Parte 2


As nuvens cobriram a lua novamente, deixando a praça um pouco mais escura. Ao ouvir a voz do ser que os espreitava, Rafael e Nayara se viraram assustados e o garoto quase deixou o vaso cair.

— Cuidado com isso, garoto. — Era um homem era alto, magro e vestia um casaco preto que cobria todo seu corpo. — Você não vai querer liberá-la assim.

Rafael se colocou na frente da amiga em uma tentativa débil de protegê-la. A garota achou o gesto engraçado, mas não conseguiu rir pois também estava apavorada com a presença do desconhecido.

— Quem é você? — Rafael perguntou.

Um breve silêncio precedeu a resposta.

— Só alguém que estava por perto... — Ele começou a caminhar em direção a eles. — E não pôde deixar de notar vocês dois. Nem o que estavam fazendo.

— Não chegue mais perto. — Rafael falou para o homem. — Nossos pais estão por perto e já estão vindo pra cá.

A fase saiu mais infantil do que ele pretendia.

— E eles lutam kung fu. — Nayara completou.

O homem quase sorriu.

— Interessante — disse, ainda caminhando em direção aos dois. — Mas kung fu não vai ajudar vocês agora.

As palavras fizeram um calafrio percorrer a espinha deles.

O homem tirou os olhos das duas crianças os direcionou para as sementes no chão. Depois desviou o olhar para os arredores da praça, como se procurasse alguma coisa. Como se quisesse ter certeza de que estavam sozinhos.

— Uma dúvida — ele começou —, o que vocês pretendem fazer com isso? — Apontou para o vaso nas mãos de Rafael.

Os dois se entreolharam. Abriram a boca, mas as palavras não saíram. Não tinham chegado nesta parte da discussão. Nem mesmo Nayara acreditava que o ritual realmente funcionaria.

— Levar para casa e decidir o que fazer amanhã — a garota finalmente disse, mais como pergunta do que afirmação.

O homem parou e lançou um olhar inconformado sobre eles.

— Não acho que seja uma boa ideia — disse, voltando a caminhar.

Ele os alcançaria em breve e os dois ainda não tinham decidido o que fazer. Rafael estava com mais medo agora do que durante o ritual. Nayara pensou em correr, mas sabia que Rafael era do tipo que congelava nessas situações. Já vira acontecer antes. E ela nunca abandonaria o amigo ali.

Ela pensou em usar o takuapu para se defender, mas a ideia era ridícula. Conseguiria no máximo acertar o ombro do homem, e ela duvidava que isso o faria algum mal. Ele parecia ser forte e bem que poderia estar armado. Mas com uma arma de verdade e não com um pedaço de bambu.

"E se eu fizer o chamado?" a ideia surgiu em sua mente. Ela sabia como fazê-lo, mas não tinha certeza do que aconteceria quando o fizesse. Olhou rapidamente para o céu e viu que a lua estava coberta. Não era o ideal, mas o livro dizia que ainda sim era possível. O problema seria o tempo para proferir as palavras. Caso o homem se apressasse, chegaria nos dois antes dela terminar. "Mas talvez seja nossa única opção."

Antes que pudesse pensar mais no assunto, foi atingida por outra pergunta.

— Onde vocês aprenderam o ritual?

A garota hesitou antes de responder.

— Em um livro.

O homem ainda estava em movimento e cada passo que dava significava menos tempo para ela agir.

— E se importaria em me dizer o nome dele?

Nayara havia encontrado o livro no Centro Cultural duas semanas atrás. Ele estava escondido na prateleira mais baixa da categoria "Artes e Recreação". Mas ela tinha um radar natural para coisas "fora do comum", e viu de longe que ele não pertencia ao lugar. Bateu o olho no título e soube que TINHA que lê-lo. Após alguns capítulos, decidiu colocar em prática o que havia aprendido.

— "Deuses Tupi e Rituais de Invocação."

Rafael olhou feio para ela a repreendendo por responder. Eles não deveriam dar mais corda para o desconhecido. Mas alguma coisa ali chamou a atenção de Nayara. Um homem aparece no meio da noite e começa a fazer perguntas sobre rituais de invocação. Um alerta acendeu em sua cabeça, e não era um alerta de perigo. "Ele não está aqui por acaso," ela pensou, "Talvez ele seja..."

— Um clássico. — O homem disse. — Mas vocês não deveriam acreditar em tudo o que leem nos livros.

A garota achou o comentário divertido. Era justamente o oposto do que sua mãe costumava dizer. Isso e "não converse com estranhos." O homem já estava a alguns passos de distância deles e nada que fizessem o livrariam do destino que os aguardava. Rafael fechou o olho. Nayara prendeu a respiração e torceu para que sua intuição estivesse certa. O homem então passou por eles.

O alívio foi palpável.

— Você ainda não nos disse por que está aqui. — O medo de Nayara dera lugar à curiosidade.

O desconhecido observava atentamente o ambiente ao redor.

