Epílogo

Finalmente estou concluindo mais uma história.
Primeiramente, quero agradecer a todos que me acompanharam até o final, que viveram e sentiram cada emoção que essa história trouxe! Sou muito feliz por ter cada um de vocês na minha vida, e eu não esqueço quem me apoia ❤️

Espero que gostem desse epílogo, que esse final seja capaz de aquecer o coração de vocês ❤️

{ Exceto a morte do Rômulo, aquilo destroçou meu coração em vários pedaços }

Boa leitura ✨

No dia do funeral do Rômulo, dois dias depois daquele pesadelo, o dia amanheceu cinza e triste, com aquela frente fria, com certeza viria uma tempestade mais tarde. Eu estava no meu quarto, na minha casa — não queria ter deixado o Hugo sozinho nesse momento, mas ele mesmo insistiu que eu viesse. Talvez ele só quisesse ficar sozinho —, eu me olhava no espelho e via todos aqueles hematomas no meu rosto, estavam horríveis e muito longe de sumirem. Peguei mais um band-eit na gaveta e coloquei no ferimento da testa. Ainda latejava. Por um momento, lembrei de Erick, do momento exato em que ele se entregou para a polícia e de como não desistiu mesmo eu implorando. Se ele me amava, por que me deixou? Ele prometeu nunca mais me deixar, mas fez exatamente o contrário.

fiz isso por nós dois”. Por nós dois? Por que se entregar para a polícia seria o melhor para nós dois? Ele não vê que isso só vai piorar tudo? Meu deus, ele acabaria morrendo na prisão. É isso que acontece com os bandidos, eles morrem na prisão da maneira mais dolorosa possível.

E para piorar a polícia me chamou para depor. Elas me perguntaram sobre o Erick e se eu sabia sobre os esquemas dele, ou se eu, de alguma forma, estava metido nisso.

Saí do meus devaneios quando o meu pai bateu na porta do meu quarto, chamando minha atenção. Para minha segurança, palavras dele, ele devia ficar aqui comigo.

— Vamos, tá na hora. — ele disse, sorrindo. Eu sei que ele queria cuidar de mim, mas eu ainda estava magoado, mesmo que eu não pensasse muito naquilo no momento. — Tem certeza que não quer que eu vá com vocês?

— Não pai, não precisa. — falei. — De verdade. Eu na verdade nem queria voltar lá, mas eu estou fazendo isso pelo Hugo. Tudo que eu queria nesse momento era esquecer que toda essa merda aconteceu.

De repente, meu pai estava me abraçando. Eu queria chorar, mas me segurei. Ele apertou minha bochecha e falou:

— Você é o garoto mais forte que eu conheço. — ele sorriu.

Eu discordo.

— Acho melhor irmos.

Falei, forçando um sorriso e saindo do quarto.

***

— A polícia veio me fazer perguntas. — Hugo falou, olhando para o chão. Ele vestia um terno preto e seus cabelos estavam envoltos por um turbante.

Já estávamos no morro, faltava pouco para chegar no local do funeral. Hugo quis ir caminhando, assim ele teria tempo pra processar tudo até lá. Eu nunca sabia o que dizer, ou especificamente como dizer, que eu o entendia. Erick poderia ter se entregado, mas ainda estava vivo.

— O que eles queriam? — falei, chutando uma caixa velha que estava no meu caminho.

— Eles perguntaram sobre o Rômulo, se eu sabia sobre as operações dele ou se eu estava de alguma forma ligado a elas.

— E o que você respondeu?

— Nada. Eu não sei de absolutamente nada. — ele disse. — Eles não se importam com ele, não se importam com ninguém.

— Eles também me chamaram pra depor... eu só não sabia o que dizer, só falei que não sabia de nada e que eu não tinha nenhum envolvimento com as coisas deles... Fiquei com muito medo de ser preso.

Ficamos em silêncio em todo resto do percurso, de vez enquanto eu olhava ao redor, na falha tentativa de vê-lo em algum canto daquele morro, me olhando e sorrindo. Mas eu sabia mais que ninguém que ele não iria mais voltar.

