24. Encontro Marcado

ELBOR ALTHARIAN

Em um leito esquecido de pedra fria, a rainha de outrora dormia. Sobre o túmulo de mármore haviam esculpido uma estátua que tentava representá-la como tinha sido em vida, apesar dos olhos selados pela morte e das mãos cruzadas sobre o peito, agarrando um buquê de rosas do inverno.

O coração de Elbor se partia sempre que a contemplava. Elden não havia sido apenas a mais singular das mulheres, mas também a sua primeira e única amada. Depois de sua morte, nenhuma outra havia sido digna o bastante para sustentar a coroa de Rainha do Norte sem conspurcá-la. O túmulo dela era o único lugar do mundo onde ele conseguia se sentir confortável nos momentos de crise, por causa disso não era estranho que ele passasse tanto tempo ali. Mesmo que Elden tivesse deixado de existir, ainda restava no mundo uma pequena réstia de sua essência e isso bastava para deixar o coração de Elbor em paz.

Elden também era, de certa forma, a justificativa por trás de toda a sua fé. Se os sacerdotes estivessem corretos, havia uma parte da alma que jamais fenecia. Acreditar que o espírito de sua amada ainda estava presente no mundo e que podia ser encontrado era a única coisa que o mantinha de pé. Poucos homens tinham tido o prazer de amar uma rainha digna das canções e esse amor não costumava ser nada menos que lendário, insuscetível ao tempo e a tormenta.

Tão rapidamente quanto a chegada veio a hora de partir. Com pesar, Elbor percebeu que a luz do dia regredia e começava a ceder espaço ao crepúsculo. Era melhor começar a descer a montanha ou a neve o manteria preso pelo resto da noite. A morte não parecia de todo horrível, mas a sua função exigia o cumprimento de tarefas urgentes. Além disso, aquela noite ofereceria uma oportunidade única de rever a mulher que ele amava. Perder isso seria o mesmo que perdê-la outra vez.

Com o coração martelando nas costelas, Elbor inclinou-se sobre o esquife e deu um beijo rápido nos gelados lábios de mármore da rainha morta. Achou melhor partir sem se atrever a olhar para trás, para não ficar tentado a permanecer. Naquela altura do campeonato, os espíritos tinham quase nada a oferecer e os vivos tinham muito a exigir.

Do lado de fora da gruta, os mestres do ocaso esperavam pelo rei com suas estranhas lanternas de chama azul, prontos para seguir pelo caminho descendente. Mesmo para um nortista, aquele pequeno grupo de sacerdotes pareceria estranho. As botas pareciam tão maciças que era difícil imaginar como eram capazes de andar com elas e usavam as mãos e as cabeças nuas, com carecas tão lisas que cintilavam. Apesar disso, a parte mais destoante de sua aparência eram seus lábios, que pareciam ter sido costurados e cauterizados até ficarem selados, formando um pedaço de pele único e irregular. Suas palavras tinham sido seladas para sempre, assim como qualquer chance de obter prazer através da comida.

Aqueles homens eram ascetas veneráveis, que haviam aberto mão de qualquer contentamento para ter contato com os planos superiores. Seu dever era o mais sagrado de todos, pois nenhum outro homem sabia como abrir grutas para os mortos ou as técnicas envolvidas no processo de preparação dos corpos. Só eles conheciam os segredos necessários para guiar as almas para o Outro Mundo, mas, como acontecia com todo servo da face escura da lua, podiam pagar com a própria vida se os revelassem. O povo comum tinha um conhecimento tão escasso a seu respeito quanto contato com a sua figura. A crença popular era de que tinham transcendido qualquer necessidade humana e que viviam lado a lado com os espíritos que juraram proteger. Elbor não sabia dizer o quanto acreditava naquilo. A única coisa palpável acerca de um guardião do ocaso era o terror que ele inspirava, mesmo que não intencionalmente, e nada mais.

