Capítulo 28
Ainda estou perdida em meus pensamentos, encarando seu olhar apaixonado com um lampejo de diversão escondido nele... diversão? Tem vezes que enxergo o que não existe. Deixei essa besteira de lado e foquei no que realmente interessa.
A vida é complicada, há sempre o sim e o não para decidir a nossa caminhada, e dependendo dessa escolha, consequências terríveis podem ser geradas, como uma rasteira letal.
Sinceramente, não sei o que pensar, o que vou dizer? Estou perdida. O que estou me tornando? Se fossem outros tempos, o rechaçaria sem dó nem piedade. Sou criteriosa, sempre fui, Ryan têm coisas que detesto em homens, e nem são as suas galinhagens, mas é algo que não sei explicar. Não sei como falar, porém, quando o encaro tenho a impressão de que tudo é falso, tudo é uma tremenda mentira, e estou sendo uma otária novamente.
Aí começo a refletir, ele não teria coragem de fazer isso comigo, ou teria? Sinceramente, não sei o que pensar. Não sou uma mocinha ingênua e sofrida, que acredita em tudo que o príncipe encantado fala. Nessas horas prefiro ser amiga da bruxa do que da fada, pois, a bruxa sei quem é, e a fada? O que ela mostra ser é ela verdadeiramente? Não sei. Cansei de confiar em pessoas que mostram ser exageradamente boas, mas que na verdade são cobras disfarçadas.
Fui puxada abruptamente dos meus devaneios, com um toque no meu ombro. Dessa forma, concluo que não tenho a resposta agora e preciso conversar com alguém primeiro.
— Acho melhor você aquietar seu fogo e procurar uma vadia que vai atender os seus caprichos. — Tentei ser um pouco grossa e rechaçá-lo de uma vez, sei que essa relação não tem futuro, por isso não vou nem tentar.
Mas para a minha surpresa, ele começa a gargalhar na minha cara, dá para entender? Olhei para ele com a maior raiva, esse imbecil só pode estar fazendo chacota da minha cara e eu caí igual a uma patinha.
— Olhe aqui seu filho de uma égua, feto de crocodilo e estrume de vaca, não sou uma de suas cadelas que ficam de joelhos aos seus pés. Eu me valorizo, entende? — falei com a boca cheia de orgulho. — E ainda mais, se você quer seduzir alguém, vai procurar uma cobra que dê para você cruzar. — Explanei cada palavra com o dedo em sua cara.
Ao invés do retardo ficar sério e dar atenção a minha indagação, ele começou a rir histericamente, me fazendo ter um ataque de raiva.
Antes de partir para o baixo escalão, ele fez o sinal de protesto e se forçou a respirar, para finalmente completar uma frase.
— Desculpe, não tive a intenção de te chatear. Contudo, você é tão engraçada, até mesmo sem perceber. Acho você tão autêntica e isso é o que mais me fascina em você. — Olhou para mim, esbanjando um sorriso brilhante.
Não me lembro de ser tão elogiada por um homem assim, tenho certeza de que o meu ego está lá em cima. Porém uma coisa é certa, não quero começar esse jogo de gato e rato.
— Sei, mas pode continuar, amo elogios. Desculpe te mal interpretar. — Coloquei a mão no peito em sinal de sentimentos, esperando outra seção de engrandecimento.
— Aceito as desculpas, mas você não vai ficar vermelha? — pronunciou tentando segurar o riso, mas falhou miseravelmente.
— Não... — Por acaso ele é retardado? Não estou entendo a brincadeira sem sentindo.
— Te elogiei, como a moça recatada que você é, deveria ficar com vergonha.
Suspendi uma sobrancelha para ele e o encarei, o que ele pensa que sou? Uma donzela indefesa? Palhaço!
— Você não me conhece. — Virei de costas para ele, e fui buscar Tiana.
— Mas eu me conheço. — Soou do nada, provando o quão retardado esse ser é.
— O quê? — Me virei totalmente confusa, com a criança nos braços.
— Posso ser o que você quiser. Diga o que quer e serei para você, posso ser o seu príncipe encantado, ou até mesmo a fera se preferir, serei o seu Christian Grey, também posso ser um cara normal, mas com um pouco de pimenta nas ações, então, está a seu critério, basta você escolher. — Mordeu o lábio esbanjando sorriso.
