12 ⌂••

- Ai! - Eros gritou quando Yanka começou a costurá-lo

- Homem mole e frouxo – Ela resmungou, enquanto seus homens riam ao redor.

Já era noite, e eles tinham encontrado uma caverna natural escavada numa colina, o mais próximo do paredão que eles ousaram chegar sem entrar na tribo Malo. Montaram acampamento, mas evitaram acender o fogo para não chamar atenção desnecessária.

- Princesa – O rapaz que falara mais cedo se sentou ao seu lado. Yanka riu.

- Não sou princesa nenhuma.

- Mas parece uma. - Ele baixou a cabeça corado. Eros abriu a boca, provavelmente para lançar um comentário mordaz, mas com um sorriso forçado, ela enfiou a agulha em sua panturrilha com força, e ele trincou os dentes. - Na nossa terra, existem poucas mulheres que podem correr atrás de uma fera e salvar nosso Capitão.

Os homens assentiram.

- Eu não fui salvo – Eros resmungou.

- O Capitão de vocês - Yanka silvou - É um homem cabeça dura que aparentemente foi parido por outro homem, já que apenas os homens fazem trabalhos pesados e complicados.

Um homem atrás gargalhou. Era pançudo e tinha olhos vesgos.

- Uma vez no barco, uma cozinheira jogou um balde de entranhas de polvo na cabeça dele por falar que ela não aguentava carregar o peso de uma panela.

Isso chamou a atenção da maioria da tropa, e eles se arrastaram para ficar ao redor de Yanka e Eros.

- Isso não é verdade, Catri! Eu apenas... - Eros tentou se justificar, mas foi completamente ignorado.

- Ele tem uma história longa com mulheres! O último boato é de que ele foi expulso da Grécia porque foi acusado de engravidar uma plebeia. - Um homem alto e narigudo falou.

- O que? - Yanka riu, sem acreditar.

- Ora, Tetrum – Eros procurou qualquer coisa a seu alcance para jogar nele, mas não havia nada. Bateu as mãos nas coxas, nervoso.

- Tiro, falei mentira? - Tetrum virou para o rapaz mais jovem e bateu em seu ombro. Este riu.

- É verdade! Capitão Eros nos zombou a viagem toda de que éramos filhos de plebeias, mas no momento que descobrimos por que ele havia sido isolado em alto mar com a gente, ele ficou na cabine por uma semana!

A tropa rompeu em risadas, inclusive Yanka. Eros, roxo como uma beringela, fuzilou cada um com os olhos. Os homens o provocaram de novo, se aproveitando da situação dele, e ele tentou se levantar de uma vez. Yanka torceu sua perna e o jogou de volta ao chão.

- Fique quieto, homem! - Ela começou a passar um unguento, e Eros fez cara feia.

- A princesa é a primeira mulher a domar nosso Capitão - Tiro sussurrou para ela e balançou a cabeça em aprovação. Ela sorriu. Aqueles eram homens peculiares, mas bem divertidos.

Alguém pigarreou.

- Senhorita Yanka... - Outro homem, musculoso e de olhos claros a chamou – Sou o imediato Nicholas. Pode nos explicar mais das tribos e da profecia?

Yanka assentiu. Libertou Eros de seu aperto, e ele lhe lançou uma careta de raiva. Ela o ignorou e pegou uma vareta para desenhar no chão.

Era justo que eles soubessem o que estava acontecendo.

- Aqui, é a terra do Continente. - Ela fez um círculo largo e pontilhou ele. - Dentro do continente, temos sete tribos, e cada uma tem uma função e sua contribuição para a sobrevivência de todos. A profecia fala de seis delas, fora minha tribo, pelas quais iremos passar. A primeira delas e a mais próxima de nós, é a tribo Malo. São ótimos domadores de antílopes, que são diversas espécies de animais velozes. Mas a tribo é cruel e ardilosa, por isso todo cuidado é pouco quando estivermos nos domínios deles. Se eles nos acharem antes...

- O que acontece se nos acharem antes? - Alguém perguntou. Yanka pareceu hesitante em dizer.

- A tribo Malo rapta e escraviza quem quer que seja. Forasteiros, seu próprio povo, as outras tribos. Vendem entre si, vendem para fora, e não se importam com vidas.

Tiro riu alto, tentando esconder seu medo.

- Eles não devem ser tão ruins assim, certo?

Yanka balançou a cabeça, triste.

- Eles são. Todos os temem. Existe um boato de que eles raptaram algumas crianças na tribo Yeta há algum tempo, que é a tribo mais próxima a tribo Malo. Ninguém achou seus corpos... E não se sabe onde elas estão - Ela olhou atentamente para cada um dos homens – Todo cuidado é pouco, não se esqueçam.

- E por que temos que entrar lá? - O homem que fora perseguido pelos leões, Ícaro, resmungou, mal-humorado.

- Com medo? - Rosnou Eros – Fugiu de um bando de animais selvagens, mas morre de medo de homens.

Ícaro baixou a cabeça e Yanka continuou com a explicação. Mais dois pontos na terra, e ela passou para as próximas tribos.

- A tribo voraz, é a Yeta. São responsáveis por nossas joias e extração de minerais da terra, e talvez é a tribo mais rica do continente. Mas sua riqueza jamais saciará sua fome, por isso são interesseiros e falam mentiras disfarçadas de verdades. No entanto, quando recebem o benefício de alguém, sempre pagam com uma dívida de sangue. A tribo guerreira, é a tribo Wattu. São fortes e corajosos, verdadeiros guerreiros. A tribo sacerdote é a Saqua é a mais temida, por dominar os símbolos e estarem em contato direto com os deuses. É a partir deles que temos nossos rituais e profecias.

- Foram eles que fizeram essa profecia? - Tiro perguntou.

