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Estavam dentro da tenda do chefe da tribo quando Yanka soltou uma gargalhada estrondosa. Do outro lado da mesa, Eros a olhava mal-humorado. Ela havia se trocado e se lavado. A pele preta reluzia com as tatuagens douradas que serpenteavam pelos seus braços e pernas, e seu cabelo enorme estava puxado para trás, em uma trança até a cintura. Ela estava esplandecendo em pulseiras, colares e tornozeleira e um vestido marrom aberto na coxa, com flores secas trançadas no cabelo enorme.

Ela lhe mostrou dentes perfeitamente brancos, em um sorriso de satisfação.

- Deveria parar de zombar a origem do meu nome – Ele resmungou, analisando o pedaço de couro a sua frente. Estavam tentando decifrar os símbolos extraídos do povo adormecido, mas até o momento não estavam tendo sucesso.

- Se Eros é o filho da deusa do amor, você uma cópia mal-feita?

Ele socou a mesa. Yanka permaneceu imperturbável.

- Acha que a origem do seu nome é melhor?

- "Numerosa águia branca" é melhor que "deus do amor".

- Escute... - Ele parou quando viu sua expressão congelada.

- Espere. – Ela parecia pensar – acho que achei a resposta. Repita o que você disse.

- "deus do amor"

- O outro.

- Numerosa águia branca?

Ela assentiu. Começou a procurar na mesa entulhada de bugigangas, carvão e couro e suas mãos voaram quando começou a anotar algo em outro pergaminho. Murmurava "números, números, números", repetidas vezes, como se fossem a chave para o segredo ali. Eros a observou trabalhar com afinco por uns minutos, incapaz de desviar os olhos dela, completamente hipnotizado.

Em silêncio, se levantou e caminhou até fora da tenda. O imediato Nicholas e o tenente Gleitor sussurravam entre si. Eles pararam imediatamente quando perceberam a presença de Eros.

- Os homens estão nervosos?

- Como sabia? - O tenente sussurrou, arregalando os olhos.

- E me deixe adivinhar mais – Ele suspirou – alguns sumiram.

Nicholas balançou a cabeça afirmativamente.

- Percebemos essa tarde, quando pudemos fazer uma contagem mais detalhada.

- O que... Devemos fazer? - Gleitor perguntou, incerto.

Eros massageou as têmporas. Estavam longe de casa, transportados de uma forma que ele mesmo não conseguia entender, em uma terra desconhecida e com um problema aparentemente impossível de resolver a frente.

- Eros, os homens estão assustados – Desabafou Nicholas. - Se perguntam quanto tempo ficaremos aqui, como chegamos aqui e alguns acreditam que estamos presenciando uma maldição. Os nervos de todos estão a flor da pele e estamos tendo dificuldades de mantê-los em linha.

Eros olhou para as pessoas estranhas que dormiam pacificamente há três dias. Haviam movido elas para dentro das tendas, e era possível ver algumas pessoas através das abas abertas.

Eros não fazia ideia do que era aquilo tudo, nem de como resolver, mas de uma coisa ele sentia no fundo de seu coração: Não iriam embora tão cedo.

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Ele reuniu seus homens no centro do acampamento. Em seus olhos, ele viu o medo, assombro e a raiva.

Dos setenta que chegaram com ele, restavam apenas cinquenta.

Ele respirou fundo.

- Aos que quiserem ir embora, eu lhes liberto da sua punição e assumo a responsabilidade por isso. - A maioria dos homens suspirou de alívio, alguns até dando tapinhas de comemoração nas costas dos outros – Com uma condição. Que nunca mais retornem a Grécia.

Eros sentiu o desânimo deles, mas não podia permitir que se tornasse um peso no futuro.

- A partir do momento em que pisarem para fora desse acampamento, estarão mortos para mim. Não irei ajudar, mesmo que os veja morrer, e é isso que prestarei aos superiores. Meus homens morreram. - Virou-se para aqueles que ainda tinham um pouco de fé e convicção nos olhos – Aos que escolherem ficar, eu prometo riquezas e glória. Quando chegarmos a Grécia, serão anexados ao meu exército, e nada, nunca faltará a vocês.

- E se não conseguirmos voltar? - Perguntou um rapaz ao fundo, com a voz trêmula.

- Então morrerão comigo. É isso que uma tropa faz. Luta, protege e morre juntos. Se uma tropa não for parte de você, é apenas um agrupado de pessoas, fazendo o máximo que conseguem para salvar a própria bunda - Silêncio - Vocês têm até o pôr do sol de hoje para decidirem.

Eros se retirou para longe do acampamento, com os punhos enrolados com força. Teria sorte se alguém ficasse.

Caminhou a esmo, explorando o lugar.

Era uma terra árida e seca, com árvores grandes esparsadas circundando a tribo. Para longe do anel de árvores, a terra se estendia por um quilômetro até o grande vulcão.

Eros parou no ponto onde matara o homem maligno que enfeitiçara a tribo.

Seu corpo, deixado para ser comido por animais, havia sumido.

Marcas de passos arrastados começavam naquele ponto, como se carregassem um peso entre eles. A cem metros dali as passadas davam lugar a pisadas fundas no formato de patas, que sumiam até perder de vista.

Eros sentiu seu estômago se revirar com um mau pressentimento. Onde estava o corpo? Por que sumira? O que diabos estava acontecendo?