Ao longe, avistamos vários carros em frente a antiga casa de Erick. Voltar lá me trouxe lembranças de quando eu tive momentos perfeitos ao lado dele. Aquela casa tinha tanta história para contar se ela um dia falasse. Mas nesse dia, ela estava triste e vazia, diga-se de passagem. Erick não estava lá, muito menos o Rômulo, não dá forma que queríamos pelo menos.

— Você tá pronto? — perguntei.

— Não. — ele disse. — Acho que nunca vou estar.

Assenti. Na frente do portão tinha dois capangas do Erick, eles nos reconheceram e permitiu nossa entrada. Logo ao passar pelo portão, vimos várias pessoas de preto. Olhei para o Hugo e peguei na sua mão, para que ele entendesse que eu estava ali, ao lado dele. E eu não iria para lugar algum.

— Quanta gente. — falei, quando finalmente chegamos ao centro, onde todos olharam para nós dois. Já deviam estar sabendo que estivemos lá quando ele morreu, que eu estive lá quando o Erick se entregou. Alguns apenas deram um aceno de cabeça, outros apertaram nossas mãos.

E lá estava ele, dentro daquele caixão fechado e coberto por rosas brancas. Hugo ficou imóvel, olhando fixamente para o caixão. Devia estar sendo difícil para ele. Com lágrimas escorrendo pelo seu rosto, ele caminhou lentamente até o caixão e tocou na borda do mesmo.

O padre que até então estava parado, veio até ele, pôs a mão no seu ombro e perguntou, quase num sussurro:

— Gostaria de dizer algumas palavras, meu filho?

Ele afirmou com a cabeça e esboçou um sorriso, mas com certeza não era um sorriso de felicidade.

Ele se virou para todos nós e depois de olhar para todos os presentes, começou:

— O Rômulo foi o cara mais incrível que eu conheci. Ele tinha um poder de me fazer o cara mais bonito e único do mundo, de me fazer sentir o cara mais feliz... — ele começou a chorar —e mais sortudo... Ele sem dúvidas teve uma vida muito curta. Eu sinto tanto por ele não ter tido a oportunidade de viver da maneira certa. Ele era um garoto tão bom, apesar de tudo.

Ele deu uma pausa.

— A gente queria morar no campo. — agora ele sorria, como se tivesse lembrando de todos os momentos bons que viveu com ele. — Falávamos disso o tempo todo. Ele amava gatos, disse que queria dois quando a gente se mudasse. Eu achava as ideias dele absurdas porque eu nunca me imaginei morando com alguém, ainda mais no campo. — ele olhou para mim, acenei com a cabeça, como forma de encorajamento. — Mas quando eu vi ele lá, a beira da morte, sangrando... Eu percebi que eu não poderia perder mais tempo. Que ele era o homem que eu amava. E dói tanto pensar que nunca vou poder ter isso ao lado dele. Dói não ter mais ele aqui comigo. Rômulo, onde estiver, saiba que eu te amei... Como eu nunca amei ninguém.

Logo após concluir seu elogio fúnebre, Hugo ficou alguns minutos em total silêncio, assim como todos ao redor do caixão. Quando finalmente abri os olhos, Hugo já estava ao meu lado. Olhei para ele e sorri como forma de conforto, meio relutante, ele sorriu de volta. Peguei na sua mão e encostei minha cabeça em seu ombro.

— Você foi muito corajoso. — falei.

— Você acha... Acha que ele está no inferno? — ele perguntou. — A minha tia estava falando sobre isso... Disse que ele estava no inferno.

— Se ele estar no inferno eu não sei, mas gosto de pensar que ele está em um lugar bem melhor que esse. Apesar de tudo que ele fez. — respondi, mesmo sem saber se essa era a resposta que ele queria ouvir.

Ele não falou mais nada, apenas suspirou e continuou olhando para o padre falando palavras de conforto. Dessa vez, ele encostou sua cabeça em meu ombro e disse:

— Eu te amo. Obrigado por ser um amigo tão bom. Não sei o que eu faria sem você. — ele disse.

— Eu também te amo.

