32 ☽••
Yanka viu o próprio desespero refletidos nos olhos de Eros.
Ela não conseguia entender o porquê Kira havia entrado no conflito, e não fazia ideia do que faria dali pra frente.
- Chame seus homens – Ela falou para Eros.
Como se ele entendesse perfeitamente o que ela queria fazer, Eros fez sinal e a tropa pulou a cerca, para dentro da arena. Pegaram os homens inconscientes e se aglutinaram, uma massa de músculos e machos prontos para se defender.
- Qual a minha chance de rejeitar a liderança da tribo? - Ela perguntou a um Kaiko assombrado.
- Foi a primeira vez que eu vi Kira cair – Ele murmurou. Aparentemente ninguém conseguia acreditar que a inabalável e poderosa Kira poderia ser derrotada algum dia, principalmente por alguém despreparada como Yanka.
- Kaiko – Ela segurou seu braço forte, a urgência em seu olhar.
- Faz parte dos costumes Yanka. Recusar a liderança, seria o mesmo que desafiar os deuses.
A multidão que os assistia começou lentamente a se levantar.
- Eles vão reconhecê-la – Kaiko passou os olhos pelas pessoas, parecendo mais alerta – Se fizerem isso, não tem mais volta, Yanka. Terá que ficar aqui o resto da sua vida. A não ser...
Ela encontrou os olhos escuros de Kaiko. E de repente ela sabia exatamente o que fazer. A solução era... a única coisa das quais os líderes eram proibidos de ter. A única coisa que poderia quebrar o laço de liderança imediatamente, se não os levasse a morte. Era simplesmente... loucura.
- Não pode fazer isso. A tribo leva muito a sério a questão de relacionamento, Yanka. Assumir que tem um parceiro... Parceiros são pessoas descartáveis para líderes e... - Kaiko murmurou, lívido.
- Existe outra forma?
Ele balançou a cabeça, parecendo impotente e nesse momento a multidão começou a clamar.
Yanka encontrou os olhos de Eros. Neles, ela viu o tamanho de sua confiança nela. A espada nas suas mãos era a certeza de que ele mataria e morreria por aquilo que Yanka escolhesse fazer. Uma dúvida rastejou até seu coração, algo que não tinha nada a ver com seu desejo de tirá-los de lá. Com os lábios, ele formou as palavras:
"Faça o que tiver que fazer"
Yanka apertou a funda com força nas mãos e caminhou firmemente até Eros. Com uma calma plena e segura dentro de si, falou:
- Vai me perdoar pelo que eu vou fazer, Yretoo?
Ele ergueu uma sobrancelha.
- Você vai fazer alguma coisa que vai exigir meu perdão, Panemorfi?
Yanka riu, pondo a mão em seu peito e se colocando nas pontas dos pés.
- Espero que se acostume com isso.
E o beijou.
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Yanka sentiu o corpo de Eros se tensionando de surpresa, mas não se importou.
Em um segundo, suas mãos deslizaram pela sua cintura, puxando-a com força contra seu corpo. Desejo e uma fome voraz o fez intensificar o beijo, abrindo a boca de Yanka e fazendo suas línguas dançarem juntas.
Yanka agarrou seus braços como se precisasse de algo que a ancorasse, e se esqueceu momentaneamente da plateia que os assistia boquiaberta.
Se separaram quando alguém bateu no ombro de Yanka. Ela olhou intensamente para Eros, e ele tinha aquele sorriso de canto na boca totalmente beijável, a faísca entre eles aumentando ao ponto de ser difícil desviar o foco um do outro.
- Ahn... – Alguém pigarreou e ela foi forçada a desviar sua atenção de Eros.
Kaiko tinha os olhos abertos como pratos, e se ela não estivesse completamente descompensada depois da pegada de Eros, teria rido dele.
Ele apontou para as arquibancadas. A tribo Wattu gritava como se estivesse tendo dor. Em suas lamúrias, pediam misericórdia aos deuses pelo pecado de Yanka.
- Oque está acontecendo? – A voz rouca de Eros a fez estremecer.
- Acabei de ser desqualificada para ser líder – Ela respondeu, e quando Eros franziu a testa confuso, ela continuou – A única regra que líderes devem atender é a de não ter parceiros fixos, e eu... - Ela desviou os olhos sem graça - acabei de assumir publicamente que tenho um.
Eros sorriu escancaradamente, mas antes que ele pudesse falar algo, Kaiko segurou seu cotovelo.
- Precisamos sair daqui.
Ela concordou. A tribo parecia estar se exaltando, olhando-os com ódio e temor.
