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O cerco começou horas depois de Eros ter acordado. A grande massa escura começou a rodear lentamente a tribo Tote.

Eros e Yanka supervisionaram, revisaram estratégias, emitiram ordens. A sinergia entre os dois era impressionante, ao ponto de se entenderem sem sequer ter que falarem.

Com esforço, as máquinas de batalha da tribo Ula foram posicionadas em pontos estratégicos. Os guerreiros Wattu foram separados entre arqueiros, lanceiros e guerreiros de combate corpo a corpo, e inseridos nas fileiras com pessoas mais precárias de treinamento militar, sendo responsáveis por orientá-los. Suas armas e armaduras foram distribuídas, e logo um barulho alto de aço e couro era ouvido em toda a tribo Tote.

Yanka, Kira, Bumbo e até mesmo Wika com seus elefantes integraram o pequeno e poderoso grupo de Mães. Com os poderes do colar de Yanka, e o conhecimento parco das mulheres, traçaram estratégias para retardar o inimigo. Yanka e Eros estariam a frente, manipulando a água e a terra, e as Mães viriam atrás com seus encantos.

As armas e máquinas da tribo Ula foram carregadas com ervas e água da tribo Saqua. Os sacerdotes também engrossaram as fileiras, e as pessoas mais habilidosas na arte da cura montaram tendas de apoio, onde forneciam água e ervas, além de abrigar as crianças, pessoas com deficiência e mulheres que não desejavam ir à guerra. Estes eram os únicos que permaneceriam na tribo Tote.

Depois de muito se esforçar, até ter uma dor de cabeça horrível, Eros conseguiu convencer Pati e Nyte a se juntarem a eles, por mais que Pati o acusasse de ser traidor e Nyte choramingasse sobre seus antílopes.

Eros posicionou os ferreiros da tribo Yeta na linha de frente, junto com os loucos da tribo Malo. Por mais que se odiassem, ele viu que não tinham culhões suficiente para se matarem. A tribo Ula ficou na retaguarda com suas máquinas, Wika preencheu o miolo com seus elefantes e Bruxo da Árvore com seus animais e o resto foi distribuído em meia lua, protegendo todo um lado da tribo Tote.

- Como iremos achar o colar? - Yanka murmurou, pensativa. Eros mordeu as bochechas. Uma ideia começou a surgir em sua mente, mas...

- Teremos que contar com a sorte.

Depois de horas incansáveis de trabalho, enfim o exército do Continente estava pronto.

- Comecem a entrar em formação - Orientou Kira e Kaiko, observando a massa escura avançando lentamente – Tenho algo para resolver.

- Vai ver Nicholas? - Yanka o puxou de lado – Eu vou com você...

Eros beijou sua boca, suavemente. Encostou suas cabeças, respirando fundo.

- Isso é algo que eu preciso fazer sozinho, panemorfi. Fica aqui e assume o controle enquanto eu estiver fora, tudo bem? Prometo não demorar.

E antes que pudesse mudar de ideia, saiu do anfiteatro. Caminhou, a exaustão deixando óbvio que ele precisava de um descanso urgente. Nicholas estava em uma cela no segundo quadrante, guardada por dois guerreiros Wattu e também por Gleitor, Catri e Tiro.

- Você está horrível – Eros comentou quando parou na frente da cela. Por trás das grades, Nicholas lhe lançou um olhar vazio. Seu rosto estava encovado, pontos escuros pelo corpo onde sua tropa e Kaiko o haviam espancado. O cabelo era um ninho escuro de sujeira, e os dedos estavam em carne viva, em suas tentativas de escapar da prisão. Ele parecia um animal... muito diferente do homem que Eros chamava de amigo. Nicholas sorriu, debochado.

- Veio ver o estado deplorável em que me encontro, capitão?

- Vim me despedir.

O sorriso de Nicholas desapareceu. Ele franziu a testa em confusão.

- Por um acaso pretende morrer na batalha?

- Eu não. Você. - Eros suspirou. Se colocou em posição de sentido e olhou para seu traidor – Nicholas da Grécia, pai de Mirtos e Tirtos, vice capitão da frota marítima do Princesa Dione, soldado fiel do reino e... antigo amigo de Eros. Eu, com toda a autoridade e poder que me é conseguido, te condeno a morte por traição ao seu capitão.

- Espere... vai me matar?

Eros o ignorou, o coração partido. Se a raiva de Nicholas fosse somente contra ele... talvez... mas Eros sabia que Nicholas não pararia nele. Yanka poderia ser a próxima. Ou Kaiko. Tudo dependia de quem o atrapalhasse.

- Tragam-no – Ele instruiu aos guerreiros.

Foi preciso todas as suas forças para dar as costas a ele. Nicholas gritou, implorou e xingou, mas Eros continuou, sem se virar.

- Você vai matá-lo? - Tiro perguntou, acompanhando-o. Medo e incerteza permeavam sua voz.

- Não vou matá-lo.

- Mas você disse...

- Eu sei o que eu disse – Eros ouviu a dureza na própria voz e percebeu que estava mais com raiva de si mesmo do que de Nicholas. Por não ter percebido antes. Por ter que tomar aquela decisão. Por não poder simplesmente perdoá-lo.

O anfiteatro estava em silêncio quando ele chegou. Cada homem, mulher e jovem apto para lutar estava em sua posição, tanta gente que era quase impossível contá-los. A onda de pessoas variava entre colorido, couro, branco. Havia tatuagens douradas, pratas, elmos de crânios de animais, de ferro, cabelos trançados, retorcidos em coque. A variação era desordenada, um misto de armaduras desencontradas, armas estranhas e formações feitas a pressa. Mas o rosto de cada um ali exibia confiança. Aquelas pessoas lutariam até seu último suspiro, Eros tinha certeza.

