltar ao normal e esquecer; continuava indo para o trabalho e para o colégio, tudo não passava de um borrão aos seus olhos e Amy estava cada vez mais preocupada - não fazia ideia do que aconteceu naquela noite, mas percebia claramente que sua amiga sempre se afastava quando Lucas estava em algum lugar próximo; ela tentou conversar sobre, porém Alice mudava de assunto de forma descarada e ignorava todas suas tentativas. Em muitas dessas tardes, a ruiva estava preocupada que alguém falasse para algum professor sobre a situação da morena que vomitava no banheiro entre as aulas.

ㅤㅤㅤTomou um remédio para enxaqueca com uma xícara de café da noite anterior, gelado e sem açúcar, que a fez vomitar novamente antes de ir tomar um banho para melhorar sua aparência. Antes de sair do apartamento, olhou para a garrafa de vodka em cima do balcão e repetiu o ditado popular do Bar do Joe: Só fica de ressaca quem para de beber, eles falavam e Alice balançou a cabeça para si mesma e jogou a mochila sobre o ombro, precisava parar com aquilo antes que acabasse se matando por acidente no caminho... Não é uma má idéia, a outra Alice sussurrou.

ㅤㅤㅤAmy a esperava ansiosa, sentada na mureta da porta principal do colégio, assim que a viu correu até ela perguntando como Alice estava se sentindo naquela manhã. Eu meio que quero vomitar, Amys, obrigada por me lembrar disso. Durante as aulas que tinham juntas, sentia que estava sendo constantemente observada e dessa vez tinha certeza que não era coisa da sua cabeça já que sempre se deparava com os olhos preocupados a encarando para ter certeza de que ela não faria nada perigoso ou apagaria, Alice fazia um sinal positivo com a mão para ela saber que estava tudo bem.

ㅤㅤㅤNo intervalo das aulas, iam juntas ao estacionamento fumar e em uma dessas escapadas, alguém a chamou. Se viraram em sincronia e encararam o sujeito alto com cabelos de anjo que estava parado ao lado de uma garota de cabelos igualmente loiros, uma expressão sonhadora e sombra verde brilhante, o contraste da vestimenta dos dois fazia parecer que haviam se encontrado por acaso: ele usava roupas escuras, provavelmente de marca, e ela usava roupas coloridas que davam a aparência de um brechó ambulante.

ㅤㅤㅤ— Tem um cigarro aí? — Ele indagou.

ㅤㅤㅤAlice balançou a cabeça negativamente, embora estivesse com o maço em mãos de forma bastante visível, ele olhou para sua mão e tornou a encará-la com um leve dar de ombros.

ㅤㅤㅤ— De qualquer forma, meu nome é Brian e essa — Ele gesticulou para a garota ao seu lado que acenou freneticamente para elas — é minha irmã, Verona.

ㅤㅤㅤAlice assentiu positivamente antes que ele terminasse de falar, sentia um leve incômodo já que não estava acostumada com garotos do colégio falando com ela. O silêncio prevaleceu entre eles e Amy percebeu que se não falasse algo não iriam sair dali tão cedo já que nenhum dos dois pareciam querer colaborar para uma conversa decente.

ㅤㅤㅤ— Oi, Vero. — A ruivinha cumprimentou com a voz fininha, pelo seu tom era visível que já se conheciam. — O que vocês querem?

ㅤㅤㅤ— Bom, ela ouviu Alice passar mal no banheiro e ficou preocupada, mas estava com vergonha de vir sozinha falar com vocês. — Os olhos cintilavam com os de Alice, parecia curioso e ao mesmo tempo entediado. — Também queria ver como você estava.

ㅤㅤㅤErgueu as sobrancelhas, curiosa.

ㅤㅤㅤ— Brian, não é? — Esticou a mão com o maço.

ㅤㅤㅤ— Kipps, prazer. — Ele assentiu enquanto pendurava o cigarro nos lábios e o acendia com seu próprio isqueiro, mantendo constante contato visual com ela.

ㅤㅤㅤ— Estou bem, Verona, obrigada. — Ela deu um sorrisinho.

ㅤㅤㅤAlice saiu andando devagar, afastando-se das garotas sem falar nada e ele a acompanhou de perto enquanto caminhavam pela calçada do estacionamento e desciam para o pátio aberto onde estavam as mesas.

ㅤㅤㅤ— É verdade que vocês duas se pegam?

ㅤㅤㅤ— Depende de quem pergunta.

ㅤㅤㅤAlice se sentou em cima de uma mesa e cruzou as pernas, exibia um sorrisinho nos lábios por saber exatamente o motivo dele estar ali, sabia o que ele queria e ela queria sentir esse interesse, deixava tudo mais fascinante; enquanto o garoto falava com a mão em seu joelho apertando-o levemente querendo deixar claro suas intenções, imagens vermelhas dançavam diante dos olhos dela e pode ouvir cachorros rosnando.

