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Antes que o sol raiasse, Eros e seus homens estavam em frente à grande tenda dos líderes da tribo Tote. O lugar era mais alto do que todos os demais quadrantes, e abaixo deles, o oásis reluzia, suas bordas guardadas por homens armados.

Yanka havia entrado junto com Kaiko na enorme tenda. Aparentemente ela tinha influência suficiente para ganhar o direito de uma reunião, mas ainda precisava convencer o conselho sobre Eros e sua tropa.

Enquanto esperavam do lado de fora, Eros observava Ícaro e Alexander.

- Vai abrir um buraco nas costas dos dois, de tanto olhar – Nicholas murmurou, enquanto escovava o pelo grosso do bison de Eros.

- Tem certeza de que eles não deram nenhum passo em falso?

- Absoluta. Deixei Gleitor e Catri de olho neles, e eles juraram que os dois não deram um passo para fora de suas posições ontem.

Eros bufou. Tudo o que estava acontecendo era complicado. Quando não estava preocupado em achar os Anciões, ele estava de olho nos dois traidores dentro de sua tropa. Ele simplesmente não conseguia entender o que os motivava e se não fosse Nicholas, já teria tomado alguma atitude.

Eros se afastou de seus homens, precisando de um espaço. Observou o oásis. Estavam a menos de quinhentos metros, tão perto que era possível ver suas ondulações e os movimentos mínimos dos guardas.

Yanka apareceu depois de algum tempo, a expressão tensa. Acompanhando-a, um enorme homem da tribo Tote, com a cabeça raspada e uma barba afiada que ia até o meio do peito.

- Eles não acreditaram, não é mesmo?

Ela balançou a cabeça negativamente.

- Acham que é um truque nosso. Nunca na história da tribo houve algum ataque assim. Não entendem por que aconteceria uma batalha aqui.

- Nem mesmo com a prova, ou os colares?

- Dizem que podemos ter forjado as provas, e não podemos mostrar os poderes dos colares. É muito arriscado porque ainda não os dominamos. A profecia também não está sendo de muita ajuda – Ela massageou as têmporas, sentindo que estava ficando irritada – O conselho é feito por velhos rabugentos. Existem boatos de que eles conspiram e roubam do povo, usando este quadrante como uma desculpa para se aproveitarem de qualquer um. Kaiko e eu estamos tentando ter fé, mas...

- Mas Kaiko é a prova viva...

- Ele está lá tentando convencer o conselho – Ela gesticulou para o homem silencioso ao seu lado – Este é um dos membros, Quio. Foi o único que teve curiosidade em vê-los.

O homem se adiantou, analisando Eros como se visse um bicho exótico. Depois de tanto tempo recebendo olhares parecidos com aquele, Eros apenas permaneceu onde estava.

O homem puxou o colar de Eros, virando a cabeça para o lado.

Ele disse algo a Yanka, e ela pareceu discutir com ele.

- Ele quer que mostremos como conseguimos achar o terceiro colar. Se conseguirmos provar que falamos a verdade, ele irá convencer o conselho por nós.

- E por que ele nos ajudaria quando mais ninguém faria isso? - Eros o olhou desconfiado. Quio parecia se divertir sob o escrutínio de Eros.

- Acredito que ele quer nos ajudar, Eros – Ele viu apenas certeza no olhar de Yanka – Quio coordena a entrada de caravanas na tribo Tote, além de gerir tudo que é vendido e despachado. Desde que eu era pequena, ele me conta histórias sobrenaturais que já viu acontecer com pessoas vindo de longe, e foi o único que não pareceu surpreso quando dissemos da possibilidade de batalha.

- O que também o coloca na lista de pessoas suspeitas que poderiam estar trabalhando com os Anciões. - Yanka bateu o pé, impaciente.

- Eros!

- Pergunte por que ele está nos ajudando, panemorfi – Ele pousou a mão em sua cintura. Ela revirou os olhos antes de questionar Quio.

O homem assentiu, sério, um brilho confiante no olhar. Ele fez sinal para esperarem e caminhou até um camelo. Tirou algo de uma bolsa lateral e entregou para Eros. Era uma concha, exatamente igual aos seus colares, só que maior e marcada com símbolos.

