EN e ON

— O senhor vai me ensinar a manipular o metal? — perguntei boquiaberto já desesperado por aprender o mais rápido possível.

A mente viajou para longe. Já estava me imaginando transformando bastões em espada, manuseando formas líquidas, sólidas e coisas parecidas quando papai me deu um banho de água fria.

— Você ainda tem muito o que aprender até chegar lá — declarou em tom seco. — Em primeiro lugar você aprenderá a utilizar o EN e, depois disso, aprenderá sobre o ON.

Contraí o rosto fazendo expressão de desentendimento.

EN significa dentro e ON, fora — explicou ele e fechou a mão que ainda reluzia com a forma cinzenta sobre a palma.

A massa esférica desapareceu no mesmo instante deixando-me ainda mais impressionado.

— Como assim dentro e fora, pai? — questionei em busca de compreender o significado.

— Primeiro você irá aprender a usar o keer que está em você. Depois disso você aprenderá a utilizar o keer que está fora.

— Ahhh! — exclamei. — Então, eu estou pronto para comec...

— Não seja ansioso! — sibilou me interrompendo. — Para usar o keer você precisa ter total controle sobre suas emoções.

Primeiro fora...

Aquiesci com a cabeça e tentei me controlar.

— Você se lembra dos três níveis de concentração? — perguntou ele e entrelaçou os dedos das mãos em frente ao abdômen.

Fiz que sim.

— Quais são?

— O primeiro nível é o Controle Mental... — Papai arqueou as sobrancelhas e sinalizou para que eu prosseguisse. — Devo bloquear o fluxo de pensamentos por completo, ou, tentar controlá-los de modo a não pensar em nada além da minha vontade. Para isso, preciso eliminar os pensamentos indesejados e me concentrar apenas em pensamentos racionalmente ordenados.

Papai assentiu com a cabeça e fez sinal para eu continuar.

— O segundo nível é o Controle Emocional. Devo controlar todas as emoções e ordená-las racionalmente conforme minha vontade — falei num tom como se já tivesse finalizado.

Papai carregou o sobrolho e virou o rosto levemente de lado.

— E? — indagou ele como se esperasse por mais.

Segundo fora...  

— Ah, sim! — prossegui assim que lembrei: — Ou, então, devo anular completamente qualquer emoção, pois as emoções atuam em três estados: Desordenado, Ordenado e Nulo — completei e dei um sorriso como de desculpas pelo esquecimento. — O único estado que me impossibilita de avançar para o controle total é o desordenado. Sendo assim, posso avançar ou ordenando racionalmente cada emoção, como já mencionei, ou, então, anulá-las por completo.

Papai comprimiu os lábios e fez sinal para eu prosseguir.

Fiz conforme a vontade dele.

— O terceiro nível é o Controle Sensorial. Devo controlar meus sentidos concentrando-os ou anulando-os conforme minha vontade.

— Dê exemplos — pediu gesticulando com o indicador.

— Eu posso anular, aumentar ou diminuir a sensibilidade dos meus sentidos conforme a minha vontade. Se eu quiser concentrar-me em um som, por exemplo, posso, conforme a necessidade, diminuir ou anular os outros sentidos elevando a percepção de minha audição. Isso funciona com cada um dos sentidos.

Papai concordou e fez outra pergunta:

— Como se chama o nível máximo de concentração?

— Controle Total — respondi rapidamente e sem floreios. Meu pai sempre me ensinou que a objetividade é o modo mais eficaz de se realizar qualquer coisa.

— Você já atingiu esse nível? — interrogou ele.

Acenei positivamente com a cabeça.

— Muito bem! — Papai cruzou novamente os dedos das mãos sobre o abdômen enquanto batia os dois polegares um no outro. Mordiscou os lábios e espremeu um pouco os olhos. — Mexa o terceiro dedo do pé esquerdo — ordenou.

Prontamente fiz como pedira.

— Faça o mesmo com o distal do anelar direito — mandou.

Mexi sem problemas.

— A membrana da narina direita!

Mais uma vez fiz como ordenara.

— Ótimo! — exclamou. — Não há como usar o keer, tanto no EN como no ON sem atingir o nível de controle total.

Papai fez um breve silêncio e repousou as mãos sobre os joelhos novamente.

Eu estava ansioso, isso era inegável. A expectativa de aprender a usar o keer deixou-me tão envolvido com o treinamento, que esqueci tudo o que havia acontecido nos dias anteriores. Nada mais importava, apenas estar ali naquele momento com o meu pai, o meu mestre!