— Você não cansa de flertar? — Coloquei Tiana em um braço que estava milagrosamente calada e, ao pegar a bolsa joguei nele.
— Não quando estou com você. — Me seguiu pelo quarto.
— Sério! Chega! Você está me dando enjoo. — Saí do quarto e ouvi a sua risada logo atrás.
Descemos a escada, encontrando todo o povo nos esperando na sala de estar.
— Que demora. Vamos, estamos uma hora atrasados. — Dona Serena saiu puxando o filho.
— O que estavam fazendo para demorarem tanto? — Perguntou Tomas andando ao meu lado.
— Coisas de adulto. — Dei um sorriso de esgueira.
— Espero que essa coisa de adulto não seja a encomenda de mais um bebê. — Andou na minha frente.
Ah, se ele soubesse.
Agora estamos há 10 minutos no conversível de Ryan, enquanto Serena não para de tagarelar, conversando igual a uma taquara rachada no celular. Estou rezando que venha um caminhão de longe e bata no lado dessa mulher.
— Sabe que sou alérgica? — indaguei a um Ryan impaciente.
— A que? — Olhou para o retrovisor na minha direção.
— Camarão — comentei na intenção em ter um maluco que me ofereça alguma comida com camarão.
— E a qualquer tipo de sentimento humano. — Tomas completou a minha frase, se inspirando em um romance que não sei o nome, provavelmente.
Olhei para ele com os olhos pegando fogo. Ah, quero fulminar esse jumento! Em contrapartida, sou uma pessoa muito educada e sensata, por isso não vou dar uma resposta adequada a essa criança.
Após meia hora, finalmente chegamos.
E para a minha surpresa, que esperava um prédio chiquíssimo, estamos em um modesto imóvel perto do centro da cidade. Estou falando isso, porque a família de Ryan tem dinheiro para viver nos edifícios mais luxuosos da cidade, não em um apartamento de classe média baixa.
O condomínio é novo, não parece acabado nem nada disso, pelo menos não estamos no subúrbio.
Ao que parece a irmã de Ryan casou com um homem pouco afortunado de riqueza, ela resolveu viver com ele, após uma lua de mel curtíssima no outro lado da cidade e eles estão juntando dinheiro para comprar um carro novo, claro, tenho esse conhecimento pela visão da Dona Serena.
Assim que saio do carro Tiana acorda, entramos no terceiro prédio a esquerda e no elevador a senhora Serena apertou o nono andar, pelo menos é a cobertura do edifício.
Adentramos no apartamento com belos detalhes históricos e paredes com painéis de madeira, tendo como encanto os bonitos estofados brancos, harmonizando assim a formosa sala.
— Bem-vindo irmão — cumprimentou a noiva daquele dia no casamento.
Ela cumprimentou a todos e foi pegar algo na cozinha que seu marido pediu.
Enquanto entramos na casa, avistamos algumas pessoas já acomodadas, entre eles existem rostos conhecidos, evidenciando que a maioria é família. Assim, encontramos Zandara e Mark.
Quando ela me localizou veio rapidamente ao meu encontro.
— Oi!? Sumida! — exclamou me dando um abraço apertado, com a sua barriga gigante, pressionada contra a minha.
— Nem passou uma semana e você já me chama de sumida — confabulei monotonamente, só para não a deixar sem resposta.
— Como vai a vida? — Me soltou de seu abraço.
— Na medida do possível, porque uma pessoa inventou um noivado que não existe — murmurei baixinho.
Ela deu uma risada sem graça, mas não comentou nada sobre o assunto. Poxa vida, nem para dar uma explicação.
Agora estou sentada na varanda do apartamento, olhando a magnífica lua, com Tiana brincando no meu colo.
Esse jantar é um tremendo tédio, e fica pior ainda quando não tem ninguém para conversar, já que as pessoas que você deveria socializar são um bando de chatos.
Sei que deveria estar explicando mais desse lugar entediante, contudo, o que poderia falar a mais? Estou me sentindo como se estivesse resumindo a minha vida em uma tremenda tortura.