Como era adequado a sua posição, os sacerdotes não saudaram o rei com uma reverência. Dois deles ficaram para trás para empurrar a pesada pedra circular que selava a entrada da gruta-túmulo de volta para o seu lugar, mas o restante acompanhou o soberano pelo estreito caminho descendente. A trilha era tão apertada que precisavam descer um atrás do outro e ficava tão grudada na face da montanha que não havia nada do outro lado que pudesse salvá-los de uma terrível queda. O percurso era constituído de pequenos degraus cravados na pedra, tão antigos que haviam se desgastado até quase desaparecer. Embora os guardiões do ocaso fizessem um esforço contínuo para manter tudo limpo, a neve jamais parava de se cristalizar sobre a pedra lisa, tornando o caminho escorregadio. Havia ripas colocadas ali e aqui, com o intuito de facilitar a descida, mas tinham um aspecto tão apodrecido que Elbor teve receio de se apoiar inteiramente nelas. A dificuldade envolvida era mais do que suficiente para explicar porque as pessoas raramente subiam ali e porque tinham deixado o cume de Inah entregue aos clérigos. O rei não tinha do que reclamar, pois as lendas diziam que Seradah conseguia ser pior. Ninguém ousava escalar a segunda montanha, embora houvessem alguns contos sobre pessoas que tinham conseguido chegar ao topo e receber um presente da deusa por sua valentia. Elbor era do tipo que preferia não pagar para ver.

Apesar dos receios usuais, não era o caminho em si que incomodava o rei. Ele já estava tão acostumado com o percurso que nem mesmo a sensação de estar perto demais do céu lhe dava aflição. O problema residia muito mais nos estranhos homens que o acompanhavam. Não havia nada neles que não parecesse medonho. Sequer faziam barulho ao caminhar, mesmo portando botas tão grandes! Se algum deles desejasse cometer regícido ninguém ficaria sabendo. Elbor levaria poucos segundos para se tornar uma mancha escura nas pedras lá embaixo e mesmo assim ninguém ousaria dizer que havia sido mais do que um acidente. Para sua sorte, a tradição o resguardava, mesmo que temporariamente. A nobreza nunca tocava na fé e a fé, por sua vez, nunca devia tocar na nobreza.

Quando finalmente chegaram à plataforma onde o pequeno contingente da guarda real esperava, os cavalos e os soldados pareciam muito mais barulhentos do que o normal. Elbor ficou feliz em revê-los. Depois de todo aquele silêncio interminável, a última coisa que ele queria era ficar um minuto a mais com o vento soprando em seus ouvidos.

— Achei que fosse dormir com os mortos, meu senhor. — Tytus Raynwood disse em tom brincalhão. Era um homem alto e musculoso, de pele escura e cabelos bem crespos. Além de ser um amigo de longa data do rei, era o único homem ao qual ele confiava a intendência de sua casa.

— Não posso dizer que minha esposa não gostaria disso, Tytus. — Elbor devolveu no mesmo tom. Com maestria, o rei montou em seu drokwar, ajeitando-se na com rapidez.

Faltava agora apenas metade do caminho. A estrada de altitude se alargava bastante em direção a base, embora permanecesse íngreme. Os degraus haviam cedido espaço ao terreno inclinado, mas mesmo assim não era indicado correr, a menos que se quisesse quebrar as patas dos cavalos ou despencar para uma queda mortal.

Elbor fitava as nuvens com tristeza, perdido nos próprios pensamentos. O entardecer também tinha chegado ao coração do rei e Tytus, melhor do que ninguém, sabia reconhecer isso.

— Na pior das hipóteses, sempre podemos conseguir uma bela dama para casar com o senhor, meu rei. Talvez uma que não esteja amaldiçoada dessa vez.

Elbor riu a contragosto.

— Se Fenora tiver que morrer, Lana passará a ser a única mulher da minha vida, Tytus. Não admitirei nenhuma outra.

— Você não pode se casar com a sua própria filha, Elbor. — mesmo que se tratasse de uma bronca, o tom do soldado ainda era amistoso. — Não somos mais bárbaros. Nem fanáticos.

— Lorde Cyrus discorda veementemente de você. — Elbor respondeu. — Outro dia, o velho me reteve por mais de meia apenas para exortar os benefícios de um casamento entre a princesa Lana e o lorde Avernant. Falou sobre manter a pureza do sangue ou qualquer coisa assim.