Não só como a minha atenção, mas como a de todos no funeral foi chamada quando o meu celular começou a tocar. E então — tarde demais — percebi que tinha esquecido de pôr no silencioso. Peguei imediatamente o mesmo no meu bolso e vi a foto do Petrus na tela.

— Desculpa... — falei a todos, me afastando um pouco e atendendo o celular logo em seguida. — Petrus, o que houve?

— Jason... sua mãe...

— O que aconteceu com ela? Ela tá bem?

— Não, ela está ótima. Ela acordou.

Pela primeira vez desde aquele pesadelo, eu senti alegria. Minha mãe finalmente tinha acordado, ela estava viva.

***

Quando cheguei no hospital, corri por aqueles corredores vazios até encontrar o quarto que minha mãe residia. Enfim, avistei o número 237 logo a frente. Reduzi meus passos e quando cheguei perto da porta, respirei fundo três vezes e abri a mesma. Quando entrei no quarto, minha mãe estava conversando alguma coisa com Petrus e meu pai, e ao me ver, ela abriu um sorriso. Comecei a chorar e corri para abraçá-la.

— Aí meu deus, eu tô tão feliz que você acordou. Eu não ia saber o que fazer caso você me deixasse. Meu deus, eu te amo tanto. — falei, abraçando ela mais forte e por um momento esqueci que ela estava com  aparelhos.

— Calma, meu amor — ela disse, entre risadas. Que saudade daquela risada. — Eu tô bem. Eu não vou a lugar algum, eu prometo.

— Eu achei que fosse perder você pra sempre.

— Você não vai me perder. Eu já vou começar minha quimioterapia semana que vem, eu vou ficar bem. — ela disse, beijando minha mão que estava entrelaçada a sua. — E querido... Petrus me contou o que aconteceu. Com você, com o Hugo e os pais dele... E você sabe, com o Erick. Como você está?

— Eu não sei. Acho que estou tentando ao máximo seguir em frente. Mas lembrar dele e do que podíamos ter juntos, dói tanto. — eu disse, tentando ao máximo não desabar.

— Vai ficar tudo bem. Vamos dá um jeito. — ela disse, sorrindo. — Tente entendê-lo, acho que ele fez isso por vocês.

— Como, mãe? Como se entregar e correr risco morrer na prisão é por nós? Será... Será que ele não se importa com meus sentimentos? Enfim — eu falei, olhando para meus pés e soltando um pigarro — e você,  quando vai voltar pra casa?

— Talvez em uma semana... Até lá, Petrus vai organizar o casamento. Quer dizer, não vai ser nada mirabolante, mas quero me casar o quanto antes. A vida é curta demais para esperar fazer o que te faz feliz. — ela disse, olhando para Petrus, que sorriu.

Meu pai, que estava calado desde que cheguei, me chamou:

— Jason, preciso falar com você. — ele falou. — podemos conversar lá fora?

— Agora? — olhei para minha mãe e ela assentiu. — Tá bem. Vamos.

Ele abriu a porta para eu passar e passou em seguida. Fiquei parado, esperando ele dizer o que queria, mas ele parecia relutante.

— Pai... o que era? — apressei.

— Bom... eu sinto muito pelo o que aconteceu com o Erick... — ele olhou para suas mãos e em seguida para mim. — O que eu estou tentando falar é que... Se você quiser que eu represente ele, sabe, ele vai precisar de um advogado...  Sei que errei muito, mas quero corrigir cada erro meu. Me deixe fazer isso. Por favor.

Eu não sabia o que falar nem o que pensar, que meu pai estava se sentindo culpado eu já sabia, mas ao ponto de ser o advogado do Erick eu não imaginei. Fiquei calado durante um tempo, até que ele quebrou o silêncio.

— O que acha? — ele disse — podemos ir falar com ele, se você quiser.

— Eu não quero ver ele... Eu não tô pronto, entende? Mas... talvez ele queira um advogado, eu não sei. Pai, eu não quero pensar no Erick agora, eu só quero passar um tempo com minha mãe.

— Tá bom, tá certo. Vamos voltar...

