PARTE I - 1. Ruídos da mente
𓅯 Capítulo 1 | O Canto dos Pássaros 𓅯
29 de janeiro de 2022
Sábado, 5:20 a.m
Havia três coisas que deixava Lucas menos ansioso: a música soando em seus ouvidos, o cheiro de tinta fresca e a grama sob seus pés. Todos esses fatos, curiosamente, lembravam-lhe a infância — a nostálgica e encantadora memória de rolar pelo jardim como um cão feliz, voltando para casa completamente sujo de terra e com um sorriso astucioso no rosto. Ou, ainda, quando levava suas tintas para a varanda de sua antiga casa e produzia suas artes infantis, sempre com as mãos manchadas de sua cor favorita.
Eram bons tempos para ele. E, apesar de todo o seu silêncio — e todas as lembranças ruins acerca disso — o menino Lucas era feliz. Mas agora, prestes a completar vinte e cinco anos de idade, ele não podia dizer o mesmo. Não que ele fosse infeliz, e não por ingratidão. O rapaz não tinha motivos para reclamar do que quer que fosse: sua casa, de seu quarto, de sua família — e claro, de seus velhos e amados cães; Mozart e Beethoven. Sua vida familiar era, na maior parte do tempo, melhor do que ele merecia. Pelo menos, melhor do que ele achava que merecia — pois sua dignidade encontrava-se a sete palmos abaixo da terra.
Seu maior problema, na realidade, era consigo mesmo. Conviver com o seu próprio silêncio, com a sua ansiedade; lidar com os anos que passavam e a sensação de que nada fluía. Mudavam apenas os números após seus aniversários, o comprimento dos braços e pernas, o formato de seu rosto — e a barba rala e loira que finalmente começava a surgir. O espelho e os números só faziam-lhe lembrar de sua estagnação interna. Era assim que Lucas se sentia: congelado no tempo e no espaço; sem voz, sem rumo e sem esperança.
O rapaz aumentou o volume de seus fones de ouvido, como se aquilo de alguma forma calasse seus pensamentos acelerados e depreciativos. Havia tempos que não se sentia daquela forma; não com tanta intensidade. A ansiedade estava sempre presente em sua rotina, como uma dor de cabeça desagradável — às vezes suportável, às vezes muito dolorosa. Um relacionamento abusivo de longos anos. Quando esta se tornava penosa demais para sustentá-la dentro de si, Lucas buscava pelo frescor das árvores do parque de seu condomínio. Observava as crianças, os casais, os cães e os pássaros. Então, ele se estendia na grama, observando as nuvens e os galhos das árvores mais próximas.
E fora exatamente aquilo que Lucas fez naquela manhã de final de janeiro, às cinco e vinte, quando o sol ainda mal havia manifestado seus primeiros raios. O orvalho da relva umedeceu suas roupas, mas ele não se importou. Queria que o vento frio do alvorecer levasse aquele sentimento angustiante embora. Seus olhos estavam fechados, e os dedos trêmulos segurando o celular contra o peito. Não soube dizer por quanto tempo ficara ali, escutando o soar do piano em seus ouvidos — até que, subitamente, a música parou e ele abriu os olhos marejados. Lucas ergueu o celular e olhou para a tela levemente trincada. Sem bateria. O rapaz suspirou, tirando os fones e deixando o aparelho de lado. Nem mesmo ele estava disposto a ouvir seus próprios dramas, quem dirá Chopin?
Ainda deitado, apoiou a cabeça sobre os braços e se contentou com o canto dos passarinhos — que sempre faziam questão de alegrar as manhãs, mesmo que fossem segundas-feiras cinzentas. Lucas também ouviu as primeiras vozes vindas da calçada e das aparelhagens de exercícios aeróbicos. Ao julgar pelo movimento, já deveria ser mais de seis da manhã. Era comum que alguns residentes, sobretudo idosos e alguns jovens mais ativos, despertassem cedo para uma caminhada matinal e exercícios físicos ao ar livre. Piqueniques também eram comuns aos fins de semana, especialmente aos domingos, onde as famílias se reuniam no fim da tarde e as crianças brincavam nas gangorras e balanços da praça. O rapaz gostava daqueles dias — tirando o fato de que quase todas as crianças o conheciam como o moço que não falava. Por isso, Lucas evitava ao máximo estar ali quando estava muito cheio. Primeiro, porque se sentia mal em meio a tantas pessoas; e segundo, porque sempre havia olhares curiosos em sua direção — como acontecia frequentemente quando ainda estava na escola.
Desistindo de tentar relaxar, ele se sentou e olhou ao redor. Como era o esperado, alguns casais de idosos já faziam suas caminhadas e alguns poucos jovens já podiam ser vistos em suas atividades. Alguns deles Lucas conhecia: Miguel e Laura, os dois universitários que dividiam a casa com outros dois jovens estudantes, a apenas quatro residências da sua. No momento em que os viu, teve vontade de esconder-se, mas eles pareciam ocupados demais conversando alegremente entre si. A presença deles de volta ao condomínio significava uma coisa: as aulas de suas faculdades voltariam em breve.
Aquela constatação despertou mais um sentimento estranho em Lucas. Faculdade. Jovens universitários. Aulas. Aquelas palavras ressoaram em sua mente, aumentando sua ansiedade. Desde a noite anterior, ela não lhe dava trégua; mas havia um motivo para a sua insistência — e, consequentemente, para sua insônia e seu mau-humor. Ele tentou mais uma vez ignorar seus pensamentos conflituosos, mas foi em vão. Estava com sono, exausto e com fome, mas sabia que nada passaria pela sua garganta enquanto aquela sensação permanecesse. Então, resolveu voltar para casa. Refez todo o caminho que havia feito, passando por pequenos sobrados modernos com telhas brancas e quintais retangulares — todas as residências idênticas à sua, exceto por uma ou outra cor das paredes e cercas, jardins mais ou menos bem cuidados e outras peculiaridades que traziam, de alguma forma, a identidade daquelas famílias ou grupos de pessoas.
