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- Não. Se. Mexa – Yanka sussurrou, agarrando o braço dele.
O hipopótamo rei se agigantava sobre eles, olhando-os como uma bela e farta refeição.
- Você não deveria me dizer para correr?!
- Você correria numa situação dessas? – Ela o fuzilou com os olhos – Correria de um animal que conseguiu espantar os leões?!
- Os o que? – Eros parecia confuso. Ela fez sinal para ele calar a boca e ele mordeu a língua de raiva. Aquela mulher falava o que queria, e depois mandava ele calar a boca. Simplesmente irritante.
- Agora, devagar, bem lentamente, vamos para a borda – Ela o empurrou suavemente. Juntos, começaram a se afastar devagar do hipopótamo, sem se agitar demais.
Passado um tempo, o animal perdeu o interesse neles e afundou de volta na água.
Eros desabou na margem, com um braço na frente dos olhos enquanto ofegava.
- Sua perna... – Yanka murmurou, analisando o corte que ainda vertia sangue.
- Meus homens – Eros murmurou e a olhou. – Estão bem?
Ela assentiu, mas baixou os olhos.
- Precisamos tirar você daqui antes que os leões apareçam de novo. Venha...
- Ele morreu. – Eros adivinhou e Yanka apertou a boca. – Meu homem que foi pego por um de seus leões.
De novo, ela assentiu silenciosamente.
- Eros... – Ela tentou conversar, mas ele se levantou, cortou um pedaço de pano da camisa e enrolou com força em volta da perna.
Andaram em silêncio por todo o caminho, e pela primeira vez desde que o conhecera, Yanka não sabia o que falar. Ele tinha o rosto tenso, a boca apertada em uma linha fina, que ela tinha certeza que não era por causa da dor.
Analisando-o de perfil ela percebeu olheiras embaixo dos olhos e os ombros levemente encurvados, como se estivesse carregando um peso enorme, há muito, muito tempo.
Antes de chegarem à fenda, ele parou onde seu homem fora atacado. No chão, o sangue ainda quente do homem e os seus restos mortais. A cena era forte e intensa até mesmo para alguém forjado a ferro como Yanka, mas Eros encarou os restos mortais de seu soldado sem nenhum nojo.
- Seu nome era Beros. - Ele falou, a voz sem emoção - Mais lento que os outros, sempre faziam trocadilhos entre meu nome e o dele. Foi um bom homem, e seu único crime foi de roubar para comer.
Ele se levantou e a olhou, os olhos sem seu brilho costumeiro.
- Vou mandá-lo para meus deuses e continuamos.
Yanka estava prestes a falar algo, mas ele já estava longe.
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Eros foi o único que ousou encostar no que um dia fora Beros. O enrolou delicadamente numa mortalha, o queimou e orou aos seus deuses.
Yanka não conseguia imaginar qual era a força necessária para se fazer aquilo tudo sem desmoronar, mas ela sabia que não estava em frente a um homem comum. Ao seu redor, a tropa estava cabisbaixa, temerosa e assustada.
Eros se aproximou, mancando.
- Soldados! - Eles prestaram uma continência desajeitada. - Esta não será uma jornada fácil. Terão muitos perigos, desafios... e mortes. Não vou prendê-los. Como capitão, não posso exigir isso de vocês.
Um garoto, talvez o mais jovem deles se adiantou.
- Senhor. - Sua voz vacilou, mas seus olhos eram firmes – Lutaremos, protegeremos e morreremos juntos. A tropa é parte de mim... E o senhor foi o primeiro a me dizer que eu fazia parte de algo. Eu ficarei.
Um a um, seus soldados bateram continência e permaneceram no mesmo lugar. Eros baixou a cabeça. Yanka sorriu para os homens e para o capitão deles.
- Prometo, como filha desta terra, fazer de tudo ao meu alcance para que vocês vivam, e sejam recompensados. Agora, vocês são como família para mim.
Eros sorriu fracamente para ela.
- Vamos embora, tropa – Ele anunciou - Não queremos mais nenhuma surpresa.
Eles começaram a marchar novamente e Eros emparelhou com Yanka.
- Eles tentaram nos despistar mandando os antílopes para a planície, mas acredito que seguiram para a tribo Malo.
Ela assentiu, concordando. O fato de os animais terem voltados assustados, e com marcas da tribo Malo nas ancas era prova suficiente de que fora uma armadilha para atrasá-los – e que em parte fora um sucesso já que haviam perdido meio-dia de caminhada.
- Sua perna... - ela o olhou para preocupada. Ele estava nitidamente mais pálido, obviamente exausto desde a prova no vulcão, a marcha acelerada deles, a ferida na perna e seu homem morto.
Eros fez um sinal com a mão, dispensando sua preocupação.
- Eu estou bem. A noite teremos tempo para cuidar disso, mas agora temos que seguir em frente. A lua cheia vai ser quando?
- Amanhã.
Eros levantou uma sobrancelha.
- Temos no máximo quatro semanas para cumprir essa profecia estranha ou toda a sua terra irá perecer?
Ela sorriu, divertida.
- Está preocupado que meu povo possa perecer?
Eros soltou a respiração com força.
- É claro. Se seu povo perecer, nunca vou achar meu ouro.
- Mercenário - Ela resmungou, apertando o passo.
- Espere! - Ele se esforçou indo atrás dela, adorando provocá-la – Se não posso ter meu ouro, pelo menos terei seu coração?
- Lunático!
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