Antes que pudessem dar dois passos, Kira se sentou, balançando a cabeça, confusa.
Yanka se ajoelhou na sua frente.
- Kira...
- Eu sei – Ela murmurou, um grande calombo na testa onde Yanka a acertara – Eros, Kaiko.
Os dois se ajoelharam diante dela, junto que Yanka. Kaiko lhe explicou o que Yanka havia feito para recusar a liderança, e lentamente, ela pareceu se situar, um sentido de urgência aparecendo em seus olhos.
- Dois venceram, então vocês têm dois desejos. Digam agora.
- Mas... – Yanka tentou protestar.
Kira agarrou seu braço.
- Vocês precisam sair daqui imediatamente, ou meu povo vai se voltar contra vocês. Kaiko – Ela se voltou para ele – Reúna quantos homens você puder e os use para conter a multidão. Nos ganhe tempo até que Yanka e os outros saiam da arena.
Ele assentiu e partiu correndo.
- Kira... – Yanka tentou convencê-la, mas Eros a impediu. Pela boca apertada, ela soube que ele estava se preparando para tirá-los dali. Ela engoliu em seco.
- Pergunte qualquer coisa, Panemorfi – Ele traçou seu rosto suavemente com os dedos, a expressão um misto de desejo e cautela.
- Eu... – Ela hesitou. Uma dúvida surgiu em sua mente, algo que sempre quisera saber. Ela segurou seu colar de concha entre os dedos – De onde é esse colar, Kira? Como chegou nas mãos da minha mãe?
- Sua mãe? - Eros perguntou. Yanka assentiu, se sentindo pronta para compartilhar isso com ele.
- Acho que você apareceu depois que eu soprei a concha. Minha mãe me disse para usar em caso de vida ou morte, e foi onde eu usei, e você apareceu antes de me jogarem no vulcão. Além disso... Foi ela quem me ensinou sua língua. Porque, dentre todas as línguas, justamente a sua?
Eros franziu a sobrancelha. Provavelmente estava tentando entender como aquele pequeno artefato havia o levado ali.
- Procure pela Bumbo dentro da montanha da tribo Saqua. Ela vai lhe explicar – Kira respondeu, olhando ansiosamente ao redor. Uma comoção havia se iniciado no centro das arquibancadas e Kaiko formava um anel de guerreiros para tentar impedir as pessoas de invadirem a arena.
- A última mãe do continente?
- Isso. Eros, faça seu pedido.
- Precisamos do ferreiro Caolho da tribo Wattu. Ele é a única pista que temos.
Yanka sentiu sua tensão aumentar quando alguém furou o anel de proteção de Kaiko e entrou correndo na arena. Um guerreiro o puxou de volta, mas mais pessoas furiosas pareciam estar conseguindo furar a defesa dos guerreiros.
- Vou providenciar para que ele os acompanhe na sua jornada. Assim podem extrair qualquer informação dele. - Kira segurou as mãos dos dois, parecendo pela primeira vez desde que Yanka a conhecera, desesperada - Já arrumamos sua viagem. Vai ser impossível sair do fosso agora, então corram até a forja e achem Wola.
- Kira, isso quer dizer que usaremos a passagem...
Ela assentiu. Kira se levantou com dificuldade, chamou Kaiko e murmurou algo em seu ouvido. Ele assentiu e apontou para a forja do outro lado.
Poucas pessoas estavam lá, a maioria tentando invadir a arena.
- Corram – Ele orientou. - Eu e meus homens tentaremos retardar ao máximo a tribo.
Com um último olhar para Yanka, ele se enfiou no meio da confusão, a tribo cada vez mais raivosa e desesperada.
Yanka agarrou a mão de Eros e correu em direção a forja, a tropa em seu encalço, levando um Nicholas e um Catri desacordados. Conseguiram passar sem nenhuma interrupção, e no fim da forja, Wola os esperava.
Entraram em um túnel que serpenteava por dentro do penhasco, os gritos da multidão ficando cada vez mais para trás. Andaram por muito tempo, ninguém ousando falar nada. O sentido de todos estava aflorado com o perigo tão perto.
Foi somente quando avistaram a luz no fim do túnel que eles pararam.
De nichos escondidos na parede, Wola pegou cordas e presilhas e distribuiu entre os homens.
- O que temos que fazer, princesa? - Tetrum perguntou, sua expressão confusa.
Séria, Yanka o olhou.
- Vocês têm medo de altura?
- Um pouco, mas porquê...
- Porque nós iremos descer o penhasco.
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