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Yanka nunca iria se esquecer da última vez que viu Eros.
Ele sorria e lhe deu um beijo quente, deslizando os lábios pela curva de seu pescoço e mordiscando a orelha.
- Entendeu o que deve fazer, panemorfi? - Ele murmurou.
Yanka agarrou seus ombros e tentou sorrir. Algo em seu estômago se retorcia e ela não conseguia entender o que era. Estavam ali, e haviam conquistado tantas coisas. Só precisavam vencer, no fim das contas.
- Entendi... Vai voltar para mim, certo?
Ele sorriu, e ela achou que poderia se afogar naquele homem. Ela era verdadeiramente apaixonada por ele. Eros apoiou suas testas juntas, segurando-a contra o peito.
- Somente se eu puder tomá-la como minha esposa.
- Tao rápido?
- Não quero ficar um segundo longe de você.
Ela o abraçou apertado.
- Eu também não, Yretoo. - Segurou seu rosto, beijando-o repetidas vezes – Então trate de voltar logo, para poder pedir minha mão para o meu pai.
A expressão dele caiu.
- Acho que vou ter que te raptar.
- E como acha que vai me manter cativa?
Eros deu um sorriso sexy e piscou um olho, divertido.
- Está na hora, senhor – Catri, Gleitor, Tiro e até mesmo Ícaro e Alexander esperavam atrás dele, segurando entre eles um exausto e soturno Nicholas.
Relutantemente, Yanka e Eros se separaram e um segundo depois a tropa corria em direção à colina mais próxima, onde atrairiam o colar.
- Ele vai voltar logo – Kira tentou confortá-la enquanto assumiam a posição estratégica que separaria o terceiro colar do exército dos Anciões.
- É. Ele vai voltar.
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- Vai me matar com plateia agora? - Nicholas provocou enquanto eles observavam o vale abaixo. O exército inimigo avançava decidido, enquanto as tribos permaneciam juntas, se recusando a abandonar o cerco ao redor de Tote.
Eros o ignorou, observando enquanto a tribo Ula se preparava. Colocaram seu maquinário para funcionar, e logo bombas de água venenosa, bolas de fogo e ervas malcheirosas eram lançadas no inimigo. As primeiras fileiras caíram, e Eros viu os homens que carregavam Velho Urso vacilarem. Kaiko aproveitou a brecha, e deu um sinal.
Uma chuva de lanças e flechas caiu sobre o inimigo. Os sons que eles faziam ao morrer era horrível, e Tiro vomitou ao seu lado.
Com isso, Velho Urso virou para a esquerda, para perto de suas fileiras da retaguarda, mas Kira avançou com um uivo, uma frota inteira atrás dela. Se chocaram com força contra a onda cinzenta, e de repente as pessoas que carregavam Velho Urso foram forçadas a debandarem para a direita.
Na direção de Eros.
Ele deu o sinal para seus homens. Uma flecha acertou a perna de um dos homens que carregava Velho Urso e o homem caiu com um grito, levando consigo o corpo do homem morto.
Uma lança acertou o pescoço do segundo homem, e Eros avançou.
O cheiro era terrível quando se aproximou. Velho Urso estava o puro osso, sua carne se desfazendo, uma nuvem de mosquitos ao seu redor.
O homem com a flecha na perna vomitou voracidades a ele, mas Eros ignorou. Estendeu a mão para pegar o colar e...
De repente foi jogado para trás.
Um dos homens que Eros julgava ser um dos Anciões se assomou acima dele, girando habilmente um macabro machado nas mãos, montado em um antílope sinistro.
Eros se desviou da lâmina, rolou pela terra e atacou as patas do bicho.
Uma olhada rápida ao redor lhe assegurou que seus homens estavam cercados por figuras encapuzadas.
Eros dançou, estocou e aparou durante o que pareceu anos até finalmente cortar o pescoço do homem. Com o capuz baixo, ele precisou de toda a sua força de vontade para permanecer impassível. Os olhos do Ancião eram completamente cegos, a pele preta deformada com símbolos grotescos.
Um grito ao seu lado o fez gelar. Tiro, Catri e Gleitor estavam cercados. Eros colocou a mão no colar, e fez chover sobre os homens que os cercavam, acertando-os com trovões.
O último Ancião foi o mais difícil de derrotar.
Ele era verdadeiramente habilidoso, fazendo uma dança ao redor de Eros que o deixava cada vez mais exausto e fraco.