Entretanto, não quero pensar na minha vida agora, o mais interessante é observar outra pessoa. Nada é tão comum quanto resumirmos a vida de outra pessoa e acharmos que ela não pode querer algo a mais. Fulana é linda, jovem e tem um corpaço, o que mais ela quer? Sicrana ganha rios de dinheiro, é valorizada no trabalho e vive viajando, o que é que lhe falta? Na minha concepção não lhe falta nada, mas hoje posso olhar por outros ângulos. Mesmo que eu julgue que dinheiro é mais importante, pelo menos até certo ponto.
Sinto falta da grana que tinha, mas algo que não tenho agora e nunca cheguei a ter com dinheiro é... Fui cortada dos meus pensamentos por Anthony me chamando para o jantar.
Saí da calmaria e entrei para o aglomerado de vozes buzinando no meu ouvido.
Dei Tiana a um de seus parentes e me sentei em uma cadeira qualquer da mesa. Quando todos estão finalmente acomodados, o grande peru queimado chega, parecendo uma ceia de natal. Queimado? Retrocedi nos meus pensamentos e observei o grande peru que parece mais um carvão de tão tostada. Quase senti pena do rosto vermelho da irmã de Ryan, que até agora não sei o nome, pois não me recordo o nome dela de quando falaram no casamento, mas eu disse certo, senti quase a bendita empatia, pois, estou me divertindo muito em saber que não sou a única sem dotes culinários.
— Desculpe, não sei o que aconteceu hoje, nunca queimei um peru, nem quando eu estava na faculdade de gastronomia.
A minha alegria não poderia ser maior, sério? Só não solto uma gargalhada, porque todos focariam sua atenção em mim.
— Você está parecendo uma sádica, esse olhar é de felicidade ou de um exorcista feliz? — Perguntou Tomas sentado à minha frente.
Tirei o meu sorriso macabro e olhei para outro lado, para ninguém perceber a minha súbita felicidade. Agora a única coisa que está faltando para eu sair pulando como uma galinha prestes a ter sua cabeça arrancada, é ver a bunda de pelanca da governanta virar um purê amassando, me dando o prazer de degustar cada visão.
— Sério, você está me assustando — disse Tomas fingindo uma cara de espanto.
— Pare de chamar a atenção para mim seu estrume — murmurei.
— Vocês parecem duas crianças. — Anthony se intrometeu na conversa.
— Como você veio parar aqui? — Encarei Anthony.
— Você estava tão feliz com a desgraça alheia que nem percebeu a nossa presença — respondeu bem do meu lado esquerdo.
Sério, nem em um jantar de família essas crianças me deixam em paz.
Após esse grande mico, a anfitriã da casa se recompôs e voltou normalmente com os preparativos da ceia.
Tirando aquele incidente o resto da comida estava boa. Aproveitei a distração do povo e voltei novamente para a minha amada varanda, agora sem criança para atormentar o meu juízo.
Me encostei na grade e observei o belo céu acima de mim, com as suas estrelas brilhando minimamente e a lua incandescendo toda a noite. Perante todo esse cenário me fiz a seguinte pergunta: como eu estaria agora se toda essa desgraça não tivesse caído sobre a minha cabeça?
— Olá, nem tive tempo em conversar com você. — Sou cortada dos meus pensamentos, novamente, agora pela irmã de Ryan.
— Olá — pronunciei modestamente.
— É um prazer revê-la — comentou se aproximando. — Ah, desculpa, você deve ter esquecido, meu nome é Sicília. O seu é Bela? — pronunciou com toda a modéstia.
— Bela — respondi em um tom passivo.
— Sei, o meu irmão não parou de falar a noite toda de você, não acredito que ele esteja realmente enfeitiçado. — Veio para o meu lado.
Para falar a verdade nem eu acredito, mas quero saber até que ponto ele pode ir.
— Espero que tenha gostado do jantar.
— Amei. — Dei um sorriso tão falso, que não sei como ela não descobriu.
Depois do entediante diálogo, Sicília ficou aqui procurando conversa fiada. Até que, não sei como, caímos no termo família versus amor.
