39| Sentimentos confusos

Eu estava com muito ódio que nem vi quando tinha chegado em casa, cai na real quando o cara do Uber chamou minha atenção. Fiquei do lado de fora por alguns minutos e então resolvi entrar. Eu estava decepcionado, com raiva, com nojo. Meu pai e o Erick não tinham aquele direito.

Na sala, minha mãe descansava, comendo alguma coisa, ao me ver, ela sorriu, mas eu estava com raiva demais. Logo em seguida, meu pai apareceu, não consegui olhá-lo por está com tanta raiva. Eu estava com nojo.

- Onde você estava? - ele perguntou, fingindo preocupação. Eu simplesmente não conseguia responder.

Eu estava parado, tentando achar palavras, mas eu não conseguia. Eu estava angustiado, meu coração doía. Vendo que eu não falei, meu pai tentou se aproximar, mas me afastei.

- O que aconteceu, Jason?

- POR QUE VOCÊ FINGE QUE SE IMPORTA COMIGO? - as palavras finalmente saíram, e eu já estava chorando.

- Filho, eu não sei do que... - ele ia me tocar novamente, mas mais uma vez me afastei.

- NÃO ME TOCA! - eu gritei.

- Jason, o que aconteceu? Por que está gritando desse jeito? - minha mãe disse.

- Jason, me diga o que está acontecendo!

- Nada pai, eu estava na casa do meu namorado, o Erick, para quem o senhor me vendeu.

Seus olhos se arregalaram.

- POR QUE VOCÊ CONTINUA MENTINDO, PAI?! POR QUE CONTINUA FINGINDO NÃO SABER DE NADA? - eu só conseguia gritar e chorar, nada mais. - Eu descobri tudo, pai. EU DESCOBRI QUE FUI VENDIDO PARA A PORRA DE UM BANDIDO!

Tudo ficou em silêncio. Meu pai começou a soar, a casa dele havia caído.

- C-como a-assim? Do que... Do que está falando? - ele continuava mentindo, mesmo não tendo para onde fugir. Meu pai era um desgraçado mentiroso.

- PARA DE TENTAR ESCAPAR, MÁRIO! - gritei mais ainda, com mais raiva - O QUE VOCÊ ACHA QUE EU SOU? UMA MERCADORIA? ACHOU QUE EU FOSSE BURRO E NÃO IA DESCOBRIR? - falei, chorando mais ainda - Por que, pai? - dessa vez minha voz saiu tão baixa.

Na minha cabeça estava um furacão, e tudo que eu me perguntava era: Por quê? Por quê estava acontecendo aquilo comigo?

Ele não falou nada. Ele não simplesmente NADA!

- Mãe, você sabia disso também? - olhei para minha mãe, esperando um "não", mas ela ficou em silêncio.

- Sabia. - mais uma decepção. A pessoa que eu mais confiava escondeu tudo de mim. Eu odiava todo mundo. Eu queria sair daquela casa, onde tudo se baseava em mentiras.

- Como você pôde, mãe? Eu confiava em você, mas pelo visto você é como meu pai, como Erick, como todo mundo! Eu não quero olhar mais pra cara de vocês! - falei, saindo Dalí e indo rumo ao meu quarto.

Corri para o guarda-roupa, e comecei a pegar algumas roupas, eu iria sair dali, senão eu provavelmente enlouqueceria. Peguei uma mochila que suportasse todas as roupas e comecei a jogar tudo lá dentro. Lembrei do Erick, mas tratei de esquecer, não queria pensar nele, por mais que fosse difícil fazer isso.

Na sala, meu pai e minha mãe discutiam, mas pararam ao me ver, eles estranharam o fato de eu estar com uma mochila nas costas.

- Aonde você vai? - perguntou minha mãe, preocupada. Eu não respondi.

- Jason...

Sai e fechei a porta com força, e então gritei. Gritei para aquela dor passar. Gritei para que eu esquecesse tudo. Eu sentei no chão, chorando.

- Eu te odeio, Erick. Odeio você, meu pai... E... E minha mãe! Seus mentirosos! - falei.

Meus pais saíram para fora, e foram ao meu encontro. Eu não queria mais vê-los.