                                ***

Um mês se passou desde que minha mãe acordou, e os preparativos para o seu casamento estavam a todo vapor. Petrus era o que mais se empenhava em deixar tudo muito lindo para minha mãe, e claro, para ele também. Eu não imaginava ver minha mãe casando novamente com um cara tão cedo, e saber que isso iria acontecer de fato e que o homem que ela ia se casar amava ela, me deixava feliz.

— Pelo amor, cuidado com estas flores... E você, ora, não se dobra toalha desta maneira. Santo Deus. — Petrus disse, enquanto anotava algumas coisas em um caderno.

— Ele tá se esforçando muito... Acho isso muito fofo da parte dele. — falei, enquanto colocava os talheres nas mesas. Hugo estava me ajudando.

— Ou ele se esforça e faz tudo bonito ou a tia Luiza acaba com a raça dele — ele disse, e então rimos. — A verdade é que ele ama muito ela.

— É, ela é muito sortuda por ter alguém assim ao lado dela. — falei, e o inevitável aconteceu. Lembrei do Erick.

Desde o acontecido de um mês atrás eu nunca fui visitar o Erick na prisão, talvez pelo simples fato de ter medo de como eu iria ficar depois da visita ou de, tragicamente, ele está morto. Mas se ele estivesse morto eu já teria sido informado. Eu só não estava pronto para vê-lo detrás daquele vidro, provavelmente acabado. Ainda doía o fato de eu não poder tê-lo aqui comigo. Ainda doía o fato dele ter me abandonado.

— Ei, tá tudo bem? — Hugo perguntou, me analisando.

— Ah, tá sim. Eu só estava voando alto aqui. Nada demais.

— Jason... você nem pensa em ir visitá-lo? Sabe, vocês dois merecem.

— Merecemos? Merecemos que eu tenha que vê-lo apenas detrás de um vidro ou que eu não possa dar um abraço nele? Não, amigo. Acho que não.

— Você nunca vai perdoar ele, não é?

— Eu já perdoei uma vez, dessa vez ele simplesmente provou que não liga para mim.

— Desculpa, Jason, mas não é bem assim. Ele simplesmente correu risco de vida para te salvar, salvar todos nós. Fale o que quiser; que ele é um traidor, um mentiroso, mas nunca diga que ele não se importa com você. — ele disse — independente de tudo, ele merece pelo menos uma visita. Só pra ele saber que você também ainda se importa com ele.

Depois de duas palmadinhas no meu ombro, Hugo apenas saiu, me deixando reflexivo. Se o Hugo era ou não bom com as palavras eu não sabia, mas com certeza ele tinha aberto meus olhos. Sim, foi rápido assim. Talvez eu tivesse realmente mudado.

Eu tinha que ir vê-lo, mesmo que fosse me doer, mesmo que fosse me afetar pelo resto da minha vida.

— Você tá certo, porra.

— Falando sozinho? — meu pai apareceu de repente, sorrindo.

— Não, eu só estava pensando alto. — eu iria sair, mas pensei que talvez eu pudesse pedir ajuda — Pai, você quer me levar na prisão?

— Você vai...  É Isso mesmo? — falou, meio confuso.

— Sim, eu não quero ir de ônibus e bem, o Erick vai precisar de um advogado — ao ouvir isso ele sorriu.

...

Estávamos em frente da penitenciária, onde o Erick estava. Eu sabia que ficaria nervoso e com medo, mas não tanto. Olhei para meu pai e ele sorriu, como uma forma de conforto.

— Você está bem? Se quiser voltar...

— Não, pai. Preciso fazer isso. Não posso fugir disso pra sempre — ponderei.

— O.k.

Respirei fundo mais uma vez e então comecei a caminhar rumo a portão de entrada, meu pai falou algo que não entendi muito bem com os guardas e então conseguimos entrar. Depois de muita conversa e revistas, conseguimos finalmente a visita. O policial barbudo nos encaminhou até a ala de visitas, onde outras pessoas visitavam os seus parentes, amigos ou qualquer que fosse.

— Fica ali. Vamos buscá-lo. — o policial certificou, nos olhando com cara feia. Se era intencional ou não, ele sabia ser assustador.

— Pode me trazer um café, por favor? — meu pai se atreveu a pedir.

— Claro, senhor. — ele assentiu e então saiu sem dizer mais nada.