— Ravel — disse papai com a expressão séria —, a técnica que irei te ensinar agora é de altíssimo nível e requer o máximo de disciplina e concentração. Lembra-se do paradoxo da energia?

— A energia que constrói é a mesma que destrói! — proferi o antigo verso keriano tantas vezes mencionado por minha mãe.

— Exato — anuiu ele e depois continuou: — O keer é essa energia. Usá-la sem compreendê-la ou respeitá-la poderá destruí-lo.

Uma pontada atravessou-me os rins ao ouvir isso.

— Sua energia é o que mantem todas as coisas. Inconscientemente todos nós utilizamos o keer. É a energia da vida. Cada ação, cada movimento, o simples fato de respirar — falou e respirou fundo —, está intimamente relacionado ao uso do keer.

Eu o ouvi atentamente sem interrompê-lo. Não havia dúvidas de que o keer também o fascinava. Ele não sorria ou demonstrava de maneira explícita, mas pude ver em seus olhos o mesmo brilho que vi nos de minha mãe quando tocou no assunto mais cedo.

— Ravel — chamou-me capturando minha atenção —, você sabe me dizer o porquê morremos?

— Como assim? — questionei sem entender a pergunta.

— Todos morreremos um dia. Chegará um dia em que nossos corpos tombarão e não haverá mais o fôlego em nós. Sabe o porquê isso acontece?

Espremi os lábios e balancei a cabeça negativamente. Eu nunca tinha pensado sobre isso, quanto mais ter a resposta do motivo pelo qual a morte ocorre.

— Morremos quando o keer em nós se esgota. Assim como a chama que se extingue quando consome toda a lenha, assim também somos nós. A chama é a nossa vida e a lenha o keer em nós. — finalizou papai e soltou o ar dos pulmões vagarosamente.

Eu havia compreendido o que ele estava tentando me ensinar. O keer era como o combustível da vida e eu deveria aprender a utilizá-lo com responsabilidade.

— É uma técnica poderosa, Rav, mas também muito perigosa. Deve ser utilizada com entendimento e prudência — disse e levou o dedo indicador até a cabeça dando três batidas leves.

— Eu entendo, pai — falei com seriedade demonstrando ter compreendido a importância do que ele queria transmitir. — Eu estou pronto! — afirmei decididamente.

— Eu sei — concordou papai e estralou os dedos da mão direita com o polegar.

Não sei porquê, mas ele estava tenso. E se tratando do meu pai, isso não era comum. Nada o abalava e eu nunca o vira daquele jeito.

— Quanto tempo leva para dominar essa técnica, pai? — perguntei tentando aliviar a tensão.

— Depende! — respondeu e mordiscou os lábios — Algumas variáveis tornam o tempo de treinamento imprevisível.

— Quanto tempo o senhor levou?

Papai cerrou ligeiramente o cenho em uma expressão dura diante da pergunta.

Acho que passei do limite, pensei.

Terceiro fora...

— Sete ciclos — falou inesperadamente quando eu já tinha me conformado em ficar sem a resposta. — Mas existem casos de alunos mais brilhantes que conseguiram aprender a técnica em menos tempo.

— Quanto tempo? — As palavras pularam de minha boca antes que eu pudesse segurá-las.

Papai fulminou-me com seus olhos negros até eu ficar desconfortável.

— Cinco ciclos! — Suas palavras saíram forçosamente entredentes.

Cinco ciclos?

Uma cachoeira de desânimo lavou-me por inteiro.

— Se o senhor demorou sete anos eu vou levar bem uns quinze — admiti em estado de pura desolação.

— Cinco — papai afirmou.

Eu o olhei balançando a cabeça sem entender o que ele queria dizer com isto.

Ficamos em silêncio por alguns segundos e depois ele continuou:

— Para ser mais específico — falou e fez uma pausa levando a mão direita até o queixo —, você levou quatro ciclos, três estações e cinco quinzenas e meia para aprender.

Eu fiquei confuso com essas palavras, mas antes que eu fizesse nova pergunta papai explicou:

— Eu comecei a treiná-lo quando você completou nove ciclos.

— Então eu já sei?

— Sim. Na verdade, você já dominou o mais difícil. Agora falta apenas a última parte.

— E qual é a última parte? — O entusiasmo começou a tomar conta de mim novamente.

Conjuração! — Ele disse e espremeu um pouco os olhos — Agora eu irei ensiná-lo a conjurar o seu keer!

Eu não tinha ideia do que isso significava, mesmo assim, senti como se borboletas sobrevoassem dentro de minha barriga.

Enfim irei aprender a utilizar o keer!

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