Quando chegou em casa — um dos vários sobrados brancos do conjunto habitacional — avistou Mozart aguardando sua volta deitado na varanda. O vira-lata de pelos longos e acastanhados virou o rosto grisalho em sua direção, abanando o rabo. Lucas sorriu para ele, inclinando-se para acariciar sua cabeça ao se aproximar. O velho cão acompanhou-o casa adentro, e o rapaz pôde escutar o ronco alto de Beethoven dormindo na sala. Atravessando o aposento, Lucas foi direto para a cozinha e preparou o café da manhã. Precisava urgentemente de café, mesmo que soubesse que aquilo provavelmente pioraria sua agitação mental.
Um ser de quatro patas cutucou sua perna. Lucas olhou para baixo, encarando os olhos castanhos de Mozart. A cada ano que passava, seu rosto anteriormente castanho-escuro ficava mais branco.
— O que foi? — o rapaz perguntou. — Ah, os biscoitos de idosos. Onde estão os biscoitos?
O cão agitou exageradamente o rabo. Lucas pegou um recipiente no armário, escolhendo um dos biscoitos caninos macios e oferecendo ao animal. Beethoven continuava roncando na sala (ele conseguia superar o padrasto de Lucas nesse quesito) e, feliz, Mozart levou o petisco para seu pequeno colchão. O rapaz continuou preparando o café, os olhos semicerrados pela sonolência que lhe abateu; quase derrubando as xícaras que carregava. Ele era sempre o primeiro a acordar, por isso, preparar a mesa para a família havia se tornado um hábito. Sentia-se mais útil fazendo aquelas pequenas coisas, como se compensasse o fardo que achava que era à família.
Por isso, ele se assustou quando Ben abriu a porta da sala com sacolas com pães em uma mão e uma caixa repleta de abacaxis em outra. Lucas olhou para ele, seu raciocínio lento ainda tentando compreender o que seu padrasto fazia acordado àquela hora da manhã, já que ainda estava de férias — e o que ele faria com tantos abacaxis. O homem de pele escura e camisa social azul adentrou a cozinha, aspirando o ar.
— Oh, café! Preciso de café — ele falou.
— Hum — Lucas murmurou, observando a caixa de abacaxis. Sete abacaxis. — O que é isso? Vai vender abacaxis?
— Melissa estava com desejo. E eu, como um bom sogro, tive a sorte de achar na promoção. Veja como estão bonitos — Ben admirou seus abacaxis, enquanto Lucas tentava manter os olhos abertos.
O rapaz concordou, quase que indiferente, terminando de organizar a mesa. Ben colocou as frutas em um canto da cozinha, sorridente, e saiu cantarolando baixinho pela cozinha. Era engraçado o jeito como ele estava agindo desde que descobriu que seria avô. Apesar de não parecer, em aparência, um vovô (ao contrário dos cães daquela casa), ele parecia ter gostado muito da ideia. Apenas Lucas ainda não havia absorvido o fato de que seria tio. O tio que não falava.
— Não dormiu bem, rapaz? — Ben perguntou, tocando em seu ombro. Lucas olhou para o micro-ondas, que refletia seu rosto pálido e os cabelos castanhos claros desgrenhados.
— Não muito — ele admitiu, voltando-se o padrasto. Ao contrário do rapaz, Ben parecia cheio de energia e mais jovem do que aparentava. Lucas encarou, por alguns segundos, seus olhos cor de chocolate, querendo contar-lhe o que tanto o afligia. Confiava mais nele do que em seu pai biológico; mas, por algum motivo, nada saía. Estranhamente, Lucas não se sentia seguro o suficiente com ninguém para dividir seus anseios.
Mas ele quase falou. Quase.
Estou com medo, ele disse na própria mente, como costumava fazer quando ainda não conseguia dizer em voz alta. Eu temo pelo meu futuro. Temo não conseguir ser alguém. Temo decepcionar minha família.
Temo decepcionar o meu pai.
— Bom, ainda está muito cedo. Vá descansar um pouco. — Ben disse, aparentemente sem notar as perturbações para além da expressão sonolenta. Provavelmente, ele estava feliz demais pensando nas fraldas que trocaria em breve e nos abacaxis que comprara. Lucas não queria e nem iria incomodá-lo com seus problemas infantis.
Concordando, em silêncio, ele subiu as escadas e foi até o seu quarto. Fechou a porta, fitando a cama desarrumada, a escrivaninha e o cavalete com um quadro inacabado no canto do aposento. Lucas colocou o celular e os fones de ouvido sobre a mesa. Tirando a blusa branca, lançou-se na cama e se entregou à letargia que o dominava. Ficou ali, de barriga para baixo, enquanto encarava o outro lado do quarto — sua caixa de pintura, um puff cinza, a cortina branca e um quadro com algumas fotografias antigas. Concentrou-se nos objetos ao redor, tentando desprezar os ruídos da mente. No entanto, era como se seu interior agitado estivesse lutando contra a inércia de seu corpo cansado, e nada do que ele fizesse ou pensasse melhorava seu estado.
Tudo isso porque Lucas havia sido aprovado em uma universidade e já estava ciente de seu fracasso. O fracasso de não conseguir mais encarar uma sala de aula. A sua frustração de ainda não conseguir se comunicar. De não se sentir capaz de ser alguém.
Incapaz de reconhecer e ouvir a si mesmo em meio a tantos ruídos.
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