- Jason, por favor...

- Não, mãe! Já chega! Eu não quero mais viver isso, viver nesse Castelo de mentiras! Eu só quero ser feliz, mas pelo visto vocês não querem que isso aconteça! Eu odeio vocês! - falei, ela ficou em silêncio, chorando. Mas aquelas lágrima não iam adiantar de nada, a merda já estava feita. Tudo tinha desmoronado.

Tudo.

Algumas horas depois...

- Tá precisando de alguma coisa? - perguntou Luíz ao telefone.

- Não, não se preocupa. Eu...

- Você o quê? - ele disse.

Pensei em mentir, dizer que estava tudo bem comigo, e que eu não estava merda, sem lugar para ficar, sem amigos. Sem ninguém.

- Eu fui embora de casa.

- Como assim, Jason? Explica isso direito. - Luíz mudou sua voz.

- Eu vou te explicar, posso ir para sua casa? - perguntei.

- Claro, onde você tá?

- Eu vou te mandar a localização.

Em minutos, ele chegou com seu pai, em um carro. Ele saiu do mesmo e véi até mim, me abraçando. Seu pai olhava para nós, desconfiado.

- Você está péssimo! - ele disse, me analisando.

- Eu sei que tô. - disse, sorrindo sem a mínima vontade. Eu só queria sair daquele lugar, tomar um banho e dormir. - Me tira daqui, por favor.

- Claro, vamos. - Luíz pegou na minha mão, e com seu outro braço, EL pegou na minha cintura. Eu não estava tão ruim assim, mas não me manifestei. - Não conta pro Hugo nada disso.

- Não falo com ele há dias. - ele falou. - Ele anda muito triste ultimamente, acho que é por sua causa, digo, por causa da briga de vocês.

- Se ele fosse o único.

- Entra aí garotão! Como se chama? - seu pai, de forma gentil, abriu a porta.

- Jason, senhor.

Entramos no carro, e então o pai de Luíz olhou para mim, fingindo está chateado.

- Senhor é seu avô, me chama de Júlio! - ele disse, dando uma gargalhada. - Ouvi falar muito de você.

- Ouviu, foi? - olhei para Luíz, ele deu de ombros. - Espero que tenha sido coisas boas.

- Vocês namoram?

Engasguei com minha própria saliva.

- Não, somos apenas amigos.

- Eu bem que queria, sabe, pai? Ele nunca me deu bola.

- E o Bernardo?

- Bom, terminamos.

- Ele era um mala! Não fui com a cara dele, mas da sua, eu fui.

Mais uma vez ele gargalhou, eu sorri sem graça.

- Não liga - disse Luíz.

- Tudo bem.

Em minutos chegamos na casa de Luíz. O Júlio estacionou na garagem, e então saímos do carro.

- Casa bonita. - eu disse, lembrando da minha.

- Tudo obra da minha mãe. - ele disse.

- Vamos, por aqui. - ele disse, pegando na minha mão, como se eu não soubesse caminhar ou fosse cego.

- Mãe, chegamos! - Luíz gritou, e uma figura esbelta apareceu, de avental. Ele me olhou e sorriu, gentil.

- Chegou o famoso Jason. - ele disse, vindo na minha direção e apertando minha mão. Eu sorri. - Me chamo Iolanda.

- Prazer, dona Iolanda. - eu disse.

- Luíz, guarde as coisas dele no seu quarto. Vem, Jason, vamos na cozinha. Você sabe cozinhar? - ele era bem falante.

- Eu sei fazer... Ahn...

- Fazer o que, querido? - ela me olhava curiosa.

- Pão com ovo.

Ele gargalhou.

- Você vai passar um tempo aqui com a gente? Vou adorar te ensinar a cozinhar! - ela disse, me surpreendendo.

- É... Eu não sei.

- Tudo bem.

- Eu posso ir tomar banho?

- Claro. Segunda porta a direita.

Segui por um corredor, e então vi algumas portas. Entrei em uma porta que dizia "não entre", e Luíz se trocava, ao me ver, ele se assustou.

- Me desculpa... Eu não obedeci a placa e... Foi mal.

