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Eros rodopiou, encantado enquanto absorvia tudo que os cercava. Yanka riu com a animação dele.

Luzes brilhantes e coloridas estavam em todo lugar, e o som de tambores e pessoas rindo e conversando davam um ar de aconchego e vivacidade ao festival.

O lugar cheirava maravilhosamente bem, com peixes fritos ao óleo de mostarda, bolinhos comemorativos de cogumelo azul, raspas de cascas centenárias de oliveiras, arroz mergulhado em creme de abóbora, enormes antílopes sendo assados enquanto sua gordura atiçava o fogo.

Eros pulou de barraca em barraca, mostrando uma faceta de sua personalidade que Yanka nunca vira. Experimentou comidas, bebidas, apontou luzes, riu, parecendo momentaneamente ter esquecido do propósito deles ali.

Yanka o olhava encantada. Aquele homem... deixava-a completamente sem chão, com sua beleza, seu coração enorme e seu sorriso resplandecente.

- Gostou tanto assim? - Perguntou quando pararam em uma banca de joias. Ela passou a mão por um pente de marfim simples.

- Adorei! - Ele entrelaçou suas mãos. Seu perfil contra as luzes coloridas era simplesmente perfeito.

- Nunca foi em um festival antes?

Ele sorriu, parecendo triste.

- Nunca tive tempo. Ou energia. Eu sempre... estava matando algo. Ou treinando para matar.

Yanka o observou por alguns momentos. Ele parecia uma criança quando ganhava um brinquedo novo. Provavelmente, porque ele nunca tivera oportunidade de ter aquilo. De repente, ela quis deixar de lado toda a hesitação, todos os princípios que a prendiam à sua tribo. De repente, ela só via Eros, seu enorme e teimoso Eros. O homem que a levara até ali. Que se enfiara na frente de predadores, que os resgatara de vendedores de escravos. Que os tirara da morte tantas vezes, e encontrara respostas, mesmo a custos altos. Que escolhera estar ali, quando poderia ter escolhido simplesmente ir embora. Que a escolhera, sempre, todas à vezes.

O coração de Yanka bateu em um compasso diferente. Confiante. Existia algo que ela queria mais do que acordar a própria tribo.

Eros.

Ela pegou o pente e se colocou nas pontas dos pés. Alcançou os cabelos loiros dele, e encaixou o pente na lateral, prendendo o cabelo solto. Ele levantou as sobrancelhas, inquiridor. Yanka enlaçou seu pescoço, sorrindo.

- Pentes de marfim quando são dados por parceiras significam que elas desejam um amor longo. - Ela beijou levemente seus lábios - Mas quando dado por mim, significa que eu desejo um amor eterno.

As feições de Eros se iluminaram.

- Isso quer dizer...

Yanka revirou os olhos.

- Sim, Yretoo. Vamos ter algo eterno, exatamente ao contrário de tudo o que me ensinaram.

Eros agarrou sua cintura, rodopiando-a nos braços. Encheu seu rosto de beijos, até a velha da banca gritar que deveriam pagar.

- Não ouse dar um pente de marfim para outro macho. - Ele murmurou em seu ouvido, deslizando a mão pela sua cintura. Enquanto riam, a expressão dele mudou para pensativa.

- O que foi?

Uma música lenta começou, e Eros a puxou para dançar. Embalados nos braços um do outro, ele retirou do bolso a pulseira de sua mãe e encaixou no pulso de Yanka, a pedra azul clara reluzindo. Ela arregalou os olhos.

- Eros, não pode... era da sua mãe...

- E agora é seu – Ele beijou sua mão, respirando feliz. Yanka nunca se sentira tão, tão, tão feliz em toda a sua vida. - Ela ganhou como a prova de amor de alguém. É justo que eu dê à minha amada.

- Então você me ama?

- Sim. - Ele encostou a testa na dela, abraçando-a forte – Amo você tanto, que mesmo que eu não tivesse vindo parar aqui, daria um jeito de te encontrar.

- Eu também.

- Me ama ou daria um jeito de me encontrar?