— Me lembro quando conheci o meu marido, de cara a minha família não aceitou, na verdade, eles só vieram aceitar quando já estávamos casados. Acho que eles queriam me proteger, entende? — Encarou-me buscando compreensão.
— Sim. Sei como é difícil mudar completamente de classe social. — Ela só pode ser maluca em casar-se com alguém com a classe inferior à dela.
— Não estou falando do dinheiro, nessa questão posso trabalhar e me sustentar — disse orgulhosa.
Querida você está ruim em, como você vai se sustentar, se nem um peru sabe fazer?
— Eles disseram que o Alan só está comigo pelo dinheiro, mas sei que não é verdade. — Abaixou a cabeça pendurando-se na grade.
Querida, claro que ele está com você pelo dinheiro, não há amor quando tem grana envolvida no meio.
— Concordo com sua família. — Esbanjei convicção.
— O quê? — Levantou a cabeça parecendo que tinha ouvido o maior horror de sua vida.
— Olhe, o bem mais precioso que temos é a família, e o melhor a se fazer não é trocar ela por qualquer homem. — Tentei esbanjar a minha opinião.
— Ei, você não sabe o que está falando. Posso muito bem amar uma pessoa e ainda conviver com minha família, isso não me impossibilita. O triste é uma pessoa ter um pensamento medíocre que um ser humano não pode amar você por quem você é, sem ter dinheiro envolvido. Para falar a verdade, quando conheci o amor de minha vida, estava indo para mais uma noitada. Ele me ensinou que sou mais que qualquer bebida alcoólica, farra, orgias, tudo isso não vai acrescentar na minha vida, se tornará mais um momento e acabou. Posso me divertir sem matar a minha saúde, tenho o direito de ser feliz amando alguém. A vida não me proibiu de amar, o amor é bom, é lindo, só basta você saber a quem amar. — Deu um sorriso e falou que iria conversar com os outros convidados.
Poxa! Sinceramente não esperava por um discurso desses. Acredito que ela está na profissão errada, terapeuta é muito mais a sua praia. — Ri comigo mesma e me joguei no pequeno sofá de linho.
Após um tempo nem percebi que peguei no sono, só acordei com Alexandre me balançando dizendo que seu pai está de saída.
Finalmente essa noite terminou, e preciso urgentemente de uma cama. O caminho para casa foi tranquilo, por incrível que pareça. Fiz Tiana dormir e subi para o meu quarto, quis dizer o aposento de Ryan.
Depois de um delicioso banho de banheira, me joguei na cama desejando 12 horas de sono.
— Então, já tem a minha resposta? — Pulou na cama do meu lado.
Ô Praga! Nem um minuto de descanso uma pessoa tem o direito de ter?
— Agora não é hora de conversar, quero dormir. — Me virei para o outro lado da cama.
— É hora sim. — Passou por cima de mim, ficando na minha frente.
Que saco, por que ele não me deixa em paz? O que ele quer? Me machucar? Pois, se for isso, vou dar um chute na varinha que ele chama de espada.
— O que faço com você? — Olhou para mim com os olhos brilhando.
O encarei sem entender, o que ele quer agora?
— Não entendi? — Tentei me afastar dele.
— Você não sai da minha cabeça, e por qual motivo não posso entrar na sua? — Ficou em cima de mim, apenas diminuindo o seu peso com os braços apoiados na cama.
— Você me assusta. — Caí na besteira de falar mais outra burrice.
— Sabe qual é razão de você estar assustada? — Aproximou-se mais de mim. — É porque você quer estar comigo também. — Diminuiu qualquer distância que tínhamos.
Porém, dessa vez não foi um beijo violento e nem desesperado, foi um calmo e, amoroso? Não sei o que nós dois estávamos transmitindo, mas é algo novo e bom. Nos separamos pela falta de ar, e ele me olhou com um sorriso belo e genuíno.
— Você é incrível, como ele teve coragem de te largar? — Soou parecendo está submerso em pensamentos.
— O quê? — Olhei para ele pasma.
Ai gente, amei escrever esse capítulo, espero que tenham gostado. Por isso, soltei outro logo em seguida, espero que votem e comentem. Até....
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top