30 ☽

Para sua enorme surpresa, Eros escolheu Yanka para estar na batalha, juntamente com Nicholas, Catri e ele mesmo.

Eros conversou longamente com seus homens sobre as consequências de serem derrotados, mas Yanka só conseguia ver em seus olhos determinação e lealdade.

Quando tentara argumentar com ele sobre sua falta de habilidade, Eros apenas balançou a cabeça, olhando para o nada enquanto falava com ela.

- Você faz parte dessa jornada mais do que todos nós. Se alguém aqui deve entrar em confronto, esse alguém é você.

E se foi quando Nicholas o chamou.

Observando suas costas, Yanka percebeu sua tensão e o estresse. A raiva dele parecia ter esmaecido, mas a distância entre eles parecia aumentar a cada instante.

Ela olhou o arsenal gigantesco da tribo Wattu, tentando não dar atenção ao seu coração partido.

- Em dúvida sobre o que fazer? - Kaiko apareceu ao seu lado. Linhas fundas ainda marcavam sua expressão, e seu corpo estava desnutrido e fraco, mas ele tinha um sorriso bem-humorado nos lábios.

- Nunca usei uma arma – Ela riu sem graça.

Kaiko passou o indicador num machado de dois gumes.

- Não estava falando sobre a arma – Seu olhar perspicaz a fez baixar o olhar. Ela riu, sem humor.

- Você sabe que eu sou fraca. - Ela murmurou, deprimida.

Ele pegou uma lança e pesou na mão.

- Sei o que eu vejo, Yanka.

- E o que você vê?

Ele parecia pensativo. Ficou um longo tempo olhando o arsenal, até pegar uma tira de couro e uma pequena bolsa.

Colocou a funda do lado do machado.

- Dos dois, qual você acha que faria maior estrago?

- O machado, com certeza – Ela respondeu sem hesitar.

- Por quê?

- Porque ele é grande, robusto e perigoso.

- Então acha que a funda não faria estrago algum porque ela é pequena?

Ela assentiu, franzindo a testa. Se perguntou se Kaiko estava alucinando pelas últimas semanas.

Ele rodou o machado na mão e o lançou com força na direção de Eros. Os reflexos rápidos do grande guerreiro, permitiram que ele se desviasse por pouco e a arma se cravou na parede do arsenal com um baque forte.

- Ficou louco?! - Eros esbravejou, os olhos brilhando em fúria.

Yanka assistia a cena de boca aberta, sem acreditar. Kaiko apenas riu enquanto Eros marchava em sua direção. Calmamente pegou a funda, colocou uma pedra e girou acima da cabeça.

- Não ouse – Eros rosnou enquanto avançava em passos largos.

Kaiko lançou a pedra mesmo assim, e apesar de Eros tentar se desviar, sua forma era grande e lenta e a pequena pedra ainda bateu com força em seu estômago. Ele se dobrou, sem ar.

Seus homens correram para a frente, parecendo irritados.

Kaiko riu, divertido. Ele piscou o olho na direção de Yanka e murmurou em seu ouvido:

- Ainda acha que a funda é a mais fraca daqui?

E enquanto ele saia, ela não soube se ele estava falando da funda ou dela mesma.

////

Yanka praticou incansavelmente até o dia do combate.

Os homens de Eros também praticavam na arena junto com ela. Nicholas praticava com o arco curvo de caça da tribo, Catri treinava com um machado enorme e Eros os supervisionava, a espada desembainhada.

Eles treinaram sozinhos, uns com os outros e em combate corpo a corpo. Yanka era péssima em bater em alguém, mas Eros lhe ensinou a usar seu tamanho e velocidade a seu favor, além de usar a funda.

Seu progresso era lento e sofrido, mas ela percebia uma melhora. Em Catri, ela conseguia fugir e atacá-lo por trás antes mesmo que ele se pudesse fazer um arco com o machado, e Nicholas perdia facilmente a cabeça quando não conseguia acertá-la, uma vantagem que ela aprendeu a usar a duras pernas.

O mais difícil era Eros, que não apresentava nenhuma brecha ou piedade, apesar de se mostrar contido e distante. Ela o tentava chutar, socar e estapear, mas a velocidade e precisão dele eram impressionantes. Foi depois de ter sido jogada impiedosamente na areia, com Eros montado em suas costas imobilizando seu braço, que Yanka se permitiu ficar ali, exausta.

Um tempo depois, ele se deitou ao seu lado, a respiração ofegante.

- Já desistiu?

- Você fala como se fosse fácil – Ela resmungou e fechou os olhos. - E você, já desistiu? Não devia estar treinando seus homens?

- Você é meu homem.

- Eu sou uma mulher.

- Então você é minha mulher.