Ele se adiantou, a armadura retinindo. Tomou a frente do exército, encarando o inimigo, cada vez mais perto.

- Pela Santa Mãe - Yanka murmurou quando o exército inimigo parou a muitos metros dele – O que são aquelas coisas?!

Sussurros se espalharam pelas pessoas ao seu redor. Coisas andavam de forma ordenada, seus ombros caídos como se estivessem dormindo. A pele era cinzenta e em muitos ela já estava em estado avançado de decomposição, se desgrudando de seus ossos. Arrastavam armas, das mais variadas, que pareciam deslocadas naqueles corpos sem vida. Eros engoliu em seco, virando a cabeça de nojo. O lugar fedia à morte e podridão cada vez que eles davam um passo à frente.

A frente, Eros viu a figura inconfundível de Velho Urso, apoiado entre dois homens.

- Ele... - Yanka tapou a boca.

- Morto – Confirmou Eros. Sua cabeça pendia frouxamente entre os ombros e no entanto, ele estava à frente, como se fosse o general daquele exército podre. Espalhados entre a massa cinzenta, ele viu pessoas de verdade, montadas em animais e com armaduras completas. "Provavelmente os Anciões", pensou Eros

- Tem símbolos marcados neles – Kaiko apontou. Símbolos grotescos escapavam dos trapos que os cobriam, espalhados pelo corpo inteiro, em um festival de horror e crueldade.

- Não há como derrotá-los. Não se já estiverem mortos – Kira falou.

- Há um jeito – Quio gritou, derrapando. Ofegava e suava, mas tinha um sorriso no rosto e um pergaminho na mão - Yanka disse que seu pai teve um breve momento de clareza na tribo Cati. Estranhei, porque segundo os relatos de Bumbo, a intenção dos Anciões sempre foi dominar as pessoas através dos símbolos e do colar. No entanto, também há Kaiko, que foi achado sem domínio, e foi caçado quando adulto.

Ele espalmou o pergaminho no tampo da mesa mais próxima, e os líderes se reuniram ao redor. O exército inimigo continuava avançando, e Eros rezou aos seus deuses para que Quio conseguisse falar logo.

- Na época das Mães, elas deixaram alguns relatos. Eu não me lembrava da existência desse pergaminho na tribo Tote, até Yanka me falar de seu pai. Eu já havia lido, mas achei que era apenas lenda para assustar crianças. - Ele mostrou os desenhos que lotavam a página. Pessoas, como aquelas que avançavam até eles estavam representadas, e no centro... uma pessoa sã - Aqui diz que no meio da podridão e das almas que foram roubadas, havia uma pessoa estava sã. Limpa.

- Como? - Kira perguntou.

- Eu não fazia ideia até... - Ele virou o pergaminho. A pessoa sã olhava para outra pessoa. - Aqui diz que ele pôs os olhos em alguém que amava e ouviu suas súplicas. Sua alma ainda não havia sido sugada de seu corpo, então ele conseguiu voltar.

- Então.. É simples assim? - Kaiko perguntou, sem conseguir acreditar. Eros colocou a mão no ombro do irmão. Devia ser doloroso lembrar de seu passado.

- Não. Os colares devem ser soprados ao mesmo tempo para que a pessoa volte inteiramente.

Bruxo da Árvore assentiu, a mão no queixo.

- E voltamos à estaca de que tudo será desfeito assim que os colares forem unidos pelo sopro. Com isso, não só o exército irá acordar, mas também a tribo Cati e a batalha será vencida.

- Mas... a situação que aquelas coisas estão...

- Alguns irão acordar – Bruxo da Árvore deu de ombros – Aqueles que ainda tiverem uma alma para chamar de sua.

- Nossa melhor chance é achar o colar primeiro.

- Podemos simplesmente chamá-lo...

- E parar no meio do exército inimigo? Sem nenhuma proteção? Não podemos arriscar. - Eros coçou a cabeça tentando pensar – Precisamos estar com o terceiro colar primeiro, para conseguirmos enfrentá-los.

- Eu vou – Kaiko se adiantou – Me entreguem um colar e eu irei para o meio das fileiras inimigas.

Eros começou a balançar a cabeça, mas Bruxo da Árvore soltou um suspiro.

- Os colares só podem ser manipulados pelos descendentes diretos de suas antecessoras. Não vai dar certo com você.

Kaiko socou a mesa, irritado.

- Mas Velho Urso está com o colar!

- Há muitos anos atrás eu ouvi de uma história de que de todos os descendentes de Tila, havia somente um vivo – Bruxo da Árvore explicou – Talvez seja ele, e por isso os Anciões mantém seu corpo. Porque sem ele, o colar não funcionará.

- Por isso o raptaram – Entendeu Yanka. - Mas afinal, o que faremos?

Eros suspirou.

- Eu tenho uma ideia.

- Nada agradável, suponho – Yanka murmurou.

- Com certeza não.

Ele apontou para um mapa da região.

- Vou atrair o colar para esse lugar. Yanka, ao meu sinal, iremos soprar nossos colares ao mesmo tempo.

- Sozinho?! - Yanka, Kira e Tiro gritaram ao mesmo tempo.

- Vocês precisam estar na batalha, ou ela vai se desfazer. Essas pessoas precisam de vocês. - Ele olhou para Nicholas que estava jogado em um canto, com as mãos amarradas – E eu não estarei sozinho.  

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