Caminhei lentamente até onde ele me indicou e então sentei numa cadeira, olhando para o vidro que separa o detento do visitante. Achei que isso só fosse coisa de novela ou série, mas era real. É, eu realmente nunca imaginei passar por isso.

Meu coração disparou ao vê-lo se aproximando, suas mãos algemadas e seu olhar cabisbaixo. Ele estava abatido, tinha marcas vermelhas em seu rosto e seus braços estavam feridos. Assim que nossos olhares se encontram ele sorriu, provavelmente a única gota de felicidade que ele sentiu em meses. Não conseguia esboçar nenhuma reação, eu estava paralisado .

— Aqui está seu café, senhor. — meu pai pegou seu café e agradeceu o policial.

Privilégio de ser branco e advogado.

— Filho... — olhei para meu pai — Vou estar te esperando lá fora. Boa sorte.

Assenti.

Quando voltei a olhar para o vidro, o Erick já estava se sentando do outro lado. Eu não sabia o que falar, não sabia se chorava ou se eu o xingava até dizer chega. Talvez as duas coisas.

Peguei aquela espécie de telefone no gancho ao meu lado e coloquei no ouvido, tudo lentamente. Evitei olhar Erick nos olhos, talvez porque estivesse com medo de chorar ou me arrepender de ter vindo .

— Jason... Você veio... — ele começou, sua voz rouca, embargada. — não achei que viria, na real eu pensei que você nunca mais ia querer me ver. E com razão.

— Não dá pra fugir do inevitável, Erick. — falei, seco.

Finalmente olhei nos olhos, pronto para dizer o que eu queria. Era mais nítido o quanto seu rosto estava desfigurado, era doloroso vê-lo daquele jeito, naquela situação. Mesmo imaginando que isso um dia iria acontecer com ele. Mas, eu não sabia que iria me doer tanto assim.

— Você tem razão. — ele sorriu, mas vendo que eu não estava sorrindo, ele parou.

— Eu só queria saber porquê.  Por que você fez isso comigo? — indaguei.

— Foi preciso. Era a única maneira de podermos ser feliz no futuro.

— Como ser feliz com você na cadeia Erick? E se um dia você for mesmo sair daqui, é impossível saber se vai ser com vida ou não. Eu não quero te perder porra, e ao decidi vir pra essa merda, você nem sequer pensou no que podia acontecer.

— Eu tenho que sair dessa vida, Jason. Tenho que ser feliz mundo a fora, fazendo o que eu gosto. Ao seu lado. Eu precisei fazer isso porque foi a única forma de garantir que vamos viver felizes e em paz. — ele disse, me olhando profundamente. Eu queria gritar. — Eu sinto muito por você está sofrendo, mas eu não me arrependo.

Fiquei em silêncio, sem saber o que dizer nem pensar, Erick estava certo, e claro que eu queria mais que ninguém poder viver em paz com ele e formar minha própria família. Mas, eu também tinha medo do que poderia acontecer até lá. E se eu não o amar mais? E se ele não me amar?

— Você tá horrível — falei, não me segurando e rindo. Ele também sorriu. — Eu tô tão feliz em te ver.

— Eu queria te tocar, te beijar... — ponderou ele, colocando a mão no vidro. É bem clichê, mas coloquei minha mão na altura da dele. — Eu sinto tanto a sua falta.

— Eu também sinto... Meu deus, como eu sinto. — falei, chorando. — Eu vou vim te visitar mais vezes... Todos os dias.

— Jason...

— E meu pai vai te representar, que ele é um ótimo advogado ninguém pode negar... Você ainda gosta de lasanha? Vou pedir pra minha mãe fazer pra você.

— Eu não quero que você venha mais me visitar. — manisfestou ele, fazendo eu me calar no mesmo instante. O que ele queria dizer com isso?

— O que? Por que isso agora? O que quer dizer com isso?

— Eu só quero o seu bem, Jason. E eu nunca vou deixar que você venha todos os dias, meses ou talvez anos me ver, ver como eu tô horrível. Jason, as coisas não são fáceis aqui. E eu não quero que todos os dias eu me sinta um lixo perto de você.