— Bom, Avernant é o Comandante da Guarda de Gelo. A proposta não seria inadequada se ele não fosse... Bom, Avernant.

Havia certa razão em planejar o casamento de uma princesa com um cavaleiro conhecido por sua honra, mas Lana estava tão interessada nos homens nortenhos quanto um iete estaria numa dieta vegetariana. Principalmente quando se tratava de seu próprio primo.

— Além disso, vale lembrar que a princesa já não está no meio de nós há bastante tempo, meu senhor. — Tytus voltou a falar. — Acredito que esteja mais do que na hora de insistir para que ela retorne.

Não era como se Tytus precisasse redizer. Elbor reconhecia que meio ano era tempo demais para que um herdeiro adulto se ausentasse de seu reino.

— Guardo consciência desse fato, meu amigo. Tenho enviado cartas para a minha filha desde que ela partiu, mas ela nunca chegou a responder nenhuma delas. Mesmo que estejam todas codificadas, acredito que é bem provável que Lana sequer as esteja recebendo. Temo que...

— Ela esteja morta. — Tytus concluiu.

Elbor puxou as rédeas de seu animal com tanta força que o cavalo empinou.

— Jamais. — ele ralhou — Lana acolheu esse desafio para si mesma. Ela deve ser capaz de vencê-lo ou não será capaz de herdar o trono que eu preparei para ela.

Mesmo que considerasse o assunto com certa dureza, Elbor não podia deixar de pensar que Fenora talvez estivesse certa quando relutou tanto em deixar a princesa partir. Não era do feitio do rei impedir que sua filha acessasse caminhos que pudessem lhe trazer conhecimento ou força, mesmo que não fosse claro o que Lana tinha ido buscar em terras sulistas. Enquanto pai, Elbor podia apenas torcer para que não fosse a morte.

— É claro que eu acredito na força de Lana, afinal ela é sua filha e eu a vi crescer. — Tytus disse em tom conciliador. — Mas caso a princesa não se prove digna por alguma razão, isso apenas aumenta a necessidade de um novo casamento. Quando um rei falece sem deixar herdeiros, o reino sempre mergulha em trevas.

— Ela será. — o rei garantiu.

Elbor estava farto daquele assunto. A mãe já tinha o deixado suficientemente cansado para que também ele quisesse discutir sobre a filha também. Já havia desprendido muito tempo refletindo sobre essas questões, então preferia aproveitar seus últimos minutos de distração.

Enfezado, ele esporeou o drokwar e tomou a frente da comitiva, afastando-se de Tytus e dos outros soldados. A noite os engoliu exatamente quando chegaram na base da montanha. Começaram a correr. As pequenas casas dos aldeões passaram por Elbor como um borrão, assim como os estábulos cobertos de esterco para afastar a friagem. Saudaram o rei aqui e ali, mas ele não se interessou em saber quem era. Queria apenas chegar em seu castelo o mais rápido possível e se voltar para outras questões. Não permitiria que aquele assunto voltasse a perturbá-lo.

Kamen Shanize o aguardava em sua ostensividade, como tinha aguardado por todos os outros viajantes nos últimos três milênios. Todo construído de pedra branca, o castelo era um complexo formado por longos cômodos e torres tão altas que pareciam prestes a tocar o céu. Dado a sua coloração, a construção parecia surgir diretamente da neve, como se fosse toda feita de gelo. Quando a noite caía, Kamen Shanize também brilhava, assim como todas as outras casas no Norte. Talvez brilhasse mais do que elas. Se toda aquela região fosse uma coroa, o castelo certamente seria a jóia principal.

Elbor respirou aliviado quando notou que o átrio estava vazio. Correu pelas escadas em direção a ala oeste, onde ficava o seu quarto. Seu criado pessoal se apressou para serví-lo, trazendo uma bacia para que ele lavasse as mãos e o rosto e o ajudando a se livrar das botas de caminhada. A tina já estava repleta de água aquecida, pronta para o banho. Quando o rei mergulhou nela, sua mente automaticamente começou a divagar.