— Existem alguns perigos em fazer esse tipo de invocação. — Apontou as sementes no chão. — Quando se abre uma passagem para outro plano, coisas indesejadas podem ser atraídas. É claro que isso pode ser evitado. Uma pedra Jaspe ou Olho de Tigre, por exemplo, já seriam suficientes. Você saberia disso se tivesse lido o livro até o final. Mas você não fez isso, fez?

— Sim — a garota respondeu de imediato. — Bom, quase até o final. — Recebeu um olhar repreensor do amigo.

— Você me perguntou por que eu estou aqui, garoto — o homem continuou. — E eu não menti para vocês. Por sorte, estava caminhando na região e senti a alteração nos planos causada pela brincadeira irresponsável de vocês. Acontece que da mesma forma que eu encontrei vocês, outros também podem fazê-lo.

— Outros? — os dois perguntaram juntos.

— Espíritos.

Rafael gemeu. O coração de Nayara pulou de entusiasmo e medo.

— E por que eles iriam querer nos encontrar? — o garoto perguntou em dúvida se realmente queria saber a resposta.

O homem olhou para os dois, mas não respondeu.

— Então você é um matador de espíritos? — Nayara perguntou.

— Não se pode matar um espírito, garota. Temos que espantá-los para que voltem ao lugar de onde vieram. Está no capítulo treze do livro.

— Eu ia ler esse hoje à noite — ela disse com um sorriso sem graça.

— Tenho certeza de que iria.

O vento começou a soprar mais forte e o ar ficou mais gelado. Pôde-se ouvir o bater das asas dos pássaros deixando as árvores e indo para bem longe dali. Algo havia mudado e Rafael foi quem a viu primeiro. Ele apontou o dedo trêmulo para a criatura que os espreitava do outro lado do parque. Ela tinha uma pele azul celeste. Os olhos amarelos fixos neles.

— Uma onça? — Nayara disse.

— Uma onça-celeste. — O homem a corrigiu com a voz tensa. Ele retirou de sua capa um objeto de madeira que parecia um tacape. Tinha meio metro de comprimento e alguns símbolos entalhados ao longo do corpo. — Se preparem, esta é uma das grandes.

— Pelo menos é só uma — a garota soltou com um leve tom otimista.

Uma segunda onça-celeste apareceu na extremidade oposta da primeira. Nayara sentiu os olhares do amigo e do desconhecido a condenando.

— Ouçam bem, vocês dois — o homem começou. — Elas irão nos atacar e eu farei com que elas desviem. Vocês só têm que ficar atrás de mim. Façam o que for, não saiam de perto de mim, entenderam?

Os dois confirmaram com a cabeça. Apesar das poucas palavras, eles sentiram seu peso.

— É a primeira vez que encontro duas onças-celestes... — A voz do homem falhou pela primeira vez — Pode ser complicado espantá-las. Se por acaso eu não conseguir... — O homem parou sua frase no meio, olhando para os dois ao seu lado.

— Fugimos o mais rápido que pudermos? — Nayara perguntou, sorrindo nervosamente.

O homem balançou a cabeça.

— Só torçam para que eu consiga.

A primeira onça-celeste soltou um som bestial e avançou em direção a eles. O homem tomou posição de luta com a arma em mãos e começou a proferir algumas palavras. Pareciam ser da mesma língua que Nayara havia usado em seu ritual. O espírito os alcançou rápido e pulou para dar seu bote. O homem balançou o tacape e no último momento acertou a onça, fazendo com que ela se transformasse numa bola de luz azul e voasse para o outro lado da praça. Ao atingir o chão, o espírito retomou seu corpo original.

"Foi isso que ele quis dizer com fazer elas desviarem," pensou Nayara.

A segunda onça não perdeu tempo e atacou também. O homem repetiu as palavras e o movimento e ela foi jogada para longe assim como a primeira. Os ataques se repetiram uma, duas, três vezes. A visão daquela batalha era algo que tanto Rafael quanto Nayara só haviam visto em filmes ou em seus pensamentos mais loucos. As luzes, a velocidade, o perigo, tudo ali era... mágico. Não fosse pela iminência da morte sentida na pele a cada ataque das onças, poderiam jurar que estavam sonhando.

— Garota, por acaso você leu a parte do livro sobre o chamado? — A pergunta do homem pegou Nayara de surpresa.

Ela fez que sim com a cabeça.

— Após a invocação, a entidade irá responder na língua do xamã que a invocou. — Ela não sabia por que tinha dito aquilo, mas estava nervosa e as palavras saíram de sua boca.

— E se lembra das palavras?

Nayara balançou a cabeça novamente.

— Ótimo, porque vou precisar da sua ajuda.

Uma das onças atacou novamente. O homem fez o movimento usual e a onça foi jogada para longe. Desta vez ele caiu de joelhos, respirando pesadamente. Foi então que Nayara e Rafael perceberam o quão cansado ele estava. Também se deram conta que a distância que as onças eram jogadas estava diminuindo.

— E o que eu faço? — a garota perguntou rapidamente.

