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- Iremos seguir para a tribo Ula amanhã - Kaiko apontou no mapa a distância entre as duas. - A tribo é escondida. Sabemos o caminho, e o percorreremos. - Ele apontou para um ponto preto no mapa – A tribo Ula tem os melhores construtores do Continente, por isso acharmos a tribo depende somente deles.
Eros franziu as sobrancelhas.
- Por quê?
Kaiko mordeu os lábios, pensativo, olhando de relance para Yanka.
Estavam em uma sala cheia de mapas e pergaminhos. Mesas individuais e coletivas se espalhavam pelo lugar, e as paredes irregulares da montanha eram revestidas de estantes e pergaminhos, subindo por muitos metros antes de sumir na escuridão.
Integrantes da tribo Saqua se espalhavam em grupos sussurrantes ou analisavam os pergaminhos sozinhos.
- Quanto menos souberem, melhor – Yanka parecia nervosa, e com o olhar penetrante de Eros, gaguejou – Ninguém sabe muito bem sobre a tribo, apenas aquilo que eles permitem. São engenhosos e morrem de medo de terem suas ideias roubadas, por isso guardam sua localização exata em segredo. Nem mesmo nós sabemos como chegaremos lá exatamente. Sabemos apenas que é uma região cheia de feras, e teremos que ser encontrados pela tribo. Eros, recomende aos seus homens que durante o trajeto, não façam barulho e não usem suas armas.
- Sim, mas por quê? - Nicholas parecia tão confuso quanto Eros, mas tanto Yanka quanto Kaiko se calaram, se recusando a falar.
Eros apoiou o quadril na mesa, roçando de leve o cotovelo em Yanka. Ela engoliu com força para evitar pensar no quanto eles estavam próximos e em como o calor dele quase a deixava louca.
- O que está acontecendo? - Nicholas fez uma careta na direção deles e Eros se afastou dela, pigarreando. Yanka baixou os olhos.
- Do que está falando?
- É obvio que estão escondendo algo.
- O que quer dizer com esconder? - Yanka grasnou, sem graça. Ela olhou para Kaiko, desesperada por ajuda, mas ele apenas deu de ombro, com um olhar divertido.
- Vocês disseram que havia algo para discutir conosco. Imagino que não seja sobre nossa viagem até a próxima tribo – Nicholas retrucou, secamente.
- Ah, isso. - Eros se inclinou sobre a mesa, roçando o quadril no de Yanka de novo. - Aparentemente dois de meus homens tentaram me envenenar quando chegamos à tribo Saqua.
Nicholas sufocou com a própria saliva, tossindo desesperadamente em busca de ar. Quando se acalmou, o olhou com o rosto vermelho e olhos esbugalhados.
- E quem foi?
- Ícaro e Alexander.
- Como sabem? - Kaiko perguntou, em estado de alerta.
Yanka e Eros contaram a ele rapidamente os últimos eventos e os outros homens assentiram.
Nicholas socou a mesa, irritado.
- Vou matar esses idiotas imediatamente – Mas antes que ele pudesse ir, Eros o puxou, colocando um braço sobre seus ombros e sorrindo abertamente.
- É bom saber que você mataria por mim, meu bom amigo.
- Não é hora de fazer gracinha Eros, você quase morreu – Ele resmungou, mal-humorado.
- O que vão fazer sobre isso? - Kaiko perguntou.
- Vigiá-los. - Eros apontou para o mapa, traçando com o dedo o caminho entre a tribo Saqua e a tribo Ula – Cada passo que eles derem deve ser vigiado.
- Mas se eles tentarem novamente... - Tentou argumentar Nicholas.
- Aí pegaremos eles no flagra e os puniremos.
Nicholas bateu o pé, teimoso.
- Essa missão deu o que tinha que dar! Até nossos próprios homens se viraram contra você! - Ele gesticulou, chamando a atenção das pessoas da tribo. Antes que ele pudesse continuar, Eros lhe deu uma chave de braço e os dois rolaram pelo chão, soltando-o apenas quando o amigo se rendeu.
Deitaram-se no chão, arfando e rindo.
Yanka andou cuidadosamente até lá, os olhando de cima. Eros tinha os olhos azuis brilhando e um sorriso maravilhoso no rosto, felicidade pura e genuína no rosto. Ate Nicholas parecia atraente, com os cabelos pretos e olhos azuis.
- Se levantem, os dois.
- Para onde vamos, panemorfi?
Ela sorriu, trocando um olhar significativo com Kaiko.
- Aparentemente Bumbo nos preparou uma festa de despedida.
- E nós temos que ir? - Nicholas resmungou.
- Quer apostar que sim? - Eros o olhou de lado, e antes mesmo de abrir a boca, Nicholas disparou para fora, com o amigo no encalço.
Kaiko a cutucou com o combro enquanto os seguiam.
- Cuidado para não perder o lugar no coração dele, hein?
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Eros olhava encantado aquele paraíso no meio do deserto. Árvores frondosas cercavam a montanha, escondendo dentro de si surpresas agradáveis. Animais estranhos podiam ser vistos ao longe, riachos e corredeiras se espalhavam pelo bosque. O cheiro de vida e umidade era bem-vindo e Eros encheu os pulmões com o ar refrescante, permeado pelo cheiro de carnes assando, frutas cortadas e flores.
- Tudo aqui parece um sonho – Tiro murmurou, os olhos percorrendo freneticamente o espaço montado pela tribo.
Estavam em uma clareira no centro do bosque. Fitas brancas foram penduradas entre as árvores, e delas pendiam flores e folhas, criando bandeirolas vivas. Uma mesa, repleta de comidas naturais e bebidas estava na lateral, e num canto, homens e mulheres da tribo tocavam tambores e instrumentos estranhos. Tochas circundavam o local, lançando em tudo uma cor aconchegante.