Lembrou-se do dia do nascimento de sua filha mais nova. Lana havia sido um bebê sério, do tipo que não chorava ou esperneava à toa. Ao invés disso, ela preferia contemplar as coisas que não conhecia com seus grandes olhos castanhos. Oslo, o primogênito, tinha sido totalmente diferente. Quanto as crianças conhecem de seu próprio destino ao nascer?, o rei se perguntou. Talvez Oslo soubesse que sua vida seria breve e por isso decidiu se agarrar ao mundo, como se o engolisse inteiro de uma vez. Lana não tinha a mesma pressa. Ela sabia que ia ter tempo para degustar tudo...

Elbor balançou a cabeça, quase como se tentasse espantar aqueles pensamentos tão tolos.

Pelo menos Lana não saiu como a mãe, ele concluiu.

Fenora jamais tinha se esforçado para esconder seu lado mais ambicioso, mas ainda era difícil lidar com o fato de que ela também era uma traidora. Bastou que a filha deles virasse as costas para que a rainha — se é que ainda podia ser chamada desse modo — decidisse oferecer a própria pátria na mão do inimigo. Elbor não queria pensar no que aquilo significava, mas também não se sentia capaz de perdoá-la. Aquela situação só conseguia deixá-lo com mais raiva, e a raiva aumentava a saudade que ele sentia de Elden.

Era por isso que ele precisava se aconselhar com ela mais uma vez. Chegaria a hora de cuidar das execuções e dos resgates necessários, mas primeiro Elbor precisava sentir que tudo ficaria bem. E essa sensação somente uma pessoa tinha sido capaz em toda a sua vida de lhe ofertar.

Terminado o banho, era hora de vestir seu traje ritual. Sobre a roupa interior grossa, vinha uma camada pesada de lã de ovelha. Em seguida, era a vez da túnica branca, que descia até os pés e era bordada nas pontas com fio dourado. Um cinto de couro preso a cintura arrematava tudo, mas Elbor fez questão de vestir seu longo manto de pele de ursa-branca e colocar o aro de ouro sobre a testa.

Tytus o aguardava no corredor. Assim como o seu rei, o homem envergava uma túnica branca e trazia nas costas uma pelagem de mesma cor. Não emanava a mesma ostensividade e nem precisava.

— Essa parece uma ótima noite para falar com meu pai. — ele disse. — Depois que ele morreu, eu nunca mais tentei me comunicar com ele. Talvez o velho homem tenha ficado chateado e eu não quero ser amaldiçoado.

Elbor não respondeu. O soberano estava tão compenetrado que qualquer tentativa de puxar assunto resultaria em fracasso. Nem mesmo o vento frio da noite pareceu perturbá-lo quando os dois saíram no pátio central, em direção aos estábulos. Acima de suas cabeças, as estrelas reluziam em um céu sem luar. Era a ocasião perfeita. A lua negra sempre favorece àqueles que desejam se encontrar com o oculto.

Do lado de fora dos portões, o mundo parecia estar em repouso. Isso não era consequência do horário, mas da ocasião. Naquele dia celebrava-se o Samnaseth — ou Noite dos Espíritos no idioma do Império — e grande parte do povo comum tinha subido para a parte alta de Davesh para dançar ao redor das fogueiras e se comunicar com os mortos. Do ponto onde estavam já era possível divisar um tênue brilho no norte, indicando que as chamas já crepitavam e as famílias se reuniam. 

Todos estarão juntos essa noite, Elbor pensou, menos Fenora.

Tão rápido quanto tinha surgido, o rei espantou o sentimento de pena de seu peito. Se Fenora estava trancafiada em uma cela escura era porque tinha feito por merecer. Se fosse para se sentir tocado em relação a alguém, que fosse pela sua própria filha, que estava muito longe de casa e das tradições de seu povo. Os sulistas tinham suas próprias comemorações, mas nenhuma delas era tão autêntica. Não havia mais magia no sul do mundo, apenas descrença.