- Você não precisa se desculpar. A casa é sua.

- Posso tomar um banho? Tirar esse uniforme que não estar muito agradável.

- Pode. O banheiro e logo alí. Toma uma toalha - ele me entregou uma toalha vermelha.

- Obrigado por está sendo tão legal, eu... Eu nem sei o que dizer. - falei, olhando para os detalhes da toalha, em seguida olhei para ele.

- Somos amigos. É para que os amigos servem.

Sorri, e ele também. Eu só queria que ele e eu tivéssemos alguma coisa, no começo, antes do Erick, acho que assim eu não estaria nessa situação deprimente.

Entrei no banheiro e vi o quão ele era organizado, não tinha roupa no chão e era tudo bem limpo. Luíz era diferente de qualquer garoto adolescente na puberdade.

Tirei aquele uniforme e um frio percorreu meu corpo nú, liguei o chuveiro a água quente se espalhou pelo mesmo, me dando uma sensação de alívio. Não deixei de pensar em Erick, em nós dois. Em como ele era legal, carinhoso. Mas, de uma hora para outra, se tornou a pessoa mais nojenta para mim. Comecei a chorar, pensando nos meus pais, em tudo.

Tudo era uma mentira. Tudo.

Ao sair do banheiro, enrolado na toalha, Luíz lia um livro deitado em sua cama, e quando me viu, ficou me olhando, estético. Ele pigarreou, se levantando da cama.

- Bom, eu já estou indo. Vou pro quarto de hóspedes. - falou ele, sorrindo.

- Você não precisa sair do seu quarto, eu me viro essa noite. - falei.

- Que? Não tá pensando em passar a noite fora, está?

- Olha, seus pais são muito legais, mas eu não quero incomodar ninguém. - falei, procurando uma roupa naquela mochila.

- Não vai incomodar, e se esse for o problema... Bom, se vista, e já já eu volto. - ele disse, batendo no meu ombro e saindo.

Logo após me vestir, fiquei sentado na cama, algumas horas depois, pensando. Olhei pela janela e o sol estava quase se pondo. Eu queria minha casa, minha cama, mas eu não podia voltar. Não queria olhar para meus pais.

Meu celular tocou, era minha mãe. Desliguei. Eles não se importavam comigo. Então eles podiam parar de fingir se importar.

Seu pai te vendeu pra mim.

Eu sinto muito.

- Toc toc - Luíz apareceu na porta, me tirando daqueles devaneios. Sorri. - Posso entrar?

- Claro.

- Bom, eu já falei com meus pais sobre você ficar aqui, e eles... Eles deixaram! Disseram que você pode ficar o tempo que quiser. - ele parecia animado.

- Eu agradeço muito o que vocês estão fazendo por mim. Você, principalmente. Obrigado por tudo.

- Já disse que não precisa agradecer. Eu gosto de você.

- Também gosto de você.

- Agora vamos jantar! - ele ficou de costas, provavelmente esperando eu subir na mesma. - Vamos, passageiro.

- Não, eu não vou fazer isso - falei, rindo.

- Ah, vamos!

Que mal tinha? Pensei.

Subi em suas costas e ele correu, e era incrível como ele me aguentava, eu era só puro pele e isso, mas eu pesava.

- PORRA NÃO VAMOS CAIR - gritei, mas ele não ouviu e continuou correndo.

Na mesa, tudo era maravilhoso. Comidas de todos os tipos, o cheiro era delicioso. Comprimentei o Júlio e a Iolanda e me sentei.

- Vai ficar aqui?

- Eu não queria incomodar, mas o Luíz me conveceu e eu vou ficar, por um tempo, até tudo se resolver.

- Fico contente. Vamos nos divertir muito.

- Vamos comer? - disse Luíz, pegando meu prato e começando a colocar a comida.

- Eu tô fodido psicologicamente mas eu acho que sei colocar minha própria comida. - falei, e então pus a mão na boca, percebendo que tinha falado palavrão. Nos olhamos e então rimos.

Eles pareciam tão felizes, sem se importar com nada, diferente da minha família deprimente, que viviam baseados em mentiras. Eu tinha inveja. Inveja por não ter um pai tão legal.