Ela riu. A noite, Eros, o burburinho do festival, tudo... Tudo estava perfeito.

- Os dois, Yretoo. Os dois.

////

Eros se sentia tão pleno que não notou que Nicholas estava parado atrás de si até que o amigo o cutucasse. Ele apertou os olhos, apontando na direção do fim da ampla rua do comércio.

Eros havia instalado seus homens no começo, meio e fim, e os mandara ficar de olho caso vissem alguém suspeito, antes ou depois de se conectarem com os colares. Ajuda nunca seria demais, principalmente quando estavam enfrentando algo que nunca haviam visto.

"Está na hora", o amigo murmurou e voltou a se misturar na multidão.

- Temos que ir, panemorfi. - Eros a puxou. Sua alegria de ter Yanka como parceira foi diminuída momentaneamente pela situação. - Não houve nenhum movimento suspeito.

- Vamos tentar conectar os colares?

Eros assentiu, olhando ao redor. Precisava de água.

- Eros, deixe que eu faça – Yanka o segurou.

- Não. Precisa confiar que eu conseguirei dominar o que quer que aconteça, Yanka. Fique, e se eu não voltar, me chame pelo seu colar. Pode fazer isso por mim?

Ela mordeu os lábios, hesitante. Eros a pressionou contra seu corpo, seu desejo visível. Murmurou em seu ouvido:

- Quero te proteger agora, e quero te fazer feliz mais tarde, panemorfi. Prometo voltar vivo.

- Se você não voltar – Ela retrucou – Prometo fazer picadinho de você.

Ele riu, vendo com o canto de olho um vidente cego e sem plateia passando as mãos por cima de uma bacia de água.

Com uma última piscadela para Yanka, Eros correu e enfiou a mão na bacia, mentalizando o que queria achar e assoprando seu colar.

////

À principio, ele não viu nada. Em um momento estava no meio do festival, no outro estava envolto em escuridão e silêncio. Tocou sua pele, se certificando de que estava inteiro.

Um barulho alto e uma porta se abrindo fez o estado de alerta de Eros triplicar.

Ele avançou na direção da figura que passava correndo pelo jorro de luz da porta, perseguindo-a. No entanto, correr atrás da figura encapuzada se tornou mais difícil do que ele imaginava.

Ele foi levado pelo intricado caminho entre o quadrante das residências, e por mais que parecesse mais rápido do que a figura à sua frente, ele se viu ficando para trás quando dava de cara com becos sem saída, vielas com caixotes derrubados de propósito, pessoas sendo empurradas na sua frente e até mesmo palha pegando fogo, até que enfim, não sabia mais onde estava e não via onde a figura tinha sumido.

Ele se deixou cair de joelhos, ofegante.

- Droga! - Eros socou o chão com força. Raiva e ódio se misturaram. Como ele podia ter perdido a pessoa?!

Um pequeno brilho fez Eros se esticar para pegar o que havia caído da figura que ele perdera de vista.

Abriu o pequeno pergaminho enrolado e encarou algumas palavras que não conseguia entender.

Logo ele foi alcançado por Tiro, Nicholas, Kaiko e Yanka.

- Yanka – Ele chamou. Ela o olhou preocupada – Vi que caiu quando eu estava perseguindo a pessoa, mas não consigo ler.

Ela passou os olhos pelo pergaminho, e soltou uma interjeição confusa.

- O que diz?

- Diz... - Ela parecia não conseguir dizer. Kaiko pegou o pergaminho e franziu a testa.

3.000 homens na cavalaria

2.000 na retaguarda

500 nas guardas laterais

70 sargentos

40 majores

20 capitães...

- Espera... - Tiro interrompeu, refletindo a confusão dos demais – Isso é uma lista? O que isso quer dizer?

Eros trocou um olhar com Nicholas, o único que não parecia surpreso.

- É uma lista com as posições de um exército.

- Mas para que isso serve... - Tiro se interrompeu, enquanto a ficha caía.

- Eles estão planejando nos atacar – Yanka sussurrou – os Anciões.  

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