1.6 ― greenthief e freaktaylor

(capítulo revisado)

https://youtu.be/FkFVMDlcJF8

ㅤㅤㅤEra uma sexta-feira qualquer e Alice estava na fila do clube noturno. Com os braços cruzados sob o peito e uma expressão entediada em seu rosto, os olhos de lápiz-lazúli, contornados por uma maquiagem pesada, vagavam pela rua movimentada enquanto um cigarro se pendurava em seus dedos.

ㅤㅤㅤEm algum momento, um homem se aproximou e tentou puxar conversa, mas Alice não se impressionou. Deixou que ele falasse por alguns minutos, respondendo apenas com um levantar de sobrancelhas ou o sorriso enigmático, até que ele desistiu e murmurou algo sobre encontrar os amigos. Assim que ele se afastou, ela suspirou visivelmente irritada e ajustou o casaco contra o corpo, voltando a observar o movimento, esperando Amy.

ㅤㅤㅤNaquela manhã, Alice Taylor havia prometido à garota que elas sairiam para alguma festa qualquer dia desses. Porém esse "qualquer dia" chegou cedo demais e Amélia estava atrasada.

ㅤㅤㅤ— Quero fazer algo diferente no final de semana — Amy falou, encostando a cabeça no tronco de uma árvore.

ㅤㅤㅤ— O que é diferente pra você? — Alice indagou, rabiscando uma página em branco do diário, sem levantar o olhar.

ㅤㅤㅤ— Qualquer coisa que não envolva ficar sentada no sofá até de madrugada comendo cereal.

ㅤㅤㅤ— Deprimente — comentou, arqueando a sobrancelha com um toque de ironia enquanto os desenhos se movimentavam pela página. — Podemos ir pra uma festa qualquer dia.

ㅤㅤㅤ— Hoje? — Amy perguntou rapidamente.

ㅤㅤㅤNão era o plano inicial, algo que Alice esperava que nunca se concretizasse, então ela hesitou um pouco antes de assentir.

ㅤㅤㅤ— Hoje — concordou.

ㅤㅤㅤO silêncio se instalou entre elas por alguns instantes.

ㅤㅤㅤ— O Smith tá olhando pra cá — Amy falou, endireitando a postura e passando as mãos pelos cabelos.

ㅤㅤㅤAlice desviou os olhos da ponta da caneta por pura curiosidade, o olhar seguindo para a direção onde a ruiva olhava. Algumas mesas estavam espalhadas na área externa do refeitório, mas dificilmente eram usadas por conta da chuva constante. Lucas estava sentado em uma delas com um grupo de aproximadamente dez pessoas, ou mais, que conversavam e riam - mas ele a olhava diretamente. As sobrancelhas grossas unidas, e o rosto sério.

ㅤㅤㅤTalvez nem fosse proposital. Talvez ele apenas tivesse deixado o olhar vagar, e, por coincidência, seus olhos caíram sobre ela enquanto pensava no teste surpresa que teve durante o segundo horário. Talvez ele nem esteja me vendo, Alice pensou, tentando ignorar o formigamento em seu peito.

ㅤㅤㅤNatasha, que estava em pé até aquele momento, com um pirulito na boca, pareceu incomodada por não receber atenção suficiente do rapaz. Então, cutucou o ombro dele e, quando Lucas desviou o olhar para encará-la, a garota deu uma risadinha, sentando-se em sua perna e passando o braço por seus ombros, enquanto jogava os longos fios loiros para trás. Em seguida, ofereceu o pirulito para ele.

ㅤㅤㅤAlice observou curiosa quando Lucas posicionou a mão forte na cintura da garota, inclinou a cabeça levemente para trás antes de abrir um sorriso e aceitar o doce.

ㅤㅤㅤ— Mas que vagabunda — Amy exclamou baixinho, como se eles pudessem ouvi-la naquela distância. Não importava a situação, o rosto dela sempre ficava vermelho quando xingava alguém ou algo. — Todo mundo sabe que ele não quer mais ela, e Natasha continua insistindo.

ㅤㅤㅤ— Ele parece bem interessado — Alice comentou, voltando o olhar para o diário.

ㅤㅤㅤFinalmente.

ㅤㅤㅤAlice avistou a amiga se aproximando do local, com o olhar perdido e inseguro quando procurava um rosto conhecido em meio à fila agitada em frente ao clube. Jogou a ponta do cigarro no chão, pisando em cima com a bota pesada e foi ao encontro da ruiva.

