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Acompanhar sua tropa sem serem vistos naquela terra descampada foi um desafio para Eros e Nicholas.
Mesmo seus anos de treinamento foram subjugados quando as colinas que serpenteavam o lugar ficaram escassas e eles tiveram que se arrastar pelo chão arenoso.
- O que faremos? - Nicholas sussurrou.
Eros acompanhou o anel de homens com os olhos. Yanka, altiva e serena ia a frente, e seus homens atrás. Sua visão nublou quando viu o líder daquele bando miserável. Só de lembrar das mãos dele percorrendo o corpo esbelto de Yanka, ele tinha vontade de sair do esconderijo e socar o palhaço.
- Eros! - Nicholas o sacudiu com urgência, mostrando a cena a frente.
O grupo havia chegado no limite de bandeirolas penduradas, guardadas por homens armados. Diferente da tribo de Yanka, que gostava de trançar plantas em vestes, cabelos e corpos, aqueles homens usavam caveiras de animais na cabeça e tinham armas tão brancas que ele tinha certeza de que eram feitas de osso.
Mais à frente, o paredão se avultava, gigantesco, lançando sombra na terra. Eros não conseguia ver como uma tribo poderia habitar daquela terra estranha e perigosa, mas vendo a crueldade daqueles homens ele não duvidava de nada.
Os homens permitiram que o bando passasse, e logo eles sumiram em uma fenda no próprio paredão.
- Eros... – Nicholas falou, beirando o desespero.
-Deixe-os irem. Vamos aguardar uma movimentação favorável.
- Podemos ir embora – Nicholas sugeriu. Eros o olhou como se ele fosse louco. - Não entendo por que está fazendo isso, Eros. Já perdemos homens suficientes, quantos mais você quer perder em nome do seu maldito ouro?
Eros nunca havia visto Nicholas tão irritado.
- Achei que fosse favorável a isso...
- Eu não teria falado aquilo se soubesse que sua decisão seria seguir uma mulher desconhecida, numa terra mais desconhecida ainda – Nicholas afirmou. Em seus olhos, Eros enxergou como seu amigo o via: um louco que estava perseguindo uma aventura, sem garantia nenhuma de riquezas ou glórias.
Eros tinha que concordar que ele estava certo... O Eros de dias atrás se recusaria a participar daquilo. Mas... havia algo que o prendia. Ele não sabia o que, mas seus instintos lhe diziam que aquele ali era seu lugar no momento.
- Não vou te prender aqui, Nicholas. - Eros segurou seu ombro – em nome a nossa amizade. Mas eu preciso ficar. Preciso descobrir por que viemos parar aqui, o que está acontecendo, o que podemos ganhar com isso.
Nicholas espantou sua mão, a expressão fechada.
- Não vou embora sem você, seu idiota.
Eros sorriu aliviado enquanto se acomodavam o mais perto que conseguiram da fronteira da tribo, sem serem vistos e aguardaram atentos pela primeira oportunidade de entrar na tribo Malo.
Eros pensou em como se separaram da tropa. Antes do amanhecer, Nicholas o acordara, dizendo que havia achado um animal preso numa moita. Foram juntos verificar, em uma faixa de vegetação escassa a uns metros dali, e estavam comentando o quanto tiveram sorte de encontrá-la quando ouviram um som que fez os pelos da nuca de Eros se eriçarem imediatamente.
Tentou voltar a todo custo, mas seu imediato ameaçou lutar com ele ali mesmo e botar toda a tropa em risco pela estupidez deles.
Com os dentes trincados, ele se obrigou a permanecer escondido, assistindo sua tropa e Yanka serem raptados.
Agora, sentado sob o sol escaldante, ele se perguntava se aquela fora a melhor decisão que poderia ter tomado.
Duas horas depois, dois homens surgiram vindos do sul, na direção da fronteira. Arrastavam dois animais, semelhantes a um boi, mas com crina e corpo forte de um cavalo. Puxada por eles, uma carroça aparentemente pesada.