- Preocupado? - Yanka surgiu do seu lado.

- O corpo sumiu.

- Eu sei – Ela suspirou – Venho aqui todos os dias olhar para a face odiosa daquele velho, e hoje pela manhã havia sumido.

- Por que não me contou? - Eros trincou o maxilar. Yanka, tranquilamente o encarou de volta.

- Acha que aquelas marcas são de cavalos, não é? Uma vez minha mãe me contou sobre os animais de carga que havia fora daqui.

Eros franziu a testa, confuso.

- Não existem cavalos aqui? - Ela negou com a cabeça, apontando para as marcas de patas.

- É a marca de algum antílope domado. E só existe uma tribo no continente que doma animais, a tribo Malo.

- E como pode ter certeza de que são eles e não alguém que roubou um antílope ou conseguiu domá-lo sozinho?

Ela riu.

- Antílopes só são domados em grande grupo de animais e humanos. Sem outros animais perto, ele morre, sem outros humanos perto, o humano morre. Mas existe outro fator que me faz desconfiar deles.

- Qual?

Ela desenrolou um pedaço de couro e mostrou os símbolos para ele. Eros reconheceu alguns dos símbolos que eles estavam tentando decifrar, mas dessa vez, eles estavam reorganizados e se conectavam. A frente deles, havia uma escrita que Eros não conseguiu ler.

Γ ☐▲•  •  ▲ • ︙ ⌂ ▲• •• ▲ ▲ • ••

- O que diz?

Yanka olhou o horizonte, pensativamente.

- Os símbolos que vimos gravados nos corpos da minha tribo, formam a mesma sequência de números de uma profecia antiga do continente, passada de geração e geração até que possa ser cumprida. Diz assim:

Pelo fogo a jornada começará

29 homens pálidos e uma mulher

Perseguindo 3 fugitivos e 1 morto.

Na tribo dos 50 antílopes terão que libertar os selvagens,

E na tribo voraz, 10 preciosidades terão que negociar

Pela tribo guerreira, 4 terão que derrotar o que não pode ser derrotado

E 2 corações devem ser testados na tribo sacerdote

3 terão que enxergar além do óbvio na tribo de tetos altos

E por fim, unir 3 artefatos na tribo mãe

Irão em busca da salvação de 1 tribo

E irão salvar o Continente inteiro

Até a 2° lua subir, ou toda a terra perecerá

E a vida prosperará

Sobre o sacrifício dos corações de 2 pessoas.

- E o que isso quer dizer? - Ele perguntou cuidadosamente. A luz banhou Yanka, e mais que nunca, ela parecia a rainha daquela terra. - Não quer dizer que somos nós, não é?

- Com medo?

Eros bufou, revoltado.

- Não existe ouro suficiente que me faça embarcar nessa jornada, nem acreditar nessa... profecia.

- Pela minha tribo que está dormindo a dias... E pelo homem que os encantou e sumiu, eu preciso descobrir a verdade e descobrir como quebrar essa maldição - Ela o olhou intensamente – Além do mais... Não está curioso do porquê foram enviados para cá, justo antes que eu fosse sacrificada? Como explica que você teve que passar pelo fogo para sobreviver? Ou que minha mãe me ensinou justo sua língua, ou mesmo que a primeira pista aponte para a primeira tribo da profecia?

- Pode ter sido algo planejado por você - Ele tentou argumentar

- Eu planejei a morte de Velho Urso e o sumiço de seu corpo também?

Eros abriu a boca para responder, mas parou. O sumiço do corpo era bem estranho, e tudo o que estava acontecendo martelava em sua cabeça todos os dias. Por que estavam ali? Como foram parar ali? Por mais que sua mente girasse tentando entender, ele não sabia o que estava acontecendo exatamente. Eros nem saberia chegar ao mar se não quisesse seguir Yanka. Ela segurou seu cotovelo.

- Eros, me ajude a acordar minha tribo. Essa profecia... é tudo que eu tenho até agora. Por favor.

Ele girou nos próprios pés, tentando se livrar dela e daquela situação que ele não entendia, mas deu de cara com seus homens. Olhou cada rosto resoluto e determinado a sua frente, ciente de que a vida de cada um deles dependia das próximas decisões de Eros.

- Estamos com você, capitão - o jovem que se manifestara anteriormente falou, com uma confiança cega em seus olhos.

Eros os olhou incerto. Se embarcassem naquilo, poderiam perder muitas coisas, mas se quisessem voltar... ele não sabia nem como sobreviveriam a isso também.

- Faça o que tiver que fazer – Nicholas o encorajou.

Com o coração pesado, ele finalmente tomou uma decisão.

- Se nós embarcamos nessa viagem... quero deixar claro que vamos procurar nossas próprias respostas, e assim que sua tribo acordar, queremos nosso ouro – Ele chegou o rosto bem perto do dela – E então este acordo será rompido.

Yanka assentiu. Em seu coração, Eros queria somente respostas, ouro e glória.

Mas olhando para seus homens enfileirados e com a profecia martelando em sua cabeça, ele se deu conta de algo e a sensação de que Eros passaria mais tempo do que gostaria naquela terra tomou seu coração com força.

Ali eles eram exatamente vinte e nove homens e uma mulher. Exatamente como a profecia indicava que deveria ser.  

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