O jantar foi muito aanimado, eles contaram piadas, sobre suas viagens e tudo mais. Eu prestava atenção sem falar nada, não queria falar, mas também não queria ser um chato que não ria de nada.

- Você sonha em casar, Jason? - do nada seu Júlio perguntou, me deixando pensativo.

- Não sei. - falei. - Evito pensar nessas coisas.

- Quer uma dica? Não case! Principalmente com mulheres, elas são difíceis... - ele sussurrou, mas mesmo assim dona Iolanda ouviu, e ela deu um tapinha na cabeça dele.

- Não dê ouvidos para esse sem noção! Ele não anda na linha e me acha chata.

No final do jantar, subi para o quarto de Luíz, ele me olhava curioso, provavelmente querendo saber o que tinha acontecido.

- Senta aqui, eu vou te contar tudo. - falei, adiantando as coisas. - Eu sei que queria perguntar.

Ele assentiu e se sentou ao meu lado.

- Posso deitar no seu colo? - perguntei, era meio estranho, mas eu só queria alguém pra conversar.

- Claro. - ele disse, sorrindo.

Pus minha cabeça em sua perna e olhei para o teto, ele fez mesmo.

- Sabe o Erick?

- Aquele ogro? Ele fez alguma coisa com você? Te bateu?

- Não, algo bem pior que agressão física. - eu disse, meus olhos começaram a embaçar só pelo fato de lembrar daquele maldito, daquela notícia. - Ele é dono de um morro.

- Dono de um morro?

- Traficante.

- Você sabia disso?

- Pior que eu sabia. Mas, independente disso, ele era muito carinhoso, legal. Mas esse não é o motivo de eu está tão mal.

- Então qual é?

- Meu pai... Meu pai me vendeu pra ele.

- Que porra é essa? Isso é possível? - ele se levantou, continuando sentado. Voltei a ficar sentado também, olhando para minhas mãos.

- É. Eu tô com raiva. Com nojo. Eu não esperava isso do meu pai, esperava tudo, menos isso. Eu só queria que tudo isso acabasse, eu não vou aguentar... Aguentar essa pressão, sabe? - comecei a chorar, Luíz me abraçou, colocando minha cabeça em seu peito.

- Vai passar. Você é um cara incrível, Jason. Não fica assim por causa daquele babaca, ele não te merece, não merece alguém tão perfeito... E... Tão maravilhoso. Eu...

Limpei meus olhos, voltando ao meu estado normal, eu odiava que vissem como alguém frágil. Luíz me olhava, com vergonha.

- Eu te amo, Jason.

Meu coração acelerou, não por sentir o mesmo, mas por simplismente não saber o que fazer.

- Luíz...

- Eu só queria te fazer o cara mais feliz do mundo.

- Eu não sinto o mesmo por você, desculpa. Eu também não quero te fazer acreditar que existe algum sentimento além de amizade. - falei, mas logo me senti a pior pessoa do mundo. - Eu... Eu só consigo te amar como amigo. Foi mal.

- Me desculpa por forçar.

- Você é incrível. Mas você tem que encontrar alguém que realmente te ame. Eu amo o Erick, eu queria sentir alguma coisa, mas... Eu não sinto. Foi mal.

- Eu entendo. - ele disse, se recompondo. Ele levantou e ficou meio confuso. - Eu já tô indo. Fica bem.

- Boa noite.

- Boa noite.

Fui até a janela e olhei para o céu, as estrelas estavam lindas. Olhei para a rua e estava toda iluminada. Pensei no Erick.

Eu estava no fundo do poço, sem onde ir, sem saber o que fazer.

Eu só queria que tudo fosse um pesadelo.


* * *

gente, espera aí, caiu um cisco no meu olho 🤧

Eu tô realmente triste pelo que tá acontecendo com o Jason, me sinto o autor mais podre do mundo. Meu bebê não tem que sofrer desse jeito, mas é essencial.

Os próximos capítulos vou focar no amadurecimento do Jason, como ele vai continuar vivendo nos próximos dias, e tudo mais. Ele tem muito o que aprender.

Só fico triste que essa história esteja chegando ao fim.





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