Capitulo IV

"Quando alguém morre cheio de ódio, nasce uma maldição."
                                  — O grito

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    As fortes mãos de Bálder estavam cravadas nos braços de Dalila. Ambos estavam paralisados, em busca do corpo de Jennifer. Ainda nem haviam descido totalmente a escada, olhavam de um lado para o outro. Até o malvado perceber que ele havia cometido um erro crucial, erro bobo, o qual ele jamais imaginou um dia cometer em sua vida, ele tinha simplesmente esquecido da faca ao lado da jovem, "mas ela não estava morta?".

   Ouviu alguns gemidos estranhos e baixos vindos por detrás dos cadáveres de sua coleção. Dalila ainda estava assustada pelo simples fato daquele lugar ser tão sádico e imundo. Com a jovem loira e latina em suas mãos, ele a jogou com violência em cima daquela mesa ao centro. Bálder tinha apenas um temor, seu maior medo era errar, por isso, ele calculava ao máximo cada próximo passo. E ter uma vítima viva era como ter falhado.

    Após amarrar Dalila com as amarras de Jennifer, ele se pôs a andar por ali em volta com um facão. A jovem asiática estava escondida atrás dos corpos nus e podres. Estava fraca, zonza e sua visão estava turva, sua perna estava cheia de sangue, era provável que aquele fosse o motivo de sua forte vertigem, perdia muito sangue. Ele estava andando ao redor, cantarolando uma velha cantiga, a mesma a qual ele cantou no momento em que a amarrou e a torturou.

   Não havia outro lugar para ela se esconder, além de que tentar sair dali agora, seria suicídio. Engoliu seco e pode sentir seu coração acelerado. O gosto de fel era forte em sua boca. Bálder continuou andando ao seu redor. Virou o primeiro cadáver, ela não estava ali, ele gemeu de raiva. A cada passo do maldito, Jennifer suava mais. O segundo cadáver era de um homem, ele mais se parecia com um boneco de cera, ele acariciou o corpo e sorriu, ainda cantarolando.

— Um homem tão memorável — ergueu o facão para o alto.

    Ainda não estava lá. Mais apressado, ele virou a terceira vítima, por trás dele, os gritos de Dalila, ela estava quase sem voz, seus pulmões ardiam como fogo, sua boca estava seca, quanto mais ela gritava, mais o homem parecia estar satisfeito. Jennifer sentiu a perda de domínio de seu corpo, "aguente firme" foi tudo que conseguiu pensar. Mas suas pernas já não a obedeciam mais, sentiu seus braços formigarem, não queria morrer e deixar Dalila sozinha.

— Eu não posso!!! — gritou o mais alto que conseguiu.

    Neste momento, o homem abriu um sorriso que não cabia em seu rosto, atrás do quinto corpo, estava o gemido. Ele retirou com cautela da frente, viu a pobrezinha ali, fraca e banhada de sangue, seus olhos estavam inchados pelo forte soco. Em suas mãos pequenas, estava um punhal, mas seus braços nem ao menos conseguiam levantar. A jovem virou seus olhos para o mesmo. Ele agaichou e a fitou, com suas sobrancelhas arqueadas.

— Por que fugiu, coelhinha? — ele abriu um leve sorriso sádico.

— Vá pro inferno! — gritou.

    Ele possuiu sua garganta com as mãos. Ela estava engasgando, falando algumas palavras que saiam em tom de ar, não se podia distinguir do que se tratava. Jennifer foi aos poucos perdendo os sentidos, seus braços que anteriormente estavam adormecidos, agora não podia mais os sentir, de fundo, conseguiu ouvir sua melhor e única amiga gritando seu nome e se debatendo, ela pode abrir um último sorriso, novamente falou algumas palavras, que não foram interpretadas.

   Sem resistência, o homem jogou o corpo da jovem para o lado. Dalila estava desesperada, aos prantos, implorando pela vida de sua amiga. Gritava e se debatia na esperança de conseguir se soltar, ou ao menos conseguir alguma ajuda, todavia ela não sabia onde estava, nem se estava na cidade ou ao menos perto da mesma.

— Isso, grite — O maníaco foi na direção da mulher. Seus gritos eram a única coisa que lhe restava. Sua voz começou a falhar, sua garganta estava queimando. Bálder fechou os olhos e abriu os braços, ele passou a sentir um aconchego com os prantos da jovem.

    Sua voz parou, não conseguiu mais emitir nenhum som, apenas tosse. Rapidamente o homem nervoso foi até ela. Ele lhe desferiu um tapa médio, que rapidamente lhe fez sentir um forte calor e ardor subir por todo o lado esquerdo do rosto, algumas lágrimas começaram a rolar por sua face vermelha.

— Por que não grita?! — falou em um tom alto.

     Ela quase suspirando, disse não conseguir. Com raiva, ele subiu as escadas, deixando a jovem sozinha naquele lugar assustador. A vista dela, era de um teto horripilante, cheio de teias de aranha e sujeira. Ao redor, alguns corpos preenchidos por formol exalavam o odor mais nojento que ela havia tragado.

    Em suas lembranças passavam milhares de pecados o qual ela realizou, além de sua péssima juventude e até mesmo os males que havia sofrido e praticado. Estava vestida de preto, chorando por tudo que passou e pelo que estava passando. Por estar presa, não conseguia ver o cadáver de sua amiga Jennifer, tudo que podia era tentar crer que ela apenas havia desmaiado. Seu corpo estava empapado de suor e seu cabelo molhado pelo mesmo, além de seu rosto estar encharcado.