Ela virou a cabeça, olhando-o atentamente. Eros parecia mais velho, tenso e triste. Ele também deixou a cabeça cair e a olhou. Era o primeiro momento de paz entre os dois, desde que chegaram em Wattu. Se olharam por um longo momento, em silêncio. Parecia que queriam dizer tudo o que não fora dito apenas com o olhar. Foi Yanka quem quebrou o silêncio.

- Você está com raiva de mim – Ela afirmou.

- Não estou – Eros suspirou, vincando a testa, parecendo confuso – Estou triste por não ter confiado em mim para me contar sobre como aprendeu minha língua, e como eu vim parar aqui...

Ela balançou a cabeça, confusa.

- Por mais que eu pense nisso, eu não entendo, Eros...

- Estou com medo – Ele desabafou, os olhos brilhando intensamente. - Estou com medo de isso não ser uma grande coincidência, Yanka. A pergunta que mais me incomoda não é como nós viemos parar aqui, mas por quê. O que mais eu terei que sacrificar, qual será meu futuro...

E então ela entendeu. Se colocou no lugar dele. Se estivesse em seu lugar... Ela jamais teria tido a força e a coragem daquele homem. Ela teria tido dúvidas bem mais cedo, questionado e desistido.

Mas ali estava ele, tentando todos os dias, lutando e buscando respostas.

- Eros, se quiser perguntar o que eu sei...

Ele balançou a cabeça.

- Quero que me conte quando estiver pronta. Quero que confie em mim o suficiente para compartilhar seu coração comigo.

O coração de Yanka acelerou e ela prendeu a respiração quando eles se encararam, a chama entre eles aumentando. Era inegável que havia algo acontecendo ali. Algo que os atraía e os repelia, mas que se tornava cada dia mais forte.

Cuidadosamente, ela engatinhou e deitou a cabeça em seu peito.

Sem maldade, sem barreiras e sem mágoa, ele estendeu a mão para acariciar seus cabelos.

- Eros.

- Yanka.

Ela aproveitou seu momento de vulnerabilidade, e cruzou as pernas em seu peito, puxando seu braço dolorosamente e imobilizando-o.

- Me ensina de novo como imobilizar alguém.

A sombra do sorriso preferido dela apareceu no rosto dele, e seu coração balançou, como se estivesse voltando a vida de um longo sono.

- Te ensino qualquer coisa que me pedir, Panemorfi.

////

O dia do confronto chegou rápido.

Centenas de pessoas lotavam as arquibancadas de pedra da tribo Wattu, o burburinho deixando o estômago de Yanka retorcido.

Finalmente ela se dava conta do tamanho da responsabilidade que estava em suas mãos: o direito de saber ou ter qualquer coisa, desde que vencesse.

Kira havia estava mantendo-os confinados em suas tendas, com guardas acompanhando-os a qualquer lugar, para que evitassem trapacear. Em seu coração, ela ansiava por achar o Ferreiro Caolho naquela tribo e descobrir o paradeiro de Velho Urso, mas não houve jeito. Nem mesmo Kira, a quem amava como irmã, havia sido flexível.

Tiro se sentou ao seu lado. Ao redor deles, Nicholas, Eros e Catri aguardavam no limite da arena, as armas em mãos.

O jovem guerreiro chutou a areia.

- Fale logo – Ela murmurou. As mãos estavam cheias de bolha e machucados, e ela teve que segurá-las para evitar tremer de nervosismo.

Tiro colocou algo entre suas mãos.

Era uma funda de couro, as extremidades bem trabalhadas, leve e firme o suficiente para lançar a pedra longe.

- O que...

Ele deu de ombros e apontou com a cabeça Eros.

- Ele trabalhou duro nas forjas por dias junto com Kaiko. - Ele sorriu. Yanka franziu a testa.

- Kaiko?

- Foi a primeira vez que os vi trabalhar juntos em algo. Ficaram horas olhando as armas até achar a que você conseguiria dominar em menos tempo.

Yanka apertou os lábios.

- Por que ele mesmo não me entregou? - Tiro baixou a voz em tom de confidência.

- Acho que ele ficou com medo de apanhar de você. – Os cantos dos olhos dele se enrugaram quando ele sorriu mais. - Talvez seja pelo que está escrito dentro da funda.

Gravado no couro, em letras elegantes, Yanka leu em sua língua materna.

"Mulher forte.

Mulher em quem confio.

Me desculpe por ser um bunda mole.

Eros."

Ela se engasgou uma risada e o olhou. Eros piscou um olho para ela e Yanka alargou o sorriso.

Com o coração tranquilo de que logo iriam achar as respostas de algo que ambos não entendiam, ela se levantou e andou para o centro da arena. 

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