— Mas eu não me importo...

— Mas eu me importo, porra. — murmurou. — Eu me importo, tá legal? Eu me sinto culpado por você está sofrendo, vendo você se sentir triste por mim, por nós dois... pelo menos longe eu vou sentir menos culpa.

 — Isso não tem cabimento... Você não pode me manter longe Erick. Não é coerente, não tem lógica.

— Por favor, só faz isso. — implorou, me olhando com mais intensidade. Senti um aperto no peito e falta de ar. — Eu quero que siga em frente, quero faça faculdade, vá viver sua vida. Não é justo você parar sua vida por minha causa. Eu nunca me perdoaria por isso. Nunca.

— Eu... eu não tô acreditando. Vai se foder, Erick. VAI SE FODER. — as pessoas ao meu lado nos olharam assustadas. — eu não vou aguentar ficar longe de você, pelo amor de deus.

— E eu sinto muito por isso. Eu te amo tanto, Jason. Você é o amor da minha vida, a razão de eu querer mudar de vida. Nunca imaginei encontrar alguém eu fosse amar tanto.

— Ninguém que ama outra pessoa faz isso que você está fazendo comigo. — falei — Dói, Erick. Definitivamente.

— Nunca duvide do que eu sinto por você, Jason. Eu te amo...

E foi a única coisa que ele disse antes de chamar o quarda e novamente ser algemado. Eu estava chorando, meu peito doída e minhas mãos tremiam. O que fazer ali a diante? Ele não podia simplesmente me pedir para seguir em frente como se fosse a coisa mais fácil do mundo, porque não era.

— Então esse é o fim? De tudo? — me atrevi a perguntar, mesmo sabendo que resposta acabaria comigo.

— Nada é o fim para duas pessoas que se amam. Eu vou estar sempre com você, Jason. Todos os dias, meses... — ele olhou para baixo, e então soltou um pigarro — Nos vemos por aí.

Ele disse, quando na verdade ele queria dizer adeus, achando que talvez o "Nos vemos por aí" fosse amenizar a dor que eu estava sentindo.

Sem falar nada, nem sorrir nem esboçar reação alguma, me levantei lentamente, me virei e caminhei rumo a porta, eu sabia que ao passar por ela, eu nunca mais iria vê-lo. Nunca mais iria sentir seu cheiro, ver seu sorriso ou sentir seu toque em minha pele.

Respirei fundo e então abri a porta. Aceitando de vez o fim.

Meu pai me encarou do lado de fora, com receio de falar qualquer coisa.

— Acho melhor ir falar com ele. Eu vou para casa de Uber. — eu falei, ele apenas assentiu e não falou absolutamente nada.

                               
Lá fora, esperando o Uber, olhei uma última vez para penitenciária. A dor de saber que aquela seria a última vez que nos veríamos tomava conta de mim e eu queria gritar. Finalmente o Uber estava vindo, limpei uma lágrima que saía do meu olho contra minha vontade e respirei fundo.

— Você vai ficar bem. — falei a mim mesmo, em uma falha tentativa de me convencer que isso realmente iria acontecer.

                               ***

— Boa noite a todos! Estamos aqui hoje para celebrar as melhores coisas da vida, a confiança, a esperança, o companheirismo e o amor entre esse casal — começou o padre, olhando para todos os presentes, enquanto a sua frente estavam minha mãe em um vestido longo e branco,  com pérolas até a calda que se estendia uns 5 passos, um vel tão transparente que dava para ver seu sorriso estonteante enquanto olhava para seu noivo, que vestia um terno azul-marinho, gravata branca e um rosa pendurada no bolso da frente. —  Vocês foram convidados para compartilhar este momento com a Luíza Manuela de Sousa e com o Petrus de Montero e Silva porque são as pessoas mais importantes para eles. O respeito, a compreensão e o carinho que sustentam o relacionamento deles têm suas raízes no amor que todos vocês deram a este jovem casal. Por isso, é uma honra para os noivos contar com a sua presença, aqui, hoje — concluiu ele, sorrindo gentilmente.