ㅤㅤㅤ— Ei, Amys, você tá gatinha — disse, em cumprimento.

ㅤㅤㅤE era verdade.

ㅤㅤㅤSem os costumeiros jeans rasgados, as camisetas largas e o casaco militar de estimação, Amy usava um vestido preto de saia rodada e seus inseparáveis All Star azuis. Os cabelos estavam ondulados, fazendo-os parecer mais curtos e trazendo um aspecto rechonchudo para seu rosto, as bochechas rosadas - que Alice não soube dizer se era maquiagem ou vergonha - e os lábios estavam melados de gloss.

ㅤㅤㅤCaminharam até a entrada do clube, ignorando os demais que resmungavam ao olharem para elas. O segurança, um homem corpulento de cara fechada, observava a fila de braços cruzados. Ele parecia ser o tipo de cara que você definitivamente não gostaria de irritar. Porém, Alice abriu um sorriso meigo ao parar diante dele e erguer os enormes olhos azuis, entortando a cabeça levemente para o lado, como quem não queria nada.

ㅤㅤㅤ— Oi, Mitch — cumprimentou com doçura, arrastando as vogais. — Sentiu minha falta?

ㅤㅤㅤ— Falta de carregar você pra fora quando você apaga? — Ele indagou com ironia. — E você sabe muito bem que não permitimos a entrada de menores aqui, Lola.

ㅤㅤㅤ— E você também sabe... — retorquiu, ficando na ponta dos pés e inclinando o corpo levemente para a frente, e completou com uma piscadinha. — Se você não contar, eu não conto.

ㅤㅤㅤMitch resmungou algo incompreensível, mas afastou-se o suficiente para dar passagem para elas. Antes de entrar, Amy perguntou timidamente o motivo do segurança ter chamado-a de Lola, e Alice explicou brevemente o nome em sua identidade falsa era Dolores.

ㅤㅤㅤO ambiente era escuro e abafado, repleto de flashes de luzes coloridas que piscavam em intervalos aleatórios, fazendo parecer que o mundo se movia em câmera lenta. A música eletrônica pulsava tão alto que era impossível entender qualquer coisa que não fosse gritada. Mas, ali, as palavras eram desnecessárias. Apesar do caos, Alice gostava daqueles lugares, pois eram onde tudo ao redor era mais alto do que seus pensamentos.

ㅤㅤㅤAmy segurava sua mão.

ㅤㅤㅤDançaram juntas.

ㅤㅤㅤAlice carregava um copo com gelo e vodka, sem lembrar de onde ou com quem conseguiu a bebida. Como sempre, não tinha um centavo no bolso, além do táxi pra casa. Os caras pagavam quantas bebidas ela quisesse, então ela desaparecia quando menos esperavam.

ㅤㅤㅤO álcool começava a fazer efeito, queimando sua garganta e esquentando o corpo, tornando-a mais leve. Mas, mesmo com a mente enevoada, ela sempre sentia a outra espreitando entre as brechas.

ㅤㅤㅤPreciso beber mais, pensou ao ver o copo vazio.

ㅤㅤㅤAli dentro, o tempo era abstrato. Talvez não passasse ou talvez estivesse correndo rápido demais. Eram quinze minutos, uma hora ou, quem sabe, uma semana - não fazia diferença. Eram jovens para sempre, mas morreriam no minuto seguinte. Embriagada, Alice flertava com os rapazes que chegavam sem desgrudar os olhos de Amy, como se ensinasse a ela o jeito certo de agir.

ㅤㅤㅤMas a verdade é que, em algum momento, os rostos desconhecidos passaram a surgir esfolados e suas bocas sangravam enquanto falavam. O líquido viscoso escorrendo pelo pescoço e manchando as roupas ao tentar beijá-la. Me deixe em paz, ela pensou ou disse em voz alta, tomando o copo da mão de um rapaz e sumindo em meio a multidão com a amiga ao seu lado.

ㅤㅤㅤAmy disse alguma coisa, mas a boca muda não parecia emitir som, então Alice riu, esperando que fosse algo engraçado. Você também os vê?, ela perguntou quando a ruiva insistiu, apontando para as costas dela. Alice se virou, então o viu.

ㅤㅤㅤEncostado no balcão, cercado por amigos, Lucas Smith apoiava o queixo em uma mão enquanto uma garrafa de água pendia frouxa entre os dedos. Um dos rapazes ao seu redor falava algo, gesticulando animadamente, e os outros riam. Mas Lucas parecia entediado demais, deixando os olhos vagarem pelo local em busca de algo.

