03| No meio das fotos
Erick
Desde aquele dia do tiroteio, de todo aquele caos, eu não parava de pensar naquele garoto, ele era tão parecido com alguém que conhecia, eu cogitava a possibilidade de estar apenas alimentando coisas em minha cabeça, o cara disse que ele não pisaria nesse morro antes de sua morte, dele fazer 18 anos. Mas, ele pisou, ele esteve aqui, eu o salvei da morte, cheguei tão perto dele, muito perto dele. Era tão bonito.
Como alguém que nem conheço conseguiu mexer tanto comigo, porra?
— Kiron, a gente fez o que o senhor pediu, a gente procurou... — antes que meu capanga e braço direito pudesse terminar, eu o interrompi.
— E o que descobriram?
— É ele, ele é o garoto que o senhor imaginava e os cara viu o pai do garoto lá na entrada do morro.
Eu tinha razão, ele estava tão perto de mim, literalmente tão perto. Mas ele disse que o garoto não chegaria tão cedo aqui, era o combinado. Mas ele me devia, e com certeza devia estar com medo do que podia acontecer caso demorasse muito a cumprir com o trato. O garoto era meu.
E eu iria encontra-lo novamente.
Jason
Ao acordar no dia seguinte, fiz tudo o que tinha que fazer e desci para cozinha, onde meu pai estava lendo seu jornal e vestindo um terno preto, me sentei e evitei encara-lo, não gosto de olhar para seu olhar de bravo, principalmente depois de dá um bolo nele.
— Por que me deixou esperando? —ele pergunta, paro de mastigar, buscando no fundo da minha mente alguma desculpa que cobrisse o fato de que rolou um fucking tiroteio.
— É que... — falei, e o som saiu abafado pelo fato de eu está com um pedaço de pão na boca, meu pai me olhou com cara de nojo.
— Engole a comida primeiro, depois fale.
Engoli toda a comida e bebi um pouco de suco.
— É que a gente quis pegar mais alguns depoimentos, sabe? Vai que alguns não saíram bons — menti, e então ele ficou em silêncio me encarando, como se tentasse descobrir se eu estava mentindo.
— Está me escondendo alguma coisa? Eu te conheço e sei que tem caroço nessa angu.
— É manga.
— O que?
— Tem caroço nessa manga.
— Não, o ditado não é assim! Não importa, só sei que você está escondendo algo.
— Mário, eu não estou escondendo nada! Agora eu posso comer em paz
Ele ficou em silêncio, parece que ele não iria esquecer aquele assunto tão cedo.
—
Dá próxima vez avisa para que eu não fique de esperando igual a um palhaço.
— Sim, irei avisar — sorri, tentando aliviar o clima.
* * *
Hugo e eu estávamos no intervalo, ambos comiamos hambúrgueres, somente nossas bebidas que eram de sabores diferentes, a dele de uva e a minha laranja.
— Já decidiu se vai? — ele quebra o silêncio, chamando minha atenção, no comeco fiquei sem entender, mas logo lembrei do que se tratava.
— Não sei.
— Ah, por favor, Jason, eu sei que você quer ver aquele gostoso de novo — ele fala, e então o bati, o bati por falar algo assim tão alto, alguém podia escutar.
Para falar a verdade, eu passei a noite toda pensando sobre o que ocorreu, sobre a ideia anormal do Hugo e sobre minha leve queda pelo homem misterioso que me salvou.
— Dá pra falar baixo, pelo menos? — revirei os olhos.
— Tá, okay, mas você vai?
— Eu não sei, tá? — perdi a paciência a insistência dele já estava me irritando — Eu nem sei o nome dele! Cmo vou chegar lá e perguntar por ele? “Gente, vocês conhecem um cara lindo e gostoso, que tem um olho verde maravilhoso que mora nessa merda de morro?”
— Sim, isso seria ótimo, mas eu tenho uma ideia melhor.
Ele me olha com um olhar sugestivo, e então vejo que tem caroço nessa manga, como disse meu pai.
***
— Os depoimentos dos moradores daquele morro? — pergunto confuso, após ele jogar alguns papéis na mesa da biblioteca.
— Sim, e é a nossa salvação, ou a sua. - ele morde a maçã que estava em sua mão e começa a ler mentalmente, não sabia qual a afinidade daquilo.
— Tá. Vamos supor que a gente encontre o cara nessas fotos, o que vamos fazer? Sair realmente perguntando para as pessoas em um lugar que nem conhecemos direito sobre ele, é no mínimo estranho, e não se esqueça que é o morro do alemão e não nosso bairro.
— Qual o problema? Só vamos perguntar, não há mal nisso.
— Você ouviu o que eu acabei de dizer?
— Vem cá, você quer ir até esse cara ou não? — perguntou, sem paciência.
— Claro que quero, mas...
— Então cala a porra da boca e me ajuda a encontrar ele nessas fotos.
Para não causar mais brigas, decidi finalmente procurar o homem misterioso naquelas fotos.
***
Alguns minutos se passaram e já tínhamos vistos todas as fotos impressas na mesa, uma por uma, Hugo até leu alguns depoimentos, e como eu pensei, não tinha nada, sequer uma pista. Não sei o porquê de tudo aquilo. Era perda de tempo.
— Nada. Nem um rostinho.
— Na minha cabeça fez sentido.
— Estranho seria a gente encontrar algo.
— Espera! Eu tenho umas fotos no meu celular! — ele diz, quase eufórico, me assustando. — Eu tirei algumas fotos do dia em que fomos lá no morro, talvez ele apareça em algumas delas.
— Amo um homem precavido. Tá, okay, me mostra essas fotos — digo, e ele desbloqueia seu celular, mexendo em algumas coisas.
— Aqui — ele me entrega, e então começo a ver as fotos, na primeira ele não estava, e nem na segunda, passei por mais duas e nada dele, aí cheguei na última, e ele estava lá
— Achei! Hugo, esse é o cara, o homem que me salvou, é ele — afirmei olhando para ele na foto, estava meio embaçada, mas era possível ver seu rosto lindo, o mesmo rostinho do homem que me salvou aquele dia, ele era tão lindo.
Se era destino achar ele naquelas fotos eu não sei, mas meu coração pulsou só de imaginar encontra-lo novamente.
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