A animação da tribo era evidente, as pessoas vestidas de branco e com tatuagens dançando, conversando e rindo. Sua tropa se espalhara, comendo e parecendo pela primeira vez em muito tempo, relaxados.
- Eles estão felizes por poderem relaxar um pouco – Nicholas comentou, como se lesse os pensamentos de Eros.
- Estou feliz que está aqui comigo, Nicholas – Seu amigo bufou. - Teve a chance de ir embora, mas escolheu ficar.
- Vai me pedir em casamento também? - Nicholas resmungou, vermelho e saiu, deixando Eros com um sorriso divertido no rosto.
Ele se sentia bem, o coração em paz.
Wola apareceu, gesticulando e tentando se comunicar, sorrindo. Eros tentou falar algo, desajeitado, mas as palavras entalaram na garganta quando viu Yanka entrar na clareira.
Pela primeira vez na vida, sua enorme trança estava desfeita, os cabelos escuros e enrolados descendo até as coxas, trançados com folhas e flores.
Ela vestia um vestido branco que marcava sua cintura fina e caia como uma pena ao seu redor. Yanka parecia flutuar quando entrou na clareira, as tatuagens douradas refletindo o fogo das tochas.
Eros sentiu o fôlego ficar preso no peito. Yanka era uma mistura de dourado, branco e preto. Sorria e gracejava com a tribo Saqua, sendo admirada e adorada por onde andava.
Wola falou algo para Eros, mas ele a ignorou, seguindo como se estivesse em transe até Yanka.
O sorriso dela desmanchou quando ele se aproximou, e ela fugiu para o outro lado da clareira. Eros passou a mão no cabelo, confuso.
- Achei que tínhamos resolvido nossos problemas – Ele murmurou, acompanhando-a com os olhos enquanto ela parecia ficar cada vez mais distante dele – Pelo visto existe algo que eu ainda não sei.
A batida dos tambores ficou mais ritmada e alegre e Eros se viu no meio de uma aglomeração de pessoas. Pareciam estar se ordenando para dançar e ele se viu impedido de sair.
Wola agarrou seu braço bem na hora em que as pessoas começaram a se mover, guiando-o na dança. Eros tropeçou nos próprios pés, olhando por sobre o ombro a todo momento, tentando achar Yanka.
Rodopiou, trocou de par, bateram palmas e então havia uma nova mulher na sua frente. Passou por tantas pessoas que desistiu de procurar Yanka e começou a tentar aprender de fato os passos.
Eram passos fáceis e limpos, e ele os pegou rapidamente. Aqueles que dançavam com ele, riam quando ele tropeçava nos próprios pés, ensinando-o da melhor forma que conseguiam, e logo Eros se viu rindo com eles, encantado pela vivacidade daquele povo.
Em um rodopio, ele estava em frente a uma menina de no máximo dez anos. Ela dançou com clareza, os movimentos fluidos ao som da batida. Eros se ajoelhou para baterem as mãos juntos, a risada infantil enchendo seus ouvidos e seu coração. Eros lançou a cabeça para trás para gargalhar e quando voltou...
... Yanka estava a sua frente.
Ele se levantou rapidamente, tropeçando quando alguém trombou com ele.
Foi lançado para frente, e Yanka o aparou. Ficaram abraçados, se olhando longamente, apesar da batida insistente da música.
Eros sentiu a energia entre eles trepidar, o coração de acelerando com a proximidade. Parecia que o tempo havia ficado mais lento só para que eles estivessem naquele momento.
Yanka apertou a boca, como se estivesse aflita.
- O que está acontecendo?
- Nada – Ela tentou sair de seu abraço.
Ele a apertou contra o peito.
- Eu te conheço. Existe algo acontecendo.
Ela balançou a cabeça, e um vacilo no seu olhar fez Eros olhar rapidamente para o lado. Wola dançava com Nicholas ali perto.
- Yanka... - Eros segurou uma risada – Por um acaso está com ciúmes de mim? Por isso fugiu?
Ela olhou para o lado, fazendo um muxoxo.
- Não estou com ciúmes.
- Não admite que gosta de mim, nem que está com ciúmes. O que devo fazer?
Yanka mordeu os lábios, e Eros sentiu o quanto suas mãos estavam suadas onde ela pegava nele.
Eros encostou a testa da dela, deslizando as maos por suas costas e absorvendo seu cheiro.
- O que está fazendo? - Ela resmungou, tentando sair de seu abraço. Ele a segurou mais firme.
- Admita que está com ciúmes.
- Não há nada para admitir.
- Então fale qual é o problema.
Ela se contorceu, saindo do abraço. O rosto estava vermelho e ela olhava para o lado freneticamente.
- Pare com isso, Eros! Eu não estou com ciúmes. - Ela gritou, chamando a atenção de quem estava perto.
- Então não se importa se eu ficar com qualquer mulher aqui. - Ele retrucou no mesmo tom.
Ela empinou o nariz, a chama do orgulho brilhando em sua postura altiva.
- Você é livre para ficar com qualquer mulher, Eros.
- E não vai se arrepender disso? – Ele enrolou as mãos em um punho. Aquela conversa estava deixando-o de mau humor.
- Com certeza!
Ele sentia vontade de urrar. Que mulher teimosa e orgulhosa! Era nítido que ela sentia algo por ela. Ele trincou o maxilar, travou uma guerra de olhares com ela e girou em seus calcanhares.
Com um puxão, ele tirou Wola de Nicholas se abaixou e a beijou.
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