ㅤㅤㅤPor algum motivo que não soube explicar (foi o álcool), sentiu uma necessidade de falar com ele. Ele está sozinho?, pensou. Claro que não. Os amigos estavam ao seu redor, mas, mesmo assim, Lucas parecia só.

ㅤㅤㅤCamuflada entre a multidão que dançava, sua presença passou despercebida enquanto ela se aproximava devagar, como uma leoa cercando uma presa. Ao redor, as luzes começaram a piscar em um ritmo constante que fez o mundo parecer rodar em câmera lenta.

ㅤㅤㅤPor que ele atrai sua atenção?

ㅤㅤㅤAlice surgiu na frente dele, saindo de uma fenda entre as sombras que a seguiam. A cabeça levemente inclinada, os grandes olhos azuis cintilavam com uma surpresa teatral.

ㅤㅤㅤLucas a notou, mas não reagiu como alguém pego de surpresa; era mais como se estivesse diante de algo inevitável, algo que ele sabia que queria. Seus amigos pararam por um breve instante, percebendo a troca de olhares dos dois e deram um espaço.

ㅤㅤㅤParou diante dele, observando o rosto do garoto atentamente. Ao contrário de todos os outros rostos no clube, o dele estava inteiro. Sua boca não sangrava. Ele parecia ser tão real que aquilo a fascinou. Sem pensar, ela tocou as bochechas dele, sentindo a pele quente sobre os dedos. Lucas a encarou, surpreso pelo contato repentino.

ㅤㅤㅤ― Você está inteiro ― ela murmurou para si mesma, a voz tão baixa que ele mal entendeu o que foi dito.

ㅤㅤㅤSem hesitar, Lucas segurou sua mão e a conduziu até a pista de dança. O som ao redor era uma vibração única, com a cabeça enevoada pelo álcool. As palavras que Lucas dizia entravam por um ouvido, se embaralhando em seu cérebro e escapando pelo outro. E ele riu, estava confuso e encantado, sem entender o que estava acontecendo por trás daqueles olhos embriagados. Ele não precisava entender, estava hipnotizado.

ㅤㅤㅤ― Você realmente está aqui? ― Alice perguntou, os olhos fixos nele. Não esperou uma resposta. Ela não precisava.

ㅤㅤㅤSelou seus lábios com urgência, e ele retribuiu como se tivesse esperado a vida inteira por aquele momento. Os corpos se moviam em sincronia. O beijo era muito melhor do que qualquer um dos que ele já havia sonhado desde a primeira vez que a viu. As mãos dele exploravam suas curvas com um desejo quase desesperado, ansiando atravessar a barreira de roupas e tocar a pele quente.

ㅤㅤㅤEu preciso de você.

ㅤㅤㅤAlice ria, com aquele brilho enigmático nos olhos. Ela sabia exatamente o que ele planejava conquistar, tornando tudo aquilo mais excitante. Dentro dela, a Ecila ria ainda mais alto. A outra não estava ali para seduzir ou brincar.

ㅤㅤㅤA outra queria matá-lo.

ㅤㅤㅤFaça ele sangrar.

ㅤㅤㅤAlice o encarou sem entender. O que estavam fazendo? E por que Lucas parecia tão diferente agora? O rosto dele ficou desfocado, como se ela o estivesse vendo debaixo d'água.

ㅤㅤㅤIsso está errado.

ㅤㅤㅤNão é real.

ㅤㅤㅤMe solta.

ㅤㅤㅤAlice?

ㅤㅤㅤPreciso encontrar a Amys.

ㅤㅤㅤAlice.

ㅤㅤㅤAlice se afastou, sumindo no meio da multidão que ria estranhamente enquanto dançava. Ela procurava por Amy que estava ao seu lado há poucos segundos atrás, ou foram horas? O que ela estava fazendo com Lucas? Por que tinha se permitido perder o controle? Alguém segurou sua mão no meio do caos.

ㅤㅤㅤ― Amys! ― gritou, mas sua voz era engolida pela música. Era inútil chamar. Ninguém estava ouvindo, ninguém estava vendo.

ㅤㅤㅤ― Ei, Alice! Eu tô aqui.

ㅤㅤㅤVamos embora, por favor.

ㅤㅤㅤ― Melhor a gente sair.