ㅤㅤㅤ— Queria te conhecer desde o primeiro dia, mas não tive oportunidades. — Ele deu uma tragada profunda, subindo a mão para sua coxa e a acariciando levemente.

ㅤㅤㅤ— Você não parece o tipo de cara que espera oportunidades.

ㅤㅤㅤ— Quis ser educado. — Ele sorriu. — Está aberta para um convite qualquer dia desses?

ㅤㅤㅤ— Qualquer dia. — Concordou.

ㅤㅤㅤAmy ficou chateada com a amiga por ter saído daquela forma, não sabia se esperava ali ou seguiria para sua aula. Já conhecia Verona, tinha um horário juntas e no ano passado fizeram alguns trabalhos em grupos junto com Bonnie; ela era uma pessoa divertida que conseguia mexer as orelhas de forma engraçada sem esforço algum. Após alguns minutos, resolveram que não deveriam ficar ali esperando à toa e seguiram conversando para seus próximos horários.

ㅤㅤㅤEstar sóbria era mais difícil do que se lembrava, roía as unhas até o sangue brotar e constantemente olhava sobre o ombro carregando a impressão de que todos estavam olhando para ela e sua cabeça seria ofertada em breve como o prêmio de uma caçada, não poderia confiar em ninguém já que, cedo ou tarde, iriam atacá-la, amarrá-la e queimar a bruxa viva. Precisava de Amy por perto porque era a única pessoa que ela confiava naquele momento, mas evitava qualquer conversa possível.

ㅤㅤㅤOs dias eram borrões, pois seus olhos de ressaca não se acostumaram com a vida real. A rotina no trabalho estava a deixando exausta, pois tentava compensar os dias que desmaiou no banheiro ou os que estava distraída demais e, sem querer parecer egoísta, esperava que Joe notasse seu esforço. O horário de serviço era das seis da noite até meia noite, mesmo assim costumava sair por volta de uma da manhã, pois ela ajudava a si mesma a limpar o local e deixá-lo com uma aparência aceitável para o dia seguinte. Como o esperado, Joe reconheceu seus esforços – mas aquilo não significava que a pagaria corretamente –, parabenizou-a e foi só.

ㅤㅤㅤNesse meio tempo, um repórter noticiava que um corpo mutilado encontrado dentro de sacos na encosta pertencia a uma garota chamada Cassandra Walles, o nome fez com que sua atenção pulasse da tigela de cereais para a televisão onde estava a foto da vítima. Franziu o cenho sem entender o que estava acontecendo, já que Cass era uma boa amiga sua, se lembra vagamente do encontro que tiveram no galpão alguns dias antes onde pintaram as unhas, trancaram os cabelos e Alice quebrou seu maxilar com uma barra de ferro, não entendeu o porque da mídia dizer que o principal suspeito era o ex-namorado abusivo que a ameaçou, espancou e seguiu por várias semanas depois do término, mas assim era melhor para ela.

ㅤㅤㅤ― Estão errados. ― Disse aos rostos que a acompanhavam e eles concordaram.

ㅤㅤㅤÉ uma questão de tempo até a polícia bater em nossa porta, você deveria estar apresentável quando isso acontecer.

ㅤㅤㅤ― Cala a boca.

ㅤㅤㅤApós seu horário de expediente daquele dia e uma maconha ruim com os colegas de trabalho, decidiu que precisava ocupar sua mente com outra coisa; foi uma madrugada conturbada em um clube noturno que estava bastante lotado. Queria ter certeza de que as pessoas não mudam, precisava abri-las e estudá-las por dentro, alguém em sua cabeça falava que algo estava errado e ela tinha medo. Bebeu, dançou, trocou beijos com um cara aleatório e quando ele roçou o volume em na calça contra sua nádega, ela riu ao falar que conhecia o lugar perfeito para aquilo, mas ele teria que gostar de aventuras.

ㅤㅤㅤAgora era tarde e ela estava de volta ao galpão sem se lembrar como havia chegado ali, o cigarro queimava em seus dedos e ao seu lado jazia uma pilha sangrenta de carne, igual aos outros. Nada mudou. Você tem certeza? Sim, você viu. Mas e se... Encolheu-se como uma bola, abraçando suas pernas e esperando que ela parasse de falar e falar e falar. Talvez se ela fosse outra pessoa, eles teriam sido bons amigos depois daquela noite e nenhum dos dois terminaria em uma cova rasa, talvez pudessem marcar um encontro em um café e contar histórias sobre suas infâncias livres de traumas, talvez pudessem se encontrar de novo no futuro e, em algum ponto, se apaixonarem. Deu uma risadinha desanimada, aquelas não eram histórias dignas de Alice Taylor, não... Suas histórias nunca terminam felizes.

ㅤㅤㅤAcordou em sua cama.

ㅤㅤㅤEsperava nunca mais ter pesadelos.

não esqueçam de favoritar os capítulos que leram e, caso queiram, deixar comentários. gosto de receber o feedback de vocês, significa muito pra mim <3

att, vdek

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