- Há alguns dias, mensageiros da tribo Ula chegaram trazendo esse artefato em nome de Bruxo da Árvore. Ele é amplamente conhecido e desejado pelas suas habilidades, mas raramente sai de sua Floresta. Por isso o conselho tem confiança nele. – Yanka traduziu – A escrita diz que algo enorme está vindo para a tribo Tote, e que o conselho deveria permitir que os portadores dos colares de concha possam defender seu território.

Eros franziu as sobrancelhas. A escrita era igual ao caderno que eles devoravam dia a dia.

- Bruxo da Árvore mandou isso a ele? E ele não mostrou a ninguém?

- Ele disse que não queria apavorar o conselho de forma desnecessária, mas agora com a nossa chegada tem certeza do que está acontecendo.

- E ainda assim devemos nos provar – Nicholas resmungou. Ele olhava desconfiado para o homem, e Eros apertou o ombro do amigo. Nicholas tendia a ficar de mau humor quando não sabia lidar com alguma situação.

- Quio é o segundo no comando. Se conseguirmos convencê-lo do poder dos colares, podemos considerar feita a negociação.

- Terá que mostrar aos outros também - Kaiko surgiu da tenda, acompanhado por diversos velhos em túnicas coloridas e expressões arrogantes. - Foi o máximo que consegui deles.

Eros pensou por um momento, olhando aquelas pessoas. No fundo de seu âmago ele tinha um sentido de urgência de que algo terrível estava se aproximando deles. Eles simplesmente não tinham tempo para isso...

- Fique com eles, Yanka.-

O que vai fazer, Eros?

Ele deu um beijo no topo da sua cabeça, respirando seu cheiro maravilhoso, se recarregando para não bater naqueles velhos desconfiados.

- Vou provar que os colares têm poderes, talvez de uma forma nada agradável. - Yanka o segurou, apertando os olhos da sua direção.

- O que você vai fazer, Eros?!

- Você confia em mim?

- Claro.

- Então fique aqui.

Ele se virou para Kaiko e Nicholas.

- Nicholas, entre em posição de defesa ao menor sinal de que algo saiu do controle. Kaiko – Ele olhou no olho do jovem guerreiro e viu apenas uma confiança cega ali. - Preciso que traduza algo para Quio e mantenha Yanka aqui. O sucesso do que eu preciso fazer depende dela.

Os homens assentiram, se posicionando.

Eros olhou no fundo dos olhos de Quio.

- Se eu aparecer na sua frente, em menos de cinco minutos, deve me perdoar pela minha audácia e confiar seus exércitos em minha mão.

E antes mesmo que Kaiko terminasse de falar, Eros estava disparando para o enorme e fortificado oásis, o centro da vida de Tote.

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Havia pelo menos o dobro de guerreiros do dia anterior ao redor do oásis. Eros conseguiu passar correndo facilmente pelos primeiros, mas os homens facilitaram para ele.

O primeiro que o derrubou no chão foi um homem que era pelo menos o dobro da sua largura. Eros rolou, a dor explodindo nas costas, desviando de seus pés. Acertou com força as panturrilhas do homem, jogando-o na areia, desviou de outro, rodopiando sobre seus joelhos e lançou um terceiro longe com um chute giratório.

No meio da confusão, os homens tiveram tempo de sacar lâminas redondas, e Eros teve que se abaixar para não ser acertado quando algumas delas foram jogadas.

Ele sacou sua espada, rebatendo as lâminas e tentando fazer o menos estrago possível nos guardas. Quanto mais ele chegava perto dos guardas, mais difícil o cerco ficava, até o momento em que ele estava completamente cercado.

Então Eros começou a forçá-los para frente. Com um urro de dor e esforço, forçou os homens a entrar na água, e caiu no chão quando alguém bateu dolorosamente entre suas omoplatas.

No chão, ele olhou para a água a poucos dedos de distância, enquanto tentava se proteger dos chutes e socos dos guardas. Abandonou a própria proteção, abrindo a brecha para que o matassem ali mesmo, levou o colar a boca e estendeu os dedos para a água. O guarda enorme que o derrubara, levantou de forma triunfante uma lança enorme.

Com o gosto de sangue inundando sua boca, Eros sentiu o molhado refrescante da vida em seus dedos e soprou o colar, enquanto a lança descrevia um arco em direção ao seu coração. 

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