ㅤㅤㅤAbraçadas, cambaleiam até a saída, empurrando as pessoas e esquivando-se de cotoveladas. Do lado de fora, a madrugada estava muito mais fria do que antes, e o movimento na entrada do clube havia duplicado. Risos, conversas, olhares tortos que a deixavam desnorteada.

ㅤㅤㅤAlice parou, inspirando o ar noturno como se estivesse prendendo a respiração desde o momento em que entraram. Seus pulmões doíam, e o mundo continuava a girar.

ㅤㅤㅤ― De novo, Lola? ― Mitch resmungou ao vê-la.

ㅤㅤㅤ― Não fode ― Ela rebateu.

ㅤㅤㅤSem aviso, ela se afastou de Amy bruscamente e correu para um canto. Encostou-se na parede de concreto, tentando controlar a respiração, mas só piorava. O estômago se contraiu, e a bile ácida escapou, atingindo a calçada com um som enojante. Respingos melaram suas botas.

ㅤㅤㅤXingou-se mentalmente enquanto limpava a boca com o braço.

ㅤㅤㅤPreciso beber mais.

ㅤㅤㅤAmy se aproximou rapidamente, segurando os cabelos de Alice para evitar que eles se sujassem, mas Alice a afastou.

ㅤㅤㅤ― Você está bem?

ㅤㅤㅤSua respiração começou a acelerar quando viu o rosto de Amy se distorcer diante dela. A boca da garota se movia, mas os olhos pareciam vazios, perdidos. Alice deixou um riso baixo escapar, mas não era um riso alegre. Era um riso tenso, falso.

ㅤㅤㅤAlice piscou rapidamente, tentando clarear a mente e se afastou da amiga, balançando a cabeça negativamente. Não é real, se lembra disso. Uma mão tocou seu ombro. Lucas. Ele estava ali, sólido, com o rosto sério e um olhar confuso.

ㅤㅤㅤ― O que aconteceu? ― a voz dele soou baixa, mas clara o suficiente para cortá-la como uma faca através da confusão.

ㅤㅤㅤ― Não é da sua conta ― retorquiu com ignorância.

ㅤㅤㅤO garoto franziu as sobrancelhas, sem entender o motivo dela estar agindo daquela forma. Alice desejava que ele fosse como todos os outros, que seu rosto estivesse desfigurado; dissolvendo seus contornos como tinta. Mas, ao invés disso, o rosto dele permanecia inteiro e aquilo deixava a outra faminta. Ela olhou por cima do ombro, checando Amy. Humana novamente. Tudo estava como deveria estar. Alice sentia um formigamento onde os dedos dele tocavam.

ㅤㅤㅤFica comigo.

ㅤㅤㅤ― Lucas, sinceramente! ― Natasha exclamou, interrompendo o momento tenso. Ele se afastou, desviando o olhar. A garota saía do clube com passos confiantes, seguida por duas amigas e dois rapazes mais velhos. ― Para de querer se misturar com essas lésbicas esquisitas.

ㅤㅤㅤEla estava com você?

ㅤㅤㅤO tempo todo?

ㅤㅤㅤSeus pensamentos pulsavam, causando dores de cabeça. O rosto de Natasha se deformava à medida que ela se aproximava, as linhas de seu rosto se estendendo além de seus contornos. Alice olhou para Lucas de soslaio, os olhos brilhando com uma raiva que não passou despercebida; ele acabou murmurando: "desculpa".

ㅤㅤㅤ― O pessoal do colégio vai adorar saber que vocês estavam se agarrando no banheiro ― Natasha disparou, sua voz saindo mais aguda que o normal.

ㅤㅤㅤO maxilar de Alice enrijeceu. Algo dentro dela estava prestes a explodir, mas ela se obrigou a respirar fundo tentando se recompor. Não podia perder o controle ali.

ㅤㅤㅤ― Natasha ― Alice falou mansamente, aproximando-se dela e ignorando a figura desfigurada diante dela. Sua voz era calma, mansa. As pupilas estavam tão dilatadas que suas íris pareciam negras. As vozes sussurravam palavras cruéis, grosseiras, na platéia, mas ela se obrigou a ignorá-las. Com um sorriso frio nos lábios, Alice continuou: ― Você é sortuda por eu não fazer picadinho de você.

ㅤㅤㅤO silêncio pesou.

ㅤㅤㅤFoi um pouco agressivo, confesso.

