PARTE II - 26. Emoções agressivas
𓅯 Capítulo 26 | O Canto dos Pássaros 𓅯
Após uma péssima noite de sono, Lucas desceu as escadas pela manhã como um moribundo. A luz do sol que transpassava as janelas de vidro incomodou seus olhos. Com dificuldade de mantê-los abertos, o rapaz parou no último degrau da escada e fitou Pedro no sofá da sala. Concentrado, o irmão mais velho lia um livro de capa dura e uma grossa coberta cobria suas pernas. Ele havia dormido ali por sua causa — naquele duro e desconfortável sofá. Lucas sentiu-se ainda mais culpado. Queria retornar, enfiando-se novamente no quarto para remoer cada palavra estúpida dita por ele; mas era tarde demais. Pedro abaixou o livro, colocando-o sobre as pernas, e olhou para o rapaz parado na escada.
— Bom dia, Lucas — ele falou, jogando as cobertas de lado e sentando-se. Estava sério, mas não havia nenhum indício de raiva em sua voz. Pedro fez um gesto rápido para que Lucas se aproximasse. Envergonhado e sentindo o peito pesado pela culpa, Lucas foi até ele e se sentou. O livro de capa vermelha, um belo exemplar de Dom Quixote, estava entre eles.
Lucas encarou as próprias unhas roídas e os dedos longos. O arrependimento o corroía por dentro, e não havia escapatória. O rapaz não costumava deixar com que o orgulho o dominasse com frequência; sabia quando estava errado e se odiava quando cometia algum deslize. Mas Lucas nunca havia brigado daquele jeito com Pedro. Nunca o havia agredido.
Apático, ainda com o olhar cravado nas próprias mãos inquietas, Lucas murmurou:
— Me desculpe... Eu não... — sua voz estava fraca e rouca, e ele não conseguia achar as palavras certas em sua mente desordenada. — Fui um idiota.
Pedro suspirou baixinho.
— Ainda está com raiva de mim? — perguntou, observando o irmão de soslaio.
— Estou com raiva de mim — Lucas admitiu. Queria que Pedro estivesse sentindo mesmo, mas nada indicava que o irmão estivesse zangado com ele. Certamente estava chateado, mas em nenhum momento demonstrou agressividade ou repulsa. Ao contrário.
Lucas olhou para o irmão. Pedro estava pensativo; sabia que estava escolhendo as palavras certas para dizer-lhe algo. O rapaz ainda ficava impressionado como ele se parecia com o pai — o modo como mordia o lábio inferior e franzia levemente o cenho quando pensava; ou quando esforçava-se para manter uma conversa amigável.
— Eu não estou com raiva de você — Pedro declarou. — Eu o compreendo. Peço desculpas por ter me envolvido nisso tudo. Por ter te colocado nessa sem o seu consentimento. Eu deveria ter conversado com você antes.
Lucas maneou a cabeça. Sabia que ele estava se referindo à questão de incluí-lo no grupo dos jovens vizinhos. Ainda parecia-lhe estranho e errado pensar que fora Pedro quem os pediu para que eles o incluíssem — não foi algo natural ou por escolha deles, mas por piedade. Estar ciente do fato fazia com que o rapaz se sentisse inferior; e não grato.
— Não importa. Eu não teria aceitado de qualquer forma — admitiu. — Eu nunca aceito nada. Mas a culpa foi toda minha. Sei que só quis me ajudar, e eu sempre estrago tudo. Eu não deveria... — ele trincou o maxilar, sentindo os olhos marejados. — Não deveria ter gritado com você, não deveria ter te empurrado e...
— Lucas, por favor. Pare de se diminuir tanto — Pedro solicitou, sério. — Olha, sei que muitas pessoas poderiam julgá-lo pelo que falou ou fez. Mas acho que todos nós deveríamos julgar menos e compreender um pouco mais...como eu faço com os meus aluninhos. Somos falhos, meu irmão. E somos todos como crianças feridas — ele passou os dedos pela palma, como se refletisse sobre suas próprias dores. E Lucas sabiam quais eram. — Seria hipocrisia eu te julgar por algo que sei que te abriu uma ferida. Por isso, quero que me perdoe por essa minha falha. E não me importa o que você fez ou falou.
Lucas ficou em silêncio, absorvendo as palavras do irmão. Ele acreditava nelas. Pôde sentir um alívio dentro dele; um peso enorme saindo de suas costas. Ainda sentia-se péssimo, mas pelo menos ele não carregaria aquela culpa por muito tempo.
— Você deveria ter seguido a carreira de filósofo — o rapaz murmurou. Pedro riu, quebrantado todo o clima sério criado pelas palavras e emoções afloradas de ambos. Lucas acrescentou: — Ou de psicólogo...
— É, foi uma das minhas opções de vida — Pedro recordou-se. — Mas preferi educar crianças e ensiná-las que não é uma boa ideia enfiar dedos nas tomadas.
— Acho que estava certo...
Pedro olhou para o irmão.
— O quê? Que não se deve enfiar dedos em tomadas?
