21 Γ•

A aurora do segundo dia chegou, trazendo com ela o líder da tribo Yeta e sua caravana de soldados, junto com a carroça que Eros escondera.

O homem havia despido sua capa de arrogância e ambição, e seguia a frente do cortejo com o peito nu e cabeça baixa. Os guerreiros o imitavam, mas alguns estavam feridos e tinham sangue em suas vestes.

Eros acordou Yanka.

- Acho que eles devem ter tido algum confronto com a tribo Malo – Ele murmurou enquanto ela tentava espantar o sono de seus olhos.

Kaiko e Wola se aproximaram, a expressão tao pesarosa quanto a de Yanka. Trocaram palavras com ela, antes de irem para fora da tenda para se ajoelhar em frente ao líder da tribo Yeta.

O homem os ignorou e foi direto em Eros, que estava em frente a tenda. Se encararam por um momento intenso e o único som era o do vento passando naquele lugar descampado.

Eros se surpreendia cada vez mais com a beleza daquele povo. O homem era forte, com tatuagens pratas que se destacavam no corpo musculoso e tinha joias espalhadas em si, como adornos nas orelhas, pescoço, punhos, cabeça. Os olhos, pretos como a noite, eram misteriosos e insondáveis.

O homem falou em sua língua cantada e Yanka apareceu ao seu lado, para traduzir.

- Ele quer uma prova de que não foi você quem matou as crianças e está usando isso para enganá-los.

Ela se virou para argumentar com o líder, mas Eros a impediu.

Ele sacou a espada. Todos os homens imediatamente se colocaram em postura de ataque, tanto da tribo Yeta e Wattu, quanto da tropa de Eros.

No entanto, Eros ofereceu o punho da arma para o homem e disse:

- Dou a minha vida em troca da vida de suas crianças, se isso lhe confortar o coração.

Ele percebeu pelo canto do olho Yanka tremer, como se a ideia fosse insuportável. Ela traduziu, e o homem pegou a espada e apontou para o peito de Eros.

O capitão permaneceu imóvel por um longo momento. Se encararam, se avaliaram e por fim o homem abaixou a espada.

O ambicioso, o enorme e o temido líder da tribo Yeta, chorou na frente de Eros. Seu povo se ergueu em clamor e o choro ecoou pela terra deserta.

Eros baixou a cabeça em respeito, e apesar de seu coração saber que haviam ganhado a passagem pela terra da tribo e a chance de descobrir todos os segredos que os cercavam, isso não lhe aliviava o coração de que o preço de sua passagem fora os corpos de dez crianças inocentes.

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Para entrar na tribo Yeta, eles tiveram que descer. Escadas esculpidas na rocha davam voltas e voltas para o subsolo, tantas que Eros perdeu a conta de quantos metros haviam descido.

O maior desafio, com certeza foi convencer os animais a descerem pela passagem apertada. O pavor nos olhos dos antílopes era tão grande que chegaram a cogitar deixá-los para trás.

Yanka se opôs.

- Usem os animais para montaria, ou para matar a fome, mas não os usem e abandonem. Cuidem deles, e eles cuidarão de vocês.

Apesar de ainda estar apática, parte de sua força e determinação haviam voltado e Eros se sentia feliz por isso.

Desceram pelo que pareceram horas, até chegar em uma antecâmara de teto baixo. Dois túneis saiam de lá, um maior, e o outro menor, que cheirava a estrume e animais.

- Devemos deixar os animais irem para o lugar deles – Traduziu Yanka o que era dito – Os homens da tribo irão alimentá-los.

Eros hesitou, segurando seu Bison pelo chifre. Se sentia ligado ao animal depois de tanto tempo juntos, mesmo que o bicho continuasse selvagem e rebelde.

- Deixe-o ir – Yanka o incentivou – Por ora, temos a lealdade da tribo. Irão cuidar bem deles até nossa partida.

Relutante, Eros viu seu animal ser puxado para o túnel menor e seguiu o restante dos homens da tribo.

Quando finalmente saíram daquele espaço apertado, seu queixo caiu.

A tribo vivia em uma caverna enorme, escavada muitos metros abaixo do nível do solo.

O que ele pensara ser gêiseres inativos, na verdade eram buracos no teto da caverna abobada, que lançavam raios poderosos de iluminação na vida abaixo.

- Parece um formigueiro – Comentou um Tiro muito encabulado.

Da parede curva da enorme caverna, havia diversos buracos, de diversas alturas e conectados por passarelas aéreas, de onde saiam gente carregando sacolas ou carrinhos.

- É chamado de Caverna Mãe – Yanka lhe contou enquanto desciam pela rampa que circundava o local. - Dela irradiam centenas de aberturas escavadas, de onde a tribo tira a matéria prima para lapidar suas joias.

- É enorme – Eros murmurou. Os olhos de Yanka cintilaram, uma mistura de orgulho e satisfação.

- É nosso Continente. Somos divididos em tribos, mas continuamos sendo um ser só.

Quando terminaram de descer a rampa, Eros e toda a tropa estavam mais encabulados do que antes. Ao contrário das tendas triangulares desordenadas que predominavam na tribo Malo e as tendas quadradas dispostas em círculo da tribo Yeta, ali havia construções sólidas de barro enfileiradas e que levavam a um único lugar: o centro.

O barulho que saia de lá era enorme, e Eros pôde ver um tablado alto, com diversas pessoas trabalhando em cima.

- O que eles estão fazendo? - Catri perguntou.