Minha mãe olhou para onde Hugo, meu pai e eu estávamos e sorriu, sorri de volta e queria que ela visse que eu estava feliz por ela, que a felicidade dela sempre seria a minha felicidada.

— Eles escolheram um ao outro como sua família, e hoje estão celebrando o amor que já começou e que vai continuar crescendo ao longo dos anos. Pois o casamento é a união, é uma caminhada rumo a um futuro, que envolve abrir mão do que somos, separados, em prol de tudo o que podemos vir a ser, juntos.

— Quanta baboseira. Por que não começa logo a cerimônia? — resmungou meu pai, chamando minha atenção para ele.

— Ai, Mário, cala a boca! — disse Hugo, dando um tapa na mão do meu pai. — E você tá mais é com inveja, nunca vai casar assim de novo.

— Parem de brigar e prestem atenção, parecem duas crianças. — certifiquei, revirando os olhos.

— Nem vem, seu escroto...

Foi a última coisa que ouvi Hugo dizer antes de voltar a prestar a atenção no padre e nos noivos.

— Luíza  e Petrus, vocês já foram muitas coisas um do outro, amigos, companheiros, namorados, noivos. Agora, com as palavras que vocês estão prestes a trocar, vocês passarão para a próxima fase. Pois, com estes votos, vocês estarão dizendo ao mundo: “este é meu esposo”, “esta é minha esposa”. — disse ele — Petrus, é de livre e espontânea vontade que você aceita a Luíza como sua companheira em matrimônio?

Sem pensar duas vezes, Petrus respondeu:

— Sim, com toda certeza!

— Luíza, é de livre e espontânea vontade que você aceita o Petrus como seu companheiro em matrimônio?

— Sim. — ela disse, sorrindo.

Então, lentamente, ela colocou a aliança no dedo dele e ele fez a mesma coisa.

— Pode beijar a noiva — e com um beijo, eles finalmente estavam casados. Houve gritos e palmas dos convidados.

                               ***

Logo após a cerimônia, a festa estava linda, a decoradora que minha mãe contratou realmente fez um belo trabalho. Os convidados comiam e bebiam enquanto conversavam animadamente, e ao fundo tocava uma música lenta, talvez um instrumental de Thousand Years, típico de casamentos heterossexuais.

— Aqui está tão lindo... — disse Hugo, com uma voz fanhosa, enquanto olhava a decoração. Ele pegou uma flor do vaso de flores e cheirou. — Olha esse aroma...

Olhei ao redor, a procura do meu pai, não conversamos desde a visita ao Erick na prisão. Eu queria esquecer ele, parar de pensar nele a cada minuto, mas era muito difícil. Será que ele aceitou que meu pai o representasse? E se ele não tiver aceitado, ele vai passar o resto da vida lá?

— Jason, eu tô falando com você! — Hugo disse, mexendo a mão na frente do meu rosto. Voltei ao mundo real e então sorri sem graça. — Tá tudo bem? Você tá estranho desde que chegou da visita que você fez ao Erick, não fala quase nada, fica no mundo da lua... O que aconteceu? Eu sei que o fato de...

— Não aconteceu nada, amigo — falei. Eu me sentia mal por não ter  contado para ele sobre o que Erick me disse na prisão. Mas, não queria preocupar ninguém. Nem mesmo ele. — Eu juro.

— Você não me engana...

— Jason? — olhei para trás de onde estava vindo a voz e vi Luiz sorrindo. Salvo por ele, agora Hugo iria esquecer aquele assunto por um tempo.

— Luiz? Meu deus, que bom te ver! — falei sorrindo, indo abraça-lo — Como você está?

— Na caminhada. Olha, eu sinto muito não poder chegar a tempo da cerimônia, o trânsito estava horrível e o Rodrigo ainda parou para comprar comida. Onde está a tia? Nossa, ela tá muito feliz. Vi nos stories do Instagram, ela toda sorridente. E tá bonita, viu? — ele falava, animado.

— Não tem problema... O importante é que está aqui.

— Ah, olá, Hugo. Nem falei com você— ele disse, sorrindo. — Que cabeça essa minha.

— Relaxa, é bom ser invisível. — disse Hugo e então rimos. — como estão seus pais? E quimio?