ㅤㅤㅤ― Uma é uma ladra e a outra é completamente maluca ― Natasha soltou uma risada nervosa, tentando mascarar a insegurança, e recuou um passo. Alice via os rabiscos oscilando. ― Que belo casal: Greenthief e Freaktaylor!

ㅤㅤㅤ― Natasha, para. ― Lucas interveio, sua voz indicando que já haviam passado por aquilo algumas vezes.

Alice deu um passo em direção à loira, uma postura relaxada e uma expressão perigosamente calma. Lucas, tentando evitar algum problema, segurou seu pulso com firmeza.

ㅤㅤㅤ― Alice... ― a chamou, apertando um pouco mais. Algo na forma serena que ela se movia parecia muito mais ameaçador do que qualquer briga. ― Vamos embora, Nat.

ㅤㅤㅤEla parou, os olhos ainda fixos em Natasha, analisando seu rosto até que o mesmo se tornasse humano novamente. Agora sim. Desvencilhou do aperto de Lucas e, sem desviar o olhar da loira, ela gesticulou com a cabeça para que Amy a acompanhasse.

ㅤㅤㅤAlice não queria companhia, mas sabia que não podia deixar a amiga sozinha perto daqueles predadores. Sem trocar uma palavra, as duas seguiram pela rua, sozinhas.

ㅤㅤㅤEm algum momento da caminhada, Alice torceu para que elas se perdessem ao fazer uma curva. Mas Amy continuava ao seu encalço falando que poderia dormir no sofá, ou se a cama de Alice fosse grande o suficiente, poderiam dividir sem problemas.

ㅤㅤㅤ― Falta muito? ― Amy indagou. ― Preciso fazer xixi.

ㅤㅤㅤAlice gesticulou para um lixeiro que ela poderia usar como um banheiro improvisado, a ruiva deu de ombros e foi até lá enquanto a outra acendia um cigarro, gesticulando para um táxi parar.

ㅤㅤㅤ― É pra você.

ㅤㅤㅤ― Mas eu não pedi.

ㅤㅤㅤ― Eu sei.

ㅤㅤㅤEntão, Amy entrou no carro sem questionar mais nada e sentou-se cabisbaixa no banco de trás.

ㅤㅤㅤO quarto estava um caos, três vezes pior que o normal. Ela falava tão alto que, a qualquer momento, alguém poderia bater em sua porta mandando calar a boca, mas isso não importava. Era um direito seu, conquistado pelas inúmeras brigas e discussões que já ouviu. Eu vou matar o desgraçado que fizer isso.

ㅤㅤㅤA visão oscilava. Tudo girava. Precisava de seu diário. Precisava dele como alguém precisa de ar, para escrever qualquer coisa que ajudasse a se manter sã. Algo que provasse que aquilo era real. Eu o beijei? Mas o diário não estava li.

ㅤㅤㅤRevirou gavetas, bolsas e lixo sem conseguir pensar direito. Seu corpo se movia em câmera lenta, as mãos trêmulas. Onde ele está? Acendeu um cigarro, tentando se manter ali. Cadê?, ela perguntava sem saber se falava em voz alta, repetindo de novo e de novo como se fosse o suficiente para fazê-lo brilhar em seu esconderijo. Cadê? Onde tá? Onde tá, porra?

ㅤㅤㅤMas o diário não estava ali.

ㅤㅤㅤSua cabeça latejava e o quarto se fechava contra ela. Tudo o que conseguia ver eram cenários onde alguém o lia, espalhando tudo pela escola. Alguém entregando-o para a polícia. O fim. Era só uma questão de tempo até que se tornasse real.

ㅤㅤㅤO cigarro queimou até o filtro e ela nem percebeu.

ㅤㅤㅤTombou na cama, encolhendo-se em posição fetal e colocando a cabeça entre as mãos, apertando os ouvidos. A garganta se fechava em um nó. Alice não sabia se estava dormindo, se as imagens que aconteciam diante de seus olhos eram reais. Ela viu Lucas, mas sua imagem se perdeu antes mesmo de ganhar uma forma clara.

ㅤㅤㅤEntão tudo parou.

ㅤㅤㅤSua mente se tornou um buraco negro, sugando tudo para o vazio e, como botas feitas de concreto afundando na água profunda, ela se deixou levar pela inconsciência.

não esqueçam de favoritar os capítulos que leram e, caso queiram, deixar comentários. gosto de receber o feedback de vocês, significa muito pra mim <3

att, vdek

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