- Lapidando, criando. Aquela é a oficina da tribo.

Seguiram pelo limite das construções e conforme o líder passava, o silêncio ia reinando. Em seus braços, sua criança repousava sem vida, marcada com os símbolos grotescos que eles encontraram na tribo Cati. Outros nove guerreiros o seguiam levando os corpos.

Eros teve que aparar Yanka quando ela pareceu desmaiar, olhando os corpos mutilados dos garotos. Trocaram um olhar temeroso, de que com certeza o que acontecera com a tribo Cati não fora apenas uma coincidência.

Pessoas paravam o que estavam fazendo, olhando chocadas a cena. Levaram muito tempo para contornar a tribo e chegarem no enorme tablado. Os feixes de luz ali eram mais numerosos, portanto, a claridade era maior. O líder subiu as escadas e encarou a multidão de pessoas que haviam se reunido abaixo.

Do meio do povo, gritos irromperam quando as pessoas se deram conta do que estava acontecendo. Uma mulher tentou passar a força, mas foi empurrada de volta. A lamuria cresceu até que o líder da tribo ergueu a mão.

Ele disse palavras a multidão, o pesar nítido em sua expressão. Olhou para Eros, chamando-o com um gesto.

O guerreiro Wattu o empurrou em direção ao tablado.

Eros subiu, hesitante. A multidão o olhava como se fosse um animal estranho.

Foi só quando chegou até o líder que percebeu que Yanka o seguira. Ela colocou a mão em seu braço e traduziu as palavras que o homem dizia à multidão.

- Ele disse que você foi o homem que encontrou as crianças e as escondeu até chegar aqui. Nós podemos escolher como queremos ser recompensados. Podemos partir imediatamente, e irão nos fornecer comida e montarias para a nossa jornada, porém não teremos mais nada a ver um com o outro, ou podemos aceitar a dívida de sangue com eles, por termos achado suas crianças e... - Yanka se engasgou com as próximas palavras do homem.

Ela tentou protestar com ele, mas Eros segurou suas mãos, a olhando nos olhos.

- Traduza.

- Ele... - Ela balançou a cabeça - ele disse que caso você resolva aceitar a dívida de sangue da tribo Yeta, deve liderar a batalha contra a tribo Malo.

Eros franziu as sobrancelhas.

- Por que eu deveria arriscar nossas vidas se quem nos deve um favor são eles?

- A dívida de sangue só pode acontecer quando ambas as partes do juramento derramam sangue em nome da causa, mostrando assim aos deuses, que uma parte é digna de receber, e a outra de dar. - Yanka o olhou categoricamente - Dívidas de sangue são algo raríssimo.

- Mas porque eu devo liderar, Yanka? - Eros forçou a cabeça a visualizar todas as perspectivas da situação. Teriam a dívida de sangue apenas se estivessem a frente da batalha contra um povo que com certeza os estava caçando. Logo, se a tribo Malo estivesse em frente a eles, e a tribo Yeta atrás... - Estão tentando nos matar.

- O que? - Yanka rejeitou a ideia - Não, Eros, você achou as crianças...

- E no entanto, aqui estamos nós, sendo forçados a escolher entre ir embora imediatamente ou ficarmos entre dois exércitos.

Ela abriu a boca para protestar, mas pareceu pensar melhor.

- Estão oferecendo a dívida de sangue apenas porque morreremos no confronto – Ela sussurrou.

Eros sabia que o líder da tribo havia aceitado tudo fácil demais. Ele se lembrou do aviso de Yanka de que aquele povo contava mentiras mascaradas em verdade, e enganavam pela sua própria ambição.

Olhou para sua tropa. Em meio ao cansaço baixaram a guarda, e agora sua tropa se encontrava confinada entre guerreiros enormes da tribo Yeta. E então Eros teve uma certeza enorme no seu coração: se não aceitassem a dívida de sangue, seus homens seriam mortos ali mesmo. Se aceitasse, seriam mortos no campo de batalha. Sua mente acelerou buscando a melhor alternativa.

- Eros, você não precisa...

- Diga a ele que batalharei com eles.

- O que? - Yanka mordeu os lábios, incerta - Não precisa fazer isso...

- E o que faremos então? - Ele perguntou, ríspido. As narinas de Yanka se inflaram. A essa altura da jornada, ele conhecia muito bem aquele gesto. Ele segurou seu braço e encostou os lábios em seu ouvido, o tempo todo consciente da sua proximidade – Vamos bolar um plano para nos tirar daqui. Confie em mim.

Ela assentiu, a expressão pensativa.

- Estamos ganhando tempo, certo? Se o fizermos confiar que caímos em sua armadilha, podemos pensar melhor em como sobreviver a isso.

Eros sorriu. Yanka era muito esperta e isso fazia com que ele tivesse cada vez mais certeza de que nunca conheceria uma mulher como aquela.

- Diga que atacaremos e em troca queremos apoio e informações. Somente isso.

Ela repetiu cuidadosamente. Planos se traçavam em sua cabeça. Se aquele povo sabia ser ardiloso, Eros sabia ser mais ainda.

Selaram um acordo na frente da tribo, os olhos do líder brilhando com o interesse.

- O ataque será feito daqui a dois dias, logo após a cerimônia de passagem de alma. - Yanka o avisou enquanto desciam do tablado.

Eros respirou fundo. Dois dias teriam que ser tempo suficiente para bolar um plano que os ajudasse a sobreviver. 

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