— Apenas diga as palavras — o homem falou ofegante. — E quando a lua aparecer, espere o meu sinal e faça o chamado. E você... — Ele olhou para Rafael — Retire a tampa na hora certa e cubra os olhos.

"De novo essa história de hora certa," Rafael pensou, mas não teve tempo de reclamar porque mais um ataque teve início. O homem se levantou e repetiu o movimento com o tacape. Desta vez a onça foi lançada a apenas alguns metros de onde eles estavam.

Nayara se pôs em frente ao amigo começou logo o ritual.

— Deusa da lua, peço sua luz — ela disse.

Como se os espíritos entendessem o que a garota começara a fazer, eles rugiram alto. O som foi ensurdecedor e sobrenatural.

— Deusa da lua, peço seu poder. — Nayara não se intimidou.

Os olhos amarelos das onças se cruzaram, e elas pararam por uma fração de segundo, como se estivessem se comunicando. Ao invés de atacar novamente, como estavam fazendo, começaram a rodear suas presas. Preparando um avanço em conjunto. Um ataque final.

— Deusa da lua, peço que me proteja. — A garota manteve a voz firme. Agora só faltava a última frase do chamado, mas teria tempo suficiente?

Nayara esperava o sinal do homem. O homem esperava a lua. E Rafael não sabia direito o que esperar. As onças rugiram novamente e se puseram a correr em direção a eles. Mas neste momento luz da lua iluminou novamente a praça. A nuvem havia passado.

— Agora! — O homem deu o sinal.

— Peço sua presença — a garota gritou —, DEUSA JACI!

Rafael retirou a tampa do vaso e cobriu os olhos. Uma luz branca avassaladora tomou conta do lugar. O chão, as árvores e até mesmo o ar. Tudo virou luz. Mesmo com os olhos cobertos, Rafael os sentiu arder. Nayara também teve os olhos ofuscados, mas de algum modo pôde ver o que acontecia ali.

O homem bateu sua arma de madeira no chão e disse ele mesmo o nome da deusa. Nayara não sabia explicar como, mas era como se a própria lua estivesse ali, os protegendo.

As onças pararam e emitiram um som estridente que fez o coração dela tremer. Mas a lua foi mais forte. Os espíritos desistiram e desapareceram na escuridão da mesma maneira que haviam chegado. O corpo de Rafael foi jogado para longe, o homem caiu no chão e Nayara desmaiou.

Sem saber quanto tempo havia se passado, ela foi acordada pelo ser até então desconhecido no início da noite, mas que salvara a vida dela e do amigo. Sua cabeça doía e seus olhos estavam embaçados. "Estou fraca," pensou "assim como ele ficou."

— Elas foram embora? — Foram as primeiras palavras da garota.

— Sim — o homem respondeu, já de pé ao seu lado.

Ele parecia estar recuperado, mas Nayara sabia que na verdade estava exausto.

— Eu diria para você e seu namorado se esquecerem de tudo que aconteceu nesta noite e passarem o resto da vida como pessoas normais — ele disse enquanto guardava a arma de madeira de volta no casaco. — Mas algo me diz que você não vai me ouvir e vai tentar algo parecido na próxima lua cheia.

A garota pensou em contestá-lo, mas no fundo sabia que ele dizia a verdade. Com exceção da parte de Rafael ser seu namorado.

O homem continuou:

— Então antes de fazer alguma coisa estúpida novamente, vá até este lugar... — Ele entregou um cartão à Nayara. — E diga que eu a enviei.

Nayara pegou o cartão e leu o endereço escrito nele: Rua do Rosário, 17.

— Mas qual é o seu... — Ela levantou a cabeça para olhar para o homem, mas ele não estava mais lá. — Nome?

A praça estava novamente silenciosa. Não fosse pelas memórias, não haveria nenhum sinal do que acabara de acontecer ali.

— Ahhh. — Rafael gemeu esboçando um movimento.

Nayara correu até ele.

— Você tá bem?

— Acho que sim. — Ele levou a mão à cabeça. — Mas minha cabeça tá doendo.

A garota ajudou o amigo a se levantar.

— Deu certo? — Rafael perguntou. — Elas foram embora?

— Claro que sim. — Ela sorriu. — Eu te falei que ficaria tudo bem.

Os dois se abraçaram num gesto inconsciente.

— Mas tem um detalhe. — Nayara colocou a mão no queixo e fingiu uma falsa tristeza no rosto. — O homem disse que temos que estar nesse endereço na semana que vem. — Ela mostrou o cartão para o amigo.

Ele fez uma cara de derrota.

— É sério?

— Sim, ou as onças podem voltar — disse balançando a cabeça. — Foi o que ele falou.

— Acho que... não temos opção então.

A garota encolheu os ombros.

— Acho que não. — Foi difícil esconder a animação para a próxima aventura. — Mas você se saiu bem, sabia? Soube exatamente a hora de fazer as coisas.

O garoto sorriu com o elogio.

— Obrigado.

— Mas agora falando sério... — Nayara colocou a mão no ombro do amigo. — Qual seu dinossauro preferido?

— Cala a boca.

Eles riram e foram para casa.

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