Sem conseguir evitar, Elbor lembrou-se da primeira vez que tinha levado Lana àquele festival. Embora ainda não houvesse se completado um ano desde o falecimento de Oslo, ela já ocupava seu cargo como herdeira presuntiva e começava a ser lentamente introduzida nas funções reais. Apesar disso, Lana não deixava de ser uma criança e, com toda inocência do mundo, tinha decidido levar consigo o brinquedo favorito de seu irmão: um formoso cavalo de madeira esculpido pelas mãos do próprio rei.

— Por que está levando uma coisa dessas, minha filha? — Elbor tinha perguntado naquela ocasião.

— Eu não quero que o Oslo fique sozinho no Outro Mundo, papai. Ele não deve ter ninguém mais para brincar com ele. — Lana tinha respondido de modo simplório.

Embora se tratasse somente de uma lembrança, Elbor se sentia tão triste ao pensar nela quanto tinha se sentido na época em que a viveu. Havia uma beleza tão melancólica na inocência infantil que tinha sido difícil explicar que o belo brinquedo nunca mais serviria para nada. Apesar disso, Lana tinha se mantido firme no propósito de falar com o seu irmão mais velho, não apenas naquele ano, mas em todos os outros que se seguiram até deixar comparecer à festividade. Talvez, assim como seu pai, ela tivesse entendido da pior forma que jamais veria Oslo novamente. O que restava depois disso era conviver com a dúvida e com a incerteza das respostas não alcançadas.

Assim como eu, minha filha busca os fantasmas que nada podem lhe dizer, ele compreendeu com súbita melancolia.

— Aqui estamos nós, meu senhor. — Tytus disse enquanto desmontava.

— Eu podia jurar que esse caminho era bem maior. — Elbor disse bem-humorado. 

— Todos os caminhos parecem menores quando estamos com a cabeça nas estrelas. 

— Acredito que você tenha razão. — o rei concordou. — Bem, você está dispensado para encontrar seu avô, Tytus.

— Era o meu pai. — Tytus tentava conter um sorriso.

— Que assim seja. — Elbor retrucou. — Quando tudo acabar, vamos nos encontrar bem aqui, onde deixamos os cavalos. Estarei contando com a sua escolta, meu amigo.

Tytus anuiu.

— Alteza. — fez uma reverência suave e partiu.

Elbor começou se pôs a caminhar.

Era difícil pensar naquelas pessoas ali reunidades como habitantes do lugar mais frio do mundo quando elas emanavam tanto calor e entusiasmo. Os rostos estavam sorridentes, recheados de alegria e vivacidade, e muitas vozes se mesclavam numa cantiga só. Alguns se curvaram ao notar a presença do soberano, mas ele os dispensou com um aceno sutil. Eram raras as ocasiões onde a nobreza e a comunidade podiam se igualar em um próposito comum e Elbor estava ali para vivenciar as mesmas experiências que eles. Além disso, tudo aquilo serviria para deixá-lo apenas mais nervoso. Havia algo diferente no ar. Ele sentia, bem lá no fundo, que naquela noite teria uma resposta.

Incontáveis fogueiras ardiam ao longo do planalto, crepitando com chamas azuis e etéreas. A luz cerúlea distorcia a face das pessoas, fazendo com que todas elas parecessem fantasmas. Isso não apenas tornava difícil identificar quem estava vivo ou não, mas também fazia com que Elbor se sentisse ele próprio como um espírito indeterminado.

Caminhou até o ponto mais distante da festa, onde uma fogueira solitária lançava fagulhas na noite. O hierofante que a guardava deu um passo a frente quando notou que o rei se aproximava.

— Venha, homem mortal, e diga seu nome para que a deusa possa ouví-lo. 

A voz do hierofante estava abafada pela pesada máscara de madeira que omitia sua face, mas Elbor conseguia entender cada palavra que ele dizia. Apesar da cantoria alta, era como se o timbre do mago reoasse através de seus ossos e formasse os verbos sobre a sua carne.

— Elbor Altharian.

— Elbor, da Casa Altharian. — o sacerdote entoou. — Aproxime-se e beba.