— Não, não — Lucas negou. — Que eu deveria fazer terapia. Acho que eu preciso de um psicólogo.
O irmão ficou calado por um instante, e depois assentiu.
— Ok — Pedro ainda balançava a cabeça, sem conseguir esconder a satisfação. — Deixe comigo. Tenho boas indicações. Acho que sei de alguém que pode ajudá-lo...
— Você sempre planeja tudo — Lucas observou, sem julgamentos. Não sabia que conseguiria confessar aquilo; não naquele dia. Durante aquela madrugada, ele teve tempo o suficiente para meditar sobre seus comportamentos, suas emoções e falhas. Lucas jogou-se contra a parede e aceitou que não conseguiria mais se manter mais daquele jeito por muito tempo. As crises de ansiedade e de raiva foram o aviso final: ele precisava de ajuda.
Tentar conformar-se com aquela decisão foi duro para ele. Admitir para si mesmo que não estava conseguindo controlar sua própria vida e suas próprias emoções o fez se sentir ainda mais impotente. Mas tudo o levava àquela direção. Lucas não tinha mais nada a perder.
— Pedro... — Lucas reuniu todas as forças restantes que tinha para perguntar: — Beatriz te disse alguma coisa? Acha que ela está...chateada comigo?
— Não... Nada importante — Pedro respondeu. — Ela me entregou o seu celular e disse que depois conversaria com você. Parecia preocupada.
— Ah — Lucas baixou o rosto e os ombros, seu abdômen pesando como chumbo.
— Gosta dela, não é? — o irmão supôs. Lucas sentiu as bochechas esquentarem. — Desculpe, não quero me intrometer de novo. Perguntei sem pensar.
— Gosto — Lucas respondeu antes de se acovardar. Umedeceu os lábios secos, complementando: — Gosto muito.
Pedro assentiu, mas não disse mais nada a respeito. Olhou no relógio de pulso solto ao lado do sofá, e o irmão espreguiçou-se.
— Tenho que ir, Lucas — Pedro prendeu o relógio no pulso, levantando-se. — Vai para a faculdade hoje? Se quiser, dou-lhe uma carona.
— Acho que não — desanimado, o rapaz se deu conta que aquele era mais um problema a ser resolvido: Manter-se na faculdade ou largar de vez sua vida acadêmica compulsória.
Pedro despediu-se dele, avisando que tomaria café da manhã em alguma padaria no caminho. Lucas permaneceu jogado no sofá. Sentiu um aperto no peito quando recordou-se da noite de sábado; quando Beatriz o fez deitar em seu colo. Aquilo nunca mais aconteceria, e Lucas era o maior culpado. Beatriz havia escutado a sua voz; o que era suficiente para que o rapaz nunca mais a procurasse pessoalmente. Alguns poderiam dizer: Só por que ela escutou sua voz, Lucas? Que grande bobagem! Não faz sentido! Mas ninguém poderia compreendê-lo. Ele literalmente tinha medo de que alguém além de sua família escutasse a sua voz. Fazia sentido para ele? Não. O medo era inconsciente, e nem ele compreendia. Desse modo, a necessidade de fugir de Beatriz — apesar de todo o afeto que sentia por ela — era latente. Era difícil até mesmo mandar uma mensagem. No entanto, seria mais suportável do que encontrá-la pessoalmente.
Lucas pegou o celular. Ainda não havia visto as mensagens de Wallace. Quando abriu sua conversa com Beatriz, viu que ela estava online. Apressou-se a digitar a mensagem, aflito, e de repente achou que poderia ter tido mais uma crise ali.
Beatriz demorou dois minutos para responder. Dois minutos que pareceram duas horas para Lucas. Seu peito martelava e seu corpo suava.
Hoje, 7:34 a.m
Lucas Evans: Oi, bom dia. Me desculpe por ontem, eu estava irritado. Agradeço por ter levado o meu celular
Beatriz: Bom dia, Lucas
Beatriz: Não tem problema
Beatriz: Espero não ter te deixado desconfortável
Lucas Evans: Com o quê?
Beatriz: quando te beijei
Lucas Evans: não, não
Lucas Evans: ao contrário, Beatriz
Lucas Evans: acho que fui eu que te deixei desconfortável. Eu sou péssimo nisso
Beatriz: você só estava nervoso, acontece
Beatriz: não se preocupe com isso, ok?
Agora Lucas sabia. Ela havia odiado. Beatriz odiou beijá-lo. Supor mais uma vez aquilo mexeu com ele; um incômodo irritante e pretensioso que queria massacrá-lo. E ele alimentou isso, levando a conversa para uma direção um tanto delicada.
Lucas Evans: Mas eu me preocupo. Sou um idiota
Lucas Evans: gosto muito de vc, Beatriz
Lucas Evans: mas não entendi pq fez aquilo
Beatriz: Pois tive vontade
Beatriz: não costumo beijar ninguém se não tenho vontade
Beatriz: por que está dizendo isso?