— Sabe como é... Depois que eles se divorciaram as coisas ficaram um pouco estranhas, mas eles conseguem se tratar como gente quando estou na quimioterapia, que aliás está indo muito bem.

— Nossa, isso é muito bom. Fico feliz.

Ficamos conversando por algumas hora, o Rodrigo chegou logo depois, ele disse que as coisas estão complicadas na polícia, e também citou o fato do maior bandido do morro do alemão ter sido preso, o que me deixou mal.

Mas eles não demoraram muito e logo foram embora, eles iriam viajar no dia seguinte. Fiquei em silêncio durante muito tempo, o que chamou mais ainda a atenção do Hugo.

— Viu? Você tá estranho de novo! O que aconteceu, Jason? Aconteceu alguma coisa quando você foi visitar o Erick?

Não aguentei e desabei ali mesmo, abraçando Hugo tão forte que parecia que ele também iria embora. Chorei como se fosse uma criança, quase sufocando. Aquela dor era sufocante.

— Ele não vai mais voltar, Hugo... Eu nunca mais vou vê-lo... Eu... Eu não quero perder ele, Hugo. — falei, em meio ao choro.

— Não fala assim, amigo. Ele tá logo ali, pode não ser como você queria, mas pelo menos você vai estar olhando pra ele e vai saber eu ele ainda te ama.

— Não, você não tá entendendo... Ele disse que não quer que eu vá visitar ele na cadeia. Eu não entendo... Ele diz que me ama mas aje totalmente ao contrário. Como me afastar é melhor para nós dois? Eu não vou suportar, Hugo...

—  O tempo passa rápido, se for parar pra pensar. Logo logo ele sai.

— Não, Hugo. Não são dias, meses, horas... são anos! Pode ser 12 anos ou pena máxima. Eu tô com muito medo.

Ele me puxou para mais um abraço e então eu fiquei lá, chorando. A realidade estava começando a cair em cima da minha cabeça e quanto mais eu pensava cada vez mais ficava difícil. 

— Hugo, pode avisar pra mãe que vou sair um pouco? Vou andar um pouco. Pensar. — falei, depois de minutos em silêncio.

— Posso ir com você, se quiser.

— Não... Não precisa. Eu quero ficar sozinho. Só quero entender o que tá acontecendo.

— Entendo — ele sorriu, como forma de conforto. — Fica bem, tá?

Assenti e dei tchau para ele.

...

O bairro em que minha mãe estava fazendo o casamento era um pouco estranho, era parado demais. Mas isso não quer dizer que me incomodava, eu até gostava.

Coloquei meus fones e coloquei Atlantis, do Seafret para tocar.


Meus pensamentos logo começaram a tomar conta da minha cabeça, e todos eles estavam no Erick. Por que teve que ser assim? Podíamos ser felizes juntos de qualquer jeito. Iríamos alugar uma casa no campo, bem longe das pessoas, adotar três gatinhos e um pato. Seríamos só nós dois, vivendo nosso amor livre de preconceitos, julgamentos e olhares de pessoas frustadas.

Eu posso te beijar?”

“Eu te amo, Jason”

“Eu não quero mais que venha me visitar”

"viva sua vida”

Erick e eu poderíamos ter tudo. Eu só queria que tudo isso fosse um sonho, ao fechar meus olhos e reabri-los eu fosse finalmente acordar; e encontar o Erick deitado ao meu lado, dormindo como um anjo, enquanto eu o observo respirar lentamente. Ele está tão lindo, seus cabelos estão bagunçados, sua respiração é quente.

Então eu colocaria minhas mãos no seu rosto lentamente, sentindo sua pele macia contra meus dedos.

Mas, isso não iria acontecer. Ao abrir meus olhos, eu ainda estaria sozinho, caminhando em uma rua desconhecida e ouvindo música. Era a realidade, a dura e dolorosa realidade.

Eu amava o Erick, como nunca amei ninguém. Ele era o amor da minha vida. Mas alguns amores não foram feitos para ser vividos, e, naquele momento, eu devia aceitar, mesmo que isso fosse doer durante muito tempo.

Erick, por onde estiver, volte para casa.

      
Fim?

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top