O hierofante estendeu uma grande taça de prata com aparência antiga, cravejada de símbolos cujo significado apenas os iniciados conheciam. A bebida rescendia a ervas e o sabor era tão forte que bastou um gole para que Elbor sentisse sua cabeça latejar. O rei deu um passo para trás, tonto, e tentou abrir os olhos. Diante de si, tudo que conhecia enxergar era o contorno disforme das luzes da fogueira.

O sacerdote começou a entoar um canto familiar, antigo o suficiente para ter sido cantado durante mil vidas. Lentamente, Elbor reconheceu que ele invocava as quatro faces da lua. Seu corpo inteiro se arrepiou. Quando deu por si, seus lábios tinham ganhado vida própria e se moviam contra a sua vontade, acompanhando a canção do hierofante.

Senhora do tempo

Cuja luz não escinde

Antes que seja tarde

Vinde

Tu que nasces como Levad

E o tesouro materno alinde

Livra-nos dos terrores da noite

E vinde

Gawan, cuja vida se esvai

E da morte devinde

Renasça uma vez mais

E então vinde

Com Cilgree a luz  retorna

E o medo se extingue

Ao mundo em sua última hora

Vinde

Senhora do segredo e da áspide

Assim chamamos Nevidd

Abandonai todos suas lápides

E vinde

Subitamente, os olhos de Elbor entraram em foco. De repente era como se ele pudesse ver o mundo melhor do que alguma vez já tinha visto. O silêncio envolveu o mundo, quase como se os sonos jamais houvessem existido. Não havia sinal do hierofante em lugar nenhum. As chamas ainda dançavam no leito da lareira, mas não crepitavam nem vomitavam fagulhas.

Elbor sentiu seu coração acelerar. Prendeu e soltou a respiração, flexionou os dedos suados.

Por um minuto, nada aconteceu.

Então as labaredas azuis começaram a se mover e a tomar forma humana. Primeiro, Elbor pensou que se tratava de Elden. Então ele notou que o que tinha diante de seus olhos era uma forma masculina. Das brasas surgiram um rei todo feito de fogo azul, portando uma capa de arminho e uma longa barba flamejante. Em sua cabeça fulgurava a Coroa de Gelo, símbolo do poder que há gerações os reis do Norte tinham a honra e o dever de carregar.

Elbor o reconhecer imediatamente. Certamente, o teria reconhecido até no inferno.

— Pai? — ele perguntou atônito.

Eldric Altharian levou os dedos às chamas de sua  barba e bufou, como geralmente fazia quando algo o desagradava em vida.

Pazoun eithe van sun skotad. — ele saudou com impaciência. Que tenhamos força para andar na escuridão.

Sua voz soava inifitamente mais grave do que Elbor se lembrava. Era como se ela envolsse todas as coisas e ressoasse através delas.

Ro soe vram luxos fos tae skot. — Elbor respondeu. Pois a luz só vem para os que vivem nas trevas. — Pai, eu não entendo. O que faz aqui?

— Sim, meu filho. Eu vejo em seus olhos que não deseja me ver novamente.

— Não é isso. — Elbor esfregou os lábios, nervoso. — Eu apenas estava esperando por...

— A mulher da tribo que quase nos arruinou. — Eldric repreendeu de modo servero, lançando um olhar frio ao filho. — Mesmo que os anos passem, certas coisas jamais mudam.

Elbor encolheu os ombros. Durante sua infância havia reproduzido aquele gesto muitas vezes diante das reprimendas do pai. Você não é mais um menino, ele tentava dizer a si mesmo. É tão rei quando ele era enquanto estava vivo.

O rei de outrora ergueu seu solhos para o céu e fitou a imensidão do firmamento durante um longo minuto. As estrelas pareciam ter mudado completamente, formando padrões e constelações diferentes de tudo que Elbor já tinha visto naquele mundo. Aquele não era o céu do Norte. Os dois já não estavam mais naquele mundo.

— Sim, eu a vejo.  — Eldric disse de modo onírico depois de algum tempo. — Nesse momento, a rainha que será partilha a mesa com a rainha que já foi, selando um pacto terminal entre o outrora e o que virá a ser.

Elbor só conhecia duas pessoas que se encaixavam naqueles termos e chegar a essa conclusão lhe deu náuseas.