   Seu coração estava acelerado, o suficiente para não conseguir respirar direito. Lembrou que quando era criança, certa vez, sua mãe estava sozinha com ela e seus irmãos mais novos, houve um arrastão na cidade após uma queda de luz, eles estavam saqueando casas e lojas, estuprando mulheres sozinhas. Aquele dia, havia sido o dia mais assustador de todos. Para que as crianças mantessem a calma, Carmen, mãe de Dalila, levou as crianças para o banheiro e lá se trancou com as mesmas, para acalmar seus filhos, a mulher contou a história da el cucuy, um ser místico que protegeria eles em tal momento.

— El Cucuy... me proteja... — sua voz era tão baixa que mal podia distinguir o que a mesma dizia.

    Ouviu passos pesados vindo das escadas. Sentiu que iria explodir de nervosismo. Olhou para o lado e pode ver que Bálder retornava, em suas mãos, uma agulha. Lágrimas continuavam a cair de seus olhos.

— Por favor... — fez esforço para a voz sair.

— Fiquei quieta, não vai doer em nada — aproximou-se e novamente injetou aquela agulha no pescoço da mulher, que rapidamente foi perdendo seus sentidos. Sentiu seus olhos pesarem, imaginou que estaria morrendo e finalmente iria poder descansar.

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   Sentiu uma brisa leve tocar seu corpo e possui-lá, um cheiro doce adentrou suas narinas. Lentamente Dalila abriu seus olhos castanhos, um clarão tomou conta de tudo. Ao seu redor, tudo o que poderia desejar, uma belíssima floresta, rodeada por árvores recheadas de flores. Andou ao redor, pode ver que tudo aquilo era esplêndido ao olhar humano, uma provável floresta quase virgem, intocada pelas mãos destruidoras dos homens. Gramíneas verdes num tom claro, com pequenas flores brancas, preenchiam o vazio causado pela falta de rios.

  Dalila sentia seus pés adentrando pela grama molhada, em sua boca sentia um gosto doce. Caminhou ao redor daquele lugar, suspirou pelo doce aroma das flores. Viu de longe, uma pessoa, ou parecia ser uma pessoa, tão clara que a deixou irreconhecível. Aos poucos as luzes foram diminuindo, seus olhos se arregalaram ao perceber de quem se tratava.

— Lisa — esticou sua mão para tocar o rosto angelical.

    A menina ficou parada de frente para Dalila, ela estava com um semblante triste e miserável. Olhou fixamente para dentro dos olhos da mulher, que sentiu seu coração acelerar ao ver que havia um pequeno risco de sangue caindo por sua tempora.

— Você está machucada — quis tocar, mas a menina se desviou.

— Não mais que você — possui a um olhar sério, que causou arrepios em Dalila.

— Lisa... eu... — antes que pudesse terminar sua fala, as árvores começaram a apodrecer e as gramas a queimarem. Afastou-se rapidamente da jovenzinha assustada.

— Você vai pagar — a menina passou a derreter diante de seus olhos.

— Não! — gritou com as mãos tapando os olhos. — eu não fiz de propósito, me perdoe!

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— Está tendo pesadelos, coelhinha?

    Dalila abriu seus olhos rapidamente, ao mesmo tempo que sentiu o suor escorrer por seu corpo. Ainda com a visão embaçada, sentiu sua boca seca e seu corpo dolorido. Olhou ao seu redor, estava parcialmente aliviada por aquilo ser apenas um pesadelo, mas ao mesmo tempo ela vivia um pesadelo.
 
    Para sua surpresa, ela já não estava mais no mesmo lugar o qual costumava se encontrar antes da queda no sono profundo. Ainda sentia suas mãos presas, mas o lugar o qual ela estava agora, era aparentemente um porão de alguma casa, ou uma área de lazer absurdo. A mulher estava em uma jaula, ao seu lado, Mr. Bunny, ao fundo uma música assustadora, que mais parecia uma de caixinha musical infantil, isso deixou o lugar ainda mais horripilante.

— Fiquei te admirando dormir, você parecia uma lebre assustada — Ele possuía em suas mãos um livro.

— Onde estou? — sua voz estava fraca.

— No inferno — seus olhos estavam cintilantes.

    Ela tentou levanter-se, mas foi impedida pelas correntes que a prendia numa espécie de jaula. Quis gritar, mas sua garganta ainda queimava.

— Está com sede? — ele se levantou vagarosamente, deixando o livro em cima de uma mesinha.

    A jovem apenas assentiu. Por alguns instantes ele se virou e foi em busca de água. Em sua própria mesa, havia uma garrafinha translúcida. Foi em direção a menina, lhe entregou a água aberta. Ela saciou sua necessidade de água, babando em torno da garrafinha. Ao final jogou de lado o recipiente.

— Se sente melhor?

— Por que estou aqui? Onde está Jennifer? — suas palavras foram lançadas contra o homem. Ele sorriu.

— A humanidade é tão podre e pecadora, só pensam em si próprios. A sociedade é corrompida, sinceramente não sei o que meu amigo Bálder vê em todos vocês, seres imundos. Minha cara Dalila, sinta-se honrada por ter sido escolhida, entre tantas almas podres, a sua o atraiu.

— Como sabe meu nome? — ela o olhou visivelmente assustada. Tudo que recebeu foi um olhar demoníaco de volta, fez com que sentisse sua espinha arrepiar e se tremeu por inteira. — quem é você, Mr. Bunny?

   Ele virou-se de costas para a jovem e saiu em direção a porta. Através de um espelho, ela sentiu um medo imenso tomar conta de seu ser, piscou seus olhos freneticamente na incerteza do que estava vendo ser real. Uma aura escura possuía o corpo do homem.

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