Lucas Evans: porque não quero que faça nada por pena
Beatriz: eu não tenho pena
Beatriz: eu gosto de você, sua companhia me agrada
Beatriz: mas pelo visto, você não acredita
Lucas Evans: como pode ser agradável estar uma pessoa que não fala?
Lucas Evans: me diga
Lucas Evans: isso não faz sentido. Vc merece coisa melhor
Beatriz: Pare com isso, por favor
Beatriz: eu não minto para te agradar ou porque tenho pena de você, Lucas. Nunca tive pena. Apesar de não ter entendido a princípio o motivo de você não falar, eu nunca tive pena ou o julguei. Não me importa se fala comigo ou não
Beatriz: me importa o que eu sinto
Beatriz: isso não é suficiente?
Lucas Evans: eu não sei...
Beatriz: vou lhe dizer, então
Beatriz: vou dizer o que acho de você
Beatriz: e eu não preciso mentir, eu odeio mentiras ou falsidades
Beatriz: Te acho sensível e inteligente. É um ótimo ouvinte e, apesar de não falar comigo, se expressa mais do que imagina
Beatriz: Você fala com os olhos. Com o corpo, com o rosto, com as mãos, com o sorriso. Vi algo em você que talvez poucas pessoas tenham visto. Vi alguém sensível, mas também alguém solitário e que precisa de um ombro amigo. E não há vergonha nisso, pois eu também precisei várias vezes
Beatriz: Quando me disse que pintava, fiquei encantada. Fiquei esperando que você me mostrasse suas pinturas, pois me interesso por arte. Por essas coisas que muita gente acha que é bobagem. Senti essas coisas em você
Beatriz: Te acho bonito, mas ficaria ainda mais bonito se também achasse isso
Beatriz: beijá-lo foi apenas uma consequência disso tudo
Beatriz: acredita no que eu digo?
Um bolo se formou na garganta de Lucas, e ele fungou. Queria tanto acreditar no que ela dizia; mas algo o impedia. Sentado no meio da cama, sozinho em seu quarto, as lágrimas começaram a cair descontroladamente enquanto lia aquelas palavras. Lucas não merecia. Não a merecia, pois não sentia nada agradável; nada bonito. Talvez sensível demais, mas de uma forma negativa.
Lucas Evans: eu não sei o que dizer
Lucas Evans: só sei que não a mereço. Vc é boa demais
Lucas Evans: me dói dizer isso, mas sinto que não a mereço. Eu não espero que compreenda
Beatriz: Você não acredita quando eu digo que gosto de você, não é?
Beatriz: Você não acredita
Beatriz: Eu gosto de você, Lucas. Mas dessa forma não conseguiremos
Lucas Evans: o que não conseguiremos?
Beatriz: Termos alguma coisa, eu não sei
Beatriz: Pretendia deixar com que as coisas acontecessem no tempo certo, e no seu tempo. Sei que tem dificuldades, e não é bom apressar as coisas. Mas desse jeito não dá
Lucas Evans: desse jeito como?
Beatriz: como podemos ter algo se não gosta nem de si mesmo?
Lucas suspendeu os dedos sobre o teclado. Até aquela hora, digitava as mensagens freneticamente; sem pensar muito. Deixou com que a parte mais sombria e melancólica dele tomasse o controle. No entanto, a última frase de Beatriz o deixou sem argumento. Havia tocado em um ponto que Lucas nunca tinha se atentado. Ele não tinha outra alternativa a não ser concordar. Era a mais pura verdade: Lucas não gostava de si mesmo.
Lucas Evans: Vc tem razão
Lucas Evans: por isso eu não a mereço
Beatriz: Você não pode pensar assim
Beatriz: Pare de falar isso
Beatriz: Olha, tenho que ir para a aula. Depois conversamos
Beatriz: Cuide de você, Lucas
Beatriz ficou offline. Lucas largou o celular, apertando os olhos com força. Ele sentiu que seu coração se dilacerou em pedacinhos; e uma dor quase física se apossou de seu peito. Lucas colocou as mãos sobre o rosto e fez algo que há tempos não fazia (e não conseguia fazer): ele chorou. Chorou compulsivamente, os ombros sacolejando descontrolados. O fato de não ter ninguém em casa àquela hora ajudou-o a colocar para fora tudo o que estava preso em sua garganta e em seu coração há tempos — há tanto tempo que as bolas de emoções agressivas eram como enormes bolas de boliche; pesadas e grandes demais para o seu frágil corpo.
Dessa forma, não conseguimos. Ele conseguia ouvir a voz de Beatriz dizendo-lhe aquilo. Estava claro: ela não queria nada com ele. O rapaz não a julgava. Beatriz ergueu as mãos para ajudá-lo a sair do mar revolto — e ele, ao invés de sair, estava prestes a afogá-la também.
Lucas só conseguiu parar de chorar meia-hora mais tarde, quando o carro da mãe estacionou na garagem e os cachorros latiram, felizes. Desabado na cama, com dor nas têmporas e um peso horrível na barriga, o rapaz ficou enrolado na coberta por um longo tempo; imóvel, dolorido por fora e por dentro.
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