Yanka deu de ombros.

- Não sabemos como a profecia surgiu... Somente que ela foi passada como uma herança entre as tribos. No entanto, o que posso falar sobre a tribo Saqua é que são sábios e perspicazes. A tribo de tetos altos, é a Ula. Nossas tendas, casas, e coisas engenhosas são feitas por eles. São desesperados por conhecimento, por isso são desconfiados e guardam sua localização muito bem, com medo de serem roubados.

Ela desenhou um círculo dentro do outro.

- E por fim, a tribo Tote, ou a tribo mãe. Mantém a paz entre as tribos, intermedia as negociações de produtos e fazem a reunião anual das tribos. É a maior tribo do continente.

Os homens assentiram, absorvendo as informações.

- E a sua tribo? - Nicholas perguntou.

- Tribo Cati. Somos a tribo mais pacífica, e cultivamos alimentos.

- Espere – Tiro murmurou - Então... Se sua tribo não acordar...

- Todas as outras tribos passarão fome – Yanka completou – por isso é tão urgente acordá-los. As outras tribos têm grãos armazenados, mas eles não durarão para sempre.

- Eles não podem aprender a cultivar? - Alguém perguntou mais ao fundo.

- São séculos de conhecimento que meu povo adquiriu – Yanka suspirou – e eu sozinha não domino nada. Precisamos dos mais velhos e de seus conhecimentos e dos homens jovens e da sua força. Precisamos de cada pessoa da minha tribo para cultivar.

O silêncio reinou, e lentamente os homens voltaram aos seus postos de vigia, ou simplesmente se enrolaram nos mantos para dormir. Ao seu lado, permaneceu o jovem Tiro.

- Nós vamos conseguir, nem que seja pelo ouro. – Ele sorriu, antes de também se retirar.

Yanka apertou os lábios e se esticou para tocar a testa de Eros. Graças a boa deusa mãe, sua temperatura havia abaixado. Ela o observou por um instante. Estava encostado na parede da caverna, com os olhos fechados e a respiração ritmada.

Quando ia retirar sua mão, ele a segurou e abriu os olhos cristalinos.

- Eles mentiram sobre você ser uma princesa – Murmurou, olhando-a intensamente. - Você é uma rainha, Yanka. A rainha dessa terra.

Depositou um breve beijo na parte interna de seu pulso e a soltou, se virando para dormir também, deixando para trás uma Yanka com o coração acelerado.

////

Yanka acordou com uma faca encostada em sua garganta. A mão automaticamente voou para a arma ao seu lado, mas não a achou.

- Não adianta procurar – Uma voz baforou em seu ouvido.

Foi meio arrastada, meio puxada para fora da caverna e colocada dentro do anel de homens que cercava ameaçadoramente a tropa.

Sob os raios do começo do amanhecer, ela viu o rosto do líder do bando. Em cima da cabeça, ele tinha o crânio de um animal.

- Tribo Malo. - Rosnou em sua língua materna.

O homem riu debochado, mostrando dentes tortos e amarelos.

- Ora, ora, olhem a belezura que temos aqui! - Ele gritou e os homens ovacionaram. Alguns encostaram nela, e ela empurrou suas mãos para longe.

- O que querem?

O líder se adiantou bamboleando, passando a língua pelos dentes como se visse uma peça de carne bastante suculenta. Agarrou algumas flores trançadas em sua trança enorme.

- Tribo Cati? O que uma mulher tão linda faz tão longe da tribo Cati? - Ele a rodeou, passando a mão em seu corpo – E principalmente com esses... Caras pálidos horríveis? O que aconteceu com eles, suas vidas foram sugadas de seus corpos?

Ele riu, de forma escandalosa e os outros também riram como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.

Yanka o empurrou.

- São meus homens.

- Bom, dois deles não são mais. - Ele apontou para o lado e ela viu algo que não notara antes: o corpo dos dois vigias do último turno. Eles haviam sido... cruelmente mortos. - Ficaram lindos, não?

Yanka cuspiu em sua cara de zombaria e o rosto do homem ficou vermelho.

- Amarrem essa vadia! - Ele pegou seu rosto enquanto ela resistia e sussurrou – Vou guardá-la para mais tarde.

E com um sinal, botou todos em marcha. Estavam amarrados pelas mãos e uns nos outros, todos conectados.

- Era isso que queria dizer com eles não poderem nos achar? - Alguém sussurrou, aparentando raiva. Yanka reconheceu a pessoa como Ícaro, o homem que andava sempre com Alexander.

Ela reuniu coragem antes de falar.

- Se chegássemos ao domínio deles antes de nos acharem, havia a possibilidade de podermos negociar nossa entrada, mas agora... agora somos escravos.

Um dos homens da tribo Malo chicoteou alguém da tropa, fazendo-o cair. A tropa foi puxada para baixo, e os que estavam nas pontas tentaram resistir.

- Levantem, seus bundas brancas! - O líder saiu chutando todo mundo, e Yanka viu uma faca reluzir em seu cinto.

Quando ele passou ao seu lado, ela fingiu ser puxada pela onda de homens em movimento e caiu sobre ele.

- Já está querendo algo, belezura? - O homem sorriu e Yanka conteve uma ânsia de vômito.

- Vou ter que dispensar isso... Quem sabe daqui a umas 100 reencarnações? - Ela falou da forma mais amável que conseguiu.

Ele a xingou e saiu pisando duro.

Continuaram andando e logo viram a fronteira da tribo, demarcada por bandeirolas feitas de couro de antílopes.

Só então ela percebeu algo. Ou a ausência de algo.

Olhou o mais discretamente que conseguiu para a massa de homens ao seu redor e não os encontrou.

Nicholas não estava entre eles... Muito menos Eros. 

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top