- Então, você é Eros, filho da Grécia - O homem debochou na língua de Eros.
- Sabe minha língua.
- Os Anciões sabem de muita coisa.
- E no entanto, ainda estão sendo derrotados.
O homem avançou, atacando Eros com duas espadas gêmeas. Por baixo do capuz Eros viu os mesmos olhos brancos, e uma face distorcida em ódio.
- Por que estão fazendo isso?
- Aquelas mulheres tiraram todos os nossos poderes – O homem baixou o capuz, exibindo um sorriso preto – Levamos anos para nos reerguermos, anos para montarmos um exército. Moramos nas sombras, nas incertezas e na podridão até que esse dia chegasse, até a glória que nos aguarda. É justo que nós possamos destruí-los.
Eros escapou para a direita, desviando uma das lâminas e rodopiando para longe. O homem apontou para o colar dele.
- E isso será tomado. É nosso de direito.
- Nunca foi de vocês!
O homem o atacou com um golpe poderoso, chutando Eros no estômago e o fazendo deslizar pela areia. Eros se retorceu de dor, com a sensação de que seu corpo fora triturado. Tudo doía e latejava. O Ancião tinha um olhar louco no rosto e avançou ameaçadoramente.
- Essas mulheres não foram as únicas a saberem de você, sabia? - Ele riu. - Acharam que seriam as únicas a recebê-lo mas... nós sabíamos o tempo todo. Durante anos raptamos muitas mulheres. Torturamos. Estupramos. - Ele se gabou, como se isso fosse um troféu. - E arrancamos informações. Pode ter certeza de que mesmo que não sobrevivamos hoje, nós sempre te acharemos. Você tem a promessa de todos os Anciões, homem pálido.
E levantou as espadas num grito de ódio. Eros pensou em um milhão de coisas para escapar da morte, inclusive usando o colar. Mas ele sabia em seu coração que seu corpo não conseguiria realizar nenhuma delas. Ele estava exausto, a energia baixa. Tudo o que fizesse ainda seria lento demais para poder viver no final.
Ele iria morrer.
"Que Yanka ache meu corpo e liberte sua tribo", ele desejou. "que seus dias sejam repletos de felicidade como os meus foram aqui"
E fechou os olhos, esperando seu destino.
No entanto, ele nunca veio. Antes que o Ancião terminasse de baixar a lâmina, alguém se jogou em cima de Eros e recebeu o golpe por ele.
Eros apalpou a forma e a virou, sentindo o tempo desacelerar.
Tiro, seu jovem e sorridente soldado o olhou com lágrimas nos olhos, a boca cheia de sangue enquanto sofria com a arma encravada em seu corpo.
- Tolo – Murmurou Eros. Cenas de Tiro rindo, da coragem do menino, da determinação e força inundaram a cabeça de Eros. Sangue manchava suas mãos e Tiro agarrou sua túnica.
- Capitão...
- Poupe seu sangue – Ele percebeu que estava chorando, mas não se importava. - Vamos te levar até as tendas da tribo Saqua...
- Capitão... - Tiro tornou a repetir, um sentido de urgência em seu olhar. - Eu... acho que não vou sobreviver... eu tenho um pedido ao senhor.
Eros apenas conseguiu assentir.
- Minha avó... diga a ela que eu fui feliz nos meus últimos dias... o maior medo dela era que eu fosse infeliz...
- Não precisa mentir, Tiro...
- Não - O garoto se engasgou, buscando ar desesperadamente. Eros o aninhou nos braços, sem se importar em como aquilo pareceria aos outros. Sem se importar com nada. Os olhos de Tiro brilhavam, e Eros soube que ele não estava mentindo. - Eu fui feliz... fiz novos amigos... e pela primeira vez na vida... passei mais tempo rindo do que apanhando.
Ele levantou a mão debilmente e a colocou no rosto de Eros.
- Obrigada... capitão. Por ter sido o pai e irmão que eu nunca tive. Se... se tiver uma próxima vida... eu gostaria de nascer como sua família.
- É claro, Tiro – Eros chorou e o garoto sorriu.
A vida deixou seu corpo em um sopro e o garoto pendeu sem nos braços de seu capitão.
Com um uivo animalesco, Eros se levantou e decapitou o homem que matara seu soldado, lançando sangue nos homens que o seguravam.
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