Eros avaliou a distância. Quando começassem a agir, teriam escassos minutos para lidar com os homens da carroça e da fronteira, e talvez horas até notarem que os guardas haviam sido abatidos. Fez sinal para Nicholas e aguardaram.
Quando a carroça passou por baixo da elevação em que estavam escondidos, Nicholas pulou em cima de um dos animais, e girou sua espada.
Eros saltou e correu na direção dos guardas. Abateu o primeiro com um corte fundo no pescoço com sua espada e quando o outro avançou, ele lhe acertou um chute no peito, se atracou com ele até o imobilizar e quebrou seu pescoço violentamente.
De forma silenciosa, esconderam os corpos dos guardas e amarraram e amordaçaram os viajantes na elevação onde estavam anteriormente. Quando terminaram, vestiram as roupas dos visitantes, cobriram as cabeças com os panos enrolados e se puseram a puxar a carroça na direção da fenda.
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O lugar era... Enorme. A tribo vivia depois do paredão, e a única forma de chegar até lá era passar por um caminho sinuoso e estreito dentro da imensidão em pedra, tão longo que quando saíram, já era fim da tarde.
Acharam bolos de arroz em um canto da carroça, e se sentaram para comer, olhando a tribo.
Esta tribo se espalhava em um vale muito abaixo do paredão. As tendas eram dispostas de forma aleatória e desordenada, contornando um cercado enorme no centro da aldeia.
No cercado, dezenas de animais se remexiam, pastavam ou eram montados por homens da tribo. Animais malhados, com listras brancas e pretas em suas costas, com diversos tipos de chifres: enormes e delicados, em formato de galhada ou curvos e robustos, pequenos ou enormes.
Nicholas colocou a mão em frente ao nariz.
- Isso fede mais do que baleia morta.
Eros concordou. O cheiro de tanto animal e gente juntos era horrível.
Ele analisou a estrutura da cidade. Apesar da desordem, as passagens mais para o centro eram decentes, e uma via enorme dividia a cidade ao meio, rodeando o cercado e continuando seu caminho do outro lado. Nada parecia seguir uma lógica, muito menos o fluxo constante de pessoas por entre as tendas, por isso era quase impossível adivinhar onde Yanka e seus homens estavam sendo mantidos.
Nicholas o cutucou e apontou para uma procissão que despontava da lateral da aldeia. Em questão de minutos, a via que contornava o cercado foi inundada por vendedores ambulantes e todo tipo de gente. Pareciam estar esperando algo acontecer.
Um grupo se adiantou mais a frente, e mesmo de longe, ele viu a pele branca de seus soldados.
- Estão amarrados – Murmurou Nicholas, a raiva aparecendo na voz.
- Foram capturados para virarem escravos e serão vendidos agora.
- Como sabe?
- Por que acha que nossos homens estão no meio daquela gente que parece ávida em tê-los?
- E o que vamos fazer? - Um barulho atrás deles fez Eros entrar em estado de alerta. Ele fez sinal para Nicholas, apontando para o amontoado de tendas mais perto deles.
- Vamos para lá, eu tenho um plano.
Homens corriam e gritavam pela passagem no paredão, provavelmente guardas procurando quem havia abatido as sentinelas. Com um olhar de entendimento para Nicholas, se viraram para descer na direção da cidade.
No entanto, antes de descer atrás de seu imediato, Eros se virou para a carroça e levantou sua lona, olhando pela primeira vez seu conteúdo e já sabendo o que ia encontrar. O peso, o cheiro e ter vasculhado os alforjes presos à carroça em busca de alimento havia deixado-o desconfiado.
Como esperava, ali estavam.
Várias crianças, mortas, mutiladas e corrompidas.
Sem vida alguma.
Eros, odiando cada pessoa daquela tribo horrível, escondeu a carroça dentro do paredão, em uma saliência escondida. Antes de seguir Nicholas, no entanto, algo lhe chamou atenção. Uma pulseira com uma joia verde no meio, atada ao pulso saliente de uma das crianças. Eros a pegou, um plano de emergência se formando em sua mente e seguiu Nicholas em direção ao leilão de escravos.
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