— Lana...?

Ele não precisava terminar. Mesmo sem ter sido pronunciada, a perguntava pairava entre os dois homens e pesava o ar entre eles.

— Lana vive, se é o que me pergunta, e continuará vivendo até que seja seu destino morrer.

Isso não necessariamente deixava Elbor mais tranquilo.

— Então por que minha filha e Elden se encontram? Por que o senhor veio até aqui?

Eldric olhou para o filho com um desprezo quase palpável.

— Nem mesmo Barsai, que foi traído pelo pai e assassinado enquanto dormia, sentiria tanto desprazer em rever seu genitor quanto você sente em me ver, meu filho.

Elbor queria poder discordar, mas sabia que seria em vão. Depois de aguardar avidamente para se reencontrar com sua amada, ser visitado por qualquer outra pessoa não passava de uma decepção. Tendo em vista os anos de espera, ele preferia ser receber apenas o silêncio do que uma visita daquele que tinha sido responsável pelo desenrolar trágico de sua relação.

— Você é tolo o bastante para revelar tão abertamente o seu descontentamento. — Eldric continuou. — Ano após anos você vem aqui chamar por ela. Ela nunca veio e não virá até que o mundo acabe. Eu, por outro lado, estou aqui. Desapegue desse luto que te subordina e honre sua casa enquanto ainda há tempo.

— Como eu poderia fazer isso se a rainha que você escolheu para mim não passa de uma traidora?

Eldric soou um suspiro cansado. As chamas que adejavam em sua barba pararam de agitar e se transformaram em um fogo lento.

— Você é um tolo, Elbor. É por isso que eu vim. — ele disse. — Trago um aviso, meu filho. Até mesmo você deve ser capaz de sentir que há qualquer coisa diferente no ar. O que eu te ofereço é um presságio de guerra.

— Eu já sabia que a guerra viria. — Elbor disse secamente. — Não ouviu o que eu disse sobre Fenora? Ela nos traiu e nos colocou nas mãos do inimigo!

— Você ainda não sabe que ela é inocente da culpa que a atribui, mas em breve saberá. — Eldric disse. — Não, meu filho. Fenora não será arauto da guerra que virá, embora possa ajudar a resolvê-la. Haverá um combate que será prelúdio de um enfrentamento maior. E então, depois disso, dois homens definirão se o nosso mundo deverá definhar em cinzas ou amanhecer sob um céu abençoado.

— Eu não compreendo.

— Compreenderá quando o momento vier. — Eldric parecia estar aprisionado em um devaneio confuso. — Sim, eu vejo. As gerações vindouras se lembraram de nossa desgraça. Caberá a ele nos salvar ou nos transformar em ruína. Ele deve escolher entre ser o primeiro rei ou o último.

— Quando isso deve acontecer? Diga, meu pai, para que eu me prepare.

— Muitos anos terão se passado antes que essa profecia se cumpra. Para mim, no entanto, ela já se cumpriu.

Estar morto significava não estar mais sujeito à matéria. Por conseguinte, significa não mais estar sujeito ao tempo. Eldric tinha diante de si, abertos como um livro, todos os momentos do devir. A comunicação, por conseguinte, sempre deixaria a desejar. Não se pode expressar aquilo que pode ser, apenas aquilo que é.

— Não, meu filho. Não há preparo para o que virá. Mas saiba, no entanto, que é no ventre da última estrela do Norte que repousa a esperança de um herói libertador ou a terrível face de um fazedor de escravos.

Elbor tentava memorizar as palavras de seu pai exatamente como elas vinham, pois sabia que cada verso de sua profecia fariam sentido ao se cumprir. 

— E quanto a Lana? — ele perguntou. — O que será da minha filha?

Eldric pousou os olhos nos dele. Não havia nenhum sinal de sentimentos negativos, mas pairava a terrível sombra da intensidade.

— Lana. — o rei de outrora repetiu o nome, deixando que ele dançasse em seu lábios. — Lana deve morrer como uma heroína ou viver o bastante para se transformar em tudo aquilo que jurou destruir.

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